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A implementação da proibição de smartphones nas escolas holandesas representa uma das iniciativas mais abrangentes e bem documentadas na Europa para combater as distrações digitais no ambiente educativo. Desde janeiro de 2024, esta medida tem demonstrado resultados significativos na melhoria da concentração dos alunos, do ambiente social e do desempenho académico. Um estudo governamental recente revelou que 75% das 317 escolas secundárias inquiridas reportaram melhorias na concentração dos estudantes, enquanto 59% observaram um ambiente social mais positivo e 28% registaram melhor desempenho académico 1 2 3. Esta transformação coloca os Países Baixos na vanguarda de um movimento europeu crescente que visa restabelecer o foco na aprendizagem presencial e na interação social direta.

Contexto da Implementação nos Países Baixos
Fundamentação Científica e Política
A decisão de proibir smartphones nas escolas holandesas surgiu como resposta a evidências científicas crescentes sobre os efeitos negativos destes dispositivos na concentração e no desempenho académico dos estudantes. O ministro da Educação holandês, Robbert Dijkgraaf, fundamentou a medida citando investigações que demonstram como os telemóveis constituem uma fonte significativa de distração 4 5 6.
A pesquisa internacional suportava esta posição, mostrando que crianças “distraídas” e incapazes de resistir ao apelo dos seus telemóveis obtêm, em média, resultados 1 a 1,5 pontos inferiores nos testes 7. Esta evidência empírica tornou-se o alicerce de uma política que inicialmente foi implementada como recomendação, mas que rapidamente se tornou uma norma aceite pela comunidade educativa.
Processo de Implementação
A implementação da proibição seguiu uma abordagem colaborativa, envolvendo negociações entre o Ministério da Educação, escolas e organizações representativas de professores, pais e alunos 4 5 8. Esta estratégia consensual foi fundamental para garantir a adesão massiva das escolas à medida.
O processo iniciou-se em janeiro de 2024 para o ensino secundário, sendo posteriormente estendido ao ensino primário no ano letivo 2024-2025 9 8. As escolas receberam autonomia para definir as modalidades específicas de implementação, podendo escolher entre diferentes estratégias como a guarda dos dispositivos em cacifos ou a sua proibição completa no recinto escolar 10.
Resultados e Impactos Observados

Melhoria da Concentração e Foco Académico
O impacto mais significativo da proibição foi observado na capacidade de concentração dos estudantes. Três quartos das escolas secundárias inquiridas no estudo governamental reportaram melhorias substanciais na concentração dos alunos durante as aulas 1 2 3. Esta melhoria traduziu-se numa redução das interrupções nas aulas e numa maior atenção aos conteúdos lecionados.
A investigação da Universidade de Radboud, conduzida em duas escolas de Nijmegen, corroborou estes resultados, revelando que 21% dos estudantes reportaram menos distrações durante as aulas 11 12. Embora esta percentagem possa parecer modesta, os investigadores consideram-na significativa, especialmente considerando que muitos estudantes encontram agora distrações alternativas através dos seus computadores portáteis.
Transformação do Ambiente Social
O ambiente social das escolas sofreu uma transformação notável com a implementação da proibição. Cerca de 59% das escolas secundárias reportaram melhorias no clima social 1 2 3, manifestando-se através de maior interação presencial entre os estudantes e redução de comportamentos anti-sociais.

A investigação da Universidade de Radboud documentou que mais de metade dos estudantes inquiridos passaram a conversar mais frequentemente com amigos e colegas 11 12. Quarenta por cento dos estudantes indicaram que os intervalos se tornaram mais agradáveis, com um estudante a observar que “quando a política ainda não estava em vigor, todos estavam num ecrã e quase não havia conversa” 11.
Redução do Bullying e Cyberbullying
Um dos benefícios mais significativos da proibição foi a redução substancial dos casos de bullying e cyberbullying. A investigação demonstrou que a impossibilidade de fotografar secretamente colegas na aula e partilhar essas imagens em grupos de WhatsApp aumentou significativamente a segurança social nas escolas 13.
Paradoxalmente, o aumento do contacto presencial resultou num ligeiro incremento do “bullying offline” ou bullying físico, uma situação que as escolas estão a monitorizar e a abordar através de estratégias específicas de gestão comportamental 12.
Desempenho Académico e Resultados de Aprendizagem
Aproximadamente 28% das escolas observaram melhorias no desempenho académico dos estudantes 1 2 3. Embora esta percentagem seja inferior aos outros indicadores, representa um progresso significativo considerando a complexidade dos fatores que influenciam o rendimento escolar.
A investigação internacional suporta esta tendência, com estudos anteriores a demonstrarem que a proibição de smartphones pode resultar em melhorias de 6,4% nos resultados dos testes, com efeitos particularmente pronunciados em estudantes com desempenho académico inferior1415.
Comparação Europeia e Contexto Internacional

Tendência Europeia Crescente
Os Países Baixos integram um movimento europeu crescente de restrição de smartphones nas escolas. França foi pioneira com a implementação de uma proibição nacional em 2018, seguida por Itália, Espanha e Albânia 16 17 18. O movimento ganhou momentum em 2024-2025, com a implementação de proibições nacionais na Hungria, Grécia e extensão da medida holandesa ao ensino primário 19 16.
Países como Bélgica, Finlândia e Irlanda encontram-se em processo de implementação de medidas similares, enquanto outros, incluindo Alemanha, Portugal, Dinamarca e Croácia, mantêm a autonomia das escolas para definir as suas próprias políticas 19 16.
Evidência Internacional sobre Eficácia
A evidência internacional sobre a eficácia das proibições de smartphones apresenta resultados mistos mas geralmente positivos. Um estudo da London School of Economics demonstrou que a proibição de telemóveis resultou numa melhoria de 6,4% nos resultados dos testes, com efeitos duplicados (14%) para estudantes com desempenho inferior 14 15.
Investigação conduzida na Noruega revelou benefícios particulares para estudantes do sexo feminino, incluindo melhorias nas notas, maior probabilidade de seguir percursos académicos e uma redução de 60% nas visitas por sintomas psicológicos 14 20.
Contudo, estudos mais recentes, como o da Universidade de Birmingham, sugerem que as proibições escolares isoladas podem não ser suficientes para abordar completamente os impactos negativos do uso excessivo de smartphones 21 22.
A Situação em Portugal

Evolução da Política Nacional
Portugal seguiu uma trajetória diferente na abordagem à questão dos smartphones nas escolas. O processo iniciou-se em 2023 com uma petição cidadã que reuniu mais de 23.000 assinaturas, solicitando a proibição dos telemóveis nos recreios escolares 5 23 24.
Em setembro de 2024, o Governo português emitiu recomendações às escolas para proibirem o uso de smartphones por alunos do 1.º e 2.º ciclos 25 26 27. Esta recomendação foi posteriormente convertida em lei em julho de 2025, com implementação prevista para o ano letivo 2025-2026 25 26 28.
Características da Legislação Portuguesa
A legislação portuguesa apresenta características distintivas relativamente ao modelo holandês. A proibição aplica-se especificamente aos alunos do 1.º e 2.º ciclos (até ao 6.º ano), sendo recomendada a implementação de medidas restritivas para o 3.º ciclo 25 29 30.
Uma inovação da abordagem portuguesa é a permissão explícita de “telemóveis básicos” (dumbphones) que apenas permitem chamadas e mensagens, sem acesso à internet, permitindo comunicação com as famílias 25 29 30.
Exceções e Adaptações
A legislação portuguesa prevê exceções específicas para diferentes categorias de estudantes. Os alunos estrangeiros com baixo domínio da língua portuguesa podem continuar a utilizar smartphones como ferramenta de tradução 25 31 29. Alunos com necessidades de saúde comprovadas também estão isentos da proibição253129.
A utilização pedagógica dos dispositivos permanece permitida quando devidamente enquadrada e autorizada pelo professor 25 29 30.
Resultados Preliminares
Um estudo do Centro de Planeamento e de Avaliação de Políticas Públicas (PLANAPP) avaliou os resultados das recomendações implementadas no ano letivo 2024-2025 31 26 32. O estudo revelou que 79% das escolas do 1.º ciclo e 41% das escolas do 2.º ciclo aderiram à proibição 29.
Os resultados demonstraram uma redução superior a 55% nos casos de bullying no ensino secundário e 57% no 3.º ciclo 31. Adicionalmente, 86% dos diretores do 2.º ciclo reportaram melhorias na socialização entre alunos durante os intervalos 31.
Desafios e Resistências

Resistência dos Estudantes
A implementação da proibição enfrentou resistência significativa por parte dos estudantes. Na investigação da Universidade de Radboud, os estudantes classificaram a medida com uma pontuação média de 4,8 em 10, comparativamente a 6,8 antes da implementação 12.
Trinta e sete por cento dos estudantes indicaram que sentiam falta dos seus telemóveis, com um respondente a afirmar: “Sou forçado a socializar quando não estou com disposição para isso, o que acontece frequentemente” 11 12.
Questões Práticas e Operacionais
Os estudantes identificaram várias questões práticas decorrentes da proibição, incluindo dificuldades na consulta de horários escolares e da plataforma de desempenho Magister 12. A maior dificuldade de contacto com os pais foi também identificada como problemática, especialmente para estudantes com questões de saúde mental que dependem do apoio parental 12.
Necessidade de Envolvimento dos Estudantes
Investigação da Universidade Erasmus revelou que apenas 17% dos estudantes holandeses foram ativamente envolvidos na definição das políticas de smartphones nas suas escolas 33. Este baixo nível de participação correlaciona-se com menor satisfação com as regras implementadas 33.
Os investigadores recomendam a implementação do framework FINE para melhorar o envolvimento dos estudantes no desenvolvimento das políticas, argumentando que a participação é mais importante para a aceitação das regras do que a sua severidade 33.
Perspetivas Críticas e Limitações

Limitações das Proibições Isoladas
Investigação recente da Universidade de Birmingham questiona a eficácia das proibições escolares isoladas, argumentando que estas resultam apenas numa redução modesta do tempo de uso de smartphones (aproximadamente 40 minutos) e redes sociais (30 minutos) durante o período escolar 21 22.
O estudo sugere que as proibições escolares não resultam numa redução significativa do tempo total de uso de smartphones e redes sociais, nem em melhorias mensuráveis na saúde mental, bem-estar, sono, comportamento em sala de aula ou desempenho académico 21 22.
Debate sobre Eficácia a Longo Prazo
A comunidade científica mantém-se dividida sobre os benefícios a longo prazo das proibições de smartphones. Alguns investigadores argumentam que as proibições podem ser benéficas, mas enfatizam a necessidade de garantir que as crianças têm alternativas adequadas para educação e comunicação 18.
O debate centra-se na questão fundamental de saber se as escolas devem focar-se exclusivamente na remoção dos dispositivos ou desenvolver estratégias mais abrangentes para ensinar os estudantes a utilizá-los de forma responsável 34 24.
Necessidade de Abordagens Holísticas
Especialistas argumentam que o foco deve ser colocado na redução do tempo total de uso de smartphones pelos estudantes, em vez de se limitar à sua proibição durante o período escolar2122. Esta perspetiva sugere a necessidade de abordagens mais holísticas que envolvam famílias, escolas e comunidades na promoção de hábitos digitais saudáveis.

Análise Comparativa: Portugal vs. Contexto Internacional
Níveis de Distração Digital
Os dados do PISA 2022 revelam que Portugal apresenta níveis de distração digital ligeiramente superiores à média da OCDE2435. Trinta e quatro por cento dos estudantes portugueses reportam distrações com dispositivos digitais, comparativamente aos 30% da média da OCDE2435. As distrações causadas por colegas a usar dispositivos mantêm-se em linha com a média internacional (25%)2435.
Abordagem Gradual Portuguesa
A abordagem portuguesa distingue-se pela sua implementação gradual e diferenciada por ciclos de ensino. Enquanto outros países europeus implementaram proibições abrangentes, Portugal optou por uma estratégia mais nuanceada que reconhece as diferentes necessidades desenvolvimentais dos estudantes 25 29 30.
Inovações na Implementação
Portugal introduziu inovações significativas na implementação da proibição, incluindo a permissão de telemóveis básicos para comunicação familiar e exceções específicas para estudantes estrangeiros 25 31 29. Estas adaptações refletem uma abordagem mais flexível e inclusiva comparativamente a outros países europeus.
Recomendações e Perspetivas Futuras
Envolvimento dos Estudantes
A evidência da investigação holandesa demonstra claramente que o envolvimento dos estudantes no desenvolvimento das políticas é fundamental para a sua aceitação e sucesso 33. As escolas devem implementar mecanismos sistemáticos de consulta e participação dos estudantes na definição e revisão das políticas de smartphones.
Monitorização e Avaliação Contínua
A implementação de sistemas de monitorização e avaliação contínua é essencial para compreender os impactos reais das proibições. Os Países Baixos estabeleceram um precedente importante com a sua avaliação governamental abrangente, que deve ser replicada noutros contextos 1 2 3.
Abordagens Holísticas
As escolas devem desenvolver abordagens holísticas que vão além da simples remoção dos dispositivos. Isto inclui a promoção de atividades alternativas durante os intervalos, o ensino de competências digitais responsáveis e o desenvolvimento de programas de bem-estar social 9 34.
Formação de Professores
A formação adequada dos professores é fundamental para o sucesso das políticas de smartphones. Os educadores necessitam de apoio para gerir as mudanças comportamentais decorrentes da proibição e para desenvolver estratégias pedagógicas que maximizem os benefícios da medida 34 9.
Conclusões
A experiência holandesa demonstra que a proibição de smartphones nas escolas pode produzir benefícios significativos na concentração dos estudantes, no ambiente social e, em menor grau, no desempenho académico. Os resultados são particularmente impressionantes na redução do bullying e no aumento da interação social presencial entre os estudantes.

Contudo, o sucesso da implementação depende fundamentalmente do envolvimento de todas as partes interessadas, incluindo os próprios estudantes, na definição e implementação das políticas. A evidência sugere que as proibições isoladas, embora benéficas, podem não ser suficientes para abordar completamente os desafios associados ao uso excessivo de smartphones pelos jovens.
A abordagem portuguesa, com a sua implementação gradual e exceções específicas, oferece um modelo alternativo que pode ser mais adequado a contextos culturais e educativos específicos. A permissão de telemóveis básicos e as exceções para estudantes estrangeiros demonstram uma compreensão nuanceada das necessidades diversificadas dos estudantes.
O futuro das políticas de smartphones nas escolas reside provavelmente numa abordagem equilibrada que combine restrições apropriadas com educação digital responsável, envolvimento dos estudantes e monitorização contínua dos impactos. A transformação observada nas escolas holandesas sugere que, quando implementadas adequadamente, estas políticas podem contribuir significativamente para a criação de ambientes educativos mais focados, socialmente ricos e conducentes à aprendizagem efetiva.


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