Apresentação .pdf | O que se deve entender por Ter Mundo? .pdf (para os mais novos)
Introdução
A expressão “ter Mundo” transcende a simples acumulação de conhecimentos. Representa uma formação cultural ampla, uma abertura intelectual e uma capacidade de compreender a complexidade da existência humana nas suas múltiplas dimensões — social, histórica, política, ética e estética. No contexto educativo contemporâneo, esta noção assume relevância crítica: apenas estudantes que “têm Mundo” desenvolvem verdadeiramente o sentido crítico e a capacidade argumentativa necessários para uma cidadania ativa, responsável e transformadora[1][2].

Este relatório analisa de forma exaustiva a relação entre a amplitude cultural dos estudantes, o desenvolvimento do pensamento crítico e a competência argumentativa, fundamentando-se em investigação pedagógica recente e em práticas educativas inovadoras que colocam a literacia cultural no centro da formação integral.
A noção de “Ter Mundo”: definição e alcance
O que significa “Ter Mundo”?
“Ter Mundo” significa possuir um repertório cultural diversificado que permite ao indivíduo compreender, interpretar e intervir criticamente na realidade. Este repertório constrói-se através de múltiplas experiências e conhecimentos[3]:
- Literacia da leitura — contacto sistemático com textos literários, filosóficos, científicos e jornalísticos de diversas épocas e culturas
- Conhecimento histórico — compreensão dos processos históricos que moldaram o mundo contemporâneo
- Consciência geográfica e sociocultural — perceção da diversidade cultural, geográfica e social do planeta
- Sensibilidade estética — familiaridade com as artes visuais, música, teatro, cinema e outras manifestações artísticas
- Literacia científica — compreensão básica dos princípios científicos que regem fenómenos naturais e tecnológicos
- Consciência política e cívica — entendimento dos sistemas políticos, direitos humanos e responsabilidades democráticas
A Cultura Como Alicerce do Pensamento Crítico
Selma Lagerlöf, escritora sueca laureada com o Nobel de Literatura, afirmava: “Cultura é o que fica depois de se esquecer tudo o que foi aprendido”[4]. Esta definição aponta para uma dimensão profunda da formação cultural: não se trata de memorização factual, mas da incorporação de estruturas mentais, valores, critérios de discernimento e modos de pensamento que permanecem ativos mesmo quando os pormenores concretos se dissipam.
A cultura, neste sentido, funciona como uma matriz cognitiva e ética que possibilita:
- Estabelecer relações entre conhecimentos aparentemente desconexos
- Contextualizar informações novas à luz de saberes anteriores
- Questionar pressupostos e identificar inconsistências argumentativas
- Reconhecer padrões históricos e culturais em situações contemporâneas
- Desenvolver empatia e compreensão face a perspetivas alternativas
O Sentido Crítico: Alicerce da Autonomia Intelectual
Definição e Componentes do Pensamento Crítico
O pensamento crítico constitui-se como uma avaliação voluntária, fundamentada e reflexiva que um indivíduo realiza face a factos, experiências, comentários ou proposições. Esta avaliação não é impulsiva nem automática, mas envolve observação cuidadosa, busca de referências e construção de argumentos sustentáveis[5][6].

O pensamento crítico mobiliza as seguintes capacidades cognitivas[5][7]:
| Capacidade | Descrição |
| Análise | Decomposição de informações complexas em elementos constitutivos para melhor compreensão |
| Avaliação | Julgamento da credibilidade, relevância e qualidade das fontes e argumentos |
| Síntese | Combinação de informações diversas para formar conclusões coerentes e fundamentadas |
| Reflexão | Questionamento das próprias crenças, pressupostos e vieses cognitivos |
| Contextualização | Situação de informações em enquadramentos históricos, culturais e sociais adequados |
Tabela 1: Componentes fundamentais do pensamento crítico
A Importância do Sentido Crítico na Sociedade Contemporânea
Vivemos numa era caracterizada pela abundância informacional e pela proliferação de discursos contraditórios. As redes sociais, os algoritmos de personalização e a velocidade da comunicação digital criaram um ecossistema onde a desinformação se propaga com facilidade alarmante[8]. Neste contexto, o sentido crítico torna-se uma competência de sobrevivência cívica e intelectual.
Desenvolver o pensamento crítico permite aos estudantes[5][9]:
- Distinguir factos de opiniões e identificar falácias argumentativas
- Reconhecer vieses ideológicos e interesses ocultos em discursos aparentemente neutros
- Avaliar a credibilidade de fontes de informação (literacia digital e mediática)
- Resistir à manipulação emocional e ao sensacionalismo
- Tomar decisões informadas e responsáveis em contextos pessoais, profissionais e cívicos
- Participar de forma construtiva em debates democráticos sobre questões sociocientíficas e políticas
O Sentido Crítico Como Superação do Senso Comum
O senso comum representa o conjunto de conhecimentos não sistematizados, frequentemente baseados em experiências limitadas, tradições acríticas e generalizações apressadas. Embora tenha valor prático imediato, o senso comum revela-se insuficiente — e por vezes perigoso — quando aplicado a questões complexas que exigem análise rigorosa[10].
A formação escolar deve promover a transição do senso comum ao pensamento crítico através de[10]:
- Exposição a problemáticas contemporâneas que desafiam certezas estabelecidas
- Confronto com perspetivas múltiplas e contraditórias sobre temas relevantes
- Aprendizagem de métodos de investigação científica e validação de conhecimento
- Desenvolvimento da capacidade de suspender juízos precipitados e procurar evidências
- Cultivo da humildade intelectual — reconhecimento dos limites do próprio conhecimento
A Capacidade Argumentativa: Comunicar o Pensamento Crítico
Argumentação Como Competência Fundamental
A capacidade argumentativa consiste na habilidade de construir, apresentar e defender posições fundamentadas através do uso estratégico da linguagem. Argumentar implica não apenas afirmar opiniões, mas justificá-las com razões, antecipar objeções, refutar contra-argumentos e persuadir interlocutores através da força lógica e retórica[11][12].

A argumentação eficaz mobiliza dimensões cognitivas, linguísticas e sociais[13][14]:
- Dimensão cognitiva — capacidade de raciocínio lógico, identificação de premissas e conclusões, reconhecimento de falácias
- Dimensão linguística — domínio de recursos retóricos, coesão textual, adequação vocabular e sintática
- Dimensão pragmática — adaptação do discurso ao contexto, à audiência e aos propósitos comunicativos
- Dimensão ética — respeito pela verdade, honestidade intelectual e consideração pela dignidade dos interlocutores
O Papel do “Mundo” na Construção de Argumentos
Um estudante que “tem Mundo” dispõe de um arsenal incomparavelmente mais rico para construir argumentos sólidos. A amplitude cultural fornece[11][13]:
- Exemplos históricos — precedentes, analogias e contextualizações que enriquecem a argumentação
- Referências teóricas — conceitos filosóficos, científicos e sociológicos que estruturam o raciocínio
- Dados empíricos — estudos, estatísticas e investigações que conferem credibilidade factual
- Perspetivas comparativas — conhecimento de outras culturas e sistemas que relativizam posições etnocêntricas
- Sensibilidade retórica — familiaridade com textos argumentativos exemplares (ensaios, discursos, artigos de opinião)
Ensinar a Argumentar: Desafios e Estratégias
Contrariamente ao que por vezes se assume, a capacidade argumentativa não é inata nem se desenvolve espontaneamente. Requer ensino explícito, prática sistemática e feedback construtivo[11][12][14].
Estratégias pedagógicas eficazes incluem:
- Análise de textos argumentativos — estudo da estrutura, recursos retóricos e estratégias persuasivas em ensaios, artigos de opinião, discursos e debates
- Prática de escrita argumentativa — produção regular de textos dissertativos sobre temas controversos, com revisão orientada
- Debates estruturados — simulações de discussões públicas onde os estudantes defendem posições (inclusive contrárias às suas convicções pessoais)
- Método socrático — questionamento sistemático que obriga os estudantes a clarificarem pressupostos, justificarem afirmações e considerarem objeções[5]
- Análise de falácias — identificação e discussão de erros de raciocínio em textos mediáticos, publicitários e políticos
Literacias Contemporâneas: Expandir o “Mundo” dos Estudantes
A Literacia Tradicional Como Fundamento
A literacia da leitura e escrita permanece como alicerce insubstituível. A capacidade de ler textos complexos, compreender estruturas argumentativas e produzir textos coesos e coerentes constitui o fundamento de todas as outras literacias[15][16].
Dados recentes da UNESCO revelam que, em 2023, cerca de 754 milhões de jovens e adultos continuavam sem competências básicas de leitura e escrita, e aproximadamente 250 milhões de crianças entre os 6 e os 18 anos estavam fora da escola[16]. Estas estatísticas alarmantes sublinham a urgência de políticas educativas que garantam literacia universal.
Literacia Digital e Mediática
Na era digital, “ter Mundo” implica necessariamente dominar as ferramentas, linguagens e códigos do ecossistema informacional contemporâneo. A literacia digital vai além da competência técnica: envolve pensamento crítico aplicado ao ambiente digital[8][16].

Competências centrais da literacia digital incluem[8][16]:
- Avaliação da credibilidade de websites e fontes online
- Identificação de vieses algorítmicos e bolhas informacionais
- Reconhecimento de desinformação, notícias falsas e manipulação mediática
- Compreensão das implicações éticas da vigilância digital, privacidade e utilização de dados pessoais
- Participação responsável e construtiva em debates online
- Criação crítica de conteúdos digitais éticos e fundamentados
Literacia Científica
A literacia científica capacita os cidadãos para compreenderem questões sociocientíficas que marcam o debate público contemporâneo — alterações climáticas, vacinação, engenharia genética, inteligência artificial, entre outras[1][7].
Esta literacia não exige que todos se tornem cientistas, mas que desenvolvam:
- Compreensão do método científico e do processo de validação de conhecimento
- Capacidade de distinguir ciência de pseudociência
- Reconhecimento da importância da evidência empírica e da revisão por pares
- Consciência da provisoriedade do conhecimento científico e abertura à revisão face a novas evidências
- Capacidade de avaliar riscos e benefícios em decisões que envolvem conhecimento técnico-científico
Literacia Cultural e Intercultural

A literacia cultural envolve o conhecimento aprofundado das tradições, manifestações artísticas, sistemas de valores e modos de pensamento de diferentes comunidades e épocas. Numa sociedade globalizada e multicultural, esta literacia assume importância crítica para[3][6]:
- Desenvolver empatia e respeito pela diversidade cultural
- Combater estereótipos, preconceitos e xenofobia
- Participar construtivamente em sociedades plurais
- Reconhecer a riqueza da herança cultural da humanidade
- Compreender dinâmicas de poder, colonialismo e identidade cultural
Literacia Financeira, Laboral e Cívica
Recentemente, o Ministério da Educação, Ciência e Inovação português introduziu a disciplina “Literacias” no ensino secundário, incluindo Literacia Financeira, Comercial, Laboral e Participação Democrática[15]. Esta inovação curricular reconhece que “ter Mundo” implica também compreender os sistemas económicos, as dinâmicas do mercado de trabalho e os mecanismos de participação democrática.
Práticas Pedagógicas para Formar Estudantes com “Mundo”
Ensino Interdisciplinar
A compartimentação rígida do conhecimento em disciplinas estanques contradiz a natureza interconectada do mundo real. O ensino interdisciplinar promove a integração de saberes linguísticos, literários, artísticos, históricos e científicos, permitindo aos estudantes construir compreensões mais ricas e contextualizadas[2][6].
Projetos interdisciplinares eficazes:
- Abordam questões complexas que não se reduzem a uma única disciplina
- Mobilizam conhecimentos e metodologias de várias áreas
- Promovem trabalho colaborativo entre docentes
- Desenvolvem competências transversais (comunicação, resolução de problemas, criatividade)
Abordagem Problematizadora e Questões Sociocientíficas
Inspirada na pedagogia freireana, a abordagem problematizadora parte da realidade concreta dos estudantes, identificando questões relevantes que exigem mobilização de conhecimento científico, capacidades de pensamento crítico e clarificação de valores[1][7].
Exemplos de questões sociocientíficas adequadas:
- Alterações climáticas e políticas ambientais
- Ética da inteligência artificial e automação
- Desigualdades sociais e justiça distributiva
- Vacinação obrigatória versus liberdade individual
- Manipulação genética e fronteiras éticas da ciência
A discussão destas questões desenvolve não apenas conhecimentos específicos, mas também consciência crítica, responsabilidade cívica e capacidade de participação democrática fundamentada[1][7].
Bibliotecas Escolares e Acesso à Cultura

As bibliotecas escolares desempenham papel crucial na democratização do acesso à cultura. Funcionam como espaços de descoberta, exploração e formação do gosto pela leitura, disponibilizando:
- Acervo diversificado que contemple diferentes géneros, épocas e culturas
- Atividades de promoção da leitura (clubes de leitura, encontros com autores, concursos literários)
- Orientação para pesquisa e seleção crítica de fontes
- Ambientes acolhedores que estimulem a permanência e a leitura prazerosa
Método Socrático e Questionamento Estratégico
O questionamento socrático constitui uma das metodologias mais poderosas para desenvolver pensamento crítico. Através de perguntas estratégicas, o docente estimula os estudantes a[5]:
- Clarificar afirmações vagas (“O que queres dizer exatamente quando dizes que…?”)
- Questionar pressupostos (“Que pressupostos estás a fazer? Serão válidos?”)
- Examinar evidências (“Que evidências apoiam essa afirmação? Como sabemos que é verdade?”)
- Explorar perspetivas alternativas (“Como responderia alguém que discorda? Quais as fragilidades dessa visão?”)
- Analisar consequências (“Que implicações tem essa posição? É coerente com outros valores que defendes?”)
Avaliação Formativa e Processual
A formação do sentido crítico e da capacidade argumentativa não se mede através de testes de escolha múltipla. Requer avaliação formativa e processual que acompanhe o desenvolvimento progressivo dos estudantes, oferecendo feedback construtivo e oportunidades de melhoria[3].
Estratégias de avaliação adequadas:
- Portfólios reflexivos que documentam o percurso de aprendizagem
- Discussões orais onde se avalia a capacidade de argumentar, questionar e responder a objeções
- Produção de textos argumentativos com revisão orientada
- Autoavaliação e avaliação entre pares, desenvolvendo metacognição
- Projetos de investigação sobre problemáticas complexas
Desafios à Formação de Estudantes com “Mundo”
Desigualdades Socioeconómicas e Culturais
O acesso à cultura e aos recursos educativos permanece profundamente desigual. Estudantes de meios socioeconómicos desfavorecidos enfrentam barreiras significativas:
- Menor acesso a livros, museus, espetáculos e viagens culturais
- Ambientes familiares com menor capital cultural
- Escolas com recursos limitados e bibliotecas empobrecidas
- Pressão para abandonar estudos e ingressar precocemente no mercado de trabalho
A escola pública tem responsabilidade acrescida de compensar estas desigualdades, oferecendo experiências culturais enriquecedoras a todos os estudantes, independentemente da sua origem[3][6].
Cultura Digital e Fragmentação da Atenção
Embora a tecnologia digital ofereça oportunidades inéditas de acesso à informação, também apresenta riscos:
- Fragmentação da atenção e dificuldade de concentração prolongada
- Prevalência de consumo superficial (“scrolling”) em detrimento de leitura profunda
- Algoritmos que criam bolhas informacionais e reforçam vieses
- Exposição excessiva a conteúdos sensacionalistas e emocionalmente manipuladores
A escola deve ensinar os estudantes a utilizarem a tecnologia de forma crítica, equilibrada e produtiva[8][16].
Pressões Curriculares e Avaliação Estandardizada
Sistemas educativos excessivamente centrados em exames estandardizados tendem a valorizar a memorização factual em detrimento do pensamento crítico. Docentes sentem-se pressionados a “ensinar para o teste”, sacrificando discussões aprofundadas, projetos interdisciplinares e leitura extensiva[6].
Reformas curriculares são necessárias para criar espaço e tempo destinados ao desenvolvimento de competências críticas e argumentativas, reconhecendo que estas não se desenvolvem através de preparação intensiva de véspera, mas através de prática sistemática ao longo de anos[5][9].
Formação Docente
Desenvolver o pensamento crítico e a capacidade argumentativa dos estudantes exige docentes com formação específica nestas áreas. Muitos professores não receberam, na sua própria formação inicial, preparação adequada para ensinar argumentação, conduzir debates ou aplicar metodologias problematizadoras[13][14].
Investimento em formação contínua de professores, especialmente em pedagogias ativas, métodos socráticos e didática da argumentação, revela-se essencial[8][10].
O Impacto Transformador: Formar Cidadãos Críticos e Ativos
Cidadania Ativa e Participação Democrática
Estudantes que “têm Mundo” e desenvolvem sentido crítico e capacidade argumentativa estão melhor preparados para exercer cidadania ativa. Participam de forma informada em eleições, envolvem-se em movimentos sociais, questionam políticas públicas e exigem responsabilidade de governantes[1][3][7].
A democracia não sobrevive com cidadãos passivos e acríticos. Requer indivíduos capazes de:
- Avaliar programas políticos e identificar promessas vazias
- Reconhecer manipulação retórica e propaganda
- Participar construtivamente em debates públicos
- Organizar-se coletivamente para defender direitos e promover mudanças
Combate à Desinformação e à Manipulação
Numa época de proliferação de notícias falsas, teorias da conspiração e manipulação algorítmica, o pensamento crítico constitui instrumento de defesa cognitiva. Estudantes criticamente literados são menos suscetíveis à desinformação porque[5][8][9]:
- Verificam fontes antes de partilhar informação
- Reconhecem sinais de alerta (linguagem sensacionalista, ausência de autoria, falta de evidências)
- Consultam múltiplas perspetivas antes de formar opinião
- Compreendem os mecanismos de viralização e manipulação emocional
Promoção da Justiça Social e Transformação
A educação crítica não é neutra: assume explicitamente o compromisso com a justiça social, a equidade e a transformação de estruturas opressivas[3][10]. Estudantes que desenvolvem consciência crítica:
- Questionam desigualdades naturalizadas
- Identificam mecanismos de discriminação e exclusão
- Compreendem dinâmicas de poder e privilégio
- Mobilizam-se coletivamente para promover mudanças estruturais
A formação de cidadãos críticos constitui, portanto, um projeto ético e político de construção de sociedades mais justas, inclusivas e democráticas.
Preparação para a Complexidade do Século XXI
Os desafios contemporâneos — crise climática, desigualdades globais, transformações tecnológicas aceleradas, migrações, pandemias — caracterizam-se pela complexidade, incerteza e interconexão. Não existem soluções simples nem respostas definitivas[2][7].
Estudantes que “têm Mundo” desenvolvem capacidades essenciais para navegar esta complexidade:
- Pensamento sistémico (compreensão de interrelações e efeitos não lineares)
- Tolerância à ambiguidade e capacidade de lidar com incerteza
- Abertura à revisão de convicções face a novas evidências
- Criatividade e inovação na procura de soluções
- Colaboração intercultural e trabalho em equipa
Conclusão: Educação Como Cultivo do Humano
“Ter Mundo” não é luxo nem adorno supérfluo. É condição necessária para o pleno desenvolvimento das capacidades humanas. Apenas estudantes expostos à diversidade cultural, ao conhecimento científico, à beleza artística, à reflexão filosófica e à memória histórica podem desenvolver o sentido crítico e a capacidade argumentativa que os tornam verdadeiramente livres, autónomos e responsáveis.
A escola contemporânea enfrenta o desafio urgente de alargar o “Mundo” de todos os estudantes, combatendo desigualdades de acesso à cultura e promovendo literacias múltiplas — da leitura tradicional à digital, da científica à intercultural. Este projeto educativo não se esgota na preparação para exames ou na inserção profissional, embora estas dimensões sejam importantes.
Trata-se, fundamentalmente, de cultivar o humano: formar indivíduos capazes de pensar por si próprios, de questionar, de argumentar, de dialogar, de imaginar alternativas e de agir coletivamente para construir um mundo mais justo, mais democrático e mais humano[1][3][10].
Como afirmou Paulo Freire, “a educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo.” E para que as pessoas possam transformar o mundo, é preciso que tenham Mundo.

Recomendações Práticas
Com base na análise apresentada, propõem-se as seguintes recomendações para escolas, docentes e políticas educativas:
Para Escolas e Agrupamentos
- Investir em bibliotecas escolares com acervos diversificados e atividades regulares de promoção da leitura
- Promover projetos interdisciplinares que mobilizem conhecimentos de várias disciplinas
- Organizar conferências, debates e encontros com especialistas sobre questões contemporâneas
- Proporcionar experiências culturais (visitas a museus, teatros, exposições, património histórico)
- Criar espaços e tempos curriculares dedicados a discussão, argumentação e pensamento crítico
- Desenvolver parcerias com bibliotecas municipais, universidades e instituições culturais
Para Docentes
- Adotar metodologias ativas (aprendizagem baseada em problemas, método socrático, debates estruturados)
- Incluir regularmente análise de textos argumentativos de diferentes géneros e épocas
- Ensinar explicitamente estruturas argumentativas, recursos retóricos e identificação de falácias
- Promover escrita argumentativa com feedback formativo detalhado
- Utilizar questões sociocientíficas para integrar conhecimento, valores e pensamento crítico
- Desenvolver literacia digital através de análise crítica de fontes online e identificação de desinformação
- Valorizar a diversidade cultural e promover perspetivas múltiplas sobre temas controversos
Para Políticas Educativas
- Reformular currículos para reduzir compartimentação disciplinar e criar espaço para trabalho interdisciplinar
- Reduzir peso de avaliação estandardizada e valorizar competências críticas e argumentativas
- Investir em formação contínua de professores em pedagogias ativas e didática da argumentação
- Garantir acesso equitativo à cultura através de políticas de compensação de desigualdades
- Promover literacias múltiplas (digital, científica, financeira, intercultural) em articulação com literacia da leitura
- Apoiar investigação sobre práticas pedagógicas eficazes para desenvolvimento do pensamento crítico
- Criar programas de avaliação que valorizem competências críticas, criativas e colaborativas
Referências
[1] Tenreiro-Vieira, C., & Vieira, R. M. (2018). Promover o pensamento crítico em ciências na escolaridade básica: propostas e desafios. Revista Latinoamericana de Estudios Educativos, 14(2), 36-49. https://revistasojs.ucaldas.edu.co/index.php/latinoamericana/article/download/3911/3622
[2] Silva, A., & Moreira, M. A. (2024). O ensino de literatura em uma proposta pedagógica interdisciplinar para os componentes curriculares língua inglesa e arte. Pro-Posições, 35, e20230106. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-18132024000100106&tlng=pt
[3] Borba, V., & Santos, B. (2024). Currículo e avaliação da aprendizagem no projeto Escola Cidadã. Revista Contexto & Educação, 39(123), e15618. https://www.revistas.unijui.edu.br/index.php/contextoeducacao/article/view/15618
[4] Blog Objetivo Sorocaba. (2025). Senso Crítico: 5 Dicas Para Desenvolver Desde a Infância. https://blog.objetivosorocaba.com.br/senso-critico/
[5] School Advisor. (2025). Como desenvolver o pensamento crítico dos estudantes. https://www.blog.schooladvisor.com.br/post/como-desenvolver-o-pensamento-crítico-dos-estudantes
[6] Moreira, A. F., & Silva, T. T. (2006). Currículo escolar e construção cultural: uma análise prática. Dialogia, 5, 51-62. https://periodicos.uninove.br/dialogia/article/view/896
[7] Santos, W. L. P., & Mortimer, E. F. (2005). Biologia e ética: um estudo sobre a compreensão e atitudes de alunos do ensino médio frente ao tema genoma/DNA. Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências, 7(1), 52-69. https://www.scielo.br/j/epec/a/sz79cdBYSWZzzHJkTZ3dNhB/?format=pdf&lang=pt
[8] Universidade Aberta. (2024). Dia Mundial da Literacia: o papel da NAU na qualificação de cidadãos. https://www.nau.edu.pt/pt/noticias/dia-mundial-literacia-papel-nau-qualificacao-cidadaos/
[9] Rede Verbita. (2023). Pensamento crítico: por que é importante desenvolvê-lo? https://redeverbita.com.br/blog/pensamento-critico-por-que-e-importante-desenvolve-lo
[10] Marques, R., & Fraguas, T. (2021). A formação do senso crítico no processo de ensino e aprendizagem como forma de superação do senso comum. Research, Society and Development, 10(7), e35710716655. https://www.rsdjournal.org/rsd/article/download/16655/14821/211735
[11] Costa, A. (2008). Desenvolver a capacidade de argumentação dos estudantes: um objectivo pedagógico fundamental. Revista Iberoamericana de Educación, 46(5), 1-8. https://rieoei.org/RIE/article/download/1951/2974/10987
[12] Azevedo, I. C. M. (2019). As capacidades argumentativas como objeto de ensino da língua portuguesa. EIDEA, 4(1), 1-18. https://periodicos.uesc.br/index.php/eidea/article/download/3484/2274/
[13] Teixeira, M. P. (2011). Reflexões sobre o desenvolvimento de habilidades argumentativas de alunos do ensino superior. Revista ContraPonto, 1(1), 25-41. https://periodicos.pucminas.br/contraponto/article/download/2236/pdf_2/9187
[14] Martins, A. R. (2023). Ação crítico-formativa no contexto de formação de formadores de língua portuguesa. Educação & Realidade, 48, e121855. https://www.scielo.br/j/edur/a/LCTqqGKVcqSMYd35mDPcZ4F/?format=pdf&lang=pt
[15] Plano Nacional de Leitura 2027. (2023). Mês da Literacia. https://www.pnl2027.gov.pt/np4/mesdaliteracia.html
[16] Turismo de Portugal. (2025). Dia Internacional da Alfabetização 2025. http://www.turismodeporttugal.pt/pt/agenda/Paginas/dia-internacional-alfabetizacao.aspx

