Dar voz aos alunos através da escrita na era digital | Ana Ferreira

A reinvenção da escrita e o poder da palavra |

[Artigo criado pelo NotebookLM a partir de uma comunicação de Ana Paula Ferreira.]

Introdução: a omnipresença da escrita no nosso dia a dia

A escrita é uma competência fundamental que a tecnologia tornou omnipresente em todos os momentos da nossa vida. Escrevemos para comunicar, para aprender, para organizar o pensamento e para interagir com o mundo. No entanto, esta presença constante traz novos desafios. Vivemos divididos entre a escrita rápida, fragmentada e funcional do quotidiano digital e a necessidade de cultivar uma escrita mais profunda, lenta e reflexiva, essencial para o desenvolvimento intelectual. Este artigo explora a evolução da escrita até aos dias de hoje, analisa o seu impacto no sucesso dos alunos e apresenta estratégias práticas para que os educadores possam promover esta competência e, assim, dar voz aos seus alunos.

Uma viagem pela história da escrita

A capacidade de registar e transmitir conhecimento através da escrita acompanhou a evolução da sociedade ao longo de milénios. Embora hoje nos pareça instantânea, o seu percurso foi longo e transformador.

• Origem: A escrita surgiu na Mesopotâmia, há cerca de 3000 anos a.C., com um propósito eminentemente prático: registar informações comerciais. Só mais tarde começou a ser usada para registar ideias e pensamentos.

• Alfabeto: Por volta de 1200 a.C., a criação do alfabeto representou um passo fundamental, permitindo a adaptação da escrita a diferentes culturas e realidades.

• Revolução: A invenção da imprensa no século XV foi o ponto de viragem que permitiu a disseminação global do livro e, com ele, da leitura e da escrita.

• Era digital: Atualmente, vivemos uma nova revolução. A tecnologia criou as condições para que tenhamos de escrever e ler a todo o momento, adaptando a escrita às novas ferramentas e às mudanças culturais.

A escrita na encruzilhada digital: desafios e realidades

A sociedade digital contemporânea colocou a escrita numa posição central, mas também alterou profundamente a sua natureza. Se, por um lado, o escritor Roland Barthes descrevia o ato de escrever como um “processo mágico, lento, distanciado da vida cotidiana”, a escrita que praticamos hoje é, em grande parte, o seu oposto: rápida, fragmentada e focada em descrever o nosso dia a dia.

O académico Roger Chartier resume bem esta nova realidade ao afirmar que, no mundo digital, “é necessário saber ler para poder interagir e é necessário também escrever para interagir”. A sua análise sublinha uma transformação fundamental: no passado, tínhamos suportes distintos — o livro para ler e o caderno para escrever. Hoje, o ecrã funde estas duas práticas, criando um ciclo contínuo onde “escrevemos para ler e lemos para escrever”. Esta banalização da escrita em mensagens, e-mails e redes sociais corre o risco de lhe retirar alguma da sua riqueza. Além disso, a escrita digital desafia noções tradicionais como a autoridade e a individualidade do texto impresso, promovendo uma cultura de apropriação e reescrita coletiva, onde os textos são constantemente modificados e partilhados.

O impacto da tecnologia e da inteligência artificial

As tecnologias emergentes estão a redefinir não só como escrevemos, mas também como contamos e consumimos histórias, apresentando tanto oportunidades como riscos significativos. Neurocientistas e autores como Nicholas Carr, no seu livro Superficiais: O que é que a internet está a fazer com as nossas mentes, alertam para os efeitos que a sobre-estimulação digital pode ter no nosso cérebro, um debate central na educação atual.

Curadoria Digital em Educação

Capa do livro Curadoria Digital em Educação

Autores

Jorge Borges
Ana Paula Ferreira

Explore estratégias de curadoria digital para potenciar a aprendizagem significativa em contextos educacionais.

Publicado na Smashwords
ID do Livro: 1850727

Ambientes imersivos e novas formas de contar histórias

Dois conceitos destacam-se no panorama educativo atual: o Metaverso e o Transmedia Storytelling. O primeiro refere-se a uma realidade virtual completamente imersiva, onde um aluno pode, através de um avatar, explorar ambientes como a Idade Média. O segundo descreve histórias contadas através de múltiplas plataformas (livros, cinema, jogos), que exigem a interação e produção por parte do utilizador para que a narrativa avance. Ambas as abordagens apontam para um futuro da educação mais interativo e envolvente.

A inteligência artificial como ferramenta e como risco

A inteligência artificial (IA) tornou-se uma presença incontornável na escrita, oferecendo um duplo potencial.

• Apoios: Ferramentas como corretores ortográficos, sugestões gramaticais e de estilo são excelentes auxiliares que ajudam os alunos a aprimorar a sua escrita.

• Riscos: A dependência excessiva da IA pode levar à perda de vocabulário e à propagação de erros que se tornam virais e são aceites como norma. Existe também uma preocupação real com a substituição de postos de trabalho que dependem da escrita.

Um estudo americano realizado entre 2006 e 2018 com 40 mil adultos revelou uma diminuição do coeficiente de inteligência em jovens entre os 18 e os 22 anos, afetando não só o raciocínio matemático, mas também o raciocínio verbal e o vocabulário. Este fenómeno pode estar ligado à perda da escrita profunda e reflexiva, substituída por interações rápidas e fragmentadas. Para combater estes riscos, surgem iniciativas como o projeto espanhol “Leia” (Língua Espanhola e Inteligência Artificial), que trabalha com gigantes tecnológicos para garantir que as máquinas utilizam a língua de forma correta, preservando a sua riqueza e precisão.

A importância central da escrita para o sucesso do aluno

Dominar a escrita vai muito além de uma exigência curricular; é uma competência com múltiplas dimensões que impacta todo o percurso de um aluno.

• Dimensão epistémica: Escrever é uma forma de criar novo conhecimento. Ao elaborar ideias e organizá-las no papel, o aluno não está apenas a registar o que sabe, mas também a construir novos significados.

• Dimensão metacognitiva: A escrita obriga a tomar decisões, a pensar e a autorregular a ação. Este processo torna os alunos mais competentes e conscientes da sua própria aprendizagem.

• Dimensão social: Saber escrever é fundamental para comunicar em sociedade, ser um cidadão interventivo e ter voz no mundo.

Fica claro que o domínio da leitura e da escrita está diretamente ligado ao sucesso pessoal, escolar e, mais tarde, profissional. Para que isto aconteça, como defende a académica Mariana Dessa no seu artigo “Ensinar e aprender a escrever um desafio partilhado”, é fundamental criar uma “cultura de escrita na escola”, uma responsabilidade que deve ser transversal a todas as disciplinas e não apenas um encargo do professor de português.

Estratégias para dar voz aos alunos através da escrita

Promover a escrita de forma eficaz em sala de aula requer a implementação de estratégias intencionais e focadas no aluno.

Propor tarefas de escrita significativas

É crucial que os alunos não sintam que escrevem apenas para serem avaliados. Ao propor o contacto com diferentes tipologias de texto — desde exercícios de escrita criativa a debates escritos ou artigos de opinião —, permite-se que descubram com quais se identificam mais. O exemplo real de Erin Gruwell e os “Freedom Writers”, cuja turma de alunos em risco na Califórnia transformou as suas vidas através da escrita de diários, culminando na publicação de um livro e na criação de uma fundação, ilustra o poder transformador de dar aos alunos um propósito para a sua escrita.

Oferecer feedback construtivo

Para progredir, o aluno precisa de saber se está no caminho certo. O feedback é essencial. A tecnologia pode ser uma aliada, permitindo, por exemplo, que o professor grave pequenos vídeos com comentários sobre o trabalho. Outra abordagem eficaz é o feedback pelos pares, onde os colegas se ajudam mutuamente a melhorar.

Criar um ambiente seguro para a partilha

Os alunos precisam de se sentir seguros para partilhar o que escrevem, sem receio de críticas destrutivas. A biblioteca escolar, como espaço transversal e acolhedor, é o local ideal para criar este ambiente de partilha, discussão e valorização mútua.

Apontar novos caminhos e lançar desafios

Manter os alunos motivados implica introduzir novas formas de escrita e lançar desafios. Definir metas, como escrever um determinado número de palavras por dia ou por semana, pode criar um hábito. Além disso, os alunos podem ser ensinados a usar a inteligência artificial de forma crítica: em vez de a usarem para fazer o trabalho, podem, por exemplo, pedir ao ChatGPT para identificar os erros num texto que já escreveram, aprendendo ativamente com as correções.

Para além dos muros da escola: onde os jovens já escrevem

Muitas vezes, esquecemo-nos de que os nossos jovens já escrevem muitíssimo à margem da escola, em comunidades online onde partilham as suas criações e interagem com outros leitores e escritores. A plataforma Wattpad é um exemplo paradigmático deste fenómeno, com números que falam por si:

• 90 milhões de utilizadores mensais.

• Tempo médio de interação por visita de uma hora.

• 90% dos utilizadores pertencem à “geração Z”.

Para além de um espaço de partilha, a plataforma oferece conselhos práticos sobre como escrever capítulos, fazer descrições, criar tags para aumentar a visibilidade das histórias e muito mais. Existem exemplos de estudantes portugueses com um sucesso notável. Soraia, de Guimarães, conta com 520 seguidores e uma das suas obras ultrapassa as 43.600 leituras. Outro jovem autor português alcança números ainda mais expressivos, com 3.288 seguidores e obras que chegam a ter cerca de 70.000 leituras. Estes dados demonstram que existe um desejo e uma capacidade de escrever que a escola pode e deve aproveitar.

Conclusão: um convite à ação

A escrita está mais viva do que nunca, mas habita novos espaços e assume novas formas. O grande desafio para os educadores é reconhecer e valorizar estes espaços onde os alunos já escrevem por iniciativa própria. Ao criar pontes entre a escrita académica e as práticas digitais dos jovens, podemos não só aumentar a sua motivação, mas também equipá-los com as competências necessárias para um mundo em constante mudança. Dar voz aos alunos através da escrita é dar-lhes uma das mais poderosas ferramentas para construir o seu futuro.

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