Jonathan Haidt
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A infância da geração Z deixou de estar assente no jogo para passar a estar assente no telemóvel, o que gerou um «tsunami de doenças mentais» em menores. Jonathan Haidt, psicólogo social e professor na Escola de Negócios Stern da Universidade de Nova Iorque, sustenta que a generalização do smartphone e dos videojogos, sem supervisão parental, está na origem do crescimento abrupto de ansiedade, depressão, autolesões e suicídio entre jovens, sobretudo a partir de 2010. Chama a este fenómeno a Grande Reconfiguração da infância: de uma infância «baseada em jogos» a uma infância «baseada no telefone e noutros dispositivos».
Os dados são expressivos: em 2015, um em cada quatro jovens nos EUA dizia estar quase sempre online; em 2022, já eram 46%. As raparigas são as mais prejudicadas, porque usam mais as redes e, em particular, plataformas visuais como Instagram e TikTok, que amplificam tanto a euforia como a comparação social, a ansiedade, a depressão, a anorexia ou a disforia de género.
Efeitos diferenciados em raparigas e rapazes
As estatísticas indicam que as raparigas usam mais as redes e são mais vulneráveis à lógica de comparação de corpo e rosto em ambientes altamente visuais. Sendo também mais propensas a expressar emoções, esta hiperconexão facilita o contágio da euforia, mas igualmente da ansiedade, da depressão e de fenómenos como a disforia de género, hoje mais frequente em adolescentes do sexo feminino do que em rapazes.
Nos rapazes, mesmo com menor uso das redes sociais, destacam‑se outros riscos: falta de exploração e de risco físico, «não descolar» rumo à maturidade e forte exposição à pornografia online. O acesso ilimitado a conteúdos pornográficos gera uma adição semelhante à das drogas, prejudica o desenvolvimento de competências sociais e torna as mulheres reais, incluindo a parceira, menos atraentes aos olhos dos consumidores compulsivos.
Quatro danos principais no cérebro
Haidt identifica quatro grandes prejuízos das redes no cérebro da geração Z.
- Privação social: o tempo com amigos no mundo real caiu drasticamente (por exemplo, de 122 minutos por dia em 2012 para 67 em 2019 nos EUA).
- Falta de sono: associa‑se a mais depressão, ansiedade, irritabilidade, défices cognitivos, piores notas e mais acidentes.
- Fragmentação da atenção: centenas de notificações diárias tornam raro ter cinco minutos seguidos para pensar; «os smartphones são a kriptonita da atenção».
- Adição: semelhante ao jogo patológico; a dopamina libertada é prazerosa, mas não sacia e origina síndrome de abstinência, com ansiedade, irritabilidade e disforia, sobretudo no consumo de pornografia.
Haidt aproxima este universo virtual do «mundo profano» descrito por Émile Durkheim, centrado no eu e na auto‑representação, em contraste com um «mundo sagrado» de relações e sentido. As redes, diz, mantêm o foco no eu, na marca pessoal e no estatuto, sendo quase perfeitas para impedir a transcendência e a busca de significado.
A importância do jogo e do risco
Haidt não defende afastar totalmente os jovens das redes, mas limitar o seu uso nas fases críticas da infância e adolescência. Considera que as experiências em ecrã são «claramente menos valiosas» do que as experiências de carne e osso na vida real, pelo menos para certas idades.
O jogo livre é apresentado como essencial para desenvolver competências físicas e sociais. A criança amadurece emocional e psicologicamente em contacto com outras pessoas e com a natureza, aprendendo a sincronizar, a esperar pela sua vez e a cooperar. As redes sociais, em contraste, são em grande medida «assíncronas e performativas» e inibem essa sintonização. A criança também precisa de algum contacto com o risco e a frustração: tal como o sistema imunitário precisa de germes, os miúdos precisam de contratempos e tropeções para ganhar confiança em si próprios.
Quatro reformas urgentes
Para inverter a tendência, Haidt propõe quatro reformas simples mas exigentes, que governos, escolas, empresas tecnológicas e pais poderiam implementar em conjunto.
- Nenhum smartphone antes dos 14 anos: apenas telemóveis sem navegador, adiando o acesso livre à internet.
- Nada de redes sociais antes dos 16 anos: evitar ligar o adolescente, na fase de maior vulnerabilidade cerebral, a uma «mangueira» de comparações sociais e influenciadores escolhidos por algoritmos.
- Escolas sem telemóveis: proibir smartphones, smartwatches e dispositivos durante toda a jornada escolar, guardando‑os em cacifos.
- Muito mais jogo não supervisionado e independência infantil: permitir que as crianças brinquem e se desloquem com mais autonomia, para desenvolverem competências sociais e reduzirem a ansiedade.
Segundo Haidt, se uma maioria de pais e escolas numa comunidade aplicasse estas medidas, a saúde mental dos adolescentes poderia melhorar em apenas dois anos. Mas avisa que é urgente agir, porque a inteligência artificial e tecnologias imersivas, como óculos de computação espacial, tornarão o habitat virtual ainda mais sedutor e aditivo.


