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Num bairro de classe média-baixa de Salamanca, um instituto público que era conhecido pelas suas dificuldades tornou-se, em pouco mais de uma década, o mais procurado da cidade. O IES Lucía de Medrano recebe hoje 350 candidaturas por ano letivo — o dobro de há dez anos — e tem lista de espera para entrar. O segredo? Um projeto linguístico simples, consistente e corajoso: um ditado breve e uma hora de leitura em sala de aula, todos os dias.
O Diagnóstico que Mudou Tudo
Em 2014, o novo diretor, o professor de Filosofia José Ángel Torijano, começou por fazer um diagnóstico honesto: “Os alunos não leem e têm vocabulário insuficiente. Não é que não consigam resolver um problema — é que não compreendem o enunciado. Há alunos que levantam a mão porque não conhecem o significado da palavra ‘sortija’ [anel].” A partir daí, definiram quatro pilares fundamentais: leitura, vocabulário, provérbios e ortografia.
A mudança não ficou só no papel. Todos os dias, à entrada do instituto, o diretor escreve com letras grandes uma palavra diferente e o seu significado. Há clubes de leitura, rádio escolar, concursos de conto, percursos de leitura, um clube de debate e um projeto que convida os alunos a ler o primeiro capítulo de um romance e a sugerir ao autor o rumo da trama.
Leitura e Ditado: Uma Rotina que Funciona
O modelo é aparentemente simples, mas exige rigor na implementação. Cada dia, em diferentes disciplinas e horários rotativos, os alunos praticam o ditado e a leitura:
- Segunda-feira: leem em Língua e Literatura
- Terça-feira: textos de autores de Filosofia
- Quarta-feira: textos científicos em Física
- E assim sucessivamente, para que a leitura e a escrita permeiem todas as áreas do currículo
“Os miúdos em casa não querem ler. Desta forma, têm na escola um espaço e um momento fixo”, explica Torijano. O resultado é visível: a biblioteca — com mais de 14.000 volumes — enche-se durante os intervalos.
Castilla y León: Uma Região no Top 10 Mundial
O IES Lucía de Medrano não é um caso isolado. A região de Castilla y León é a melhor da Espanha em educação e ficou no top 10 mundial do último relatório PISA, superando a Finlândia na prova de leitura. Isto numa Espanha que, a nível nacional, lidera a União Europeia (a par da Roménia) no abandono escolar precoce.
Os resultados castellano-leoneses em Matemática (499 pontos) colocam-nos acima do Canadá (497), enquanto em Ciências (506 pontos) ficam apenas um ponto abaixo da Austrália. A fórmula, segundo o diretor, não tem mistério: “Os professores ensinam, os alunos prestam atenção e os pais acompanham os filhos.”
Investigação com Nível de Tese Doutoral
Uma das apostas mais distintivas do instituto é o Bachillerato de Investigación y Excelencia (equivalente ao nosso ensino secundário com componente de investigação), que a Junta de Castilla y León financia há 10 anos. Os trabalhos de final de ciclo, tutorizados por professores da Universidade de Salamanca, têm qualidade de tese de doutoramento. Alguns exemplos reais:
- León García Luengo aprendeu coreano para estudar a ideologia Juche de Kim Il-sung
- Emma Velo conseguiu acesso aos ateliers de Elsa Schiaparelli em Paris para investigar a relação entre moda e surrealismo
- Aya Chouja Azouz, 17 anos, com média de 10, abriu uma nova linha de investigação no Instituto de Neurociências de Castilla y León, com um estudo sobre autofagia no córtex pré-frontal de ratos
- O irmão de Aya, Anás, e o amigo Alberto Domínguez desenvolveram um chatbot para pacientes de cirurgia maxilofacial
Aya, Anás e Alberto querem estudar Medicina. O pai é empregado de mesa; a mãe estuda para auxiliar de enfermagem. São de origem marroquina. Todos gostam de ler.
Tecnologia com Moderação e Recreios Ativos
Longe de ser um instituto “digitalizado a todo o custo”, o Lucía de Medrano adota uma política conservadora face aos ecrãs: “Temos tecnologia, mas não a usamos de forma obsessiva. Damos parte de disciplina se o telemóvel for ligado e ensinamos os pais a bloqueá-lo à noite.” Os cadernos e os apontamentos à mão continuam a ser a norma — algo que surpreende (positivamente) os observadores internacionais que visitam o instituto.
Os recreios ativos e linguísticos são outra inovação: zonas do pátio onde, durante 25 minutos, um professor conversa informalmente com os alunos em inglês, francês, alemão ou português. “Antes havia muito conflito; desde que implementámos os recreios ativos, não há registos disciplinares”, conta o diretor. Dois docentes austríacos que visitaram o instituto durante duas semanas ficaram particularmente surpreendidos com esta prática.
O que Podemos Aprender com Este Modelo?
A experiência do IES Lucía de Medrano oferece pistas valiosas para qualquer contexto educativo:
- Diagnosticar antes de agir — identificar as lacunas reais dos alunos (vocabulário, compreensão leitora) é o ponto de partida
- A rotina é pedagógica — a leitura e a escrita diárias, integradas em todas as disciplinas, constroem competências de forma gradual e consistente
- O ambiente escolar importa — desde a limpeza das casas de banho ao design dos recreios, os alunos respeitam aquilo que sentem como seu
- Incluir as famílias e a comunidade — o diálogo com a comunidade cigana local foi determinante para reduzir o abandono escolar
- Apoio emocional e académico andam juntos — “Se um aluno não está bem, não consegue ter boas notas”
Num tempo em que se debate tanto se devemos usar IA, telemóveis ou plataformas digitais nas escolas, o Lucía de Medrano lembra-nos que as ferramentas mais poderosas continuam a ser — e talvez sempre sejam — um livro, um caderno e um professor que gosta de ensinar.
Fonte de referência: reportagem de Olga R. Sanmartín, publicada em El Mundo a 13 de março de 2026.




