Aprender a escrever não é só copiar letras: o que a investigação nos diz (e como pode mudar a nossa prática)

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Há uma cena que muitos de nós, professores e educadores, já vivemos: uma criança de cinco anos agarra num lápis, concentra-se durante longos segundos e escreve uma sequência de letras que só ela sabe decifrar. Para quem está de fora, parece um rabisco. Para quem conhece a investigação sobre a aprendizagem da escrita, aquele momento é ouro.

Foi com esse pensamento que li, de uma assentada, a brochura Aprender a Escrever, da autoria de Ana Cristina Silva e publicada em 2024 pela Direção-Geral da Educação. É um documento técnico, sim — mas é também um daqueles textos que nos fazem parar e repensar aquilo que julgávamos saber. Recomendo-o a qualquer educador do pré-escolar ou professor do 1.º ciclo. E, atrevo-me a dizer, também a quem trabalha em bibliotecas escolares e acompanha projetos de literacia desde cedo.


O problema com o modelo transmissivo

A autora começa pela raiz do problema. Em muitas escolas, o ensino da escrita ainda segue um modelo transmissivo simples: o professor expõe, o aluno exercita, os conhecimentos são testados. Este modelo parte do princípio de que o conhecimento flui do exterior para o aluno — e que basta apresentar bem a matéria para que ela seja assimilada.

O que a investigação mostra é diferente. A aprendizagem da escrita exige uma análise tripartida: conhecer as características do objeto (a linguagem escrita), compreender como o aprendiz se vai apropriando desse objeto, e delinear intervenções didáticas que potenciem essa aprendizagem. Quando estas três dimensões não são articuladas, os alunos avançam, mas com lacunas — muitas vezes silenciosas.

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As escritas inventadas: muito mais do que “errar”

Um dos capítulos que mais me marcou foi o das escritas inventadas — essas tentativas precoces das crianças para representar a linguagem oral antes do ensino formal. Durante muito tempo, olhámos para elas como erros a corrigir. A investigação mostra que são, na verdade, o motor da aprendizagem.

Emilia Ferreiro foi uma das primeiras a sistematizar esta ideia: as crianças não copiam a escrita, experimentam-na. Passam por níveis progressivos — das escritas pré-silábicas, onde a dimensão do referente ainda guia a escrita (o elefante tem muitas letras porque é grande…), até às escritas alfabéticas, onde cada som tem já a sua representação.

O mais surpreendente? A qualidade das escritas inventadas na educação pré-escolar é um dos melhores preditores do sucesso na aprendizagem da leitura no final do 1.º ano de escolaridade. Ou seja, o que acontece na sala dos 4 e 5 anos tem consequências que chegam ao 1.º ciclo — e provavelmente além.

O papel do educador aqui não é corrigir, mas mediar. Questionar: “Porque é que escolheste essa letra?” Comparar escritas entre crianças. Criar momentos de escrita colaborativa em pequeno grupo onde as crianças discutem, justificam e chegam a consensos. É um papel ativo, exigente — e profundamente pedagógico.


A ortografia não se aprende por magia (nem por repetição cega)

O segundo capítulo debruça-se sobre a ortografia — um tema que, na prática letiva, continua a gerar muito debate. Quantas vezes ouvimos que os alunos “sabem a regra mas continuam a errar”? A brochura ajuda a perceber porquê.

O sistema ortográfico do português não é transparente: o mesmo som pode ser representado por grafemas diferentes, e o mesmo grafema pode corresponder a sons diferentes. Dados do IAVE de 2018 mostram que 44% dos alunos do 2.º ano dão entre 6 a 15 erros num ditado de 50 palavras. Não é falta de esforço — é falta de uma abordagem pedagógica diferenciada.

A autora propõe algo que me parece fundamental: olhar para os erros como informação. Não todos os erros são iguais. Há erros fonológicos (confusão entre sons parecidos, como /p/ e /b/), erros ortográficos (desconhecimento de regras contextuais posicionais) e erros morfológicos (confusão de sufixos, flexões verbais). Cada tipo de erro pede estratégias diferentes — jogos de consciência fonológica para uns, reflexão sobre regras para outros, análise de famílias de palavras para outros ainda.

A proposta é sempre a mesma: promover a reflexão metalinguística. Não “decora esta regra”, mas “analisa estas palavras e descobre o padrão”. A capacidade de explicitar uma regra ortográfica está diretamente associada a um melhor desempenho ortográfico. Faz sentido.


Escrever textos: o desafio maior

O terceiro capítulo é, provavelmente, o mais desafiante — e o mais próximo da realidade das nossas salas de aula. Aprender a escrever textos é muito mais do que aprender ortografia. Implica gerar ideias, organizar informação, construir frases com coesão e coerência, gerir o planeamento e a revisão — tudo ao mesmo tempo.

Há uma comparação da brochura que ficou comigo: o esforço mental exigido na escrita académica por estudantes universitários é equivalente ao de jogadores de xadrez experientes a selecionar jogadas. Agora imaginem pedir isso a uma criança de 7 anos que ainda está a aprender a segurar no lápis.

Por isso, a autora defende que as estratégias de planificação devem ser ensinadas cedo — e não só quando os alunos já dominam a ortografia. Ensinar a planear antes de escrever ajuda a separar os processos cognitivos, reduzindo a sobrecarga. Um simples brainstorming de ideias, uma grelha narrativa com os elementos da história, uma discussão em grupo sobre o que faz um “bom texto” — estas estratégias têm efeitos comprovados na qualidade das composições.

A escrita colaborativa merece destaque especial. Quando os alunos escrevem juntos, discutem, confrontam perspetivas, propõem alternativas — estão a desenvolver competências metacognitivas que a escrita individual dificilmente consegue promover sozinha. A chave está no suporte estruturado: sem guiões ou orientações claras, a colaboração pode ficar superficial.


O que fica

Sai desta leitura com a convicção renovada de que ensinar a escrever é uma das tarefas mais complexas — e mais apaixonantes — da educação. Não há atalhos. Mas há caminhos bem iluminados pela investigação.

Esta brochura é um desses caminhos. Gratuita, acessível, fundamentada em estudos empíricos e recheada de sugestões práticas — desde atividades para o pré-escolar até sequências didáticas para o 4.º ano. Um recurso que merece lugar nas prateleiras (digitais ou físicas) de qualquer escola, biblioteca ou sala de formação de professores.

Porque no fim, escrever é uma forma de pensar. E ensinar a escrever é ensinar a pensar melhor.


Ana Cristina Silva (2024). Aprender a Escrever: Desenvolver competências de escrita: educação pré-escolar e 1.º ciclo do ensino básico. DGE / Ministério da Educação, Ciência e Inovação. ISBN 978-972-742-575-4.


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