Download | Fiona Hollands e Cynthia Breazeal
Num momento em que professores e alunos de todo o mundo navegam em plena explosão das ferramentas de inteligência artificial, uma questão impõe-se com crescente urgência: será que estamos preparados para usar o que ainda não compreendemos? Um estudo publicado em 2024 na revista The Science Teacher responde a esta pergunta com dados concretos — e com uma proposta pedagógica sólida.
O estudo em foco
O artigo “Establishing AI literacy before adopting AI”, da autoria de Fiona Hollands (EdResearcher) e Cynthia Breazeal (MIT), analisa a implementação de um conjunto de currículos modulares de literacia em IA, desenvolvidos pelo Massachusetts Institute of Technology em parceria com a organização i2Learning, e disponibilizados gratuitamente na plataforma Day of AI (dayofai.org).
A investigação recolheu dados através de um questionário online respondido por 265 indivíduos de todo o mundo, dos quais 190 eram professores que implementaram os currículos com cerca de 12 000 alunos durante o ano letivo de 2022–23. Foram também realizadas 17 entrevistas virtuais com professores, para aprofundar a compreensão do modo como adaptaram os materiais aos seus contextos.
O programa “Day of AI”
O programa consiste em 12 currículos modulares pensados para estudantes entre os 5 e os 18 anos, cobrindo uma vasta gama de temas relacionados com a IA. A tabela seguinte apresenta alguns dos módulos disponíveis:
| Currículo | Nível | Temas abordados |
|---|---|---|
| What Can AI Do? | K-2 | Definição de IA, sensores, reconhecimento de imagem |
| Teachable Machines | 3.º-5.º ano | Aprendizagem automática, viés algorítmico |
| Can Machines Be Creative? | 6.º-8.º ano | GANs, deepfakes, uso ético da IA |
| AI in Social Media | 6.º-12.º ano | Sistemas de recomendação, desinformação |
| ChatGPT in School | 3.º-12.º ano | LLMs, chatbots, uso responsável na escola |
Todos os materiais — guias do professor, apresentações, recursos para alunos e vídeos de formação — estão disponíveis sob licença Creative Commons e foram concebidos para serem usados por educadores com pouca experiência em IA e com recursos tecnológicos básicos.
O que aprenderam professores e alunos?
Os resultados revelam impactos significativos, tanto ao nível do conhecimento como das atitudes face à IA. Antes de iniciarem o programa, os respondentes auto-avaliaram o seu nível de conhecimento em IA com uma média de 3,8 em 10; após o programa, essa média subiu para 6,0. No caso dos alunos, a média ponderada passou de 2,4 para 4,3, segundo a avaliação dos próprios professores.
Mais de 70% dos professores indicou que os currículos ajudaram os alunos a compreender de forma significativa:
- Como a IA está a ser utilizada no quotidiano
- O funcionamento técnico da IA
- O potencial da IA para beneficiar pessoas e sociedade
Entre 50% e 65% dos professores referiu ainda melhorias na compreensão dos alunos sobre os perigos da IA, os seus vieses, as implicações éticas e as preocupações com a privacidade de dados.
Otimismo e sentido de agência
Um dos resultados mais relevantes do estudo diz respeito à transformação nas atitudes dos participantes. O nível de otimismo sobre os benefícios da IA para a sociedade subiu de 5,6 para 7,1 (escala de 0 a 10) para os professores, e de 5,0 para 6,7 para os alunos.
Ainda mais significativo é o aumento do sentido de agência: quase dois terços dos respondentes afirmaram sentir maior confiança na sua capacidade de contribuir para o futuro da IA. Um professor do Alabama expressou esta ideia com clareza ao afirmar que expor os alunos à IA e abordar as suas implicações sociais “é uma parte vital de moldar o futuro da IA”, pois serão eles os seus principais contribuidores. Da mesma forma, outro professor observou que os alunos “estão a perceber que podem tornar-se programadores e criadores desta tecnologia, e não apenas utilizadores passivos”.
Adaptação ao contexto: a flexibilidade como chave
A maioria dos professores implementou os currículos durante as aulas regulares, embora alguns os tenham integrado em atividades extracurriculares ou em períodos de final de semestre. Em média, os professores dedicaram quatro horas à preparação, incluindo a leitura dos guias do educador, a visualização de vídeos tutoriais e a participação em webinars opcionais — embora alguns tenham chegado a investir 20 horas na adaptação dos conteúdos.
A atividade favorita dos alunos foi o “AI or Not”, em que os estudantes aplicam cinco questões de diagnóstico para determinar se um determinado objeto ou sistema é ou não artificialmente inteligente — uma abordagem simples e altamente envolvente.
Implicações para a prática educativa
Este estudo demonstra que é possível desenvolver literacia em IA de forma eficaz, mesmo com poucas horas de trabalho e sem exigir conhecimentos prévios de programação. O argumento central dos autores é claro: antes de adotar ferramentas de IA, professores e alunos precisam de as compreender criticamente — saber como funcionam, para que servem, a quem beneficiam e que riscos representam.
Para quem trabalha em bibliotecas escolares, na formação de professores ou na promoção da literacia digital, este programa representa um recurso valioso, gratuito e adaptável a diferentes contextos culturais e faixas etárias — um ponto de partida concreto para transformar a IA de objeto de ansiedade em objeto de conhecimento.
Referência: Hollands, F. & Breazeal, C. (2024). Establishing AI literacy before adopting AI. The Science Teacher, 91(2), 35–42. https://doi.org/10.1080/00368555.2024.2308316


