Visualizar apresentação | Sampaio da Nóvoa e o futuro da educação |
No dia 8 de abril de 2026, o professor António Sampaio da Nóvoa marcou a abertura do Oeiras Education Forum com uma intervenção densa, exigente e de rara lucidez. Investigador de referência, ex-reitor da Universidade de Lisboa e um dos rostos mais reconhecidos do pensamento educativo em Portugal e no mundo, Nóvoa trouxe ao palco não teorias novas, mas algo mais raro: a honestidade de quem olhou de frente para a escola real e partilhou o que viu.
O cansaço dos discursos repetidos
A intervenção começou com uma provocação certeira. Nóvoa descreveu ter lido, no mesmo jornal do dia, dois artigos contraditórios: um a dizer que a escola muda demasiado depressa, outro a afirmar que não mudou nada nos últimos 200 anos.
“Os discursos sobre educação são repetitivos e de uma banalidade desconcertante. Repetem-se as mesmas coisas, palavra por palavra, há pelo menos 50 anos.”
Esta abertura não foi retórica. Foi o enquadramento para o que se seguiu: a recusa de lugares-comuns e o apelo a um pensamento mais rigoroso, mais situado, mais honesto sobre o que se passa nas escolas.
A viagem pelas escolas públicas portuguesas
Nos últimos anos, Nóvoa percorreu escolas públicas por todo o país — sem aviso prévio, sem guião, sem preparação. O resultado dessa experiência está num livro recentemente publicado e foi o fio condutor da sua intervenção em Oeiras.
Da viagem ficaram duas impressões que coexistem em tensão:
O que é motivo de esperança:
- O acolhimento e o cuidado com os alunos mais vulneráveis — seja por condições de deficiência, seja por serem alunos estrangeiros;
- A valorização crescente das bibliotecas escolares, que “estão finalmente a adquirir a centralidade que merecem”;
- A consciência de que a escola é mais do que uma soma de salas de aula — espaços exteriores, hortas, laboratórios e oficinas ganham presença;
- A abertura a projetos culturais, locais, europeus e autárquicos que enriquecem a missão social da escola.
O que é motivo de preocupação:
- A incapacidade de renovação pedagógica dentro da sala de aula. As práticas mantêm-se “bastante pobres e rotineiras”;
- A entrada abrupta das tecnologias — sem preparação, sem reflexão, sem cuidado;
- A contradição entre uma escola cheia de projetos (no plural) e a ausência de um projeto (no singular) coerente em torno do trabalho pedagógico.“As escolas têm uma abundância de projetos. […] Mas têm ao mesmo tempo uma ausência de projeto, em torno do trabalho escolar.”
Esta distinção — projetos versus projeto — é uma das ideias mais poderosas da intervenção. O que se faz fora da sala de aula é espaço de criatividade e inovação. O que se faz dentro parece congelado no tempo.
Inteligência artificial e neurociências: confirmações, não revoluções
Nóvoa abordou dois temas que dominam atualmente o debate educativo — a inteligência artificial e as neurociências — e fez algo que poucos esperam: usou-os para confirmar o que a pedagogia sempre disse.
A IA, argumentou, mostrou que o processo importa mais do que o resultado. Hoje, obter resultados é trivial — o ChatGPT fornece-os em segundos. O que tem valor é o esforço, a compreensão, o erro, a procura. Nenhuma máquina substitui a qualidade humana desse processo.
As neurociências, por sua vez, confirmaram a importância das emoções e a impossibilidade de separar o sentir do saber — algo que os professores sempre souberam. Citando António Damásio, Nóvoa recordou que “a educação não se faz apenas do pescoço para cima”.
E foi direto quanto ao que não deve acontecer:
“Não podemos pôr no mesmo plano máquinas e seres humanos.”
Criticou também uma frase de uma fundação que propunha a “codocência” entre professores e sistemas de IA — dois erros num só: equiparar professores a máquinas e reduzir o papel dos professores à empatia e à relação, esquecendo o conhecimento.
A auctoritas dos professores como chave da mudança
O núcleo da proposta de Nóvoa é a ideia de auctoritas — um conceito que distingue cuidadosamente de autoritarismo.
Auctoritas significa:
- Autoridade profissional colaborativa — o reconhecimento, pelos outros, da influência e do prestígio de quem ensina;
- Autoria — ser o autor, o responsável pelo próprio trabalho pedagógico e pela formação dos colegas;
- Presença pública — a voz autorizada dos professores no espaço público.
Para Nóvoa, a mudança necessária não passa por novas reformas impostas de cima para baixo, mas por criar condições — com liberdade e em liberdade — para que os professores que querem mudar possam fazê-lo, com apoio e reconhecimento.
“A mudança necessária, meus amigos e minhas amigas, passa por conhecer e reconhecer o que já existe. Nada começa do nada.”
E recordou a sua ideia de metamorfose: assim como as formas da borboleta já estão presentes no ovo e na lagarta, as sementes da mudança já existem em muitas escolas — é preciso identificá-las, apoiá-las e deixá-las crescer.
Três prioridades. Sempre as mesmas.
Quando questionado sobre as grandes prioridades do novo contrato social da educação — um projeto que acompanha na UNESCO —, Nóvoa foi deliberadamente repetitivo:
“As três grandes prioridades: primeiro, os professores. Segunda, os professores. Terceira, os professores.”
Não como slogan, mas como convicção fundamentada. Sem dignidade, sem auctoritas, sem valorização concreta dos professores, nenhuma reforma educativa terá futuro.
Educação ou barbárie
Nóvoa encerrou com uma homenagem a Bernard Charlot, pedagogo francês recentemente falecido, de quem citou as palavras com as quais deixou a sala em silêncio:
“Educar é educar para o humano. A barbárie, quaisquer que sejam as suas formas, incluindo as muito modernas, pensa fora do humano. Educação ou barbárie. Temos de escolher.”
Numa época em que proliferam as promessas de educação sem escolas, de aprendizagem personalizada por tutores artificiais e de centros abertos 24 horas, a escolha não é apenas técnica nem política. É civilizacional.
Sem uma escola pública forte, capaz de receber e educar todas as crianças, não há democracia. Não há futuro. Não há humanidade comum.
📍 Intervenção de António da Nóvoa no Oeiras Education Forum, 8 de abril de 2026.
✍️ Artigo baseado na transcrição da sua conferência.


