com Ana Balcão Reis, António Nogueira Leite e Sérgio Sousa Pinto, moderados por Anselmo Crespo
Educação e desenvolvimento económico: Portugal entre o progresso e os desafios
Há uma pergunta que devia incomodar-nos mais do que incomoda: por que razão um país que triplicou a percentagem de licenciados em duas décadas continua a crescer menos do que os seus vizinhos europeus? Foi exatamente esta tensão — entre os números que nos consolam e a realidade que nos interpela — que esteve no centro de um painel de debate recente sobre políticas educativas em Portugal. Três vozes diferentes, com percursos distintos, chegaram a um diagnóstico comum: fizemos muito, mas continuamos a enganar-nos sobre o que ainda falta fazer.
O que disse Ana Balcão Reis: os números impressionam, a realidade complica
Ana Balcão Reis, professora catedrática de Economia na Nova School of Business and Economics, começou por colocar os dados em perspetiva. Em 2000, apenas 12% dos jovens entre os 25 e os 34 anos tinham concluído o ensino superior. Hoje, esse valor está próximo dos 44%. É um salto extraordinário, e quem não o reconhece está a ser desonesto com a história recente do país.
Mas — e este “mas” é central em toda a sua intervenção — a força de trabalho não é feita só de jovens. Quando se olha para o conjunto da população ativa, o nível de qualificações médio ainda reflete décadas anteriores, quando a escolarização era baixa e o acesso ao ensino superior era um privilégio restrito. As economias não mudam ao ritmo dos diplomas. Mudam ao ritmo das gerações, e isso leva tempo.
Além da questão temporal, Ana Balcão Reis tocou noutro ponto frequentemente ignorado nos debates sobre educação: a desigualdade interna. Mesmo num concelho como Oeiras — reconhecido pelo investimento que faz em educação —, as diferenças de qualidade entre escolas e entre zonas da população são muito significativas. A massificação do ensino criou acesso, mas não garantiu equidade. E sem equidade, os números tornam-se, em parte, uma ilusão. A sua conclusão foi direta: “não basta ter toda a gente a estar na escola, é preciso que as pessoas estejam na escola a aprender”.
O que disse António Nogueira Leite: a diáspora que não volta e os salários que ficaram parados
António Nogueira Leite trouxe ao debate uma perspetiva que combina o olhar do economista com a experiência do gestor de empresas. Confirmou o argumento de Ana sobre o tempo que a demografia leva a mudar, mas acrescentou uma camada que torna o problema ainda mais complexo: Portugal não se limita a ter qualificado tarde — também tem perdido parte do que qualificou.
A partir de 2010, a saída de profissionais altamente qualificados tornou-se uma hemorragia difícil de ignorar. Médicos, engenheiros, enfermeiros, economistas — áreas em que o ensino português é genuinamente bom, reconhecido e procurado lá fora — foram os que mais saíram. E foram por uma razão que António formulou com uma franqueza pouco comum: “a economia portuguesa não gera os empregos, nem paga os salários compatíveis com as expectativas dessas gerações”.
O que se segue foi talvez a afirmação mais desconcertante de toda a sua intervenção. Muitas das maiores empresas portuguesas pagam, em termos nominais, os mesmos salários de entrada que pagavam há 15 anos. Enquanto isso, os salários do topo da gestão evoluíram. Não é um problema de governo, sublinhou António — é um problema de ecossistema económico e de modelo de produção. E enquanto esse ecossistema não mudar, a mobilidade que hoje caracteriza os jovens qualificados portugueses — que aprenderam inglês, cresceram com o YouTube e estudaram em boas escolas — vai continuar a funcionar num único sentido: para fora.
Ainda assim, António não ficou pelo diagnóstico. Insistiu na ideia de que a diáspora recente, ao contrário das anteriores, é transversal a todos os estratos sociais — saem pessoas das classes baixas, médias e altas. E que, se Portugal conseguir criar condições para que essas pessoas regressem, o país pode beneficiar não apenas do seu conhecimento técnico, mas também das práticas e das referências que acumularam noutros contextos. “Há muito conhecimento que vai para além do conhecimento técnico, que se nós tivermos abertura para o absorver nas nossas organizações, pode ser muito positivo”, disse. Regressar, neste quadro, não é só uma questão pessoal: é uma política pública que ainda está por construir.
O que disse Sérgio Sousa Pinto: a literacia, a leitura e a democracia em risco
Sérgio começou por dizer que não é especialista em educação. Mas foi quem mais incomodou a sala.
O ponto de partida foi um estudo do PIAAC (estudo) que tinha sido divulgado poucos dias antes do debate. Os resultados eram perturbadores: os licenciados portugueses apresentam indicadores de numeracia e literacia inferiores aos jovens finlandeses que concluem apenas o ensino secundário. Cinquenta anos após a democratização do ensino em Portugal, este dado obriga a perguntar o que aconteceu realmente dentro das escolas — e fora delas.
Para Sérgio Sousa Pinto, chega de autoabsolvição. O argumento de que os liceus eram antes para filhos de elites perdeu validade há muito tempo. Passaram cinco décadas. É altura de olhar com honestidade para onde estão os problemas. E a sua resposta foi clara: estão no português e na matemática, ou seja, na literacia e na numeracia.
Sobre a literacia, o argumento foi desenvolvido com uma lógica que é difícil de contrariar. Não é possível resolver o problema da literacia sem hábitos de leitura. E os hábitos de leitura não se cultivam só na escola — cultivam-se em casa, por mimetismo, por exemplo dos pais. Mas o quadro atual é o de casas sem livros e sem jornais, onde a informação chega em fragmentos de três linhas, verdadeiros ou falsos, e se considera o assunto encerrado. Até aquele velho hábito popular de aprender a ler com os jornais desportivos perdeu expressão.
A conversa chegou então a um território mais fundo. Sérgio não estava a falar apenas de resultados escolares. Estava a falar de que tipo de cidadãos estamos a formar. “Se tivermos uma lógica puramente de especialização, vamos construir uma sociedade de idiotas altamente especializados”, disse, e acrescentou, com ironia cortante: “e como é que vota um idiota altamente especializado? Exatamente da mesma maneira que um idiota não especializado”.
A literatura, para Sérgio Sousa Pinto, não é ornamento cultural — é a matéria com que se constrói um ser humano inteiro. É nela que estão a experiência histórica, a experiência do amor, da morte, do outro. Tolstoi não escreveu para crianças de 12 anos, reconheceu — mas um Cândido de Voltaire, esse, é para todos. O problema não é a exigência dos textos. É a ausência de qualquer hábito de leitura, numa geração crescida entre ecrãs e plataformas de streaming que raramente oferecem o que Portugal, com o seu mercado pequeno e a sua posição periférica, não pode garantir a qualquer criança.
Por fim, Sérgio Sousa Pinto ligou este problema ao desenvolvimento económico que os outros dois tinham discutido antes. Portugal não ficou suficientemente próspero para gerar uma classe média consumidora de bens de cultura, capaz de valorizar o que chamou “os prazeres superiores”. Sem essa prosperidade, sem essa revolução moral que os países mais ricos atravessaram no século XIX e XX, a escola fica sozinha a tentar fazer um trabalho que a sociedade inteira devia partilhar.
O que ficou no ar
Os três intervenientes falaram a partir de lugares diferentes — a investigação académica, a gestão de empresas, o testemunho cívico —, mas o fio que ligou todas as intervenções foi o mesmo: Portugal tem feito as coisas certas, só que tarde, mal distribuídas e sem o ecossistema económico e cultural que as deveria sustentar.
A pergunta que ficou sem resposta — e que talvez seja a mais importante — é esta: quanto tempo ainda vamos precisar para perceber que quantidade sem qualidade, diplomas sem leitura, e crescimento sem salários dignos, não chegam para construir o país que todos dizemos querer?
Este artigo foi elaborado a partir de um painel de debate sobre políticas educativas e desenvolvimento económico em Portugal, com intervenções de Ana Balcão Reis (Nova SBE), António Nogueira Leite e Sérgio Sousa Pinto, moderados por Anselmo Crespo.


