Exames, colégios privados e WhatsApp de pais: tudo o que está mal na educação em Portugal | Oeiras Education FORUM

Helena Matos e Sérgio Sousa Pinto participaram num Crossfire especial, ao vivo no Oeiras Education Forum.

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Crossfire da CNN Portugal saiu do seu habitat natural — o estúdio nocturno — para um palco com público, num evento de dois dias dedicado à educação. Com a moderação de Anselmo Crespo, Helena Matos e Sérgio Sousa Pinto debateram sem papas na língua aquilo que muitos sabem mas poucos dizem em voz alta: Portugal gasta bem, mas aprende mal.


“Estamos a ter o devido retorno?”

Anselmo Crespo abriu a conversa com uma provocação directa: Portugal investe cerca de 11.500 milhões de euros por ano em educação, o Ministério da Educação é o maior empregador nacional — e então? Esse esforço está a traduzir-se em desenvolvimento do país e em democracia mais saudável?

Helena Matos começou por colocar as coisas em perspectiva histórica. Para ela, a questão da educação em Portugal obriga sempre a três perguntas: com quempara quem e porquê. E deu dois exemplos de grandes projectos educativos que falharam — o do Marquês de Pombal e o da Primeira República — precisamente porque desprezaram os professores que existiam em favor de um ideal que não existia. “Não se pode prescindir dos melhores professores do país e achar que se vai fazer uma grande alteração”, disse. A lição, para ela, é simples: reforma-se com quem se tem, não com quem se imagina ter.

Mas há outro ângulo que Helena considera essencial: o ensino público não está feito para os excepcionais. Está feito para os alunos médios — e isso não é uma crítica, é uma responsabilidade. “Uma escola consegue fazer de um aluno médio um aluno bom. Mas quando a escola falha, faz de um aluno médio um aluno mau.” É aí que está, para ela, o verdadeiro teste ao sistema.

Sérgio Sousa Pinto foi mais directo ao diagnóstico: o problema de Portugal é que o debate sobre educação é sempre ideológico e nunca empírico. “Não interessa saber qual é o problema, interessa saber qual é a evidência abstracta que está melhor reflectida no sistema.” Os resultados do PIAC — que colocam os alunos do ensino superior português abaixo dos alunos do secundário finlandês em literacia e numeracia — são para Sérgio um sinal de alarme que não pode ser ignorado com teorias. A resposta está em copiar o que funciona noutros países, e não em continuar a debater os jesuítas.

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“Perdemos alguma coisa pelo caminho?”

Anselmo Crespo reconheceu os avanços do pós-25 de Abril, mas quis saber se não se tinha perdido algo nesse caminho.

Sérgio Sousa Pinto admitiu que sim, e explicou porquê. O que funcionou bem numa fase — democratizar o acesso, construir infraestruturas, tirar o país do analfabetismo — deixou de ser suficiente para a fase seguinte. As discrepâncias sociais não desapareceram; mudaram de forma. E aí fez uma analogia com o SNS: tal como o Serviço Nacional de Saúde acaba por tratar muitas vezes os efeitos da pobreza e não as doenças em si, também a escola pública carrega o peso de desigualdades que vêm de fora da sala de aula. Nascer numa casa com livros é diferente de nascer numa casa sem jornais. E isso reflecte-se nos resultados.

Acrescentou ainda um ponto que considera central e pouco discutido: o terror à matemática. Quando toda a gente foge da matemática, vão todos parar às humanidades — muitos sem vocação para lá estar. “Quantos estão em humanidades sem vocação nenhuma, porque era o refúgio da matemática?” Para Sérgio, isso é uma dissipação de recursos que não ajuda os alunos, não serve as famílias e não contribui para a economia.


“Estamos a caminhar para uma escola pública para pobres?”

Com a explosão dos colégios privados nos grandes centros urbanos, Anselmo Crespo quis saber se o país estava a encaminhar-se para um modelo de escola pública para quem não pode pagar outra.

Helena Matos não desviou: pode acontecer, e a razão não foi sempre a qualidade do ensino. Nos anos 70 e 80, quem queria estudar a sério ia para o público — os colégios eram vistos como refúgio dos menos aptos ou de famílias com dinheiro mas pouca escolarização. O que mudou? Para Helena, o colapso organizacional. “A escola ficou presa dentro da sala de aula.” Não pensou nos horários das famílias, na necessidade de os pais saberem que os filhos estão em bom ambiente, na disciplina, na previsibilidade do dia. Quando a classe média deixa de confiar, abandona. E quando a classe média abandona, leva consigo a aspiração — que é, para Helena, o motor de qualquer organização.

Sérgio Sousa Pinto concordou com o diagnóstico, mas foi além. Apontou dois factores decisivos: os horários e a autonomia. Os colégios têm horários compatíveis com a vida dos pais. E têm, sobretudo, autonomia. As escolas públicas aceitam responsabilidades sem terem autoridade para as cumprir. Não têm autoridade real da direcção, não têm autoridade do professor na sala de aula. “Há um direito não escrito a passar de ano sem aprender”, disse, sem hesitar. Chamou-lhe “cultura facilitista enfeitada com considerações filosóficas” — e acrescentou que não se sente com competência para julgar as teorias pedagógicas, mas sente-se com competência para observar os resultados.

Teve ainda uma palavra para os grupos de WhatsApp de pais, que classificou, com algum humor, como “o estado de iminência do sacrifício humano”: quando se juntam para identificar um professor como alvo, esse professor está desgraçado — e a escola sem autoridade não o consegue defender.


“Mais exames ou menos exames?”

Anselmo Crespo lançou um dos temas mais recorrentes no debate público português: cada vez que muda o governo, a discussão sobre exames volta à baila. Mais exames significa mais exigência? Menos exames significa facilitismo?

Helena Matos foi clara: é a favor dos exames, porque são a única referência comparável que existe. Lembrou que quando Portugal instituiu exames — com David Justino e Maria de Lurdes Rodrigues — os resultados nas avaliações internacionais melhoraram. Quando os governos de António Costa, com João Costa à frente da pasta, suspenderam esse caminho, os resultados pioraram. “Sabíamos que estávamos a melhorar, sabemos agora que pioramos.” Sobre a Covid como justificação, aceitou-a parcialmente, mas lembrou que as escolas portuguesas estiveram fechadas mais tempo do que as de outros países com quem nos comparamos — e isso merece reflexão.

Mas Helena foi mais longe do que os exames. Há outras dimensões em que a escola portuguesa falha e que os rankings não medem: Portugal tem uma “escola claustrofóbica”, com medo do ar livre, do risco, do exercício. As crianças chegam impecáveis e saem impecáveis — sem brincar, sem sujar, sem experimentar. Isso também é educação, e também está a falhar.


Uma conversa que devia ser mais frequente

O que este debate mostrou, acima de tudo, é que não faltam diagnósticos a Helena Matos e a Sérgio Sousa Pinto. Falta, talvez, que esses diagnósticos saiam dos estúdios e cheguem às decisões. Portugal continua a tratar a educação como um campo de batalha ideológica quando devia tratá-la como uma questão de engenharia: perceber o que não funciona, olhar para quem já resolveu o problema, e ter coragem de copiar o que resulta.

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