
Cinco ondas que mudaram a educação — e uma tempestade que ainda está a chegar
Há uma maldição que se atribui erradamente aos chineses: que possas viver tempos interessantes. Mariano Fernández Enguita, professor catedrático da Universidade Complutense de Madrid, usou esta ideia como ponto de partida para uma conferência que teve lugar em Oeiras, organizada pela CNN e pelo município local. A mensagem que trouxe foi clara: vivemos um momento de rutura. E a escola, tal como a conhecemos, ainda não percebeu isso.
A educação vista de longe — muito longe
Para entender o que está a acontecer hoje, Enguita propôs um exercício pouco comum: sair dos problemas do quotidiano escolar — da última discussão com a direção, do último relatório por preencher — e olhar para a história da educação numa perspetiva quase pré-histórica.
A ideia é simples mas poderosa: a educação não foi sempre assim. Foi moldada, ao longo de milénios, por grandes transformações na forma como os seres humanos comunicam e partilham informação. E cada vez que essa forma mudou, a escola teve de se reinventar. Ou deveria ter reinventado.
As cinco grandes ondas
A linguagem foi a primeira — e a mais fundamental. Não sabemos quando surgiu, porque isso é pré-história, mas sem linguagem não há educação possível. Adultos podem cuidar de crianças, e crianças podem imitar adultos, mas só com a linguagem é possível imaginar a experiência, recordar o passado, antecipar o futuro. A linguagem é, neste sentido, uma tecnologia — a mais antiga que temos e a mais transparente, precisamente porque nos parece natural.
A escrita, há cerca de cinco ou seis mil anos, criou algo novo: um ofício. Quem sabia escrever pertencia a um grupo, uma espécie de corporação de artesãos do saber. E para aprender esse ofício, surgiram as primeiras estruturas que vagamente se podem chamar escolas — não porque se chamassem assim, mas porque tinham essa função.
A imprensa foi, de todas, a que mais moldou a escola que ainda hoje existe. Não inventou nada de novo em termos de conteúdo — apenas multiplicou o escrito. Mas essa multiplicação criou algo sem precedentes: a escolarização de massas. A diferença entre escola e escolarização parece subtil, mas é fundamental. A escola era para uma elite, para um ofício. A escolarização é a universalização da escola — para todos, como instrumento de cidadania, de maturidade, de formação para o trabalho.
E é aqui que nasce o modelo que ainda hoje conhecemos: uma sala de aula (que em qualquer língua significa apenas “sala para uma classe de pessoas”), um professor, um grupo, um programa. O ensino simultâneo. O ensino graduado. A barra que uns passam e outros não. A escola que, como Enguita recorda com alguma brutalidade intelectual, nunca nasceu para ser igualitária — nasceu para selecionar.
Os audiovisuais, já no século XX, foram a primeira grande tecnologia que não encontrou lugar dentro da escola — antes entrou em conflito com ela. O cinema, a televisão, o rádio disputaram sempre a atenção dos alunos. Nunca foram absorvidos pela instituição escolar de forma orgânica.
A transformação digital é a quinta onda. E é diferente de todas as anteriores.
Desta vez é diferente — e mais rápido
A linguagem levou centenas de milhares de anos a difundir-se. A escrita precisou de seis mil anos para chegar a todo o mundo. A imprensa demorou quatro séculos a transformar-se em escolarização de massas. Os audiovisuais mediram-se em décadas. A transformação digital mede-se em lustros — em anos.
E não é só a velocidade. É também o custo: uma vez instalada a infraestrutura, alargar o acesso a mais pessoas custa quase nada. O que Enguita chama a tríade digital — um dispositivo pessoal, o software (que é o meio de todos os meios) e a conectividade — está disponível como nunca nenhuma tecnologia educativa esteve antes.
A isto soma-se agora a inteligência artificial. Ou, como Enguita prefere dizer com alguma cautela, a inteligência eventualmente aumentada. A IA generativa tem capacidades reais na comunicação, na informação e na aprendizagem — mas o que determina se é um recurso ou um risco é, fundamentalmente, a forma como é utilizada. E aí, de momento, o balanço não é animador.
O choque entre o ecossistema e o sistema
Há um conflito que está no centro desta discussão, e que Enguita descreve como um choque de comboios: de um lado, o ecossistema — tudo o que acontece na comunicação e na informação fora (e dentro) da escola; do outro, o sistema — a organização institucional da escola.
O que torna este momento historicamente inédito é que, pela primeira vez, os professores vão atrás da população em termos de comunicação. Antes, o professor era quem melhor escrevia, quem melhor falava, quem dominava os instrumentos do saber. Hoje, como conjunto, os docentes chegaram ao mundo digital mais tarde, por caminhos diferentes, e muitas vezes com menos fluência do que os seus alunos.
Isto não é uma crítica — é um diagnóstico. E tem consequências práticas: se a escola continuar a funcionar como um santuário onde se protege os alunos da tecnologia, em vez de os preparar para ela, estará a desproteger precisamente quem mais precisa de preparação.
Uma fratura que a escola não pode ignorar
Enguita falou também de algo mais amplo: a fratura social. Não apenas as desigualdades de sempre, mas uma linha de divisão — o que em inglês se chamaria cleavage — que está a partir as sociedades ao meio. De um lado, quem tem formação superior. Do outro, todos os outros. E essa fratura projeta-se na política, na cultura, na relação com as instituições.
Um dos sintomas mais visíveis é o crescimento dos movimentos antissistema, de direita e de esquerda, por toda a parte. E Enguita faz uma observação que devia fazer pensar todos os que trabalham em educação: esses movimentos crescem especialmente nos jovens que acabam de sair da escolaridade obrigatória. O que nos obriga a perguntar — com honestidade — qual está a ser o efeito real da escola.
O que fazer, então?
A resposta de Enguita não é uma receita, mas um conjunto de apostas. Primeiro, assumir que a escola não pode ganhar esta corrida se continuar a ignorar a tecnologia — tem de ser parte dela, com sentido e com propósito. Segundo, repensar a arquitetura da própria escola: a organização temporal, espacial, sequencial. Não o discurso sobre o que a escola deve ser, mas as condições concretas em que milhões de alunos passam anos das suas vidas.
E depois, talvez a ideia mais provocadora: acabar com o modelo de um professor, uma turma, uma sala, sem que ninguém veja o que acontece dentro. A colegialidade — professores que trabalham juntos, que partilham espaços, que colaboram com outros profissionais — é apresentada como inevitável. A metáfora que usa é a de um bloco operatório: não se põem oito médicos iguais a operar juntos. Reúnem-se diferentes competências para enfrentar um trabalho complexo. A escola precisa de aprender isso.
Viver tempos interessantes, dizia aquela maldição apócrifa, é perigoso. Mas Enguita não terminou de forma pessimista. Para quem quer uma vida com sentido, com desafios, com algo pelo qual lutar — o ensino, hoje, pode ser o lugar certo. Desde que se aceite que o santuário já não é uma opção.
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