Download |
Há uma diferença enorme entre falar de inteligência artificial na educação e realmente usá-la. O Guia Explorant la Intel·ligència Artificial, produzido pelo Grupo ICE da Universidade de Lleida em 2025, faz exatamente isso: reúne experiências concretas de professores que experimentaram ferramentas de IA com alunos reais, em aulas reais. O resultado é um conjunto de propostas práticas que qualquer docente pode adaptar — com honestidade sobre o que correu bem e o que ficou aquém das expectativas.
Vale a pena conhecê-las.
Criar músicas com IA — Udio e Suno
Dois dos exemplos mais surpreendentes do guia envolvem criação musical. Com o Udio, os alunos criaram um hino para as olimpíadas escolares: escolheram o estilo, escreveram a letra (ou não — a versão instrumental também funciona), e a IA gerou duas propostas para selecionar e personalizar. O processo é simples e o resultado tem impacto emocional real na turma.
O Suno segue uma lógica semelhante, mas foi usado de forma mais transversal — em áreas como ciências e projetos de investigação, a música tornou-se uma forma de síntese e memorização de conteúdos. Os professores observaram algo que qualquer docente reconhece: quando os alunos criam algo que podem partilhar, o empenho sobe visivelmente.
A ressalva honesta de ambas as ferramentas é que a IA faz grande parte do trabalho criativo técnico. O desafio pedagógico está em garantir que o aluno pensa, decide e reflete — não só clica.
Matemática com mais significado — Photomath
O Photomath já é uma realidade nas mochilas dos alunos, com ou sem a nossa autorização. O que este guia propõe é algo mais inteligente do que proibi-lo: usá-lo como ponto de partida para o pensamento crítico.
A atividade é simples. O aluno fotografa um exercício, a aplicação resolve-o passo a passo, e a tarefa do aluno é explicar cada passo — porque é válido, se poderia ser feito de outra forma, se o método é eficiente. Quando funciona bem, funciona muito bem: estimula o raciocínio matemático e a verbalização dos processos. O risco, que os autores reconhecem abertamente, é que alunos com menos motivação se limitem a copiar sem pensar. A solução passa por um bom acompanhamento docente e, idealmente, pelo trabalho em pares.
Línguas estrangeiras — Readlang, Quillbot, Mizou e ChatGPT
Este é o domínio onde o guia apresenta maior diversidade de abordagens.
Readlang mostrou-se especialmente útil para alunos com dificuldades de leitura autónoma em inglês. A ferramenta permite carregar textos das unidades didáticas, acompanhar a leitura com áudio, e criar flashcards automáticas a partir das palavras consultadas. O vocabulário vai sendo consolidado com recordatórios enviados por e-mail. A limitação principal é a ausência de atividades de compreensão integradas — o professor precisa de complementar.
Quillbot entrou pela porta da correção de composições. Os professores copiavam os textos dos alunos para a plataforma, que sugeria correções gramaticais, alternativas de vocabulário e versões parafraseadas. O retorno chegava mais depressa e mais personalizado — o que aliviou a carga de correção sem substituir o julgamento docente. A versão gratuita tem limitações, mas para textos curtos funciona bem.
Mizou é diferente de tudo o resto neste guia. Permite criar chatbots com narrativa — personagens, missões, desafios progressivos. A experiência descrita envolveu uma IA fictícia chamada ARIA, que escondia um código de desativação que os alunos tinham de descobrir respondendo corretamente. A motivação disparou. O feedback gerado automaticamente pela plataforma (com avaliação qualitativa de cada conversa) facilitou o acompanhamento do professor. Requer preparação cuidadosa das instruções ao chatbot, mas o potencial é considerável.
O ChatGPT aparece em duas propostas distintas: numa unidade sobre animais em francês para o 1.º ciclo (com produção oral e escrita guiada) e numa abordagem de acompanhamento académico personalizado. Nesta última, o aluno vai introduzindo notas e observações ao longo do ano e pede à IA que analise a sua evolução, identifique dificuldades e sugira estratégias. Uma espécie de assessor de estudo acessível a qualquer hora.
Simulações interativas — Claude
A proposta com o Claude é das mais ambiciosas do guia: criar simuladores interativos sem saber programar. Com um bom prompt, o professor pode pedir à IA que gere um simulador de tiro parabólico em física, uma calculadora de calorias para educação física, ou um simulador de mercados para economia. Os alunos manipulam variáveis, observam os resultados e, numa variante interessante, podem tentar detetar erros no código como “detetives digitais”.
Os resultados foram positivos em termos de motivação e aprendizagem experimental. A ressalva é técnica: a qualidade do simulador depende muito da precisão do prompt inicial, e alguns resultados exigem ambientes de execução (HTML/JavaScript) que nem todos os centros têm disponíveis.
Ferramentas para o professor — Brisk Teaching, Wooflash e Edunexis
Nem tudo neste guia é pensado para os alunos diretamente. Há ferramentas que servem antes o trabalho de preparação do docente.
Brisk Teaching deteta automaticamente fontes (vídeos, documentos web) e gera recursos educativos a partir delas — questões, apresentações, microlições adaptadas ao nível e à língua. Foi usada para criar uma microlição sobre o Prémio Goncourt no ensino secundário, com bons resultados em termos de personalização e ritmo de aprendizagem.
Wooflash aplica o princípio neuroeducativo da evocação — a ideia de que recordar ativamente é mais eficaz do que reler — através de rotas de estudo personalizadas. O professor cria percursos com diferentes formatos de conteúdo, que podem ser lineares ou adaptativos. A ferramenta oferece analítica de aprendizagem para monitorizar o progresso individual.
Edunexis entra numa das tarefas mais burocráticas da profissão docente: a programação de sequências didáticas. O professor introduz o nível, a disciplina, a metodologia e o contexto, e a plataforma gera três propostas com objetivos, atividades, critérios de avaliação e temporização. Os autores são claros: é útil como ponto de partida, mas as propostas geradas precisam de ser enriquecidas e contextualizadas.
O que este guia nos diz, no fundo
O que torna este documento valioso não é a lista de ferramentas — há centenas de listas dessas. É a honestidade. Em cada experiência, os autores apresentam os pontos fortes e os pontos fracos. Identificam quando os alunos usaram a ferramenta de forma passiva, quando o professor teve de intervir mais do que esperava, quando a versão gratuita ficou aquém.
A mensagem subjacente é clara: a IA não substitui a pedagogia. Substitui o trabalho mecânico — a correção repetitiva, a geração de materiais de base, a estruturação de programações. Liberta tempo para o que só o professor pode fazer: conhecer os alunos, adaptar no momento, criar relações de aprendizagem.
As ferramentas existem. A questão é o que fazemos com elas.
O guia “Explorant la Intel·ligència Artificial” é uma publicação de 2025 do Grupo ICE EIA da Universidade de Lleida, com licença Creative Commons BY-NC-SA (DOI: 10.21001/explorant.intelligencia.artificial.2025).


