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E se a escola fosse um ato de resistência?
Há uma expressão no novo livro de Carlos Javier González Serrano que fica a ressoar: “aula insurgente”. Não como metáfora vazia, mas como programa. Como posição. Como recusa.
González Serrano é professor de Filosofia no ensino secundário em Espanha. Em El aula insurgente (Destino, 2026), parte da sua própria experiência de sala de aula para dissecar o que está a corroer o sistema educativo — e propõe, com alguma coragem intelectual, uma alternativa.
Educar não é treinar
A tese central do livro é desconfortável para quem governa a educação a partir de relatórios OCDE e métricas de empregabilidade: o ensino baseado em competências está a reduzir os estudantes a engrenagens num sistema produtivo.
“O perfil por competências reduz o indivíduo a uma série de características estandardizadas, pontuadas de menor a maior capacidade, conforme as expectativas que um sistema produtivo particular exige das suas peças”, diz González Serrano na entrevista à Ethic.
Não é uma crítica nostálgica ao passado. É uma questão antropológica: para que serve o conhecimento? Para encaixar no mercado — ou para alargar o mundo?
O problema da atenção (e da liberdade)
Há um fio que atravessa toda a entrevista: a perda de atenção não é apenas um problema cognitivo — é também um problema político.
“Uma sociedade que não consegue manter a atenção é uma sociedade polarizável, manipulável, dúctil”, afirma o filósofo, invocando o velho temor kantiano: é mais cómodo delegar a nossa capacidade de decidir.
A escola, defende González Serrano, deve ser esse contratempo — no sentido mais literal. Um espaço que desafia os ritmos impostos, que protege o tempo lento da leitura, da escrita e do pensamento. Não por romantismo, mas porque sem esse espaço perdemos algo que não se recupera facilmente: a capacidade de desenvolver um critério próprio.
“Realmar” o mundo — começando pela sala de aula
Uma das ideias mais interessantes do livro é a noção de “realmar o mundo”. González Serrano usa a expressão para descrever aquilo que se vai perdendo quando tudo é medido pela sua utilidade: a dimensão simbólica, ética e estética da vida.
“Estamos a construir sociedades muito eficientes, mas profundamente desorientadas”, diz. Sabemos fazer muitas coisas — e a inteligência artificial faz-as por nós —, mas já não sabemos muito bem para quê.
Daí o esgotamento existencial cada vez mais precoce nos jovens. Daí a ansiedade. Daí a anedonia. E daí também a urgência de uma escola que não se limite a preparar para o emprego, mas que ajude a perceber para que queremos viver.
Sobre redes sociais e “nativos digitais”
Numa das partes mais provocadoras da entrevista, González Serrano questiona a utilidade das proibições sem contexto. Proibir o acesso às redes sociais a menores de 16 anos não chega se o ambiente em redor não muda.
Mais do que isso, critica a ideia de “nativo digital” como uma espécie de destino: ao classificar os jovens com essa etiqueta, estamos, sem querer, a dar-lhes a desculpa perfeita para não mudarem os seus hábitos.
“Se estimularmos os jovens intelectual e cognitivamente, eles respondem. O erro é supor que não conseguem reconfigurar os seus hábitos.”
O que pode um professor fazer?
González Serrano não propõe fórmulas. Propõe uma atitude — a de estar na sala de aula. Presença como ato político.
O professor não é um transmissor de conteúdos, muito menos um animador. É alguém que sustenta um espaço, que cuida de um tempo insubstituível, e que acompanha os estudantes no descobrimento intelectual do mundo.
“Antes de encher as salas de dispositivos, precisamos de espaços onde alguém convide a pensar, a parar, a decidir com critério próprio. Se não animarmos o desenvolvimento dessa capacidade, outros decidirão por nós.”
É difícil não sentir que este livro fala também para nós — professores portugueses, num tempo em que as reformas curriculares se sucedem, os relatórios internacionais ditam as prioridades e a palavra “competência” parece ter engolido todas as outras.
Vale a pena ler. E vale, sobretudo, a pena discutir.
Fonte: Entrevista a Carlos Javier González Serrano, publicada na revista Ethic*, 17 de abril de 2026.*

