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Há uma pergunta que se ouve muitas vezes: como é que estamos a usar a inteligência artificial — e se estamos a fazê-lo bem? Um novo estudo da Comissão Europeia procura responder exatamente a isso, e os resultados são simultaneamente encorajadores e reveladores.
Um mapa de práticas com dimensão real
O estudo Good Practice in AI for Education foi encomendado pela Direção-Geral de Educação, Juventude, Desporto e Cultura (DG EAC) e decorreu entre janeiro e outubro de 2025. A metodologia combinou revisão documental multilingue, um inquérito pan-europeu com 1.306 respostas e entrevistas qualitativas, o que resultou na identificação de 209 boas práticas em toda a União Europeia. Destas, foram selecionadas 14 para análise aprofundada, com base na sua robustez pedagógica e na dimensão humana da implementação.
O que mais surpreende nos resultados não é a tecnologia em si — é o padrão que se repete de país em país: os professores que mais aproveitam a IA são aqueles que recebem formação real, suporte institucional e voz no processo de criação das ferramentas.
Histórias que merecem atenção
França: quando ler deixa de ser uma punição
Em escolas do primeiro ciclo francês, a plataforma Lalilo ajuda crianças com dificuldades de leitura a progredir ao seu ritmo, identificando onde cada aluno está e propondo atividades personalizadas. Um estudo controlado de 2023 encontrou melhorias significativas na fluência de leitura oral, com os efeitos mais fortes precisamente nos alunos que mais precisavam de apoio. O detalhe mais curioso? Os alunos pedem para usar a plataforma — veem-na como algo divertido, não como trabalho de recuperação.
República Checa: educação cívica com um chatbot histórico
O DigiHavel é uma ferramenta gratuita desenvolvida por uma ONG checa que usa um chatbot inspirado em Václav Havel para ensinar democracia, direitos humanos e pensamento crítico. A força da ferramenta não está apenas nos temas cívicos — está em ensinar os alunos sobre o próprio funcionamento da IA, incluindo o fenómeno das “alucinações”, ou seja, quando a IA produz informação falsa. Mais de 300 escolas já utilizam a plataforma na República Checa.
Itália: quando os dados falam por si
Um piloto nacional do Ministério da Educação italiano comparou turmas que usavam IA de forma sistemática com turmas que usavam outros métodos inovadores sem IA. O resultado foi claro: todos os alunos do grupo de IA transitaram de ano, enquanto alguns do grupo de controlo ficaram retidos. As ferramentas utilizadas — incluindo o Gemini e o Notebook LLM — foram disponibilizadas gratuitamente pelo Google no âmbito de um acordo com o Ministério.
Finlândia: simulações que provocam urgência real
Na Universidade de Helsínquia, o CurreChat permite que os professores criem personagens de IA adaptados às suas unidades curriculares. Na área da medicina, estudantes praticam consultas com pacientes virtuais propositadamente imperfeitos — e sentem uma urgência tão real que se preparam mais a fundo do que em cenários tradicionais. Desde o lançamento em 2023, mais de 260 cursos utilizam a ferramenta, e 90% dos estudantes recomendam a sua continuação.
Lituânia: o professor disponível 24 horas por dia
Na Faculdade de Direito da Universidade de Vilnius, dois professores criaram os seus próprios “gémeos digitais” — chatbots alimentados com as suas próprias publicações e materiais de aula. O exame final incluía um momento singular: cada estudante tinha de levar o chatbot a errar e depois criticar a resposta. Resultado? Discussões mais profundas em sala de aula, mais autonomia dos estudantes e, inesperadamente, exames muito mais longos para corrigir.
O que une todas estas histórias
Há um fio condutor claro em todo o relatório. O maior fator de sucesso na adoção da IA não é a tecnologia — é a formação e o suporte aos professores. Paradoxalmente, muitos educadores afirmam não receber qualquer apoio institucional ou nem sequer saber se esse apoio existe.
Os casos que funcionam têm outros elementos em comum:
- Os professores são co-criadores, não meros utilizadores finais
- As ferramentas respondem a problemas reais de sala de aula, não a tendências tecnológicas
- A proteção de dados é tratada desde o início, não como uma burocracia de última hora
- O foco não está em saber se os alunos usam IA — está em ensiná-los a usá-la de forma ética, crítica e eficaz
Uma reflexão para levar para a aula
Há uma frase do relatório que ficou comigo. Num dos projetos dinamarqueses, os alunos foram informados de que a ferramenta estava em fase de desenvolvimento e que a opinião deles era importante. Esse simples enquadramento como co-criadores mudou completamente a dinâmica — mesmo os grupos mais resistentes passaram a participar de forma construtiva.
Talvez seja por aqui que começa a mudança real: não pelas ferramentas, mas pela forma como as introduzimos.
Este artigo foi elaborado com base no relatório “Good Practice in AI for Education: Spotlight on EU Case Studies and Insights”, produzido por Stéphanie Crêteur, Jekatyerina Dunajeva, Marta Lazaro Soler e Hanna Siarova, por encomenda da Comissão Europeia (DG EAC, 2025).

