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Há uma pergunta que não conseguimos adiar: para que serve a escola hoje?
Carlos Magro colocou esta questão no centro da conferência inaugural das 33.ªs Jornadas Internacionais de Educação, em Buenos Aires, e fê-lo com uma coragem que nos interpela diretamente: não se trata de saber o que fazer com a inteligência artificial, mas de perceber o que queremos da educação — antes, durante e depois de qualquer tecnologia.
Educar é dar palavras para ler o mundo
Magro convida-nos a sonhar com uma educação que olha em frente e por todas as pessoas — um sonho que enarbore a bandeira da imaginação, da esperança e da possibilidade, e não os discursos do medo ou do colapso educativo.
A escola não é apenas um serviço que prepara para o mercado de trabalho, nem sequer um simples lugar de aprendizagem. É, acima de tudo, uma instituição que deve formar sujeitos livres, capazes de se implicar numa sociedade democrática, justa e sustentável. Gert Biesta sintetizou-o em três funções: qualificação (conhecimentos e competências), socialização (integração cultural e normativa) e subjetivação (formação do indivíduo crítico e autónomo). A pergunta que nenhuma sociedade pode evitar é: para quê educar?
Educar é dar(-nos) as palavras que nos permitam compreender, conservar e transformar o mundo. A escola ensina a ler o mundo dando a pensar e gerando o desejo de pensar sobre o mundo.
O problema não é a IA. O problema é o «entre»
Um dos argumentos mais poderosos do texto de Magro é a defesa do «entre»: o espaço — cognitivo, relacional, temporal — que existe entre uma pergunta e a sua resposta. É nesse intervalo, muitas vezes incómodo e por vezes frustrante, que o pensamento acontece.
O pensamento sucede no espaço e no tempo que fica «entre» uma pergunta e as suas possíveis respostas; no espaço entre um sujeito e a leitura de um texto, ou a interação com um saber. O pensamento surge no espaço que se gera na conversa com os outros, no diálogo entre duas ou mais pessoas. O percurso entre a pergunta e a resposta não é imediato, nem fácil. Tem costuras.
A inteligência artificial é extraordinariamente eficiente a eliminar este «entre». Um chatbot responde em milissegundos. Não há pausa, não há resistência, não há fricção. E é precisamente essa fricção — aquilo que a investigação pedagógica designa como desirable difficulty (dificuldade desejável) — que torna o aprendizado duradouro e profundo.
A escola ensina a pensar também quando nos permite demorarmo-nos, sustentar o processo para além da impaciência pelo resultado. Quando cada exercício, cada problema, cada texto a interpretar introduz uma pequena resistência: algo que não se deixa resolver de imediato.
O verdadeiro risco: a preguiça metacognitiva
Magro é claro quanto ao risco central da IA na educação: não é a “batota”. É algo mais silencioso e mais profundo.
O verdadeiro risco educativo da IA não reside em que se utilize para “fazer batota”, mas em que o seu uso desestruturado possa interferir nos processos cognitivos de construção e verificação do conhecimento, que são os que estruturam a memória a longo prazo e as competências de pensamento. O verdadeiro risco da IA é que, perante a possibilidade de pensar ou não, optemos por não pensar.
A investigação recente fala de preguiça metacognitiva — a tendência para delegar o esforço de pensar, de avaliar, de questionar. Uma dependência excessiva em sistemas de IA, sem mediação, pode levar os estudantes a não experimentar o grau de dificuldade necessário para ativar processos metacognitivos profundos. A descarga cognitiva mediada pela IA diminui as oportunidades de reflexão e resolução autónoma de problemas, reforçando a tendência para procurar soluções imediatas em vez de participar ativamente no processo de aprendizagem.
Mas há uma nota de esperança: a descarga cognitiva não é um processo passivo — é uma escolha metacognitiva ativa. Incidir nessa escolha é a nossa oportunidade e responsabilidade. É o espaço de atuação da escola e dos docentes.
A IA como espelho — e como oportunidade
O texto de Magro não é uma lamentação. É um convite à responsabilidade crítica.
A inteligência artificial não só supõe um enorme desafio para a escola e a educação — é também um espelho que reflete a sua realidade, e pode dar-nos a oportunidade de refletir sobre a instrumentalização que se apoderou do pensamento educativo e servir de alavanca para transformar a escola.
A IA obriga-nos a ir além da transmissão de conteúdos, a priorizar a relevância, a questionar a ideia de eficiência como valor supremo do aprendizado, e a passar da resolução de problemas para o levantamento de problemas. Obriga-nos a trabalhar a metacognição — a pensar sobre o pensar — e a decidir, com consciência, o que delegamos e o que não delegamos.
O desafio-chave não é resistir às tecnologias inteligentes, mas aprender a desenhar ambientes de aprendizagem que cultivem a atenção profunda, o raciocínio crítico e o controlo metacognitivo sobre quando e como descarregamos a cognição.
A revolução silenciosa que já está a acontecer
Há uma nota de urgência no texto de Magro que não podemos ignorar.
Enquanto estamos aqui a falar e a pensar o que fazer com a IA, esquecemos que há muitos estudantes que já a estão a utilizar diariamente, para tudo, e que contam com muito pouca orientação. Estamos perante uma revolução silenciosa que se concretiza bem nesta frase: “Na minha instituição ninguém fala de IA, mas toda a gente a está a usar.” A IA é o elefante na sala.
Cada dia que passa sem entabular uma conversa calma, sincera, reflexiva e problematizadora nas aulas é um dia perdido. Estamos a desperdiçar uma oportunidade de melhoria e a alimentar os riscos. Ensinar a ler o mundo hoje passa por abrir esta conversa com os nossos estudantes.
Frente aos discursos do hype e do medo, temos o grande desafio de introduzir uma certa serenidade na comunidade educativa, de reduzir a excitação emocional que a IA provoca, de transformar os medos numa aproximação informada, de cultivar um otimismo esperançoso. Frente à inevitabilidade da IA, é o momento de resistir, reclamar, recusar e reimaginar.
Fazer escola, hoje, é também isso.
Artigo inspirado em: Magro, C. (2026, 26 de abril). Leer el mundo hoy. La escuela en tiempos de inteligencia artificial. co.labora.red. https://carlosmagro.wordpress.com/2026/04/26/leer-el-mundo-hoy-la-escuela-en-tiempos-de-inteligencia-artificial/


