Catembe (1965): o filme que a censura tentou apagar

Considerado o título mais cortado pela censura em toda a história do cinema, “Catembe” quase não sobreviveu — e continua, seis décadas depois, a ser um dos filmes menos vistos do cinema português.

Há obras cinematográficas que resistem apesar do próprio cinema, não graças a ele. “Catembe” é uma delas: um filme que nasceu para retratar o quotidiano de uma cidade e acabou por se tornar, ele próprio, um objeto de estudo sobre repressão, memória e aquilo que resta quando um regime decide o que pode e não pode ser mostrado.

Um jovem realizador, uma cidade por filmar

Manuel Faria de Almeida nasceu em 1934 em Lourenço Marques — a atual Maputo — e foi ainda muito novo um dos fundadores do cineclube local. O apoio do Fundo do Cinema Nacional levou-o a estudar na London School of Film Technique, em Londres, onde realizou a curta-metragem de estreia “Streets of Early Sorrow” (1963), trabalho que lhe valeu convites internacionais a que acabaria por não corresponder, por ter decidido regressar a Portugal.

Foi nesse regresso que nasceu o projeto que o tornaria conhecido: um filme sobre o dia a dia de Lourenço Marques, coproduzido com António da Cunha Telles e filmado entre Lisboa e a cidade moçambicana em 1964. O título completo seria “Catembe – Sete Dias em Lourenço Marques”. A obra cruzava cinema direto — visível logo nas cenas iniciais, filmadas na Baixa lisboeta, em que Faria de Almeida pergunta a transeuntes o que sabem sobre Lourenço Marques — com sequências de ficção centradas numa jovem, a personagem que dá nome ao filme, retratando o quotidiano de um bairro popular de pescadores.

O paradoxo é que este era um filme financiado por um fundo pensado para divulgar cinematograficamente as colónias. Em vez de uma imagem cordial e pacificada, “Catembe” ofereceu um olhar mais próximo e mais humano sobre a realidade colonial — e foi exatamente esse afastamento da imagem que o regime queria projetar que o tornou incómodo.

103 cortes e um recorde amargo

A estreia estava marcada para novembro de 1965, no Cinema Império, em Lisboa. Mas antes de chegar às salas, o filme foi sujeito a exigências da censura ligada ao Ministério do Ultramar: 103 cortes, que retalharam a obra original — com cerca de 87 minutos — e a reduziram a uma fração de si mesma. Mesmo assim, a versão mutilada acabou por ser interdita pouco depois de exibida.

Seguiu-se uma tentativa de recuperar o material: uma segunda versão, puramente documental e com cerca de 45 minutos, foi remontada a partir das sequências que ainda faziam sentido depois dos cortes — as partes de ficção tinham ficado, em boa medida, incompreensíveis. Também essa versão foi proibida pela Comissão de Censura.

O resultado foi que, do material original, restou pouco mais de metade. O caso tornou-se célebre a ponto de “Catembe” ter figurado no Guinness Book of Records como o filme alvo do maior número de cortes de censura na história do cinema — um recorde que diz mais sobre o regime que o impôs do que sobre o filme em si.

Décadas por ver

Depois do 25 de Abril de 1974, “Catembe” foi exibido publicamente apenas umas poucas vezes. Faria de Almeida viria a depositar na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema os materiais sobreviventes, incluindo cerca de onze minutos de cortes de censura que tinham sido preservados à parte. A cópia em 35mm que chegou até nós apresenta degradação cromática, e a sua projeção — sempre rara — mantém-se, ainda assim, um dos poucos meios de aceder a esta obra fora de contextos de investigação académica.

Mais recentemente, o filme foi digitalizado e restaurado no âmbito do projeto FILMar da Cinemateca Portuguesa, com o apoio do programa EEA Grants, permitindo reunir numa cópia digital os 45 minutos autorizados, os onze minutos de cortes preservados e o trailer original. Este trabalho de recuperação foi acompanhado pela publicação do livro Catembe: Esse Obscuro Desejo de Cinema, da investigadora Maria do Carmo Piçarra, que junta ao volume o guião fac-similado e uma cópia do filme em DVD.

Porque continua a importar

“Catembe” é hoje considerado um dos filmes incontornáveis do cinema português dos anos 1960, precisamente pela reflexão que propôs — ainda que interrompida à força — sobre a presença portuguesa em África nos anos da Guerra Colonial. É um caso raro em que a história da censura de uma obra se tornou indissociável da própria obra: preservar os cortes, hoje, é também preservar o filme.

“Catembe”, de Manuel Faria de Almeida, 1965 (via Vimeo)

Título original: Catembe – Sete Dias em Lourenço Marques

Realização: Manuel Faria de Almeida

Produção: António da Cunha Telles e Manuel Faria de Almeida

Ano1964 (rodagem) / 1965 (estreia)

Locais: Lisboa e Lourenço Marques

Fontes

Batalha Centro de Cinema. (s.d.). Catembe [ficha técnica]. Recuperado a 17 de agosto de 2026, de https://www.batalhacentrodecinema.pt/en/filme/01-catembe/

Buala. (2013). “Catembe” ou queixa da alma jovem censurada. Recuperado a 17 de agosto de 2026, de https://www.buala.org/pt/afroscreen/catembe-ou-queixa-da-alma-jovem-censurada

Buala. (s.d.). Catembe, de Faria de Almeida, em Coimbra. Recuperado a 17 de agosto de 2026, de https://www.buala.org/pt/afroscreen/catembe-de-faria-de-almeida-em-coimbra

Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema. (s.d.). Catembe – O mais censurado dos filmes portugueses, em projeção. Recuperado a 17 de agosto de 2026, de http://www.cinemateca.pt/Cinemateca/Noticias/Catembe-%E2%80%93-O-Mais-Censurado-dos-Filmes-Portugueses-.aspx

Comunidade Cultura e Arte. (2024, 29 de abril). “Catembe” foi o filme com o maior número de cortes pela censura na história do cinema português e chega agora às livrarias nos formatos livro e DVD. Recuperado a 17 de agosto de 2026, de https://comunidadeculturaearte.com/catembe-foi-o-filme-com-o-maior-numero-de-cortes-pela-censura-na-historia-do-cinema-portugues-e-chega-agora-as-livrarias-nos-formatos-livro-e-dvd/

Vimeo. (s.d.). Catembe, de Faria de Almeida, 1965 [vídeo]. Recuperado a 17 de agosto de 2026, de https://vimeo.com/176853823

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