A primeira aula: o que ninguém nos ensinou sobre ensinar

Uma reportagem publicada esta semana pela revista Nature reuniu dez investigadores e docentes universitários em torno de uma pergunta simples: o que gostariam de ter sabido antes de dar a primeira aula da vida? As respostas nasceram em anfiteatros de universidades espalhadas por vários continentes, mas quem entra pela primeira vez numa sala de aula em Portugal — num estágio pedagógico, a substituir um colega a meio do ano, ou a lecionar sem qualquer formação prévia em pedagogia — vai reconhecer-se em quase todas elas. E os alunos, do outro lado da secretária, também têm nisto uma palavra a dizer.

Saber a matéria não chega

Ľubomír Tomáška ainda se lembra da primeira aula que deu na universidade, há mais de trinta anos. Era estudante de doutoramento quando um professor sénior lhe pediu que substituísse uma cadeira introdutória de genética. O tema — replicação do ADN — parecia-lhe fácil: estava a investigar precisamente isso na própria tese. Preparou uma pilha de acetatos para projetar, na era anterior ao PowerPoint, e entrou na sala convicto de que estava pronto. Ao fim de dez minutos, percebeu que tinha perdido a atenção de 90% da turma. «Senti-me como um ciclista a subir uma encosta íngreme, sem água nem energia», descreve hoje, já geneticista na Universidade Comenius, em Bratislava.

A história de Tomáška não é exceção; é quase um rito de passagem. Nos programas de doutoramento, o treino incide quase sempre sobre a investigação, raramente sobre a docência. Olivia Bizimungu, doutoranda em neurociências na Universidade McGill, no Canadá, resume o desencontro numa frase que qualquer professor estagiário reconheceria: um doutoramento ensina a ser cientista, não professor.

Em Portugal, esse mesmo desencontro tem uma face muito concreta. Todos os anos, escolas por todo o país recebem professores que nunca deram uma aula: alguns terminaram há pouco um mestrado que inclui um período de prática supervisionada nas escolas, acompanhado por um professor cooperante; outros, chamados pela falta de docentes, entram na sala apenas com «habilitação própria» — uma licenciatura na área científica da disciplina, sem qualquer formação pedagógica associada. Nos concursos externos extraordinários mais recentes, segundo a Fenprof, a maioria dos candidatos encontrava-se nesta segunda situação, à espera de uma vaga num curso de profissionalização em serviço que nem sempre existe em número suficiente. Podem lecionar; não podem, enquanto isso, progredir na carreira. Em julho de 2026, o Governo reviu essas regras, simplificando o acesso à habilitação própria para licenciados que queiram lecionar na disciplina diretamente correspondente à sua formação — outra face da mesma escassez. Saber a disciplina, como sublinha Tomáška, não chega para dar uma boa aula.

Saber a matéria nunca foi, por si só, saber ensinar.

Não comeces do zero

«Não comeces do zero», resume Aeriel Leonard, cientista de materiais na Universidade Estadual do Ohio, em Columbus. Antes de desenhar a primeira aula de raiz, vale a pena perguntar se já existe uma planificação da disciplina, um manual adotado, fichas de anos anteriores por onde partir. Nas escolas portuguesas, esse ponto de partida tem nome: o grupo disciplinar, com os seus materiais já testados em sala, os seus critérios de avaliação, a sua experiência acumulada.

Melanie Ortiz Alvarez De La Campa, que terminou este ano o doutoramento em patologia na Universidade de Brown, aprendeu da pior forma que dominar a matéria não basta: só percebeu, já a lecionar, que os alunos processam a informação a ritmos muito diferentes. Foi então procurar colegas mais experientes, e recomenda o mesmo a quem começa agora — assistir, sempre que possível, a aulas de quem já ensina há mais tempo, e reparar em quem, entre esses professores, funciona como espelho. É um conselho que qualquer coordenador de departamento em Portugal subscreveria, e que a observação de aulas entre pares, formal ou informal, ainda torna raro cumprir.

Preparar o conteúdo — e a sala

Reunidos os materiais, resta aprendê-los ao ponto de os explicar sem ler. Nirodha Weeraratne, investigadora de pós-doutoramento na Charles Sturt University, em Wagga Wagga, na Austrália, aconselha a rever os apontamentos, ensaiar a exposição em voz alta e antecipar as perguntas mais prováveis, com respostas já pensadas. Liza Bolton, estatística na Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, acrescenta um passo que muitos professores estreantes esquecem: visitar a sala antes da primeira aula, testar a ligação do computador ao projetor, confirmar se é preciso um adaptador, verificar o microfone. Parece um pormenor técnico. É, sobretudo, uma forma de tirar de cima dos ombros uma fonte de ansiedade que sobraria para tudo o resto.

Nem tudo precisa de sair perfeito, no entanto. «A preparação da primeira aula não se parece nada com a preparação da centésima», lembra Bolton. Não há motivo para desânimo se a planificação sair demasiado minuciosa, com tempos calculados ao minuto que a turma real, invariavelmente, não vai respeitar.

Conquistar a turma nos primeiros minutos

As primeiras impressões pesam. Bizimungu defende que vale a pena captar a atenção da turma logo de início, mesmo com algo que os alunos ainda não vão entender por completo — desde que fique claro, desde já, porque é que aquilo importa. Numa aula de neurociência motora, começou por um vídeo sobre interfaces cérebro-computador de ponta, e foi ligando essa tecnologia, ao longo da aula, a conceitos que a turma já conhecia. Um professor de Ciências Naturais pode fazer o mesmo com uma notícia sobre uma vacina nova; um de História, com uma fotografia que ninguém reconhece à primeira vista.

Marco Mello, ecólogo na Universidade de São Paulo, aposta tudo na narrativa: um arco claro, um conflito, personagens fortes, um sentido de movimento e uma razão para a turma querer saber o que vem a seguir. Saber onde a história começa, para onde vai e o que deve ficar na memória de quem ouve — vale tanto para uma aula de Biologia como para uma de Português.

Preparar não chega, porém. Jawad Ullah, doutorando em ciência das culturas agrícolas na Universidade de Hainan, na China, percebeu isso mal deu a primeira aula: teve de ler a turma em tempo real, perceber se estava envolvida, cética, ou apenas a ligar em silêncio as ideias à própria experiência. Uma pausa breve, ou uma pergunta prática lançada ao ar, costuma bastar para abrir esse espaço.

Também se perde a turma pelo caminho — e isso não é falha exclusiva de quem começa agora. Para reconquistar a atenção, Ortiz Alvarez De La Campa recomenda tornar o conteúdo mais pessoal. Quando um aluno consegue relacionar a matéria com algo da própria vida — ou, melhor ainda, aplicá-la —, a atenção costuma voltar sozinha.

Pensar como quem está do outro lado da secretária

Vale a pena, antes de entregar qualquer ficha, teste ou trabalho de casa, resolvê-lo primeiro. Leonard defende esse exercício simples como forma de confirmar que os alunos têm, de facto, o conhecimento necessário para o concluir. Também ajuda entrar na cabeça de quem está a aprender: quem chega entusiasmado com a própria aula costuma contagiar a turma. Tomáška conta que a expectativa de mostrar algo que lhe interessa genuinamente lhe mantém a adrenalina alta — e isso nota-se do outro lado da secretária.

Ensinar não é só entregar conteúdo; é também partilhar aquilo que gostaríamos de ter sabido mais cedo. Olesia Platonova, doutoranda em neurociência cognitiva no Instituto Pasteur, em Paris, resume-o numa pergunta que qualquer professor podia fazer a si próprio antes de planear uma aula: quem era eu há uns anos, e de que precisava mais nessa altura?

Variar para manter a atenção viva

A aula expositiva é um formato à prova de tempo, mas isso não obriga a repeti-lo sem variação. Kristina Monakhova, cientista da computação na Universidade Cornell, em Ithaca, no estado de Nova Iorque, defende reservar tempo, em cada aula, para atividades de «pensar, discutir em pares e partilhar»: cada aluno forma primeiro a própria ideia, discute-a depois com um ou mais colegas e só no fim a apresenta ao grupo. Estas pausas quebram a monotonia, ajudam a turma a envolver-se com a matéria e devolvem ao professor um sinal imediato sobre o que está, ou não, a ser compreendido — e dão, de caminho, uns segundos para respirar e organizar as ideias.

Para acomodar níveis de confiança diferentes dentro da mesma turma, Ortiz Alvarez De La Campa costuma propor dois patamares de trabalho: uma tarefa base, para cumprir na própria aula, e material adicional para quem quiser ir mais longe. Qualquer professor habituado a diferenciar dentro da mesma turma reconhece aqui um problema, e uma solução, muito familiares.

Gerir o trabalho, aprender com cada aula

À medida que o ano avança, Leonard recomenda reservar, todos os dias, um bloco de tempo fixo para preparar aulas e corrigir trabalhos. Fala com conhecimento de causa: a meio do primeiro semestre, ligou à própria mentora a dizer que não estava a conseguir, que se sentia soterrada. Sem limites de tempo definidos, avisa, é fácil deixar que a preparação e as aulas engulam tudo o resto.

Bolton sugere outra ferramenta, quase caseira: um documento onde vai despejando ideias e problemas — um erro de digitação por corrigir, uma aula que simplesmente não resultou, uma intuição ainda por explicar. Pode ser uma desarrumação, mas ajuda a guardar, para mais tarde, aquilo que merece reflexão. Por vezes ajuda pensar nesse documento como um testemunho: imaginar que vai ser entregue a alguém — ao próprio eu, no ano seguinte, ou a um colega — e que se quer dar-lhe uma experiência melhor do que a nossa.

O que fica para quem vai começar a ensinar

Há sempre tentativa e erro nisto. Tomáška resume-o dizendo que cada um tem de encontrar, com o tempo, as técnicas que lhe servem — não há fórmula única. Quanto mais se ensina, mais natural o gesto se torna; a prática não torna ninguém perfeito, mas torna, seguramente, melhor.

A aula que corre bem também se aprende a dar.

Há, por fim, uma coisa que quem está prestes a dar a primeira aula já tem, mesmo sem qualquer treino: entusiasmo pela matéria. É esse entusiasmo que faz um aluno interessar-se mais por um assunto — e, sobretudo para quem nunca viu à frente de uma turma alguém que se parecesse consigo, essa paixão pesa ainda mais. «Precisamos de todos a ensinar», resume Ortiz Alvarez De La Campa.

Do outro lado da secretária, os alunos raramente sabem que estão a assistir à primeira aula de alguém. Não têm de saber. Mas beneficiam, sem se aperceberem, de cada professor experiente que aceitou ser mentor de um colega mais novo, de cada grupo disciplinar que partilhou um material em vez de o guardar só para si, de cada escola que deu tempo e espaço a quem está a aprender a ensinar ao mesmo tempo que ensina. Um professor estreante bem acompanhado chega à sala mais preparado. E é a turma inteira que sai a ganhar com isso.

Nota de transparência. Este artigo foi escrito com o apoio de uma ferramenta de inteligência artificial, a partir da reportagem da Nature indicada nas referências e de notícias sobre a situação dos professores em Portugal, consultadas a 25 de setembro de 2026. As citações dos investigadores e docentes, originalmente em inglês, foram traduzidas e ligeiramente adaptadas para manter a fluidez do português, preservando o sentido. Os dados sobre professores com habilitação própria baseiam-se em notícias recentes sobre concursos e cursos de profissionalização em serviço, que podem ter sido entretanto atualizados.

Referências

Docter-Loeb, H. (2026, 22 de setembro). About to give your first lecture? Read this first. Nature. https://doi.org/10.1038/d41586-026-02369-9

Governo de Portugal. (2026, 30 de julho). Comunicado do Conselho de Ministros de 30 de julho de 2026. https://portugal.gov.pt/gc25/governo/comunicados-do-conselho-de-ministros/comunicado-do-conselho-de-ministros-de-30-de-julho-de-2026

Marinho, P., Leite, C., & Sousa-Pereira, F. (2024). A graduação em Educação Básica em Portugal como pré-requisito para o acesso a mestrados que habilitam para a docência nos seis primeiros anos de escolaridade. Educação (Santa Maria Online), 49(1). https://doi.org/10.5902/1984644485301

Público. (2025, 29 de novembro). Professores sem vagas suficientes para profissionalização em serviço. https://www.publico.pt/2025/11/29/sociedade/noticia/professores-vagas-suficientes-profissionalizacao-servico-2156459

Para saber mais

About to give your first lecture? Read this first (Nature) — a reportagem que está na origem deste artigo, com os testemunhos completos dos dez investigadores e docentes.

Professores sem vagas suficientes para profissionalização em serviço (Público) — para perceber melhor a situação de quem começa a lecionar em Portugal com habilitação própria.

A graduação em Educação Básica em Portugal como pré-requisito para o acesso a mestrados que habilitam para a docência (Educação, Santa Maria Online) — sobre a formação inicial de professores através de mestrado, com prática supervisionada nas escolas.

Comunicado do Conselho de Ministros de 30 de julho de 2026 — as medidas mais recentes do Governo sobre habilitação própria e falta de docentes.

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