Nonantzy López dá aulas de Ciências Sociais e coordena o programa CAS do Bacharelato Internacional, no México. Conta como foi mudando de papel ao longo de quase três décadas de ensino e como a IA generativa lhe tirou da frente uma parte da papelada para lhe devolver tempo com os alunos. O texto é um testemunho pessoal, útil e honesto, e deve ler-se como tal: o relato de uma professora, não um estudo.

Três mudanças antes de a IA chegar
López começou a dar aulas em 1997. Nessa altura, escreve, ensinar era transmitir: o professor falava, a turma recebia. Foi depois aprendendo outras maneiras de trabalhar, a aprendizagem baseada em problemas, em projetos, em casos, mais tarde a aula invertida e a gamificação, e admite que no princípio isso lhe custava. Se já não era ela a «dar a aula», como é que os alunos iam aprender? Para explicar o que mudou, recorre a Dewey e à ideia de que a experiência só se transforma em aprendizagem quando vem acompanhada de reflexão (Dewey, 1938, citado em López, s.d.).
A segunda mudança chegou em 2014, quando assumiu a coordenação do CAS (Criatividade, Atividade, Serviço), uma componente do Bacharelato Internacional. Teve de largar o controlo da sala. Os alunos passaram a desenhar os próprios projetos, do planeamento à execução, e ela ficou a acompanhar, a orientar e a devolver comentários. A terceira foi a pandemia, o ensino a distância, as ferramentas novas aprendidas à pressa. Diz que o mais valioso, nesse período, foi manter a ligação humana com os alunos, e que o CAS continuou a funcionar à distância.
A autora junta tudo isto num fio: cada etapa foi-a preparando, sem ela saber, para a seguinte. Parece-me uma observação verdadeira para muita gente. A tecnologia raramente aterra num terreno virgem. Aterra numa profissão que já mudou de método várias vezes e que, de cada vez, sentiu o mesmo medo.
Dar menos aulas e fazer mais coisas
Para López, evoluir como professora significa deixar a comodidade da aula tradicional e coordenar experiências reais: uma feira ambiental, uma peça de teatro, um debate ao modelo das Nações Unidas, um café solidário, uma campanha de dádiva de sangue. Chama-lhes professores «da vida real» e não esconde o custo. Há datas para cumprir, famílias e visitantes à porta, e nada pode ficar a meio. Por trás de cada atividade escondem-se ofícios, cronogramas, pedidos de material, autorizações e conversas com a direção. Quem já organizou uma visita de estudo ou uma semana temática conhece a lista de cor.
É aqui que entra a IA, e vale a pena reparar em que lado da secretária. Neste relato, não está nas mãos dos alunos. Está do lado do professor, na fase em que ele prepara.
O caso da democracia e da liberdade
O exemplo concreto chama-se «Democracia e liberdade em ação» e decorreu na disciplina de Ciências Sociais, associado ao movimento #MyFreedomDay, que a autora atribui à CNN. O desafio era pegar em temas muito teóricos (democracia, eleições, movimentos sociais, direitos humanos) e transformá-los numa vivência. A IA serviu para ligar os conteúdos do currículo à escravatura moderna e à exploração infantil, confirmar que o plano batia certo com o enunciado de indagação da unidade, redigir instruções por etapas e construir rubricas, isto é, grelhas de avaliação, para cada fase.
Os alunos fizeram campanhas contra a escravatura moderna, participaram numa simulação eleitoral validada pelo Instituto Nacional Eleitoral do México e fecharam o projeto com uma «Sala da Liberdade», um espaço imersivo onde recriaram o que é perder e recuperar a liberdade. Os testemunhos que a professora recolheu falam de confiança, de empatia e de gostar de escolher o próprio papel. São as palavras dela sobre o que os alunos disseram, e o texto não apresenta dados que as sustentem.
Os 30 % e a prudência
O número que mais salta à vista é este: desde que usa IA para escrever mensagens, instruções por fases, rubricas e até recensões, López diz ter poupado cerca de 30 % do tempo que gastava em tarefas administrativas e de planeamento. É uma estimativa dela, sem método descrito e sem ponto de partida, e por isso não se consegue traduzir em horas por semana (30 % de quantas?). Serve como hipótese a testar, não como prova.
Há pelo menos um enquadramento mais largo. O relatório de 2025 da Microsoft sobre IA na educação, que vem de uma empresa com produtos para vender e deve ser lido nessa condição, indica que os professores inquiridos usam a IA sobretudo para criar e atualizar aulas (31 %), simplificar temas complexos (24 %) e diferenciar o ensino (23 %). Diz também que 45 % dos professores, a nível mundial, não tiveram qualquer formação em IA, e que a preocupação mais citada por eles é o plágio (31 %), seguida da dependência excessiva (21 %) (Microsoft Education Team, 2025). Nada disto confirma os 30 % de López. Mostra apenas que o uso dela, preparar em vez de substituir, é corrente.
Ficam dois avisos que o texto da autora não traz e que são meus. O primeiro é que as rubricas e os planos gerados por IA parecem sempre mais rigorosos do que são. A coerência que López lhes atribui só existe depois de um professor os ter verificado, linha a linha, contra o currículo e contra os alunos que tem à frente. O segundo é que quem põe nomes, notas ou situações concretas de alunos num serviço externo está a tratar dados pessoais, e isso não deve ficar ao critério de cada docente. É assunto para a escola decidir, com regras claras e conhecidas por todos.
O que se pode aproveitar numa escola portuguesa
Projetos como este não são estranhos por cá. O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória dá peso à autonomia, ao pensamento crítico e à participação cívica, e simulações de eleições, debates e projetos de cidadania fazem parte do repertório de muitas escolas. O estrangulamento costuma ser o mesmo que López descreve, o tempo de preparação. Se a IA ajudar a encurtar essa fatia, quem ganha é o tempo com os alunos, que é o que ela diz ter conseguido.
O que se segue são sugestões minhas, não da autora. Começar pelo que está do lado do professor e não envolve dados de alunos: o calendário de um projeto, o rascunho de uma mensagem aos encarregados de educação, uma primeira versão de uma rubrica. Medir durante um período, apontando quanto tempo se gasta antes e depois, porque só com números próprios se fica a saber se os 30 % de López são também os nossos. Partilhar o resultado no grupo disciplinar ou no departamento, com o que correu bem e o que teve de ser corrigido, para que a experiência de um não fique só com um. E mostrar a rubrica aos alunos e pedir-lhes que a contestem. É um bom antídoto contra uma grelha demasiado bonita para ser verdade, e obriga a turma a pensar naquilo que está realmente a ser avaliado.
A UNESCO tem trabalhado nesta frente e publicou quadros de competências em IA para professores e para alunos, que podem servir de ponto de partida a uma conversa de escola sobre formação (UNESCO, s.d.).
O passo seguinte da autora
López diz que o próximo passo será usar IA generativa na coavaliação e na reflexão metacognitiva dos alunos, mantendo o equilíbrio entre inovação e ética. É um passo maior do que os anteriores, porque aí a IA deixa de trabalhar para o professor e passa a mexer no modo como os alunos pensam sobre o que aprendem. O texto não detalha como. É nesse ponto que a conversa fica mais exigente, e convém que a escola a tenha antes de ela chegar à sala de aula pela mão de cada professor.
No fim, a autora pergunta aos colegas se estão prontos para continuar a aprender. É uma boa pergunta, mas fica injusta se ficar só nos professores. Prontos com que formação, com que regras, com que tempo? Se quase metade dos docentes inquiridos pela Microsoft diz nunca ter tido formação, a resposta honesta é que a prontidão se constrói em conjunto, e não se pede a quem está sozinho na sala de aula.

Nota editorial: este artigo foi redigido com apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir de um único texto em espanhol, da autoria de Nonantzy López, cuja publicação de origem e data não consegui confirmar.
Referências
López, N. (s.d.). Redescubre la docencia con IA generativa [Artigo]. Texto em espanhol facultado como ponto de partida, sem indicação de publicação nem de data.
Microsoft Education Team. (2025, 20 de agosto). AI in Education Report: Insights to support teaching and learning. Microsoft Education Blog. https://www.microsoft.com/en-us/education/blog/2025/08/ai-in-education-report-insights-to-support-teaching-and-learning/ (consultado a 6 de outubro de 2026)
UNESCO. (s.d.). Artificial intelligence in education. https://www.unesco.org/en/digital-education/artificial-intelligence (consultado a 6 de outubro de 2026)
Para saber mais
- AI in Education Report (Microsoft), com ligação ao relatório completo e aos dados do inquérito.
- Quadros de competências em IA da UNESCO para alunos e professores, explicados pela própria organização.
- UNESCO: inteligência artificial na educação, página com orientações, publicações e eventos recentes.
- Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, documento de referência para o trabalho por competências nas escolas portuguesas.
