Ensinar pensamento crítico

Pensar é uma ação: o que Bell Hooks tem para dizer a quem ensina

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La existencia humana está, porque se hizo preguntando, en la raíz de la transformación del mundo. Existe una radicalidad en la existencia, que es la radicalidad del acto de preguntar. [ … ]
De modo radical, la existencia humana implica asombro y pregunta, riesgo y existencia. Y por eso mismo supone acción, transformación.

PAULO FREIRE, Por una pedagogía de la pregunta

Em «Ensinar pensamento crítico», Bell Hooks reúne 32 lições curtas sobre o que acontece dentro de uma sala de aula. Lemos a edição espanhola e ficámos com cinco ideias que servem a qualquer professor, num tempo em que a IA responde antes de os alunos terem pensado.

Há livros de educação que se leem de uma ponta à outra e outros que se abrem ao acaso, à procura de um parágrafo para a reunião da tarde. Este é do segundo tipo, e di-lo a própria autora: não quis escrever mais uma sequência de ensaios, quis responder, em textos de poucas páginas, a perguntas que professores e estudantes lhe foram fazendo durante anos. Chamou a cada resposta uma «ensinança». São trinta e duas, e a maioria cabe numa única leitura de intervalo.

A autora, bell hooks (pseudónimo de Gloria Jean Watkins, falecida em dezembro de 2021), publicou o original, Teaching Critical Thinking: Practical Wisdom, em 2010, e apresenta-o como o fecho de uma trilogia que começou com Ensinar a transgredir. Nós lemos a tradução espanhola da Rayo Verde, de 2022. Existe uma edição brasileira, publicada pela Elefante, que não consultámos. As citações que se seguem são traduções nossas a partir do espanhol, por isso tomem-nas como aproximações e não como texto oficial.

Pensar não é decorar

O livro abre com uma frase que podia estar escrita na parede de qualquer escola: «pensar é uma ação». A autora parte de uma ideia simples e desconfortável. As crianças chegam à escola a fazer perguntas sem parar, a querer saber o quê, o quando, o porquê, e algures pelo caminho aprendem que pensar é arriscado e que obedecer compensa mais. Quando chegam ao ensino superior, diz, muitos têm medo de pensar, ou então assumem que o trabalho consiste em «processar informação e vomitá-la nos momentos adequados».

É uma observação feita a partir da universidade americana, mas quem anda por salas de aula portuguesas reconhece-lhe o desenho. Já tínhamos escrito sobre isto a propósito de a escola da resposta certa, e é curioso encontrar aqui a mesma inquietação, vinda de outro continente e de outra década. O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória inclui o pensamento crítico e criativo, mas um perfil não ensina ninguém a pensar. Quem ensina é quem organiza a aula.

Para definir pensamento crítico, hooks vai buscar vários autores, entre eles Daniel Willingham, que o descreve como examinar os dois lados de uma questão, manter-se aberto a provas que desfaçam ideias imaturas e exigir que os argumentos se apoiem em factos. Willingham é também uma das vozes ouvidas na reportagem da Nature que discutimos em Pensar dá trabalho. O que hooks acrescenta é uma exigência dirigida aos professores: a mente aberta que pedimos aos alunos também é nossa obrigação. Propõe uma «abertura radical» e admite que, numa formação académica que ensina a ter sempre razão, isso custa coragem.

Antes da matéria, as pessoas

A «pedagogia do compromisso» (engaged pedagogy) é o nome que a autora dá ao seu método, e a ideia de base é que se aprende melhor quando aluno e professor interagem de facto. Conta que, no início da carreira, estava tão obcecada com cobrir o programa que não gastava um minuto a deixar os estudantes apresentarem-se. Mais tarde percebeu que, quando a turma se conhecia, a energia mudava. Hoje não começa a ensinar sem ter criado primeiro uma pequena comunidade na sala.

Os exercícios que descreve são modestos. Um parágrafo escrito na hora a partir de uma frase como «o melhor momento da minha vida foi quando…», lido em voz alta. Um objeto trazido de casa e um texto curto sobre o que vale para quem o trouxe. E uma regra que nos pareceu das mais honestas do livro: não pede aos estudantes um exercício de escrita que ela própria não esteja disposta a fazer.

Há ainda uma nuance que raramente se diz. Compromisso não quer dizer que todas as vozes tenham o mesmo tempo a todo o momento. A autora critica a obsessão com a «equanimidade» matemática, em que todos falam durante os mesmos minutos, e lembra que há alunos que contribuem escutando bem, e outros que falam pouco e dizem muito quando escrevem. Numa turma de 3.º ciclo, onde há sempre dois ou três alunos que respondem a tudo, a distinção ajuda. E a primeira aula parece-nos um bom sítio para começar a praticá-la.

Menos exposição, mais conversa

Aqui hooks é quase provocadora. Confessa que grande parte do seu ensino começa com uma exposição longa e que, mesmo assim, a considera a ferramenta menos útil para transmitir ideias. Quando a exposição passa dos vinte minutos, escreve, boa parte do público já desligou. Convém dizer que é uma observação dela, feita a partir da experiência, e não um resultado de investigação. Ainda assim, é difícil não a ouvir como uma pergunta para qualquer reunião de grupo disciplinar.

Em alternativa, defende a conversa como instrumento pedagógico e democrático. Cita o educador Dennis Rader para dizer que as conversas revelam a inteligência de todos os que participam, enquanto as apresentações revelam só a do orador (ou a falta dela). E rebate o medo mais comum: o de que, se deixarmos conversar, não chegamos ao programa. Para ela, uma conversa a sério acaba por pôr em destaque o que realmente importa na matéria.

Dentro desta lógica, há uma passagem que merece ser guardada. Na formação académica ensinaram-lhe a responder sempre a tudo, mesmo sem saber a resposta. hooks classifica essa prática como «horrível» e prefere dizer que não sabe e que vai pensar no assunto. É um gesto que não custa nada a quem ensina.

Imaginar e ler

«O que não conseguimos imaginar não pode chegar a ser», escreve, e o capítulo sobre imaginação defende que os factos só se ativam quando alguém os liga a alguma coisa. Os exemplos que dá são concretos. Numa disciplina de literatura afro-americana, mandava os alunos lerem poemas de Langston Hughes a desconhecidos, na rua, e escreverem sobre a reação. Em qualquer disciplina, usa textos curtos escritos de improviso para pôr a imaginação da turma a mexer.

O capítulo sobre a leitura é o mais pessoal. Fala da mãe, que comprava livros contra a vontade do pai, e do pai, que achava mais importante saber ler e pensar criticamente do que ter um diploma. Fala dos estudantes que chegavam sem ler o material obrigatório e queriam participar na discussão na mesma, e de uma expressão que usa nas suas recensões: «o mais comprado, o menos lido». Termina com uma responsabilidade que nos toca de perto: para quem ensina, promover a leitura faz parte do trabalho, e não apenas do gosto. Se lerem este parágrafo ao lado do que escrevemos sobre ler devagar com Anne Carson ou sobre os rapazes e os livros, vão ver que o fio é o mesmo.

E a inteligência artificial?

Convém sermos claros: Hooks escreveu em 2010 e não fala de IA generativa. Tudo o que se segue é leitura nossa, não dela. Mas ela fala de ecrãs. Diz que os computadores são excelentes para obter informação e que, mal usados, embotam a imaginação, porque diante do teclado o papel de quem trabalha é muitas vezes passivo. E conta que, ao dizer a colegas que queria melhorar a ortografia, lhe responderam que para isso há o corretor do computador. Ela insistiu: ler ajudava-a a trazer palavras novas para a vida.

É fácil trocar «corretor» por «assistente de IA» e ver a pergunta que fica: o que deixamos de exercitar quando a máquina faz o esforço por nós? O lado oposto está em Redescobrir a docência com a IA generativa, onde uma professora conta o tempo que a IA lhe poupa na preparação das aulas. Se esse tempo voltar para a conversa com os alunos, talvez a autora aprovasse. Se for para dar mais matéria, não sabemos.

Resta uma pergunta para a próxima aula, ou para a próxima reunião de grupo. Numa aula de noventa minutos, quanto tempo falamos nós antes de alguém dizer uma coisa que não sabíamos?

Nota editorial: este texto foi redigido com apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic) e revisto pelos autores.

Referências

Borges, J. (2026, 22 de setembro). Ler em tempos de algoritmos: os rapazes, os livros e uma brecha anunciada. TIC, Educação e WEB. https://jfborges.com/2026/09/22/ler-em-tempos-de-algoritmos-os-rapazes-os-livros-e-uma-brecha-anunciada/

Borges, J. (2026, 23 de setembro). A escola da resposta certa: que espaço sobra para pensar? TIC, Educação e WEB. https://jfborges.com/2026/09/23/a-escola-da-resposta-certa-que-espaco-sobra-para-pensar/

Borges, J. (2026, 24 de setembro). Pensar dá trabalho: pensamento crítico na era da IA. TIC, Educação e WEB. https://jfborges.com/2026/09/24/pensar-da-trabalho-pensamento-critico-na-era-da-ia/

Borges, J. (2026, 25 de setembro). A primeira aula: o que ninguém nos ensinou sobre ensinar. TIC, Educação e WEB. https://jfborges.com/2026/09/25/a-primeira-aula-o-que-ninguem-nos-ensinou-sobre-ensinar/

Borges, J. (2026, 6 de outubro). Redescobrir a docência com a IA generativa. TIC, Educação e WEB. https://jfborges.com/2026/10/06/redescobrir-a-docencia-com-a-ia-generativa/

Borges, J. (2026, 9 de outubro). Anne Carson, Nobel da Literatura 2026: o que a escola pode aprender com quem lê devagar. TIC, Educação e WEB. https://jfborges.com/2026/10/09/anne-carson-nobel-da-literatura-2026-o-que-a-escola-pode-aprender-com-quem-le-devagar/

Direção-Geral da Educação. (s.d.). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória. Obtido a 11 de outubro de 2026, de https://dge.mec.pt/perfil-dos-alunos

Hooks, b. (2010). Teaching critical thinking: Practical wisdom. Routledge.

Hooks, b. (2022). Enseñar pensamiento crítico (V. Sabaté, Trad.). Rayo Verde. (Obra original publicada em 2010)

Publishers Weekly. (s.d.). [Obituário de bell hooks]. Obtido a 11 de outubro de 2026, de https://www.publishersweekly.com/pw/by-topic/industry-news/Obituary/article/88178-acclaimed-black-feminist-bell-hooks-dies-at-69.html

Para saber mais

Ensinando pensamento crítico: sabedoria prática, edição brasileira (Elefante, 2020, tradução de Libanio Bhuvi), a que não tivemos acesso.

Rayo Verde Editorial, a editora da edição espanhola.

Nove pensadores para levar para a sala de aula, onde Bell Hooks não aparece, e talvez devesse.

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