A escola da resposta certa: que espaço sobra para pensar?

Uma escola que valoriza o pensamento crítico precisa de lhe dar espaço nas aulas e na avaliação. A reflexão da Ethic sobre a «cultura da sanduíche» convida-nos a olhar para aquilo que ensinamos os alunos a fazer para terem sucesso.

«É para dar a nossa opinião ou a que está no livro?»

Imaginemos esta pergunta numa sala de aula. Antes de a interpretar como preguiça ou provocação, vale a pena escutá-la. O aluno está a tentar perceber as condições do trabalho: até onde pode ir, que argumentos serão aceites, quanto lhe pode custar afastar-se do exemplo.

A resposta do professor tem consequências. E a forma como esse trabalho será avaliado terá ainda mais.

No artigo «La cultura del sándwich: cuando la mediocridad se convierte en sistema», publicado na Ethic, Antonio Guerrero Ruiz recorre à sanduíche mista como imagem de uma oferta cultural previsível. A partir do conceito de mediocracia de Alain Deneault, interroga organizações que favorecem a adaptação às suas regras e tornam mais difícil o reconhecimento de propostas independentes.

O texto centra-se no mundo da cultura. A leitura que aqui propomos leva essa inquietação para outro lugar: as decisões quotidianas através das quais a escola ensina os alunos a participar, a argumentar e a aprender.

O que conta numa boa resposta?

Um professor apresenta uma tarefa, explica os objetivos e mostra um exemplo. Esse apoio pode ser indispensável, sobretudo para quem tem dificuldade em começar. Mas convém esclarecer o estatuto do exemplo: serve para perceber o trabalho ou deve ser reproduzido?

Pensemos numa apresentação sobre o consumo de água. Um grupo segue a estrutura sugerida e reúne informação correta. Outro decide analisar os consumos da escola, encontra lacunas nos registos e termina com conclusões provisórias. Como avaliar os dois trabalhos?

O segundo não merece uma classificação superior apenas por ter escolhido um caminho diferente. Precisamos de examinar a qualidade dos dados, os conhecimentos mobilizados e a prudência das conclusões. Também precisamos de evitar que a distância em relação ao modelo seja, por si só, uma penalização.

Os critérios devem tornar reconhecível a qualidade de percursos diferentes. Para isso, têm de dizer mais sobre o que se aprende do que sobre o aspeto que o produto final deve ter.

Dar trabalho ao pensamento crítico

O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória inclui o pensamento crítico e o pensamento criativo entre as áreas de competências a desenvolver. A ambição está inscrita no referencial. Cabe às práticas dar-lhe condições.

Uma possibilidade simples consiste em pedir aos alunos que identifiquem uma fragilidade no próprio trabalho. Que fonte lhes merece menos confiança? Que informação poderia alterar a conclusão? Que parte do argumento exige mais investigação?

Estas perguntas ajudam a tornar a reflexão observável. Permitem ainda distinguir a segurança com que alguém apresenta uma ideia da qualidade das razões que a sustentam.

Há aqui uma aprendizagem exigente: reconhecer uma dúvida sem desistir de procurar uma resposta. O professor pode acompanhá-la com perguntas, exemplos e correções. Pensar com autonomia também se ensina.

Avaliar o caminho, além da entrega

Se queremos compreender o que um aluno aprendeu, o trabalho entregue pode precisar de companhia: um rascunho comentado, uma breve conversa, o registo de uma decisão ou uma segunda versão.

Não é necessário transformar cada atividade num dossier. Numa tarefa de escrita, por exemplo, pode bastar pedir dois parágrafos revistos e uma explicação das alterações. Numa pesquisa, justificar a escolha de duas fontes. Num problema, apresentar a tentativa que falhou e localizar o erro.

Assim, a avaliação ganha elementos para reconhecer o progresso. Um aluno que começa com dificuldades pode mostrar uma aprendizagem importante, mesmo que o resultado ainda tenha imperfeições.

Esta atenção ao percurso exige escolhas realistas. Com turmas numerosas, será mais viável aplicá-la a algumas tarefas bem selecionadas do que acrescentar registos a tudo o que já se faz.

Clicar na imagem para ver a apresentação…

O digital precisa de intenção pedagógica

Na escolha de uma ferramenta digital, vale a pena começar pela aprendizagem que se pretende observar. Um questionário pode ajudar a verificar conhecimentos; um documento partilhado pode permitir discutir e rever argumentos. A utilidade depende da tarefa e do acompanhamento.

O mesmo cuidado deve orientar propostas que admitam inteligência artificial. Podemos pedir ao aluno que verifique uma afirmação produzida pela ferramenta, encontre a fonte que a confirma ou contesta e explique a decisão de a manter ou eliminar.

O interesse pedagógico está nesse trabalho de verificação. Um texto fluente, por si só, oferece pouca informação sobre aquilo que o aluno compreendeu.

Antes de avaliar a qualidade da apresentação, precisamos de saber que decisões o aluno consegue explicar.

Condições para ensinar melhor

Também os professores precisam de oportunidades para examinar o próprio trabalho. Uma reunião pedagógica pode reservar tempo para discutir uma dificuldade concreta: uma tarefa que não resultou, um critério que gerou dúvidas, uma estratégia que ajudou alguns alunos e deixou outros para trás.

Para essa conversa ser útil, é preciso conseguir mostrar uma experiência incompleta sem receio de que ela seja tomada como retrato de toda a competência profissional. Partilhar dificuldades deve permitir encontrar apoio e melhorar decisões.

Não se resolve isto exigindo criatividade permanente a quem já tem pouco tempo. Pode começar-se por rever uma tarefa em conjunto, simplificar um registo ou experimentar uma alteração pequena e observar o que acontece.

Na próxima vez que um aluno perguntar se pode responder de outra maneira, temos uma oportunidade concreta. Podemos pedir-lhe que explique o caminho que pretende seguir, ajudá-lo a perceber as exigências e combinar como será avaliado.

Talvez a sua proposta precise de ser corrigida. Talvez nos obrigue a rever a nossa. A aula terá espaço para ambas as aprendizagens.

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Nota de transparência: este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial (ChatGPT, da OpenAI).

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