Download |
Há uma promessa que paira sobre a educação há décadas: as tecnologias irão transformar o ensino e a aprendizagem. No entanto, a realidade observada nas instituições de ensino superior continua a ser «pouco inspiradora», como reconhece a coordenadora da obra Tecnologias Educativas no Ensino Superior, Joana Viana, investigadora do UIDEF — Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.
Este livro, recentemente publicado na coleção UIDEF, reúne oito estudos que olham, com rigor e sentido crítico, para o estado atual das tecnologias educativas no ensino superior em Portugal e no contexto lusófono. Cada capítulo aborda um problema ou uma prática concreta, partindo sempre de uma ancoragem teórica sólida. É uma leitura essencial para quem trabalha ou investiga na área da educação com tecnologias.
O problema de fundo: tecnologia sem pedagogia
Uma das ideias centrais do livro é que a integração de tecnologias no ensino superior só produz impacto real quando está alinhada com uma abordagem pedagógica e curricular centrada no estudante. A chamada plataformização da educação tem reforçado uma lógica instrumentalista e comportamentalista, colocando mais ênfase no conhecimento como produto do que nos processos de construção desse conhecimento.
A investigação mostra também que os principais desafios identificados durante o ensino remoto de emergência na pandemia não foram tecnológicos — foram pedagógicos e curriculares. Isto significa que a questão não é «que ferramenta usar», mas sim «para que fim pedagógico, com que intencionalidade e em que contexto».
25 Anos de investigação em Portugal
No capítulo de abertura, Joana Viana apresenta um estudo descritivo e interpretativo sobre as teses de doutoramento produzidas em Portugal sobre tecnologias educativas no ensino superior, entre 1995 e 2024. De um total de 2525 teses no domínio da Educação registadas no arquivo RENATES, apenas 44 incidem sobre tecnologias educativas no ensino superior — o que representa 1,7% da produção total.
A cronologia dos temas acompanha a evolução tecnológica: dos primeiros estudos sobre e-learning e ensino a distância, passando pelo blended-learning, pelo mobile-learning, pela gamificação e pelos recursos educativos abertos, até aos trabalhos mais recentes sobre realidade aumentada e competências digitais. O grande salto quantitativo deu-se na última década, com 75% das teses publicadas após 2010.
Entre os principais problemas identificados na investigação nacional destaca-se a ausência frequente de fundamentação teórica explícita, com o digital a funcionar muitas vezes apenas como contexto de estudo, em vez de ser o objeto central de análise.
Tecnologia, poder e neoliberalismo
Carine Bueira Loureiro traz uma perspetiva crítica incontornável: através de uma análise discursiva foucaultiana de 24 teses e dissertações brasileiras, evidencia como as políticas de formação de professores — como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) — operam sob uma racionalidade neoliberal que reduz as tecnologias a «instrumentos utilitaristas».
As tecnologias são apresentadas, neste quadro, como soluções simples para problemas complexos, reforçando uma lógica de competências que negligencia as dimensões pedagógicas, éticas e políticas mais amplas. Esta análise ressoa muito para além do Brasil: é um espelho em que o sistema educativo português também se pode rever.
Literacia em Inteligência Artificial: muito mais do que saber usar
O capítulo de Hélder Touxas é, porventura, um dos mais actuais e prementes do livro. Baseado numa revisão sistemática de 64 artigos científicos (protocolo PRISMA), clarifica o que se entende — e o que se deve entender — por Literacia em Inteligência Artificial (Literacia em IA).
A definição mais consensual na literatura, proposta por Long e Magerko (2020), define-a como um conjunto de competências que permite aos indivíduos avaliar criticamente as tecnologias de IA, comunicar e colaborar com a IA, e utilizá-la como ferramenta em diferentes contextos — em casa, no trabalho, online. Esta definição sublinha que a Literacia em IA não exige necessariamente competências avançadas de programação, mas sim uma compreensão prática e crítica das suas implicações sociais e éticas.
Entre as dimensões fundamentais do construto, o estudo destaca:
- Compreender os fundamentos e funcionamento da IA
- Usar e aplicar ferramentas de IA em contextos reais
- Avaliar criticamente os resultados e os vieses algorítmicos
- Refletir sobre as implicações éticas e sociais da IA
O capítulo alerta ainda para a necessidade urgente de integrar a Literacia em IA nos currículos do ensino superior — não como uma área técnica restrita às STEM, mas como uma competência transversal a todos os domínios profissionais.
Educação online em Portugal: um mapa atualizado
Raquel Sofia e Joana Viana mapearam, a partir dos sítios web de todas as instituições de ensino superior portuguesas (dados de 2025), a oferta formativa online em Portugal. Os resultados revelam que cerca de metade das 83 instituições existentes disponibiliza cursos online não conferentes de grau, e que o mestrado é o ciclo de estudos com mais oferta online.
A área de Ciências Sociais e Humanas é a que apresenta maior número de cursos online, especialmente no setor politécnico e privado. O estudo constata ainda que 13 instituições — sobretudo do setor público — já criaram equipas de apoio à produção de conteúdos educativos online, com profissionais de educação com funções de instructional design ou learning design. Este é um sinal de maturidade institucional, mas também um desafio que exige investimento continuado no desenvolvimento profissional docente.
O digital na formação de professores de línguas
Sandra Fradão analisa a integração de tecnologias nos programas nacionais de formação inicial de professores de Línguas Estrangeiras. Os resultados são reveladores: apesar de haver sinais de progresso, a integração das tecnologias na formação docente permanece marcada por uma lógica predominantemente instrumental, à semelhança do que se verifica em outros contextos analisados no livro.
Preparar professores para um uso pedagógico crítico e inovador das tecnologias — e não apenas técnico — continua a ser um desafio central na formação docente em Portugal.
Combater a desinformação em contexto educativo
O capítulo de Vanessa Veríssimo, resultante de investigação de mestrado, analisa as iniciativas de literacia digital para adultos em Portugal orientadas para o combate à desinformação. Instituições como o Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS), a BAD (Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas) e projetos como o Iberifier desenvolvem formações com foco na verificação de factos e na promoção do pensamento crítico.
Contudo, o estudo identifica fragilidades importantes: a distribuição geográfica desigual das iniciativas, os desafios de acessibilidade para populações com menores competências digitais, e a necessidade de abordagens mais reflexivas que transcendam a mera utilização de ferramentas de fact-checking.
Podcasts como estratégia pedagógica
Joana Carvalho-Marques traz um exemplo concreto de inovação pedagógica: o uso de podcasts no ensino do Português como Língua Estrangeira, numa unidade curricular de Conversação frequentada por estudantes chineses da licenciatura em Tradução e Interpretação.
A estratégia combina a criação de podcasts com o portefólio de aprendizagem como instrumento de avaliação, promovendo o envolvimento ativo dos estudantes na construção do conhecimento e no desenvolvimento de competências comunicativas. É um exemplo de como a tecnologia, quando usada com intencionalidade pedagógica clara, transforma a experiência de aprendizagem.
Digital Storytelling: aprender contando histórias
No último capítulo, Olga Valentim e Sílvia Roda analisam a implementação do Digital Storytelling (DS) em dois contextos distintos: numa licenciatura em Enfermagem e em cursos de Ensino e Animação Sociocultural.
Os resultados demonstram que o DS, ancorado em princípios construtivistas, experienciais e humanistas, contribui significativamente para:
- O desenvolvimento de competências de literacia digital e multimodal
- O autoconhecimento e a reflexividade dos estudantes
- O desenvolvimento de competências interpessoais, comunicacionais e criativas
- Uma maior ligação identitária ao percurso formativo
Os testemunhos dos estudantes revelam uma experiência formativa descrita como transformadora — uma prova de que a tecnologia, ao serviço de uma pedagogia centrada na pessoa, pode ser profundamente humanizadora.
Uma obra para não perder
Tecnologias Educativas no Ensino Superior, coordenada por Joana Viana e produzida no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, é muito mais do que um relatório de investigação. É um convite à reflexão crítica sobre o que fazemos com as tecnologias na educação — e, sobretudo, sobre o porquê e o para quê.
Professores do ensino superior, formadores, investigadores, bibliotecários e responsáveis por políticas educativas encontrarão nesta obra dados, perspetivas e argumentos que desafiam os lugares-comuns sobre inovação tecnológica na educação. Porque, como ficou claro ao longo de todos os capítulos, a tecnologia não transforma a educação por si só — são as pessoas, as pedagogias e as intenções que fazem a diferença.
Este artigo foi elaborado a partir da obra Tecnologias Educativas no Ensino Superior, coordenada por Joana Viana, com autoria de Carine Bueira Loureiro, Hélder Touxas, Joana Carvalho-Marques, Joana Viana, Olga Valentim, Raquel Sofia, Sandra Fradão, Sílvia Roda e Vanessa Veríssimo. Publicação UIDEF — Instituto de Educação, Universidade de Lisboa.


