Uma Europa que nada contra a corrente: o que a escola pode aprender com Arancha González Laya

No fim de 2025, num debate com cidadãos, um homem disse a Arancha González Laya que era pacifista, que acreditava na União Europeia como projeto de paz e que andava em guerra consigo próprio, porque uma parte de si sabia que a paz talvez exigisse rearmar-se. A antiga ministra dos Negócios Estrangeiros de Espanha conta o episódio numa entrevista à revista Ethic. Lemo-la a pensar em salas de aula: o que lá cabe, o que convém verificar e o que fica em aberto.

A entrevista saiu a 19 de outubro, assinada por Carmen Gómez-Cotta, com um título que dá o tom: «La Unión Europea es una criatura que nada a contracorriente de la Historia». Do outro lado está uma jurista que foi ministra dos Negócios Estrangeiros entre 2020 e 2021, dirigiu durante seis anos o Centro de Comércio Internacional (agência conjunta da ONU e da Organização Mundial do Comércio) e é hoje decana da Paris School of International Affairs, na Sciences Po (German Marshall Fund, s.d.). A conversa gira à volta do livro Solos en el mundo (Arpa, 2026), apresentado este ano, por exemplo, no Fórum Europeu de Alpbach, e a Ethic enquadra-a nas ameaças de Donald Trump de retirar o apoio dos Estados Unidos em matéria de segurança e defesa. Apresenta-a, de resto, como defensora acérrima do projeto europeu, e convém lê-la com isso à vista.

Não lemos o livro, só a entrevista, e ela é o que é: a voz de uma pessoa com posição firme, que diz de que lado está. Para trabalhar na escola, isso é uma vantagem. Um texto com tese dá aos alunos algo para desmontar, e pedir-lhes que encontrem o que a sustenta e o que lhe falta é um bom exercício.

Uma criatura rara e, por isso, mais exposta

A imagem do título resume a tese. Para González Laya, a União Europeia é uma espécie sem equivalente: nasceu para esvaziar de poder o Estado-nação e juntar as vontades de vinte e sete países num projeto comum, e essa singularidade torna-a mais frágil quando o aliado de sempre muda de tom. Lembra que a União se construiu com o apoio e o capital dos Estados Unidos, e diz que a nova Estratégia de Segurança Nacional norte-americana escreve preto no branco que Washington quer acabar com ela e tratar com cada Estado por si.

Esta última frase pede cautela, e vale a pena chamar a atenção dos alunos para isso. As notícias sobre o documento, divulgado no início de dezembro de 2025, descrevem-no como muito duro com a União e com a sua regulação, e falam de um «apagamento civilizacional» que ameaçaria a Europa (NBC News, 2025). Outros analistas leem nele sobretudo a exigência de que a Europa passe a tratar mais da sua própria segurança (Institute for European Policymaking, s.d.). Não conseguimos confirmar, no texto original, a formulação que a entrevistada resume. Fica atribuída a ela.

Um exército que já existe, com o comando noutras mãos

Quando a jornalista pergunta se a Europa precisa de um exército próprio ou de reforçar a NATO, González Laya recusa o ponto de partida. Falar de exército, diz, é começar mal, porque ele já existe: cada missão da NATO a patrulhar o flanco leste é um exército multinacional feito de militares de vários países. Só lhe falta o comando das operações, cuja última palavra pertence aos Estados Unidos. A discussão a ter seria como construir capacidade de dissuasão sem os norte-americanos ou até contra eles.

A entrevistadora estranhou e perguntou: «contra?». A resposta foi a Gronelândia. Quando o presidente dos Estados Unidos ameaçou ficar com o território dinamarquês, argumenta ela, ameaçou a União Europeia, e o episódio marcou um antes e um depois na relação com a administração norte-americana. É uma leitura forte, e é dela.

Vinte e sete vozes e uma frase para escrever

Havia uma voz europeia nesse momento? Houve, responde: a da primeira-ministra dinamarquesa, que fixou a posição, ao lado do chefe do governo da Gronelândia. A partir daí endureceu o discurso dos outros países e chegou a falar-se de usar contra os Estados Unidos o instrumento anticoerção da União, coisa até então impensável. Mas a ideia de que a Europa fala a uma só voz, remata, não funciona. São vinte e sete, com vinte e sete histórias e contextos políticos, e o coro ora soa bem, quando as mensagens se alinham, ora desafina.

Para uma aula de Cidadania é difícil pedir melhor. Escrevemos há pouco, a propósito de uma conversa entre Felipe González e Sergio del Molino, que só há consenso verdadeiro quando houve confronto antes. Aqui está um caso real de vozes diferentes à procura de uma frase que todas possam assinar.

Quem travou quem?

A passagem que mais nos fez parar foi a dos mercados. Segundo González Laya, a maior oposição ao presidente norte-americano veio dos mercados financeiros, na guerra das tarifas e no caso da Gronelândia, quando vários fundos de pensões nórdicos disseram que saíam do mercado de dívida dos Estados Unidos. Eram fundos pequenos e de impacto limitado, admite, mas a mensagem política passou.

A parte factual confirma-se. Em janeiro de 2026, o fundo dinamarquês AkademikerPension anunciou que ia vender cerca de 100 milhões de dólares em obrigações do Tesouro norte-americano, e o sueco Alecta já vinha reduzindo as suas desde o início de 2025 (Bloomberg Línea, 2026). O fundo dinamarquês apontou as finanças públicas dos Estados Unidos como razão e, segundo alguns relatos, também a pressão sobre a Gronelândia (CNBC, 2026). No mesmo mês, o presidente norte-americano disse que não usaria a força e anunciou um enquadramento de acordo, negociado com o secretário-geral da NATO, deixando cair a ameaça de tarifas sobre países europeus, segundo a cobertura da CBS News (2026). Daqui a dizer que foram os mercados a travá-lo vai um passo, e quem o dá está a interpretar. A ordem dos acontecimentos não prova a causa. É um exemplo limpo para uma aula de pensamento crítico, e dá para explicar de caminho o que é uma obrigação do Tesouro e porque é que a venda de muitas delas pesa.

Um pormenor deixa a entrevista desatualizada. A propósito do Ártico, ela diz que a Islândia, que abandonou as negociações de adesão depois da crise financeira de 2008, volta a pensar num referendo. O referendo já se realizou, a 29 de agosto de 2026, e o que se votava era se se deviam retomar as negociações de adesão, não se o país entrava na União. Ganhou o não, com 52,8 % contra 47,2 %, uma diferença de 5,6 pontos percentuais (52,8 − 47,2 = 5,6), e a primeira-ministra, que defendia o sim, disse que o governo não retomará as conversações nesta legislatura (La Estrella de Panamá, 2026). Quanto ao calendário, as notícias que lemos situam o pedido de adesão em 2009 (Le Grand Continent, 2026) e a suspensão das negociações em 2013 (Euronews, 2026), o que não coincide por inteiro com o que a entrevista sugere. Não sabemos quando foi feita a conversa, mas pelo que diz foi antes de 29 de agosto. Ensinar os alunos a olhar para a data de uma fonte parece pouco, e é das coisas que mais evitam erros.

O dilema do pacifista

É o momento mais humano da entrevista. O homem do debate acredita na União como projeto de paz e luta contra si próprio, porque sabe que só se mantém a paz se o país se rearmar. González Laya não lhe dá uma resposta fácil. Diz que não quer transformar a Europa num projeto de guerra, mas que a União não pode continuar a ambicionar ser defensora da paz sem a capacidade de a impor, incluindo a de se defender de quem hoje a ataca.

Daqui tira que o contrato social europeu tem de mudar. Não se pode separar o bem-estar da segurança, e não se trata de escolher entre canhões e manteiga: não há bem-estar, argumenta, se formos vassalos de uma Rússia que decide como se mudam as fronteiras ou se não conseguirmos garantir a segurança das infraestruturas de energia. A mesma lógica de triângulo aparece quando fala do Pacto Ecológico Europeu. O erro, para ela, não foi o pacto, foi ter-se calado sobre a fatura. Faltou equilibrar três coisas ao mesmo tempo: descarbonização, competitividade com coesão social, e segurança.

China, Irão e uma rota pelo Ártico

Sobre a China, a tese é que Pequim não quer substituir os Estados Unidos como potência hegemónica, porque isso custa caro. Ocupa de forma seletiva os lugares que lhe interessam e investe no sistema internacional de regras para que se pareçam mais com os seus interesses, sem as destruir, ao contrário da Rússia, na comparação dela. A estratégia europeia, admite, ainda está por definir, e os Estados-membros só agora começam a perceber a dificuldade. Vê dois pontos de atrito: o apoio indireto da China à Rússia na guerra da Ucrânia e o desequilíbrio da economia chinesa, que, segundo ela, tem um terço da capacidade industrial do mundo e um consumo interno limitado, pelo que usa os mercados externos como válvula. Com o mercado norte-americano fechado, a válvula passou a ser a Europa, e o excesso de capacidade aparece em setores onde a Europa também quer ser competitiva: tecnologias verdes, biocombustíveis, química, espaço. Não verificámos o «terço», que é número dela.

Sobre o conflito dos Estados Unidos com o Irão, o raciocínio é que uma América enfraquecida é má notícia para a Europa e que o Golfo é vizinhança mediterrânica, nó logístico e energético da economia mundial. E levanta uma hipótese: e se as rotas que hoje passam por Gibraltar, pelo Mediterrâneo e por Suez passassem a fazer-se pelo Ártico, por efeito conjunto das alterações climáticas e da geopolítica? Haveria muito a perder. É uma pergunta que deixa em aberto, e assim convém lê-la, como hipótese e não como previsão.

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Solidão fértil

A conclusão volta à imagem do isolamento. A Europa está sozinha, diz, e essa solidão tanto pode ser um vazio que a deixa sem força como um empurrão para agir. É a isto que chama solidão fértil, e a disjuntiva é essa.

Reparámos que a entrevista vive de imagens: a criatura, o coro, o triângulo, a solidão fértil. São boas, e é por serem boas que convém perguntar o que fazem ao argumento, porque uma imagem feliz circula com mais facilidade do que a verificação que a devia acompanhar. Foi o que tentámos dizer a propósito das histórias que se espalham por serem boas histórias.

Cinco coisas para experimentar com uma turma

O que se segue são ideias nossas, ainda por testar com alunos, e todas pedem que o professor deixe à porta a sua opinião sobre os temas. A Comissão Europeia pôs a cidadania, ao lado da literacia, da matemática, das ciências e do digital, entre as cinco competências básicas do plano de 2025, como contámos num artigo anterior. O tema, ao nível europeu, já não é periférico.

Começar pela leitura. A Ethic calcula onze minutos para ler a entrevista. Em espanhol serve às aulas de línguas, e em excertos traduzidos serve a qualquer disciplina. Cada grupo fica com uma secção e separa o que lê em três montes: factos que se podem verificar (a Islândia votou?), interpretações (os mercados travaram o presidente norte-americano) e hipóteses (e se as rotas passarem pelo Ártico?). Depois escolhe uma afirmação e vai à procura de fontes para a confirmar ou desmentir. A Islândia dá trabalho logo à partida. Sobre quem decide o que se dá por verdadeiro, já escrevemos neste artigo, e sobre combater a desinformação na sala de aula neste outro.

Depois, uma simulação. Cada grupo faz de governo europeu, de Comissão, de fundo de pensões ou de associação de cidadãos de um território sob pressão, e tem dez minutos para redigir, em conjunto, uma frase que todos aceitem subscrever. Raramente sai unanimidade. A conversa sobre o que cada um cedeu para chegar lá é a melhor parte.

Terceira, o debate do pacifista, em formato de controvérsia estruturada. Dois lados: a paz exige capacidade de a defender; mais armas podem tornar o mundo mais perigoso e gastar o que faria falta noutro lado. Cada grupo defende uma posição, depois trocam, e no fim cada aluno escreve o que o faria mudar de ideias. O professor que não revela a sua posição ganha crédito junto da turma.

Quarta, o triângulo aplicado ao que está perto. Pegar numa decisão da escola ou da cidade (um projeto de energia, uma obra) e perguntar o que ganha e o que perde cada vértice, e quem paga a fatura. Funciona para quem sabe pouco de política internacional, porque o raciocínio é o mesmo.

Quinta, para a Geografia e a Economia. Marcar num mapa as rotas por Suez e pelo Ártico e discutir o que mudaria se o tráfego se desviasse. E confrontar o terço da capacidade industrial chinesa com dados de organismos internacionais: se não coincidir, perceber porquê (que indicador? que ano?). Os alunos aprendem que um número dito com segurança numa entrevista continua a ser um número por confirmar.

Do outro lado da mesa

Isto é a leitura de uma pessoa, e há outras, algumas das quais a própria entrevista deixa ver. Quem defende mais poder para os Estados, a quem ela chama neonacionalistas (o termo é dela, e eles descrevem-se de outra maneira), argumenta que a legitimidade democrática vive sobretudo a nível nacional e que cada cedência de soberania exige o consentimento dos eleitores. É, aliás, a dificuldade que ela reconhece quando fala da necessidade de dialogar com os cidadãos. Quem teme uma corrida ao armamento pergunta se mais capacidade militar torna a Europa mais segura ou só mais tensa, e quanto do que custa sai do que hoje paga escolas, hospitais e pensões. O homem do debate é essa pergunta com cara.

Sobre a China, ela própria admite que a estratégia europeia está por definir, o que deixa espaço para leituras diferentes. E a ideia de que Washington quer desfazer a União convive com a de que a nova estratégia norte-americana pede sobretudo mais responsabilidade à Europa. Não conseguimos arbitrar entre elas, e não é esse o papel de um artigo como este.

Uma pergunta para levar

Se um aluno nos perguntar se a paz se defende com armas, conseguimos dar-lhe espaço para pensar sem lhe darmos já a nossa resposta? Talvez valha a pena levar a pergunta ao próximo grupo disciplinar. A Ethic tem dado boa matéria à sala de aula: há dias foi a entrevista a José Antonio Marina sobre liberdade e esforço, e agora esta.


Nota editorial e de transparência. Este artigo foi elaborado com assistência de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir da leitura integral da entrevista da Ethic, consultada a 22 de outubro de 2026, e de fontes de verificação consultadas na mesma data. O texto foi sujeito à revisão e à responsabilidade editorial dos autores do blogue.

Referências

Bloomberg Línea. (2026). Fondo de Pensiones de Groenlandia evalúa desinvertir en acciones de EE.UU. por Trump. Consultado a 22 de outubro de 2026, em https://www.bloomberglinea.com/mercados/fondo-de-pensiones-de-groenlandia-evalua-desinvertir-en-acciones-de-eeuu-por-trump/

CBS News. (2026). Tariffs [Página de arquivo de notícias, p. 3]. Consultado a 22 de outubro de 2026, em https://www.cbsnews.com/tag/tariffs/3

CNBC. (2026). Danish pension fund to sell US$100 million in Treasuries, citing ‘poor’ US government finances. The Nightly. Consultado a 22 de outubro de 2026, em https://thenightly.com.au/from/cnbc/danish-pension-fund-to-sell-us100-million-in-treasurys-citing-poor-us-government-finances-c-21376620

Euronews. (2026, 24 de agosto). Islandia decide su futuro en la UE: referéndum para reabrir las negociaciones de adhesión. Consultado a 22 de outubro de 2026, em https://es.euronews.com/my-europe/2026/08/24/islandia-decide-referendum-reabre-negociaciones-adhesion-ue

European Forum Alpbach. (2026). Book talk with Arancha González Laya. Consultado a 22 de outubro de 2026, em https://www.alpbach.org/sessions/book-talk-with-arancha-gonzalez-laya

German Marshall Fund. (s.d.). Arancha González Laya [Perfil]. Consultado a 22 de outubro de 2026, em https://www.gmfus.org/find-experts/arancha-gonzalez-laya

Gómez-Cotta, C. (2026, 19 de outubro). Arancha González Laya: «La Unión Europea es una criatura que nada a contracorriente de la Historia». Ethic. Consultado a 22 de outubro de 2026, em https://ethic.es/entrevistas/entrevista-arancha-gonzalez-laya-ue/

Institute for European Policymaking. (s.d.). Policy brief n.º 51: The 2025 US National Security Strategy and the strategic repositioning of Europe. Universidade Bocconi. Consultado a 22 de outubro de 2026, em https://iep.unibocconi.eu/publications/policy-briefs/policy-brief-n51-2025-us-national-security-strategy-and-strategic

La Estrella de Panamá. (2026, 31 de agosto). Islandia rechaza reanudar negociaciones para adherirse a la Unión Europea [Despacho da AFP]. Consultado a 22 de outubro de 2026, em https://www.laestrella.com.pa/mundo/islandia-rechaza-reanudar-negociaciones-para-adherirse-a-la-union-europea-HM25291503

Le Grand Continent. (2026, 29 de agosto). Islandia vota sobre adhesión a Unión Europea. Consultado a 22 de outubro de 2026, em https://legrandcontinent.eu/es/2026/08/29/islandia-vota-sobre-adhesion-a-union-europea/

NBC News. (2025, dezembro). Europe will be ‘unrecognizable’ in 20 years due to immigration, White House strategy document claims. Consultado a 22 de outubro de 2026, em https://www.nbcnews.com/politics/politics-news/europe-will-unrecognizable-20-years-due-immigration-white-house-strate-rcna247534

Para saber mais

Fora do blogue: a entrevista completa na Ethic, para quem leia espanhol; a página da apresentação do livro em Alpbach; e o guia da Euronews sobre o referendo da Islândia, útil para perceber o que estava realmente em votação.

No blogue: A democracia também se aprende: ensinar a discordar antes que reste apenas o ruído; Sem árbitro da verdade: o colapso da verificação de factos e o que isso exige da escola; Liberdade, esforço e adições: o que a escola pode aprender com José Antonio Marina; O domínio da narrativa e a natureza humana; Uma linha num plano, um manifesto em Bruxelas: a Europa assume o seu problema com a leitura; Pensamento crítico e ética na era da inteligência artificial generativa; Literacia digital em ação: como combater a desinformação na sala de aula.

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