Literatura e ensino do português: o caminho para uma nova cultura literária

Título: Literatura e Ensino do Português Autores: José Augusto Cardoso Bernardes e Rui Afonso Mateus Revisão de texto: João Pedro George Design: Inês Sena Paginação: Guidesign Impressão e acabamentos: Guide – Artes Gráficas, Lda. ISBN: 978-989-8662-26-2 Depósito Legal 366 588/13
Título: Literatura e Ensino do Português
Autores: José Augusto Cardoso Bernardes
e Rui Afonso Mateus
Revisão de texto: João Pedro George
Design: Inês Sena
Paginação: Guidesign
Impressão e acabamentos: Guide – Artes Gráficas, Lda.
ISBN: 978-989-8662-26-2
Depósito Legal 366 588/13

A discussão em torno do valor pedagógico da literatura não é um fenómeno novo. Nos últimos tempos, porém, a polémica tem vindo a subir de tom, lançando a dúvida sobre o lugar que as Humanidades, em geral, e a Literatura, em particular, devem ocupar na Escola.
Mais do que inventariar causas, este estudo procura sugerir vias para a resolução de um problema que se sente em boa parte dos países europeus. Contrariando as orientações exageradamente especializadas que vêm prevalecendo no domínio do Ensino da língua materna, esta proposta assenta, sobretudo, numa extensão da cultura literária do professor de Português, enquanto transmissor de conhecimentos e de entusiasmos. Finalmente, o livro que agora se publica assenta na certeza de que o contacto com a Literatura, para além dos benefícios que cada aluno dele pode colher em termos de sensibilidade e de maturação pessoal, favorece o cumprimento de um importante desígnio da Escola de hoje: a aprendizagem da cidadania, através da interpretação lúcida e informada dos livros e do mundo.
COORDENAÇÃO E AUTORIA
José Cardoso Bernardes e Rui Afonso Mateus

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1. O diagnóstico de uma crise silenciosa

Vivemos actualmente o que ensaístas como William Marx, Dominique Maingueneau e Tzvetan Todorov classificam como um “sentimento sombrio”: a percepção de que a literatura se encontra numa situação de grave perda no espaço escolar. Existe um paradoxo gritante entre o reconhecimento da literatura como um “bem inestimável”, capaz de condensar a experiência humana e moldar a identidade nacional, e a sua progressiva secundarização perante textos meramente utilitários. Nas salas de aula, o texto literário tem sido frequentemente preterido em favor de discursos funcionais, perdendo o seu papel formativo central.

Esta crise não é um fenómeno natural, mas sim o resultado de tendências sociais e escolhas pedagógicas identificáveis:

• O utilitarismo das sociedades pós-modernas: A obsessão pela rendibilidade imediata desvaloriza saberes que não se traduzem em lucro directo, rotulando as humanidades como “inúteis”.

• A obsessão pela terminologia técnica: A substituição do prazer da leitura por uma análise mecânica focada em nomenclaturas linguísticas (como a polêmica TLEBS). Este processo gerou uma grave “fractura de continuidade” entre gerações, tornando impossível que os pais acompanhem os estudos dos filhos devido à opacidade terminológica.

• A instabilidade dos programas escolares: A falta de continuidade curricular e a transposição precipitada de correntes de faculdades para o Ensino Secundário, sem verdadeira justificação teórica, transformando a disciplina num receptáculo de inovações pseudo-científicas.

2. O divórcio entre língua e literatura

O ensino do Português tem sofrido com um “equívoco pedagógico” assente numa clivagem artificial. Por um lado, a linguística descritiva e as teorias textualistas passaram a ver o texto literário como apenas mais um “tipo de discurso”, despindo-o da sua especificidade estética. Por outro, o foco exclusivo na comunicação funcional afastou a literatura do seu papel de modelo de norma e expressividade. No entanto, a relação é biunívoca: a literatura explora os limites da língua, e a língua atinge a sua plenitude através da arte literária.

“Não é possível atingir competências linguísticas de nível superior — que envolvam a subtileza, a ironia ou a complexidade do pensamento — sem o envolvimento continuado e profundo com textos literários de referência.”

3. Os cinco pilares para uma nova cultura literária

3.1. A língua como matéria-prima O texto literário é o melhor instrumento para trabalhar o léxico e a sintaxe. Através dele, o aluno contacta com a língua em toda a sua extensão, desde o vocabulário náutico e bélico n’Os Lusíadas até às variedades regionais. A leitura em voz alta funciona como uma estratégia de inteleção que revela a plasticidade sonora do idioma, essencial para dominar os diferentes matizes da língua materna.

3.2. A retórica e a gramática do estilo A retórica deve ser recuperada como uma ferramenta de interpretação, e não como um fim em si mesma. Identificar se estamos perante uma “moralidade” em Gil Vicente ou um “drama romântico” em Garrett é essencial para regular a leitura. Compreender o uso da oitava rima ou das figuras de estilo permite desvendar a intenção persuasiva do autor, transformando a análise técnica num caminho para o sentido.

3.3. Os contextos e a alteridade histórica Ler um texto “a seco”, ignorando o seu tempo, é um erro hermenêutico. O conhecimento do contexto funciona como um regulador da interpretação para evitar “leituras especulativas e impertinentes”. No caso de Cesário Verde, a “alteridade histórica” — as tensões entre o mundo urbano e rural do século XIX — é o que permite descodificar a estranheza da sua poesia, garantindo uma recepção informada e sensível.

3.4. As ideias e o pensamento sensível A literatura é um veículo de valores éticos e filosóficos. Como defende Alain Viala, enquanto a filosofia visa conceitos racionais, a literatura proporciona um “conhecimento sensível”. O estudo do neoplatonismo em Camões não é endoutrinamento, mas sim uma porta para o debate cívico. Ao expor o aluno a ideias complexas sob uma roupagem ficcional, a escola promove a empatia e o espírito crítico.

3.5. A estética e o diálogo entre as artes O diálogo com a pintura, a música e o cinema enriquece a leitura. A apreciação dos trípticos de Hieronymus Bosch, como O Carro de Feno ou O Jardim das Delícias, é fundamental para compreender o imaginário do Inferno e a intenção didática em Gil Vicente, transformando conceitos abstractos em experiências visuais concretas.

Abordagem tradicionalAbordagem interartística
Leitura “a seco” (texto isolado)Leitura contextualizada e interartística
Foco exclusivo na terminologia técnicaDiálogo entre texto, imagem e som
Contextualização factual e mecânicaCompreensão da mentalidade da época
Recepção passiva de glossáriosConstrução activa de sentidos

4. Exemplos práticos: de Gil Vicente a José Saramago

1. Gil Vicente: Explorar a moralidade medieval através do confronto com a pintura de Bosch e o estudo do léxico arcaico (ex: “biscoutar”) para entender a realidade material das Descobertas.

2. Luís de Camões: Utilizar paratextos originais, como o alvará de privilégio real, para situar a obra na sua moldura histórica e ideológica, revelando o poema como um diálogo directo com o seu tempo.

3. Eça de Queirós: Analisar os “episódios da vida romântica” n’Os Maias como uma “sintomatologia da decadência”, integrando a sátira social com a estética do Realismo e a representação de uma atmosfera mental específica.

4. José Saramago: Implementar a leitura em voz alta como uma “estratégia de inteleção” necessária para superar a aparente opacidade da sua sintaxe e pontuação, revelando a ordem linguística sob a superfície do texto.

5. Conclusão: a literatura como exercício de cidadania

A escola é a mediadora indispensável da cultura nacional. Conforme a tese de Martha Nussbaum, a literatura é fundamental para a “educação para a democracia”, permitindo-nos preservar a experiência do outro e combater o utilitarismo cego. O professor de Português não pode ser um mero tecnocrata da língua, mas sim o guia que induz nos alunos o hábito vital e ético de conviver com os livros.

A missão do professor moderno é resgatar a literatura como o lugar onde a língua e o pensamento humano se manifestam em toda a sua plenitude.

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