Um dos maiores críticos atuais do uso de tecnologías para a educação Michel Desmurget (Diretor de Investigação ol Instituto Nacional de Saúde de França) autor de “A fábrica de cretinos digitais”.
Ficam aquí 20 frases destacadas/inquietantes do livro. Compiladas pelo meu amigo Cristobal Cobo. Como bónus leia a entrevista a Desmurget.
1. Vale a pena perguntar se essas maravilhosas TIC para a educação cumpriram as suas promessas. Para evitar mal-entendidos, começo por esclarecer: muitas pessoas parecem confundir (às vezes voluntariamente) a aprendizagem “do” digital com a aprendizagem “através” do digital.
2. Três ideias desta verborreia: (1) a omnipresença dos ecrãs deu origem a uma nova geração de seres humanos, diferente das anteriores; (2) os membros desta geração são especialistas digitais; (3) o sistema escolar tem que se adaptar a esta revolução.
3. “Um computador por criança” é o mais recente de uma longa linha de abordagens tecnológicas utópicas que procuram resolver problemas sociais complexos com soluções simples. Não há computador capaz de resolver as dificuldades educacionais dos países em desenvolvimento.
4. Da análise de um grande corpus de observações científicas, pode-se deduzir que o uso de ecrãs para fins educacionais causa uma baixa do desempenho educacional: quanto mais os alunos se envolvem com as TIC, mais baixas são as suas notas.
5. Os estudos científicos coincidem: a superexposição aos ecrãs pode alterar o desenvolvimento cognitivo dos bebés… a verdade é que é impossível estabelecer uma relação de causa e efeito.
6. Em ambientes privilegiados (favorecidos), gasta-se menos tempo com o consumo de ecrãs , mas essas horas perdidas são mais caras, pois são retiradas de experiências mais ricas/formadoras (leitura, interação verbal, música, desportos, arte, passeios culturais… )
7. Os nossos filhos podem viver perfeitamente sem ecrãs. Esta abstinência não representará perigo para o seu equilíbrio emocional nem para a sua integração social. Antes pelo contrário!
8. Crianças de origens desfavorecidas passam duas horas e meia a mais em ecrãs todos os dias do que os seus colegas mais privilegiados.
9. Na hora da verdade, o conteúdo importa muito menos que o recipiente ou, mais especificamente, o recipiente marque profundamente o conteúdo.
10. O tempo que os nossos filhos dedicam às suas atividades recreativas digitais não é apenas uma loucura como está a crescer cada vez mais.
11. É o graal dos sugadores de cérebro, o último cavalo de Tróia da nossa descerebração. Quanto mais “inteligentes” são os programas, mais eles substituem a nossa reflexão e nos tornam mais burros.
12. O que eu questiono é essa ideia maluca de que “a pedagogia deve-se adequar ao instrumento [digital]” e não o contrário…
13. Mesmo as medições do uso educacional das TIC em salas de aula e nas escolas revelam geralmente uma associação negativa com a relação ao desempenho do aluno.
14. Conclusão (se for realmente necessária): «A tecnologia pode ajudar a otimizar o ensino de excelente qualidade, mas, por mais avançada que seja, nunca conseguirá atenuar os efeitos do ensino de má qualidade.
15. Claro, tudo isso bate de frente com o glorioso mito do nativo digital e, mais especificamente, com a ideia de que as novas gerações têm um cérebro diferente, mais rápido, mais ágil e mais capaz de processamentos cognitivos paralelos.
16. Com a massificação do ensino, e tendo em conta o problema da remuneração, é cada vez mais difícil encontrar professores qualificados.
17. Na realidade, o digital é, antes de tudo, uma forma de reduzir os enormes custos da educação e faz do professor qualificado um membro da longa lista de espécies ameaçadas de extinção.
18. Para que a magia dos relacionamentos se efetive, uma condição essencial deve ser satisfeita: “o outro” deve estar fisicamente presente. Para o nosso cérebro, um ser humano de carne e osso não é o mesmo que um ser humano em vídeo.
19. Depois de milhares de anos de bloqueio, a organização neural das novas gerações finalmente se libertou do jugo da execução sequencial para atingir o nirvana das operações simultâneas (multitarefa). É uma história bonita, mas absurda.
20. Como Neil Postman disse de forma muito bonita, há mais de trinta anos, “as crianças são a mensagem viva que enviamos para um futuro que não poderemos ver…”
Bónus: Entrevista a Desmurget “Las pantallas afectan el lenguaje, la concentración, la memoria y el aprendizaje”

