Um canal de YouTube com seis meses de vida bateu recordes de audiência que nenhuma televisão portuguesa tinha batido — grátis, com Cristiano Ronaldo como acionista e uma disputa aberta com a ERC. A LiveModeTV é o pretexto para perguntar o que está mesmo a mudar na forma como vemos, e fazemos, televisão.

Nos primeiros dias do Mundial 2026, mais de 300 mil pessoas em Portugal assistiram ao jogo entre o Brasil e Marrocos ao mesmo tempo, no mesmo ecrã — não na Sport TV, não na SIC, mas num canal de YouTube gratuito que ainda não tinha completado sete meses de existência. Foi, à data, o maior número de espectadores em simultâneo alguma vez registado numa transmissão em direto no YouTube em Portugal. Duas semanas depois, o mesmo canal bateu outro recorde, este de visualizações totais, com o jogo Brasil-Japão. Este artigo não é sobre futebol — é sobre o que este episódio revela sobre quem está a mudar as regras da televisão, porquê, e com que consequências para todos nós.
Como nasceu: da Esporte Interativo à chegada a Portugal
A história da LiveModeTV não começa em Portugal, nem começa com o Mundial. Começa em 2007, no Brasil, quando Edgar Diniz e Sérgio Lopes fundam a Esporte Interativo, um canal que cresce a apostar numa comunicação mais próxima do público e a explorar as plataformas digitais antes da concorrência tradicional. Anos mais tarde, os dois fundam a LiveMode, uma empresa dedicada a direitos desportivos, distribuição de conteúdo e negócio digital.
A oportunidade decisiva surge durante a pandemia: a Globo renegoceia o contrato com a FIFA e perde a exclusividade digital dos direitos do Mundial no Brasil. Em 2021, a LiveMode é contratada pela FIFA para gerir esses direitos — um pacote que, por si só, vale pouco sem uma forma de o transformar em audiência. É aqui que entra o segundo ingrediente: Casimiro Miguel, streamer carioca conhecido como “Cazé”, que já tinha construído um público fiel na Twitch e no YouTube. Em novembro de 2022, a parceria entre os dois lados dá origem à CazéTV, criada para transmitir os jogos do Mundial do Qatar. No jogo de estreia do Brasil, contra a Sérvia, a transmissão bate o recorde mundial de espectadores em simultâneo numa live do YouTube — recorde que, até então, pertencia a uma cantora sertaneja.
Depois do Qatar, a CazéTV não parou: Liga Europa, Jogos Olímpicos, Mundial de Clubes. Em novembro de 2025, a LiveMode consolidou o controlo total do canal, passando a deter 100% (antes repartia a propriedade com a produtora de Casimiro). Um mês depois, deu o salto internacional: lançou a LiveModeTV em Portugal, o seu primeiro projeto fora do Brasil, com os direitos de 34 jogos do Mundial 2026, incluindo todos os jogos da Seleção Nacional. Em maio de 2026, Cristiano Ronaldo juntou-se ao projeto como acionista — não apenas como imagem, mas como investidor, alargando a rede de contactos e a credibilidade da marca junto do público mais jovem.

Há um conceito que ajuda a explicar porque é que este modelo é diferente de tudo o que veio antes: a verticalização. Até há pouco tempo, num grande evento desportivo, cada “pedaço” da operação era negociado com uma entidade diferente — uma emissora comprava os direitos de transmissão, outra produzia o sinal, outra vendia a publicidade. Com a LiveMode, isso muda: a mesma empresa negoceia os direitos como agente da FIFA e, ao mesmo tempo, é proprietária do canal que os explora. É uma lógica que já se vê noutros setores — a norte-americana Live Nation faz algo parecido com concertos —, mas que na televisão desportiva ainda é uma novidade, e que levanta questões de governação a que voltaremos mais abaixo.

Porquê: o modelo por detrás da gratuitidade
Se o acesso é gratuito, alguém tem de pagar a conta — e, no caso da LiveModeTV, essa conta é paga por publicidade e patrocínios integrados na transmissão, não por subscrições. A empresa descreve o seu modelo como assente na relação de proximidade com o público e na atenção que se constrói ao longo do tempo, em que a publicidade não interrompe a experiência, antes faz parte dela. É uma lógica bem diferente da da Sport TV ou da DAZN, ambas dependentes de subscrição.
Há uma vantagem competitiva pouco discutida nesta equação: a regulação publicitária. O Código da Publicidade português proíbe anúncios a bebidas alcoólicas na televisão e na rádio entre as 7h e as 22h30; no YouTube, essa restrição não existe. A própria gestão da LiveModeTV reconhece que, por se identificar como “produto nativo digital” e não como um operador de televisão, não está sujeita a essas limitações horárias — embora diga procurar seguir um mínimo de bom senso.
Quanto ao público, os números que a empresa divulgou durante o Mundial são reveladores: cerca de 71% da audiência tem entre 18 e 44 anos, uma faixa etária que os operadores tradicionais têm sentido mais dificuldade em manter à frente do ecrã da televisão. A retórica oficial da LiveModeTV constrói-se cuidadosamente em torno da ideia de “complemento”, não de “substituição”: segundo os seus responsáveis, o canal não vem tirar espectadores à televisão, vem alcançar quem já a tinha deixado de ver — sobretudo os mais jovens, que, argumentam, tinham “abandonado” o futebol em formato televisivo tradicional.
Consequências: quem ganha, quem se ajusta, quem contesta
A chegada da LiveModeTV não aconteceu num mercado vazio — chegou a um setor onde a Sport TV já detinha os direitos totais do Mundial, a RTP, a SIC e a TVI dividiam entre si apenas alguns jogos em sinal aberto, e a Betano transmitia através da sua plataforma de apostas. A tabela seguinte resume esse panorama.

A reação dos operadores tradicionais não se fez esperar. Nicolau Santos, presidente da RTP, descreveu o panorama concorrencial do setor como um verdadeiro “faroeste” durante o 35.º Congresso da APDC — uma imagem partilhada também pela Media Capital (TVI) e pela Impresa (SIC), que veem regras diferentes a aplicar-se a operadores que competem pela mesma audiência. E não são, de facto, as mesmas regras: um canal do YouTube não tem as obrigações regulatórias, fiscais ou publicitárias de uma televisão licenciada.
Foi precisamente aí que entrou a ERC. Depois de classificar a LiveModeTV como “serviço de televisão web”, o regulador notificou a plataforma para se registar como serviço de streaming — uma classificação que a empresa contesta, alegando que a sua atividade não se enquadra nessa categoria. A ERC recusou o pedido de audiência prévia da LiveModeTV e deu-lhe 72 horas para se registar; a plataforma fê-lo sob protesto, prometendo apresentar mais documentação para tentar reverter a decisão. À data desta análise, o desfecho não é conhecido — e é provavelmente o primeiro de muitos casos semelhantes que a ERC, e reguladores equivalentes noutros países, vão ter de decidir.
Há outras camadas de consequência menos visíveis: para o mercado publicitário, que ganha ferramentas de conversão em tempo real difíceis de replicar na televisão tradicional; para os detentores de direitos, como a FIFA e os clubes, que veem alterar-se a forma como o seu produto é vendido; e para os próprios criadores de conteúdo, que deixam de ser apenas “caras” de um canal e passam a ser, eles próprios, ativos de uma empresa de media — com tudo o que isso implica de oportunidade, mas também de dependência de um único evento ou direito.
Estamos mesmo a mudar a forma como vemos televisão?
É tentador concluir, a partir destes números, que os mais jovens abandonaram a televisão. Mas os dados disponíveis contam uma história mais matizada. Segundo especialistas em audiências, como Rui Almeida, da IPG Mediabrands, não está a acontecer uma diminuição do consumo televisivo entre os mais jovens — está a acontecer uma acumulação, uma transferência entre plataformas. Os jovens continuam a “ver televisão”, mas cada vez menos de forma linear, seguindo uma grelha fixa, e cada vez mais através de plataformas como o YouTube, onde escolhem o quê, quando e como.
Também não se confirma, pelo menos para já, a ideia de que o streaming vai substituir por completo a televisão tradicional. Vários estudos do setor apontam antes para um modelo híbrido: a televisão linear mantém-se particularmente resiliente nos grandes acontecimentos ao vivo — desporto, Eurovisão, eleições —, precisamente porque estes dependem de uma experiência partilhada, em tempo real, que ainda ninguém replicou por completo noutro formato. A diferença é que essa experiência partilhada já não pertence em exclusivo à televisão: pode viver-se também num chat em direto no YouTube, entre reações de milhares de outras pessoas, com um criador de conteúdo a comentar num tom que nenhuma televisão generalista adotaria.
E a própria televisão, como está a responder?
Se o consumo está a fragmentar-se entre linear e não linear, a própria definição de “televisão” começa a ficar em causa — e é aqui que a disputa entre a LiveModeTV e a ERC ganha um significado maior do que o de um simples litígio administrativo. Onde termina uma emissão de televisão e onde começa um vídeo em direto numa plataforma de partilha de vídeos? A resposta importa, porque determina que regras se aplicam: publicidade, quotas de conteúdo nacional, deveres de serviço público.
Os operadores tradicionais estão a responder de formas diferentes — e nem sempre na direção que se esperaria. Por um lado, há investimento continuado em plataformas próprias, como a RTP Play, que existe desde 2011 e é frequentemente apontada como exemplo a nível internacional. Por outro lado, há também o movimento inverso: em abril de 2026, a Dreamia (joint-venture da NOS com a AMC Networks) encerrou o Biggs, canal juvenil, substituindo-o pela VinTV — um canal assumidamente dirigido a espectadores com mais de 45 anos, numa aposta na nostalgia e na fidelidade à televisão tradicional. É um sintoma claro: quando não conseguem competir pela atenção dos mais jovens, alguns operadores preferem reforçar a base que ainda os vê de forma linear.
Há também uma crise silenciosa de medição. Uma semana após o início do Mundial, a LiveModeTV já tinha mais de 500 mil subscritores no YouTube; nos primeiros dias da competição, o canal alcançou 1.267.331 dispositivos únicos. Mas estes números vêm de comunicados da própria empresa e de rankings de terceiros como o Playboard — não do sistema oficial de audimetria, gerido pela CAEM com dados da GfK através de um painel de 1.100 lares equipados com audímetros. São sistemas de medição diferentes, com metodologias diferentes, e a indústria ainda não tem uma forma robusta de os comparar lado a lado.

Vale ainda olhar para o Brasil, onde tudo começou, para perceber até onde este modelo pode chegar. Lá, a CazéTV garantiu a transmissão da totalidade dos 104 jogos do Mundial 2026 — pela primeira vez em mais de 20 anos, os direitos totais de um Mundial no Brasil não estão nas mãos da televisão aberta tradicional. A Globo, que antes tinha a exclusividade, ficou com cerca de metade dos jogos (57). Em Portugal, a situação é bem diferente: a Sport TV mantém a totalidade dos direitos, e a LiveModeTV é, para já, mais um concorrente entre vários — não, ainda, o operador dominante. Se o percurso brasileiro servir de indicação, a pergunta não é “se” este equilíbrio pode mudar, mas “quando” e “até que ponto”.
Outros ângulos que não podemos esquecer
Por trás da aparência artesanal e informal das transmissões, há uma estrutura financeira sofisticada: fundos como a norte-americana General Atlantic e a XP Asset (do grupo brasileiro XP) compraram participações minoritárias relevantes na LiveMode, e Cristiano Ronaldo entrou como acionista, não apenas como rosto do projeto. Isto significa que decisões futuras — que competições transmitir, a que mercados expandir — serão também decisões de retorno sobre investimento, não só de paixão pelo desporto.
Vale esclarecer um ponto que gera confusão: isto não é pirataria. A LiveMode compra os direitos que transmite, negociados diretamente com a FIFA ou outras entidades; o modelo levanta antes questões de governação — a mesma empresa negoceia e explora os direitos — do que de legalidade da transmissão em si.
E há uma dimensão que interessa particularmente a quem trabalha em educação: a literacia mediática. Um comentador com um tom de proximidade no chat, numa linguagem que a própria LiveModeTV descreve como “de casa, do bar, dos amigos”, está a fazer um trabalho diferente do de um jornalista desportivo tradicional, mesmo quando ambos comentam o mesmo jogo. Para os públicos mais jovens, que crescem a consumir este tipo de conteúdo como algo natural, talvez a pergunta mais importante não seja “isto é televisão?”, mas sim “sei distinguir comentário informal de análise jornalística, e sei quando a publicidade deixa de ser publicidade e passa a fazer parte da conversa?”
Por fim, duas perguntas em aberto: o modelo é sustentável além de eventos-âncora como um Mundial? E é replicável para outros países ou outros géneros de conteúdo, além do desporto? Nenhuma das duas tem, hoje, resposta definitiva.
O Mundial 2026 vai terminar, os recordes vão ser substituídos por outros, e a disputa com a ERC vai ter um desfecho que hoje ainda não conhecemos. Mas o fenómeno que a LiveModeTV tornou visível em Portugal não desaparece com o apito final. Para quem trabalha em escolas e bibliotecas, talvez o convite mais útil seja este: olhar para estes canais não como uma curiosidade tecnológica, mas como o ambiente mediático em que os nossos alunos já vivem — e perguntar que ferramentas de leitura crítica lhes estamos a dar para o navegar.
Este artigo foi escrito com o Mundial 2026 ainda a decorrer. O desfecho da disputa entre a LiveModeTV e a ERC, o percurso da Seleção Nacional e o que acontece à audiência do canal depois do apito final são, por agora, desconhecidos. Os números de audiência citados vêm de comunicados da própria empresa e de rankings de terceiros, não do sistema oficial de audimetria — por isso não devem ser lidos como diretamente equivalentes às audiências de televisão tradicionais.
Fontes
- CAEM – Comissão de Análise de Estudos de Meios. (s.d.). TV. https://caem.pt/tv
- Clube de Cinema. (2026, 10 de abril). O fim de um canal jovem… e o nascimento de uma nova nostalgia na televisão portuguesa. https://clubedecinema.pt/o-fim-de-um-canal-jovem-e-o-nascimento-de-uma-nova-nostalgia-na-televisao-portuguesa/
- Diário de Notícias. (2026, 29 de junho). LiveModeTV registou-se na ERC ainda que não concorde com a imposição. DN.pt.
- ECO. (2023, 1 de junho). Os mitos e o futuro da televisão. https://eco.sapo.pt/2023/06/01/os-mitos-e-o-futuro-da-televisao/
- ECO. (2023, 18 de julho). A televisão depois da televisão: Uma nova era. https://eco.sapo.pt/opiniao/a-televisao-depois-da-televisao-uma-nova-era/
- ECO. (2026, 18 de junho). A máquina por trás da CazéTV: Como a LiveMode conquistou o Brasil antes de agitar o mercado em Portugal. https://eco.sapo.pt/2026/06/18/a-maquina-por-tras-da-cazetv-como-a-livemode-conquistou-o-brasil-antes-de-agitar-o-mercado-em-portugal/
- Euronews. (2026, 15 de maio). Cristiano Ronaldo adds free sports streamer to his business empire ahead of the World Cup.
- Logopedia (Fandom). (s.d.). LiveModeTV. https://logos.fandom.com/wiki/LiveModeTV
- Marketeer. (2026, 21 de maio). “O desporto é um mundo maior do que qualquer player”: A visão da LiveModeTV para Portugal após as críticas das televisões. https://marketeer.sapo.pt/407015-2/
- Meios & Publicidade. (2026, 16 de junho). LiveModeTV quebra recordes de livestream no YouTube em Portugal.
- Müller, M. S. (2024). Além do consumo noticioso: O papel da televisão nas audiências jovens em Portugal. Media & Jornalismo, 24(45), e4506. https://doi.org/10.14195/2183-5462_45_6
- Telecompaper. (2026, junho). LiveModeTV breaks YouTube records with World Cup coverage in Portugal.
- Wikipédia. (2026). CazéTV. https://en.wikipedia.org/wiki/Caz%C3%A9TV






