O Mundial que fugiu à televisão

Um canal de YouTube com seis meses de vida bateu recordes de audiência que nenhuma televisão portuguesa tinha batido — grátis, com Cristiano Ronaldo como acionista e uma disputa aberta com a ERC. A LiveModeTV é o pretexto para perguntar o que está mesmo a mudar na forma como vemos, e fazemos, televisão.

Nos primeiros dias do Mundial 2026, mais de 300 mil pessoas em Portugal assistiram ao jogo entre o Brasil e Marrocos ao mesmo tempo, no mesmo ecrã — não na Sport TV, não na SIC, mas num canal de YouTube gratuito que ainda não tinha completado sete meses de existência. Foi, à data, o maior número de espectadores em simultâneo alguma vez registado numa transmissão em direto no YouTube em Portugal. Duas semanas depois, o mesmo canal bateu outro recorde, este de visualizações totais, com o jogo Brasil-Japão. Este artigo não é sobre futebol — é sobre o que este episódio revela sobre quem está a mudar as regras da televisão, porquê, e com que consequências para todos nós.

Como nasceu: da Esporte Interativo à chegada a Portugal

A história da LiveModeTV não começa em Portugal, nem começa com o Mundial. Começa em 2007, no Brasil, quando Edgar Diniz e Sérgio Lopes fundam a Esporte Interativo, um canal que cresce a apostar numa comunicação mais próxima do público e a explorar as plataformas digitais antes da concorrência tradicional. Anos mais tarde, os dois fundam a LiveMode, uma empresa dedicada a direitos desportivos, distribuição de conteúdo e negócio digital.

A oportunidade decisiva surge durante a pandemia: a Globo renegoceia o contrato com a FIFA e perde a exclusividade digital dos direitos do Mundial no Brasil. Em 2021, a LiveMode é contratada pela FIFA para gerir esses direitos — um pacote que, por si só, vale pouco sem uma forma de o transformar em audiência. É aqui que entra o segundo ingrediente: Casimiro Miguel, streamer carioca conhecido como “Cazé”, que já tinha construído um público fiel na Twitch e no YouTube. Em novembro de 2022, a parceria entre os dois lados dá origem à CazéTV, criada para transmitir os jogos do Mundial do Qatar. No jogo de estreia do Brasil, contra a Sérvia, a transmissão bate o recorde mundial de espectadores em simultâneo numa live do YouTube — recorde que, até então, pertencia a uma cantora sertaneja.

Depois do Qatar, a CazéTV não parou: Liga Europa, Jogos Olímpicos, Mundial de Clubes. Em novembro de 2025, a LiveMode consolidou o controlo total do canal, passando a deter 100% (antes repartia a propriedade com a produtora de Casimiro). Um mês depois, deu o salto internacional: lançou a LiveModeTV em Portugal, o seu primeiro projeto fora do Brasil, com os direitos de 34 jogos do Mundial 2026, incluindo todos os jogos da Seleção Nacional. Em maio de 2026, Cristiano Ronaldo juntou-se ao projeto como acionista — não apenas como imagem, mas como investidor, alargando a rede de contactos e a credibilidade da marca junto do público mais jovem.

Há um conceito que ajuda a explicar porque é que este modelo é diferente de tudo o que veio antes: a verticalização. Até há pouco tempo, num grande evento desportivo, cada “pedaço” da operação era negociado com uma entidade diferente — uma emissora comprava os direitos de transmissão, outra produzia o sinal, outra vendia a publicidade. Com a LiveMode, isso muda: a mesma empresa negoceia os direitos como agente da FIFA e, ao mesmo tempo, é proprietária do canal que os explora. É uma lógica que já se vê noutros setores — a norte-americana Live Nation faz algo parecido com concertos —, mas que na televisão desportiva ainda é uma novidade, e que levanta questões de governação a que voltaremos mais abaixo.

Porquê: o modelo por detrás da gratuitidade

Se o acesso é gratuito, alguém tem de pagar a conta — e, no caso da LiveModeTV, essa conta é paga por publicidade e patrocínios integrados na transmissão, não por subscrições. A empresa descreve o seu modelo como assente na relação de proximidade com o público e na atenção que se constrói ao longo do tempo, em que a publicidade não interrompe a experiência, antes faz parte dela. É uma lógica bem diferente da da Sport TV ou da DAZN, ambas dependentes de subscrição.

Há uma vantagem competitiva pouco discutida nesta equação: a regulação publicitária. O Código da Publicidade português proíbe anúncios a bebidas alcoólicas na televisão e na rádio entre as 7h e as 22h30; no YouTube, essa restrição não existe. A própria gestão da LiveModeTV reconhece que, por se identificar como “produto nativo digital” e não como um operador de televisão, não está sujeita a essas limitações horárias — embora diga procurar seguir um mínimo de bom senso.

Quanto ao público, os números que a empresa divulgou durante o Mundial são reveladores: cerca de 71% da audiência tem entre 18 e 44 anos, uma faixa etária que os operadores tradicionais têm sentido mais dificuldade em manter à frente do ecrã da televisão. A retórica oficial da LiveModeTV constrói-se cuidadosamente em torno da ideia de “complemento”, não de “substituição”: segundo os seus responsáveis, o canal não vem tirar espectadores à televisão, vem alcançar quem já a tinha deixado de ver — sobretudo os mais jovens, que, argumentam, tinham “abandonado” o futebol em formato televisivo tradicional.

Consequências: quem ganha, quem se ajusta, quem contesta

A chegada da LiveModeTV não aconteceu num mercado vazio — chegou a um setor onde a Sport TV já detinha os direitos totais do Mundial, a RTP, a SIC e a TVI dividiam entre si apenas alguns jogos em sinal aberto, e a Betano transmitia através da sua plataforma de apostas. A tabela seguinte resume esse panorama.

A reação dos operadores tradicionais não se fez esperar. Nicolau Santos, presidente da RTP, descreveu o panorama concorrencial do setor como um verdadeiro “faroeste” durante o 35.º Congresso da APDC — uma imagem partilhada também pela Media Capital (TVI) e pela Impresa (SIC), que veem regras diferentes a aplicar-se a operadores que competem pela mesma audiência. E não são, de facto, as mesmas regras: um canal do YouTube não tem as obrigações regulatórias, fiscais ou publicitárias de uma televisão licenciada.

Foi precisamente aí que entrou a ERC. Depois de classificar a LiveModeTV como “serviço de televisão web”, o regulador notificou a plataforma para se registar como serviço de streaming — uma classificação que a empresa contesta, alegando que a sua atividade não se enquadra nessa categoria. A ERC recusou o pedido de audiência prévia da LiveModeTV e deu-lhe 72 horas para se registar; a plataforma fê-lo sob protesto, prometendo apresentar mais documentação para tentar reverter a decisão. À data desta análise, o desfecho não é conhecido — e é provavelmente o primeiro de muitos casos semelhantes que a ERC, e reguladores equivalentes noutros países, vão ter de decidir.

Há outras camadas de consequência menos visíveis: para o mercado publicitário, que ganha ferramentas de conversão em tempo real difíceis de replicar na televisão tradicional; para os detentores de direitos, como a FIFA e os clubes, que veem alterar-se a forma como o seu produto é vendido; e para os próprios criadores de conteúdo, que deixam de ser apenas “caras” de um canal e passam a ser, eles próprios, ativos de uma empresa de media — com tudo o que isso implica de oportunidade, mas também de dependência de um único evento ou direito.

Estamos mesmo a mudar a forma como vemos televisão?

É tentador concluir, a partir destes números, que os mais jovens abandonaram a televisão. Mas os dados disponíveis contam uma história mais matizada. Segundo especialistas em audiências, como Rui Almeida, da IPG Mediabrands, não está a acontecer uma diminuição do consumo televisivo entre os mais jovens — está a acontecer uma acumulação, uma transferência entre plataformas. Os jovens continuam a “ver televisão”, mas cada vez menos de forma linear, seguindo uma grelha fixa, e cada vez mais através de plataformas como o YouTube, onde escolhem o quê, quando e como.

Também não se confirma, pelo menos para já, a ideia de que o streaming vai substituir por completo a televisão tradicional. Vários estudos do setor apontam antes para um modelo híbrido: a televisão linear mantém-se particularmente resiliente nos grandes acontecimentos ao vivo — desporto, Eurovisão, eleições —, precisamente porque estes dependem de uma experiência partilhada, em tempo real, que ainda ninguém replicou por completo noutro formato. A diferença é que essa experiência partilhada já não pertence em exclusivo à televisão: pode viver-se também num chat em direto no YouTube, entre reações de milhares de outras pessoas, com um criador de conteúdo a comentar num tom que nenhuma televisão generalista adotaria.

E a própria televisão, como está a responder?

Se o consumo está a fragmentar-se entre linear e não linear, a própria definição de “televisão” começa a ficar em causa — e é aqui que a disputa entre a LiveModeTV e a ERC ganha um significado maior do que o de um simples litígio administrativo. Onde termina uma emissão de televisão e onde começa um vídeo em direto numa plataforma de partilha de vídeos? A resposta importa, porque determina que regras se aplicam: publicidade, quotas de conteúdo nacional, deveres de serviço público.

Os operadores tradicionais estão a responder de formas diferentes — e nem sempre na direção que se esperaria. Por um lado, há investimento continuado em plataformas próprias, como a RTP Play, que existe desde 2011 e é frequentemente apontada como exemplo a nível internacional. Por outro lado, há também o movimento inverso: em abril de 2026, a Dreamia (joint-venture da NOS com a AMC Networks) encerrou o Biggs, canal juvenil, substituindo-o pela VinTV — um canal assumidamente dirigido a espectadores com mais de 45 anos, numa aposta na nostalgia e na fidelidade à televisão tradicional. É um sintoma claro: quando não conseguem competir pela atenção dos mais jovens, alguns operadores preferem reforçar a base que ainda os vê de forma linear.

Há também uma crise silenciosa de medição. Uma semana após o início do Mundial, a LiveModeTV já tinha mais de 500 mil subscritores no YouTube; nos primeiros dias da competição, o canal alcançou 1.267.331 dispositivos únicos. Mas estes números vêm de comunicados da própria empresa e de rankings de terceiros como o Playboard — não do sistema oficial de audimetria, gerido pela CAEM com dados da GfK através de um painel de 1.100 lares equipados com audímetros. São sistemas de medição diferentes, com metodologias diferentes, e a indústria ainda não tem uma forma robusta de os comparar lado a lado.

Vale ainda olhar para o Brasil, onde tudo começou, para perceber até onde este modelo pode chegar. Lá, a CazéTV garantiu a transmissão da totalidade dos 104 jogos do Mundial 2026 — pela primeira vez em mais de 20 anos, os direitos totais de um Mundial no Brasil não estão nas mãos da televisão aberta tradicional. A Globo, que antes tinha a exclusividade, ficou com cerca de metade dos jogos (57). Em Portugal, a situação é bem diferente: a Sport TV mantém a totalidade dos direitos, e a LiveModeTV é, para já, mais um concorrente entre vários — não, ainda, o operador dominante. Se o percurso brasileiro servir de indicação, a pergunta não é “se” este equilíbrio pode mudar, mas “quando” e “até que ponto”.

Outros ângulos que não podemos esquecer

Por trás da aparência artesanal e informal das transmissões, há uma estrutura financeira sofisticada: fundos como a norte-americana General Atlantic e a XP Asset (do grupo brasileiro XP) compraram participações minoritárias relevantes na LiveMode, e Cristiano Ronaldo entrou como acionista, não apenas como rosto do projeto. Isto significa que decisões futuras — que competições transmitir, a que mercados expandir — serão também decisões de retorno sobre investimento, não só de paixão pelo desporto.

Vale esclarecer um ponto que gera confusão: isto não é pirataria. A LiveMode compra os direitos que transmite, negociados diretamente com a FIFA ou outras entidades; o modelo levanta antes questões de governação — a mesma empresa negoceia e explora os direitos — do que de legalidade da transmissão em si.

E há uma dimensão que interessa particularmente a quem trabalha em educação: a literacia mediática. Um comentador com um tom de proximidade no chat, numa linguagem que a própria LiveModeTV descreve como “de casa, do bar, dos amigos”, está a fazer um trabalho diferente do de um jornalista desportivo tradicional, mesmo quando ambos comentam o mesmo jogo. Para os públicos mais jovens, que crescem a consumir este tipo de conteúdo como algo natural, talvez a pergunta mais importante não seja “isto é televisão?”, mas sim “sei distinguir comentário informal de análise jornalística, e sei quando a publicidade deixa de ser publicidade e passa a fazer parte da conversa?”

Por fim, duas perguntas em aberto: o modelo é sustentável além de eventos-âncora como um Mundial? E é replicável para outros países ou outros géneros de conteúdo, além do desporto? Nenhuma das duas tem, hoje, resposta definitiva.

O Mundial 2026 vai terminar, os recordes vão ser substituídos por outros, e a disputa com a ERC vai ter um desfecho que hoje ainda não conhecemos. Mas o fenómeno que a LiveModeTV tornou visível em Portugal não desaparece com o apito final. Para quem trabalha em escolas e bibliotecas, talvez o convite mais útil seja este: olhar para estes canais não como uma curiosidade tecnológica, mas como o ambiente mediático em que os nossos alunos já vivem — e perguntar que ferramentas de leitura crítica lhes estamos a dar para o navegar.

Este artigo foi escrito com o Mundial 2026 ainda a decorrer. O desfecho da disputa entre a LiveModeTV e a ERC, o percurso da Seleção Nacional e o que acontece à audiência do canal depois do apito final são, por agora, desconhecidos. Os números de audiência citados vêm de comunicados da própria empresa e de rankings de terceiros, não do sistema oficial de audimetria — por isso não devem ser lidos como diretamente equivalentes às audiências de televisão tradicionais.

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    Fontes

    AMALIA não é o ChatGPT — O que é realmente a primeira IA soberana portuguesa

    Portugal lançou a AMALIA — o primeiro grande modelo de linguagem em português europeu — mas quem esperava um rival do ChatGPT encontrou apenas silêncio digital: sem site, sem app. É, na verdade, uma infraestrutura de código aberto, de 9 mil milhões de parâmetros, treinada com 195 terabytes de dados do Arquivo.pt, destinada a hospitais, escolas e forças armadas que precisam de processar dados sensíveis sem os exportar para servidores estrangeiros. Custou 7 milhões de euros, supera rivais como o Llama e o Mistral nos exames nacionais, mas fica aquém em matemática — e o seu verdadeiro veredicto dependerá dos próximos 24 meses.


    O momento em que o país parou — e a confusão que se seguiu

    A 1 de julho de 2026, Portugal assistiu ao lançamento oficial daquilo que a comunicação política batizou de “o cérebro artificial português”: a Amália. O país estava expectante. Meses de antecipação mediática tinham criado uma ideia clara na mente de muitos portugueses — iria nascer um rival direto do ChatGPT, feito cá, a falar a nossa língua, acessível a qualquer cidadão com um telemóvel na mão.

    Só que quem foi ao Google à procura de um site para experimentar a Amália no dia do lançamento encontrou… o vazio. Sem aplicação. Sem interface de conversação. Sem caixa de texto onde escrever “Olá”. E isto, importa sublinhar, não foi um erro informático. Foi exatamente aquilo que estava previsto.

    O problema não está na tecnologia em si — está no abismo entre a narrativa mediática que foi construída e a realidade técnica do projeto. Perceber o que a Amália é, de facto, é o objetivo deste artigo.


    O nome, o acrónimo e a homenagem

    Antes de mergulhar na engenharia, comecemos pelo nome. AMALIA é um acrónimo para Assistente Multimodal Automático de Linguagem com Inteligência Artificial. É, simultaneamente, uma homenagem à lendária cantora Amália Rodrigues — a voz do fado que mais projetou a cultura portuguesa no mundo. Uma escolha simbólica que condensa num nome a ambição do projeto: a modernidade tecnológica ao serviço da identidade cultural portuguesa.

    O projeto foi anunciado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro no palco principal da Web Summit, em novembro de 2024, num contexto de entusiasmo com o potencial da inteligência artificial na transformação dos serviços públicos. Desde então, a expressão “ChatGPT português” ganhou tração instantânea nos meios de comunicação e nas redes sociais — e foi precisamente aí que começou o maior equívoco.


    Amália não é uma aplicação. É uma infraestrutura.

    Esta é a distinção fundamental que tudo muda. O ChatGPT é uma aplicação: um produto que assenta sobre um modelo de linguagem e oferece ao utilizador uma interface amigável de conversação. A Amália é um modelo de fundação (foundation model) — é a camada mais profunda, o motor debaixo do capô, o chassis sobre o qual outros podem construir os seus próprios veículos.

    Quem quiser experimentar a Amália hoje não vai ao browser, não abre uma app. Tem de ir ao Hugging Face — uma plataforma técnica para engenheiros de software — procurar o ficheiro AMALIA-9B-0626-DPO e descarregá-lo. Depois, precisa de instalar ferramentas como o LM Studio ou o Ollama no seu computador para o conseguir executar, presumindo que tem memória RAM e capacidade de processamento gráfico suficientes. É uma barreira de entrada altíssima para o utilizador comum.

    Mas há uma razão para isso. O utilizador comum não é o cliente final da Amália. O Estado português não construiu este motor para nós conversarmos sobre o estado do tempo. Construiu-o para que hospitais, tribunais, universidades e autarquias possam programar os seus próprios sistemas por cima dele.

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    O motor: arquitetura técnica para não-engenheiros

    O ponto de partida: EuroLLM-9B

    Construir um modelo de linguagem de raiz exige orçamentos astronómicos e meses de computação em supercomputadores. Portugal fez uma escolha pragmática: em vez de partir do zero, a equipa de investigação pegou num chassis pré-fabricado — o EuroLLM-9B, um modelo europeu de código aberto que já compreendia a estrutura básica das 24 línguas oficiais da União Europeia.

    O EuroLLM-9B é, ele próprio, um projeto com dedo português: foi desenvolvido pela empresa Unbabel e treinado no supercomputador MareNostrum 5, em Barcelona. O que o consórcio nacional fez foi pegar neste chassis e afiná-lo exaustivamente para a realidade linguística e cultural de Portugal.

    O combustível: 195 TB do Arquivo.pt

    Para afinar o modelo, os investigadores extraíram 195 terabytes de dados diretamente do Arquivo.pt — a memória histórica de toda a internet portuguesa desde o final dos anos 90. Um volume colossal: 195 TB de texto puro equivale a dezenas de milhões de livros.[8]

    Mas a internet não é uma biblioteca limpa. É cheia de lixo, de textos gerados por robôs e de conteúdo de baixa qualidade. E há um problema específico da língua portuguesa: a esmagadora maioria do conteúdo em português disponível online é do Brasil. Se os engenheiros simplesmente inserissem todos esses textos no supercomputador, a Amália começaria a responder com sintaxe e vocabulário brasileiro.

    A solução foi radical: aplicar filtros de exclusão massivos sobre todos os domínios .br, complementados por ferramentas sofisticadas de deduplicação — que removem parágrafos e textos que se repetem demasiadas vezes (como termos e condições de sites). O resultado: uma base de dados de português europeu de altíssima qualidade, rica em legislação nacional, documentos oficiais e literatura.

    O processo de treino: Deucalion e MareNostrum 5

    Para processar este manancial de informação, dois supercomputadores trabalharam em paralelo, ininterruptamente durante meses: o Deucalion, instalado em Guimarães, e o MareNostrum 5, em Barcelona. A equipa de investigação, composta por mais de 60 investigadores e alunos das principais universidades portuguesas — Nova FCT, IST, Coimbra, Minho e Porto —, foi coordenada pelo professor João Magalhães, da Nova FCT.

    O treino decorreu em três fases: pré-treino de qualidade, treino de instruções e treino de preferências. É nesta última fase que entra uma técnica particularmente interessante.

    A afinação final: DPO — o “teste cego de degustação”

    A técnica usada para ensinar à Amália como soar a português europeu chama-se Direct Preference Optimization (DPO) — otimização direta de preferências. Funciona assim: os investigadores geram duas respostas possíveis para a mesma pergunta. Uma tem pequenos desvios semânticos ou soa robótica; a outra soa perfeitamente a português de Portugal, com um tom neutro e institucional correto. O modelo é instruído: “a segunda é a ideal — fica com a segunda.” Ao fazer isto milhares de vezes, o modelo altera os seus pesos matemáticos internos para imitar espontaneamente o padrão preferido pelos avaliadores portugueses.

    Os resultados técnicos publicados são inequívocos: o AMALIA-DPO atinge o melhor desempenho entre os modelos totalmente abertos por uma margem considerável, demonstrando domínio robusto das competências linguísticas específicas do português europeu.


    Os 9 mil milhões de parâmetros: um peso pluma entre gigantes

    O número “9B” no nome do ficheiro refere-se a 9.000 milhões de parâmetros — as unidades de informação que, por analogia biológica, funcionam como as conexões sinápticas de um cérebro artificial. É onde a informação e as correlações matemáticas da linguagem ficam armazenadas e pesadas.

    No campeonato mundial da inteligência artificial, 9 mil milhões de parâmetros é considerado um modelo de dimensão reduzida a média. Para contexto: modelos como o GPT-4 operam na casa de centenas de milhares de milhões — possivelmente até triliões — de parâmetros, embora os valores exatos sejam segredo industrial.

    Então, a Amália é fraca? Não necessariamente. A estratégia não é a de força bruta, mas a de hiperespecialização cirúrgica. E os benchmarks confirmam esta aposta.


    Os benchmarks: onde a Amália ganha — e onde perde

    As vitórias: provas nacionais e competência linguística

    Avaliar um modelo especializado em português europeu com testes internacionais (todos em inglês) não faria sentido. Por isso, a equipa de investigação criou referenciais novos e exclusivos:

    • PTC (Portuguese Text Competence): avalia o conhecimento estrito da gramática do português de Portugal.
    • PTE (Portuguese Text Evaluation): põe a IA a resolver perguntas reais dos exames nacionais do ensino secundário português.
    • ALBA: avalia a proficiência semântica e cultural em português europeu, onde a Amália atingiu 43,6 pontos na versão final.

    Nestes testes ultra-específicos, a Amália consegue bater modelos de código aberto consideravelmente maiores e mais financiados, incluindo o Mistral 7B (francês) e o Llama 3.1 da Meta. Nos exames nacionais portugueses de resposta longa, obteve a melhor pontuação entre todos os modelos totalmente open-source.

    Se a tarefa for redigir um ofício burocrático para as finanças, resumir um poema de Fernando Pessoa com o contexto histórico exato, ou processar documentação jurídica em português correto, a Amália é, na sua categoria de peso, simplesmente imbatível.

    As limitações: raciocínio matemático e lógica abstrata

    A honestidade intelectual exige reconhecer os pontos fracos. Quando o teste exige raciocínio abstrato profundo — como resolver lógica matemática complexa — a Amália fica aquém, perdendo até para modelos da mesma dimensão como o Qwen 3 (chinês). Os próprios investigadores assumem frontalmente nos relatórios técnicos que não vale a pena estabelecer comparações diretas com sistemas fechados de grande escala, como o GPT-4, em tarefas generalistas complexas. Para o raciocínio de uso geral, o Vale do Silício continua a reinar supremo.


    Os 7 milhões de euros: desperdício ou investimento visionário?

    O projeto custou 5,5 milhões de euros provenientes do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), com um reforço adicional de 1,5 milhões anunciado para a fase seguinte, totalizando cerca de 7 milhões de euros de dinheiro público. A distribuição foi: 2,475 milhões para a Nova FCT, 1 milhão para o IST, 375 mil euros para cada uma das universidades do Porto, Minho e Coimbra, e 900 mil euros executados diretamente pela FCT.

    À primeira vista, a comparação é esmagadora: a OpenAI e a Microsoft gastam dezenas, senão centenas de milhões em servidores num único trimestre. Então, qual é o argumento para investir 7 milhões?

    A resposta chama-se soberania digital.


    A soberania digital: o argumento que tudo justifica

    O problema dos modelos comerciais

    Ao usar modelos gigantes como o ChatGPT ou o Gemini, as instituições públicas estão constantemente a exportar dados dos cidadãos para infraestruturas privadas estrangeiras — quintas de servidores no Nevada ou em Shenzhen — onde esses dados podem ser usados para treinar as futuras versões comerciais dessas ferramentas.

    As diretivas europeias recentes, em particular a NIS 2 (cibersegurança) e o AI Act (regulamento europeu da IA), vieram mudar drasticamente as regras do jogo. A proteção de dados críticos do Estado tornou-se não um luxo, mas uma obrigação legal. E os modelos privados são, por definição, caixas negras: não sabemos como tomam decisões, não conseguimos auditá-los, e as empresas que os desenvolvem protegem o seu código com fiereza comercial.

    A licença Apache 2.0: o detalhe burocrático que vale milhões

    A Amália foi lançada com uma licença Apache 2.0 — código totalmente aberto e gratuito para uso comercial e institucional. Isto significa que um hospital, um tribunal ou uma escola pode descarregar o modelo, instalá-lo nos seus próprios servidores, e usar e adaptar a tecnologia sem pagar um único cêntimo de licenciamento a ninguém — apenas a eletricidade e a manutenção da infraestrutura local.

    Para instituições públicas com orçamentos limitados, a diferença entre pagar por cada 1.000 palavras geradas via API (custos recorrentes e perpétuos) e não pagar nada em licenças pode representar dezenas de milhões de euros poupados ao longo de uma década.

    O caso da Marinha Portuguesa: IA offline em segurança máxima

    Nenhum exemplo ilustra melhor a lógica da soberania digital do que o caso de uso das Forças Armadas. Um comandante da Marinha não pode, por razões evidentes de segurança nacional, abrir o browser a bordo e pedir ao ChatGPT para resumir rotas táticas de submarinos — estaria a entregar segredos de Estado em bandeja a infraestruturas privadas estrangeiras.

    Com a Amália, a Marinha pode descarregar os ficheiros do modelo, instalá-los num servidor local no subsolo blindado de uma base militar, desligar literalmente o cabo de internet desse servidor, e deixar o modelo processar volumes massivos de planos de missão em ambiente completamente isolado e seguro. É o conceito de infraestrutura crítica levado ao século XXI: um analista militar incansável, fechado numa sala segura, que nunca comunica com o exterior.


    A Amália na educação: a plataforma IA Edu

    A educação é, a par da defesa, a área mais sensível no que toca à proteção de dados e à ética algorítmica. A FCT concebeu a plataforma IA Edu precisamente para levar a inteligência artificial de forma segura às escolas públicas.

    O objetivo a curto prazo é claro: permitir a criação de tutores virtuais interativos e a geração automática de testes, apoiando professores no planeamento de aulas, na redação de sumários e na produção de materiais pedagógicos diferenciados.

    O problema legal dos modelos estrangeiros nas escolas

    Sob o quadro regulatório do AI Act europeu, as escolas não podem simplesmente expor menores a sistemas algorítmicos norte-americanos que perfilam comportamentos, recolhem telemetria e armazenam as conversas das crianças. Há uma obrigação legal crescente de auditar e perceber, ao detalhe, como a IA funciona por dentro — o que é tecnicamente impossível com modelos privados cujo código é secreto.

    Com um modelo local, transparente e de código aberto como a Amália, o Estado cumpre o AI Act na íntegra: os textos dos alunos, as suas dúvidas sobre as matérias, as suas pesquisas nunca chegam a sair dos servidores educativos nacionais. E, além disso, garante-se que, desde o primeiro ciclo, o aluno interage com uma máquina que pensa, escreve e responde respeitando integralmente as normas do português europeu e o currículo académico nacional.


    O lado político: entre a visão e o marketing

    É aqui que a análise técnica tem de coexistir com uma leitura honesta do contexto político. O projeto foi anunciado em novembro de 2024 na Web Summit num tom “altamente otimista e futurista”, e a expressão “ChatGPT português” ganhou vida própria na comunicação pública. A discrepância entre essa promessa e a entrega técnica de 1 de julho — um modelo sem interface, disponível apenas a programadores — criou um flanco enorme para o desapontamento, e a crítica pública que se seguiu é legítima face à expectativa criada.

    Acresce que o calendário de execução sofreu um atraso de cerca de 15 meses em relação às previsões iniciais, e analistas independentes apontam que a data de lançamento serviu estrategicamente para o governo reclamar um trunfo simbólico num momento mediático e politicamente oportuno.

    Os críticos mais ferinos argumentam ainda que a retórica da “soberania digital” funciona como um guarda-chuva conveniente para mascarar o facto de Portugal continuar a arrendar o hardware pesado à Nvidia americana e a usar um chassis de software desenvolvido noutros países da Europa. É um ponto com alguma pertinência.

    Mas descartar a Amália como mero exercício de relações públicas seria ignorar os dividendos estruturais que já estão em marcha: o projeto forçou a colaboração de mais de 60 investigadores de topo num consórcio nacional sem precedentes na história tecnológica portuguesa, criou know-how técnico instalado em Portugal e deixou uma âncora tecnológica disponível para o ecossistema de inovação nacional.


    O que vem a seguir: a fase 2 até 2027

    O lançamento de 1 de julho de 2026 não é um fim — é um ponto de partida. A próxima fase do projeto, prevista para 2027, inclui:

    • Expansão de parâmetros: o modelo deverá crescer dos atuais 9 mil milhões para os 22 mil milhões de parâmetros.
    • Capacidades de agentificação: a Amália passará a poder executar tarefas de forma autónoma e encadeada, não apenas responder a perguntas.
    • Multimodalidade completa: capacidade de processar não só texto, mas também imagens, vídeo e áudio.

    Um investimento adicional de 1,5 milhões de euros foi anunciado para suportar esta evolução. O modelo continuará a ser desenvolvido com foco no português europeu e na lusofonia, com a ambição de servir os países lusófonos como uma infraestrutura partilhada.


    A questão que fica: quem guarda a língua?

    Há uma reflexão final que a análise desta iniciativa inevitavelmente suscita, e que diz respeito ao coração do projeto: a língua.

    A Amália foi construída com uma dieta linguística altamente controlada — português europeu puro, sem gerúndios brasileiros, sem estrangeirismos digitais, sem o vocabulário que nasce organicamente nas redes sociais e na cultura pop. É uma escolha técnica compreensível. Mas levanta uma pergunta incómoda:

    A língua portuguesa é um organismo vivo. Respira, adapta-se, cruza-se com a imigração, evolui com as gerações. Se a infraestrutura de IA que vai servir o Estado português durante os próximos anos foi treinada para ser a guardiã inflexível de uma versão da língua datada de 2026, não correremos o risco de criar uma cápsula do tempo linguística?

    Daqui a dez anos, em vez de a Amália refletir as nuances e a vitalidade com que os portugueses realmente comunicam, poderá começar a ditar como devem escrever se quiserem que um sistema do Estado processe e entenda o seu pedido. É uma tensão profunda entre o controlo tecnológico e a evolução social orgânica — e é uma questão que merece ser debatida muito além dos relatórios técnicos e dos palcos da Web Summit.


    Conclusão: um motor sem carro, por enquanto

    A metáfora que melhor resume a Amália é a que foi dita no dia do lançamento: o Estado entregou um bloco de motor. Potente no que sabe fazer, honesto nas suas limitações, mas por si só incapaz de levar alguém a algum lado.

    O verdadeiro teste de fogo não foi a conferência de imprensa. Serão os próximos 24 meses. A métrica de sucesso real será observar quantas autarquias, hospitais, PME e escolas vão efetivamente pegar nestes ficheiros de código aberto e construir soluções funcionais para o cidadão. Se o ecossistema nacional construir dezenas de “carros” funcionais à volta deste motor, os 7 milhões de euros terão sido um investimento visionário. Se o código ficar a ganhar pó num repositório sem adoção prática, terá sido apenas um monumento virtual caro a uma boa intenção.

    A Amália não é o ChatGPT português. É algo diferente — e potencialmente mais importante a longo prazo. Mas explicar isso ao público português, com a honestidade que a comunicação política raramente permite, continua a ser o maior desafio desta iniciativa.


    Artigo elaborado com base na análise aprofundada da documentação técnica, relatórios oficiais e cobertura jornalística do projeto AMALIA, com particular referência ao relatório técnico publicado em arXiv (março de 2026) e à cobertura do lançamento de 1 de julho de 2026.

    O que é a Literacia dos Media? O que é a Literacia Digital? O que é a Literacia Informacional? O que é a Literacia Jornalística? O que é a Cidadania Digital?

    Uma proposta de definição de Literacia dos Media – que competências e conceitos inclui.

    Foram apresentadas definições para ajudar os defensores e os decisores políticos a navegar no terreno da literacia no século XXI. As tecnologias dos meios de comunicação e da comunicação estão a mudar rapidamente e os termos que utilizamos por vezes não são bem definidos. Este glossário surge do desejo de ajudar os formuladores de políticas e defensores a impulsionar mudanças políticas que levem a educação em literacia dos media a todos os alunos do ensino básico e secundário.

    O que é literacia dos media?

    A literacia dos media é o termo genérico para uma série de outras competências e conceitos.

    A literacia dos media é a capacidade de: descodificar mensagens mediáticas, incluindo os sistemas em que existem; avaliar a influência dessas mensagens nos nossos pensamentos, sentimentos, comportamentos, percepções, crenças, saúde e na sociedade; usar e criar meios de comunicação para fornecer informações, enviar uma mensagem ou contar a própria história de uma forma ponderada, consciente, segura e responsável.

    Baseamo-nos numa definição que tem perdurado nos últimos 30 anos. A definição da National Association for Media Literacy Education é uma evolução da definição comummente citada e que foi apresentada numa conferência do Aspen Institute sobre literacia mediática, em 1992:

    • Literacia mediática é a capacidade de aceder, analisar, avaliar, criar e agir usando todas as formas de comunicação.

    A definição de Connecticut do House Bill 6762, aprovada e assinada pelo governador em 2023, vai um passo além:

    • Literacia mediática significa a capacidade de aceder, analisar, avaliar, criar e participar nos média em todas as formas,
    • Compreender o papel dos media na sociedade,
    • Desenvolver competências de investigação e auto-expressão essenciais para a participação e colaboração numa sociedade democrática.

    O que é cidadania digital? 

    Cidadania digital refere-se ao uso da literacia mediática para participar na esfera pública utilizando tecnologias de comunicação. A cidadania digital é um resultado que requer competências de literacia mediática.

    Usaremos a definição legal do Texas:

    • Cidadania digital refere-se à aplicação “dos padrões de comportamento online apropriado, responsável e saudável, incluindo a capacidade de aceder, analisar, avaliar, criar e agir em todas as formas de comunicação digital”.

    A chave para compreender a cidadania digital é esta: “Não podemos exercer plenamente a nossa cidadania sem as literacias que o nosso tempo (incluindo o nosso ambiente mediático) exige – literacia mediática, social e digital – e sem a capacidade para exercer os nossos direitos humanos e envolvermo-nos como cidadãos.” Anne Collier, fundadora e diretora executiva da The Net Safety Collaborative

    O que é a literacia digital? 

    A literacia digital consiste em aplicar competências de literacia mediática quando se utiliza a tecnologia digital para criar, enviar e receber informações e mensagens.

    A literacia digital surgiu das disciplinas das ciências da computação e das ciências da biblioteca e da informação. O termo às vezes está ligado à aprendizagem das técnicas básicas de uso de dispositivos digitais, incluindo computadores, tablets, smartphones e internet. Nós, no entanto, inspiramo-nos sobretudo na biblioteca e nas ciências da informação no nosso uso do termo. Assim, a nossa definição enfatiza o uso de competências de pensamento crítico ao envolver-se na criação, partilha e consumo de média e informação por meio de dispositivos e plataformas digitais.

    É notável que o Departamento de Educação dos EUA tenha uma definição para os programas que financia: “A literacia digital refere-se às competências necessárias que ao usar a tecnologia digital permitem aos utilizadores encontrar, avaliar, organizar, criar e comunicar informação; e, ainda, desenvolver a cidadania digital e o uso responsável da tecnologia.” É essencial que os decisores políticos e as agências locais de educação compreendam todo o âmbito da literacia digital devido ao financiamento em jogo.

    A definição da UNESCO também é útil aqui: “Literacia digital é a capacidade de aceder, gerir, compreender, integrar, comunicar, avaliar e criar informação de forma segura e adequada através de tecnologias digitais para o emprego, empregos dignos e empreendedorismo.” Inclui competências que são designadas por literacia informática [tecnologias da informação e comunicação], literacia da informação e literacia mediática.

    O que é literacia da informação? 

     A literacia da informação é um subdomínio da literacia mediática que permite aos indivíduos reconhecer quando a informação é necessária e ter a capacidade de localizar, avaliar e utilizar eficazmente a informação necessária. Baseámo-nos na definição da American Library Association.

    A literacia da informação requer questões como; Este site é legítimo? É uma boa fonte para a informação de que preciso? Por exemplo; Este é o site oficial do Bureau of Labor statistics do governo dos EUA, e é o melhor lugar para obter informações sobre quantas pessoas trabalham na indústria agrícola?

    O que é literacia noticiosa? 

    A literacia noticiosa é um subdomínio da literacia mediática com ênfase no conhecimento da prática jornalística e da indústria dos meios de comunicação social aplicada ao julgamento da credibilidade e fiabilidade da informação encontrada nas fontes noticiosas.

    Por exemplo, quando se utilizam competências de literacia noticiosa, pergunta-se: Que tipo de fonte de notícias é esta? Quão independente é esta fonte? Os profissionais usam as práticas do jornalismo para criar notícias que informam o seu público? Os factos são verificados e credíveis? O local onde recebo notícias é uma fonte fiável de informação factual que posso utilizar para tomar decisões ou tomar medidas?

    Para esta definição contamos com o trabalho do Dr. Michael A. Spikes na Northwestern University e também com esta definição do News Literacy Project:

    A literacia noticiosa é a capacidade de determinar a credibilidade das notícias e outras informações e de reconhecer os padrões do jornalismo baseado em factos para saber no que confiar, partilhar e agir.

    O que é o bem-estar digital? 

    A educação digital em bem-estar aborda os impactos do uso de media na saúde física e emocional, com o objetivo de ajudar a desenvolver o uso consciente e equilibrado de media que se alinhe com os objetivos de um indivíduo para a sua saúde e bem-estar.

    Para esta definição, contamos com o Harvard Medical School/Childrens Hospital Digital Wellness Lab:

    Bem-estar digital é um estado intencional de saúde física, mental e social que ocorre com o envolvimento consciente com o ambiente digital e natural.

    O que é literacia das redes sociais?

    A literacia das redes sociais é a literacia mediática aplicada na utilização das redes sociais. Uma vez que grande parte do consumo, criação e partilha de informação ocorre em plataformas de redes sociais, a literacia nas redes sociais engloba literacias digitais, de informação e de notícias. É essencial que os alunos aprendam como a ascensão das redes sociais exige maiores responsabilidades na criação e divulgação de notícias e informações através de plataformas digitais.

    A literacia das redes sociais também abrange a cidadania digital e o bem-estar digital para abordar as implicações da utilização das redes sociais para a saúde física e mental, incluindo as implicações positivas ou negativas para a saúde mental e emocional da visualização de determinados conteúdos das redes sociais e todos os aspetos de segurança e bem-estar relacionados com a utilização das redes sociais.

    Referência: What is Media Literacy? What is Digital Literacy? What is Information Literacy? What is News Literacy? What is Digital Citizenship?: Media Literacy Now. (2024). Retrieved from https://medialiteracynow.org/what-is-media-literacy-what-is-digital-literacy-what-is-information-literacy-what-is-news-literacy-what-is-digital-citizenship/

    Princípios para uma presença digital saudável: diretrizes para sobreviver e prosperar no mundo online

    Orla, ST-M. 
    &. 
    (2023, 27 de setembro). 
    Manifesto para publicação online em 2023 [boletim informativo Substack]. 
    Entre nós
    https://meandorla.substack.com/p/manifesto-for-posting-online-in-2023

    O texto aborda uma série de princípios e recomendações para manter uma presença digital equilibrada e saudável. Centra-se em temas como gestão do tempo e atenção online, destacando a importância de estabelecer limites face à agressão e à desinformação. O texto explora a ideia de resistir à pressão para o uso obrigatório de plataformas digitais e defende a necessidade de não trabalhar gratuitamente, apontando como isso pode afetar negativamente tanto a indústria quanto os artistas em geral. Além disso, é enfatizada a importância de receber feedback construtivo de pessoas próximas e de confiança, em vez de permitir que críticas negativas de estranhos afetem o seu bem-estar emocional. Destaca a necessidade de se permanecer fiel aos próprios valores, bloquear pessoas tóxicas sem explicações desnecessárias e focar-se na criação a partir de uma perspectiva generosa e apaixonada, sem se comparar constantemente com os outros no espaço digital.

    • O seu tempo e atenção não são propriedade pública. Você tem o direito de ocupá-los como achar melhor.
    • Só porque alguém está a gritar na sua caixa de entrada não significa que essa pessoa tenha o direito de ser ouvida. Muitas vezes, na verdade, é um bom indicador de que não vale a pena prestar-lhe atenção.
    • Só porque tem uma “plataforma” (uma noção questionável desde o início, quero dizer, nem comece) não significa que você deva a sua voz a quem exige tê-la. Não precisa chamar a atenção para todas as causas de caridade e desastres globais depois de ultrapassar algum limite mágico de seguidores. Você não é uma estação de notícias com uma equipa de 50 pessoas. Você é apenas um ser humano comum.
    • Cometer um erro não significa que tenha que suportar críticas de estranhos. Não, nem mesmo se estragou tudo significativamente. O que pode ser ganho, uma vez que você tenha compreendido o seu erro, martelando-se repetidamente com a raiva de estranhos? Eles estão lá para o drama, não para o crescimento.
    • Negue externalizar a sua opinião em todos os assuntos do coração. Nunca confie em nada além de você mesmo (ou, quando apropriado, num especialista respeitável).
    • Aceite comentários e críticas de quem te ama, te vê e sempre vai te dizer a verdade. Aprenda com os seus erros e cresça, mas sinta-se à vontade para fazer isso em particular. A sua vida não é arte performática.
    • Cultive uma política de tolerância zero para idiotas. E aí, decidir quem é um idiota é completamente subjetivo? Bem, claro que é, tal como na vida real, mas não realizamos um fórum público para decidir se cada estranho zangado tem o direito de se sentar no nosso sofá. Você tem o direito de formar a sua própria opinião sobre as pessoas e ser tão arbitrário e firme quanto desejar. Ainda há muito mais internet para eles incomodarem.
    • Venda o seu trabalho. Peça pagamento. Promova a sua magia. Negue envergonhar-se por pedir uma compensação justa. Incentive outros escritores a fazerem o mesmo. Sim, claro que é uma tolice que não possamos todos pagar tudo, em qualquer lugar, o tempo todo, mas isso não significa que todos devamos trabalhar de graça. Na verdade, fazer isso prejudica enormemente toda a indústria da escrita e é prejudicial às artes.
    • Apareça para trabalhar e faça o seu trabalho. Se isso significa postar online quando eventos mundiais estão a acontecer, então poste online. Ninguém espera que os trabalhadores de escritório ou vendedores não vão trabalhar. Você ainda precisa comer. Você ainda precisa pagar pelos sapatos dos seus filhos. Portanto, faça o seu trabalho e, se as pessoas reclamarem, consulte os pontos 4 (não é notícia) e 11 (apenas bloqueia).
    • Bloqueie sem avisar. Silêncio liberalmente. Não ofereça explicações.
    • Deixe as pessoas enganarem-se sobre as coisas, sobre os factos, sobre a política, sobre si. Deixe-os em paz. Aprenda a ir-se embora e deixar tudo ir. Lembre-se de que discutir na internet é como concorrer como deputado conservador numa eleição local. Mesmo se vencer, ainda será um dos perdedores da vida.
    • Proteja a sua energia ferozmente. Gaste apenas com quem atende aos seus padrões e gostos. Haverá muitos, muitos idiotas que vão querer ocupar o seu tempo e largura de banda, então pense nisso em termos monetários: responder a esse idiota vai custar 100€. Você ama-os o suficiente para gastar isso com eles? Essa conversa importa o suficiente?
    • Despeje o seu amor no bem. Encontre as pessoas que correspondem aos seus valores e mostre o quanto elas contam. Apegue-se a pessoas que amam como você e dê-lhes tudo o que puder.
    • Crie a partir da generosidade, da emoção, da paixão. Ignore o que toda a gente está a fazer ao seu redor. Pela sua própria natureza, isso já foi feito. Confie nas vibrações. Elas sabem.
    • Consuma mais do que você pensa. Consuma tudo o que quiser criar – arte, literatura, interiores, comédia – de fontes incomuns e não convencionais. Ame tudo.
    • Poste como se você não pudesse ver os números. Centrado no público, não liderado pelo público, como minha amiga Jen Carrington gosta de dizer.
    • Use este prático sistema de arquivamento quando receber feedback negativo:

    📂 Comentário aleatório

    └📁 Opiniões

    └📁 Importância dada

    └ 📁⚠ Esta pasta está vazia

    • Abra espaço para todas as suas facetas criativas num só lugar. Resista à tentação de arquivar todas as suas lindas peças em caixas separadas. Deixe-as infundir e misturar-se, como um chá floral mágico.
    • Nunca subestime o péssimo gosto do público em geral. A maioria das pessoas preferiria que você fosse um pão branco padrão de supermercado, mas sabemos que todas as vantagens estão na sua mistura de massa fermentada descolada.
    • Recuse-se a responder ao subtexto. Se alguém tiver um problema com você, deixe-o explicar. Subtweets, referências passivo-agressivas, hordas de macacos voadores… Tudo isso são sinais de que isso não é grande coisa para eles. Se for importante, eles serão diretos. Aborde-o se necessário.
    • Mantenha a gentileza. Sim, ainda existe: não permitiremos que os corações estaladiços e ressecados dos nossos detratores nos tornem igualmente frios e cruéis. No entanto, reservaremos a nossa gentileza para aqueles que a merecem e para nós mesmos, regularmente. É difícil manter a barriga mole num mundo cheio de objetos pontiagudos e palavras.
    • Aja com generosidade, em todos os momentos. Se tiver alguma dúvida sobre o curso de ação correto, simplesmente pergunte-se: o que é generoso neste caso? Em seguida, faça isso e aproveite o brilho caloroso que advém do trabalho alinhado com os seus valores mais elevados. É seguro ser generoso e amoroso. Recuse-se a agachar-se com os irados nos esgotos do medo.

    Referência: Sara Tasker – Me & Orla. (2023). Manifesto for posting online in 2023. Retrieved from https://meandorla.substack.com/p/manifesto-for-posting-online-in-2023

    Transição digital | Entrevista com Enrique Dans

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    O professor Enrique Dans é um renomeado especialista em tecnologia da informação e professor de inovação na IE University há cerca de 32 anos. Os seus interesses de investigação centram-se nos efeitos das novas tecnologias nas pessoas e nas empresas. Nesta entrevista, para a edição 74 da revista ÍTEM, dedicada à transformação digital podemos ler a sua opinião especializada.

    Ítem – Cuando hablamos de transformación digital se mezclan muchos conceptos y existen muchas opiniones. ¿Nos podría dar su definición de lo que para usted es transformación digital en las organizaciones?

    Enrique Dans – Yo creo que la transformación digital en las organizaciones no existe como tal. O sea, que las organizaciones no se transforman y que lo que se transforma en realidad son las personas. Es decir, las personas se digitalizan. Hay un componente muy importante de la digitalización de las personas que corre a cargo, incluso de su vida personal, de cosas que hacen en su vida personal, y otro que debería correr en paralelo a su dedicación profesional y que supone la incorporación de las tecnologías digitales a todos los ámbitos posibles de su trabajo.

    Esta transformación puede venir protagonizada por la compañía, que toma la decisión concreta de fomentar y de buscar que se dé de está manera, que la transformación se produzca o puede venir, incluso de las propias personas. Que se les ocurren formas de aplicar tecnologías que han visto en su ámbito particular a su trabajo y que las van proponiendo. Esto depende de como de abierta o cerrada sea la cultura de una organización, cómo de fácil sea una organización que las personas efectivamente expresen estas inquietudes, estas posibilidades, y las materialicen de manera que que la organización acabe cambiando su forma de trabajar. Pero básicamente de lo que hablamos es de la transformación de una cadena de valor para incorporar todos los elementos de tecnología digital a ella.

    (…)

    Dans, Enrique. «Entrevista a Enrique Dans». Item: revista de biblioteconomia i documentació, 2023, Vol. 2023, Núm. 74, https://doi.org/10.34810/itemn74id418010.