Nove pensadores para levar para a sala de aula

A revista espanhola Ethic escolheu nove nomes para explicar o pensamento que hoje atravessa os debates sobre democracia, desigualdade, tecnologia e identidade. Lemos a lista com olhos de professor e fizemos uma pergunta simples: o que pode cada um destes autores fazer por uma turma do secundário, numa escola onde a inteligência artificial já entrou pela porta da frente?

Uma lista é sempre um ponto de vista

A Ethic publicou, a 17 de setembro, uma seleção de nove pensadores que, na leitura da autora, ajudaram a moldar muitas das políticas sociais e económicas das sociedades atuais: Noam Chomsky, Peter Singer, Martha Nussbaum, Slavoj Žižek, Michael Sandel, Judith Butler, Byung-Chul Han, Thomas Piketty e Yuval Noah Harari. O próprio texto começa por admitir que fechar um grupo destes é tarefa ingrata. Tem razão, e é precisamente por isso que vale a pena olhar primeiro para quem lá está.

Feitas as contas, são sete homens e duas mulheres. Quatro nasceram nos Estados Unidos. O mais velho, Chomsky, é de 1928; o mais novo, Harari, de 1976. Não há ninguém de África nem da América Latina, e o conjunto inclina-se de forma bastante clara para o campo progressista, sem vozes liberais ou conservadoras de peso. Nada disto invalida a escolha. Mas convém dizê-lo aos alunos logo no início, porque uma lista de «mais influentes» é um argumento, não um facto. Pedir a uma turma que proponha o décimo nome, e que o defenda perante os colegas, ensina mais sobre critérios, fontes e vieses do que decorar os nove.

Pensar a máquina: Chomsky e Harari

Para quem trabalha com tecnologia na escola, há dois nomes que saltam da página. Chomsky tornou-se incontornável na linguística com a ideia de que trazemos de nascença uma capacidade para a gramática, o que ajudaria a explicar a facilidade com que as crianças aprendem línguas complicadíssimas. A Ethic lembra, porém, que a fama pública lhe veio sobretudo de outro lado: da crítica feroz à política externa norte-americana e ao capitalismo neoliberal, e da defesa de democracias mais participativas, assentes em cidadãos capazes de pensar criticamente.

O artigo não o refere, mas interessa-nos muito: Chomsky levou a sua linguística para o debate sobre inteligência artificial. Em março de 2023, num ensaio de opinião no New York Times escrito com Ian Roberts e Jeffrey Watumull, defendeu que o ChatGPT e os seus pares nada têm de parecido com a mente humana. Seriam máquinas estatísticas que procuram padrões em quantidades gigantescas de dados, ao passo que a mente humana trabalha com pouca informação e procura explicações, não correlações. O texto foi muito contestado. O cientista da computação Scott Aaronson, por exemplo, respondeu-lhe no seu blogue em termos bastante duros. Pôr os dois textos lado a lado numa aula, no original ou resumidos pelo professor, dá uma conversa mais honesta sobre o que a IA faz, e não faz, do que qualquer tutorial de ferramentas.

Harari chega ao mesmo território por outro caminho. Historiador de formação, ficou conhecido com Sapiens e com a ideia de que a história serve, antes de mais, para compreender o presente. A Ethic destaca a sua tese de que o «dataísmo», a fé nos dados e no seu processamento, se tornou uma espécie de nova religião. Em Nexus (2024), Harari foi mais longe e percorreu a história das redes de informação desde a Idade da Pedra até à IA. A ideia central do livro, tal como a resume uma recensão publicada na revista AI & Society, é que mais informação não significa, por si só, mais verdade nem mais sabedoria, e que sistemas de IA cada vez mais autónomos podem distorcer a verdade e fragilizar as instituições democráticas. O autor não fecha a porta ao otimismo, mas pede regulação e responsabilidade coletiva.

Quem ensina literacia mediática reconhece aqui o seu próprio programa. A área de competências Informação e comunicação do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória ganha outra espessura quando os alunos percebem que a pergunta «isto é verdade?» é mais antiga do que a internet, e que a resposta nunca dependeu apenas da quantidade de informação disponível.

O silêncio, a atenção e o ecrã

Byung-Chul Han é, provavelmente, o filósofo desta lista que os professores mais citam sem o terem lido por inteiro. Os seus livros são curtos, os títulos colam-se ao ouvido (A sociedade do cansaço, A sociedade da transparência) e o diagnóstico parece escrito para a sala dos professores: vivemos numa cultura do rendimento em que cada um se explora a si próprio, e o excesso de informação, de comunicação e de produtividade acaba com o silêncio de que precisamos para observar e pensar. A Ethic cita-o a dizer que tudo grita e que a informação nos rouba o silêncio.

Em 2025, Han recebeu o Prémio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades. No discurso de Oviedo, segundo a imprensa que o cobriu, voltou ao tema do telemóvel: já não somos nós que usamos o smartphone, é ele que nos usa, e as redes sociais, em vez de nos aproximarem, isolam-nos e tornam-nos mais agressivos. Han não dá receitas, e seria um erro usá-lo como argumento de autoridade num regulamento interno. O que oferece é vocabulário. Palavras como «cansaço», «transparência» ou «ruído» ajudam os alunos a nomear aquilo que sentem quando passam a noite a deslizar o dedo pelo ecrã e chegam à escola exaustos. E dão sentido a coisas tão simples como dez minutos de leitura silenciosa no início da aula ou uma biblioteca onde, por uma vez, nada vibra.

Mérito, justiça e bem comum

Michael Sandel tornou-se conhecido com Justiça e com um curso em Harvard que faz dos dilemas morais um espetáculo de sala cheia. A Ethic destaca a sua defesa do bem comum como eixo da ética pública, mas é o livro de 2020, The Tyranny of Merit, que mais diz à escola. Sandel argumenta que a meritocracia gera arrogância em quem ganha e humilhação em quem perde, e que esquece o papel da sorte: a família em que se nasce, o bairro, a escola que se frequenta. Propõe, em alternativa, uma ideia de sucesso mais humilde e mais solidária, que devolva dignidade ao trabalho.

Isto toca num nervo sensível. Passamos a vida a dizer aos alunos que, se se esforçarem, conseguem. Sandel não manda deixar de o dizer. Obriga, isso sim, a acrescentar uma pergunta incómoda: quanto do teu resultado dependeu só de ti? Num debate de Cidadania e Desenvolvimento, ou numa aula de Filosofia, esta pergunta abre mais caminhos do que qualquer discurso motivacional. Vale a pena ouvir também os críticos de Sandel, que o acusam de desvalorizar a competência e as credenciais. O desacordo faz parte da aula.

Thomas Piketty responde ao mesmo problema com números. Para o economista francês, a forma como a riqueza se distribui não resulta de leis naturais da economia, mas de decisões políticas, leis e ideologias de cada época. Em O capital no século XXI defende que, sem intervenção do Estado, a desigualdade tende a crescer, porque o rendimento do capital cresce mais depressa do que a economia no seu conjunto (a célebre desigualdade r > g, que a Ethic descreve de forma um pouco solta). A Ethic sublinha um ponto que nos diz diretamente respeito: Piketty considera que o acesso de todos a uma educação e a uma saúde de qualidade está em risco quando a desigualdade dispara. Para as aulas de Economia, Geografia ou História, os seus gráficos são material de primeira para aprender a ler dados, a desconfiar deles e a discuti-los.

Florescer, e não apenas passar de ano

Se tivéssemos de escolher um só nome desta lista para a formação de professores, seria o de Martha Nussbaum. Com Amartya Sen, desenvolveu a abordagem das capacidades, que pergunta não quanto uma pessoa tem, mas o que é realmente capaz de fazer e de ser com a liberdade de que dispõe. A Ethic lembra que esta abordagem influenciou a forma como as Nações Unidas medem o desenvolvimento humano e vários programas de justiça social e de educação.

Em Not for Profit (2010), Nussbaum escreveu aquilo que muitos professores pensam e poucos conseguem argumentar tão bem. Quando a educação se põe ao serviço exclusivo do crescimento económico, perdem-se as humanidades e as artes, e com elas a capacidade de pensar criticamente, de compreender outras culturas e de imaginar a experiência de outra pessoa. Para Nussbaum, a literatura não é um luxo curricular; é uma condição da democracia. É difícil encontrar melhor argumento para defender o tempo de leitura, o clube de teatro ou a aula de Português que não se esgota na preparação para o exame.

Ética fora da zona de conforto

Os três nomes que faltam são, cada um à sua maneira, desconfortáveis. E ainda bem.

Peter Singer publicou Libertação animal em 1975 e mudou a forma como se discute o estatuto moral dos animais: o critério, defende, é a capacidade de sentir dor e sofrer. Herdeiro do utilitarismo de Bentham e de Mill, leva essa lógica até conclusões que muita gente rejeita, sobretudo em bioética. Precisamente por isso, é um parceiro ideal para a unidade de ética do 10.º ano de Filosofia, onde os alunos estudam Mill. Singer mostra como uma teoria clássica é usada hoje e onde pode conduzir, e obriga a turma a fazer o que as Aprendizagens Essenciais pedem: avaliar teses, argumentos e contra-argumentos, em vez de escolher o lado que soa melhor.

Judith Butler é, destes nove, a autora que mais divide a opinião pública. A sua tese de que o género é uma construção social e performativa, feita de atos e normas culturais que se repetem, está na origem da teoria queer e é hoje objeto de um debate aceso, dentro e fora da academia. Numa escola, o essencial é de método: distinguir entre explicar uma teoria e aderir a ela, conhecer os argumentos de quem a defende e de quem a critica, e respeitar a pluralidade de convicções de alunos e famílias. A Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania inclui a igualdade de género entre os seus domínios, e é nesse quadro que a discussão faz sentido.

Slavoj Žižek, por fim, é o filósofo pop da lista, conhecido por explicar Hegel e Lacan com cenas de filmes e anedotas. Para ele, a ideologia é o enquadramento invisível que nos faz aceitar como normal a realidade em que vivemos, e o capitalismo e a cultura de massas moldam o nosso pensamento sem que demos por isso. Traduzido para a escola, é um excelente ponto de partida para analisar anúncios, séries, videoclipes e memes: o que é que isto me está a pedir que ache normal?

E agora, na escola?

Não é preciso ler os nove de fio a pavio para tirar partido desta lista. Uma proposta possível é distribuir os pensadores por grupos e pedir a cada um que traga uma ideia central, um exemplo do quotidiano da turma e uma crítica séria feita por outro autor. Outra é pegar num dilema da vida escolar, seja o uso do telemóvel, a classificação dos trabalhos ou o recurso à IA nos trabalhos de casa, e discuti-lo à maneira de Sandel, com posições defendidas por argumentos e não por gritos.

E há uma terceira, que junta Chomsky e Harari no mesmo exercício. Peça-se a um assistente de IA que resuma o pensamento de um destes autores e compare-se o resultado com um texto do próprio. Onde acertou? O que simplificou? O que inventou? Poucas atividades ensinam tão bem que a fluência de uma resposta não prova a sua verdade.

No fundo, a lista da Ethic acaba por ser um bom pretexto para regressar a uma das áreas de competências do Perfil dos Alunos, a do pensamento crítico e criativo. Nenhum destes nove pensadores precisa de ser aceite. Todos merecem ser discutidos. E talvez seja esse o maior elogio que se pode fazer a um filósofo numa sala de aula.

Nota de transparência. Este artigo foi escrito com o apoio de uma ferramenta de inteligência artificial, a partir do artigo da revista Ethic indicado nas referências e de fontes complementares consultadas a 24 de setembro de 2026.

Referências

Aaronson, S. (2023, março). The false promise of Chomskyism. Shtetl-Optimized. https://scottaaronson.blog/?p=7094

Chomsky, N., Roberts, I., & Watumull, J. (2023, 8 de março). Noam Chomsky: The false promise of ChatGPT. The New York Times. https://www.nytimes.com/2023/03/08/opinion/noam-chomsky-chatgpt-ai.html

Despacho n.º 6478/2017, de 26 de julho. (2017). Diário da República. https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/despacho/6478-2017-107752620

Direção-Geral da Educação. (s.d.). Filosofia (CH): Aprendizagens essenciais. Consultado a 24 de setembro de 2026, em https://www.dge.mec.pt/filosofia-1

Fundación Princesa de Asturias. (2025). Byung-Chul Han: Premio Princesa de Asturias de Comunicación y Humanidades 2025. https://www.fpa.es/es/premios-princesa-de-asturias/premiados/2025-byung-chul-han/

Gómez-Cotta, C. (2026, 17 de setembro). Estos son algunos de los pensadores más influyentes en la actualidad. Ethic. https://ethic.es/pensadores-mas-influyentes/

Harari, Y. N. (2024). Nexus: A brief history of information networks from the Stone Age to AI. Random House.

Infobae. (2025, 24 de outubro). El filósofo Byung-Chul Han, al recoger su premio Princesa de Asturias: «Aunque creamos ser más libres que nunca, vivimos en un régimen que explota la libertad». Infobae. https://www.infobae.com/cultura/2025/10/24/el-filosofo-byung-chul-han-al-recoger-su-premio-princesa-de-asturias-aunque-creamos-ser-mas-libres-que-nunca-vivimos-en-un-regimen-que-explota-la-libertad/

Konch, M. (2026). Review of «Nexus: A brief history of information networks from the Stone Age to AI» by Yuval Noah Harari, Random House, 2024. AI & Society, 41, 1595–1598. https://doi.org/10.1007/s00146-025-02569-3

Nussbaum, M. C. (2010). Not for profit: Why democracy needs the humanities. Princeton University Press.

Sandel, M. J. (2020). The tyranny of merit: What’s become of the common good? Farrar, Straus and Giroux.

Para saber mais

Martha Nussbaum y la vulnerabilidad humana (Ethic): a noção de vulnerabilidade como ponto de partida para a justiça social.

Yuval Noah Harari en cinco ideas clave (Ethic): uma introdução rápida ao autor de Sapiens.

Diez ideas clave para entender a Noam Chomsky (Ethic): da linguística à crítica política.

Página oficial de Nexus: apresentação do livro e fontes indicadas pelo autor.

Not for Profit, na Princeton University Press: apresentação da obra de Nussbaum sobre educação e humanidades.

Byung-Chul Han na Fundação Princesa das Astúrias: ata do júri, discurso e trajetória.

Aprendizagens Essenciais de Filosofia (DGE): documentos curriculares do 10.º e 11.º anos.

Johannes Gutenberg e o desenvolvimento da imprensa: revolução cultural na Europa

Gutemberg (Perplexity)

Introdução

Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg (c. 1400–1468) é unanimemente reconhecido como o inventor da imprensa de tipos móveis metálicos no Ocidente, uma inovação técnica que transformou radicalmente a circulação do conhecimento, a produção de livros e, consequentemente, a história da humanidade. A sua invenção não representou apenas um avanço tecnológico: foi um catalisador de mudanças culturais, religiosas, sociais e políticas que marcaram a transição da Idade Média para a Modernidade[1][2].

Este artigo examina de forma exaustiva a vida e obra de Gutenberg, analisando as suas origens, as influências que moldaram o seu trabalho, o auge da sua actividade inventiva, as inovações técnicas que introduziu e as profundas consequências da sua invenção para a Europa e, especificamente, para a difusão das línguas vernáculas, incluindo o português.

Origem e Contexto Histórico

Nascimento e Família

Johannes Gutenberg nasceu em Mogúncia (Mainz), importante cidade do Sacro Império Romano-Germânico, por volta de 1400. Pertencia a uma família abastada ligada ao patriciado urbano. O seu nome completo, Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg, reflecte a tradição de identificação das famílias nobres germânicas pela propriedade: “Gutenberg” era o nome da casa onde residia a sua família[3].

O pai de Gutenberg, Friele Gensfleisch, trabalhava na Casa da Moeda de Mogúncia, o que terá proporcionado ao jovem Johannes contacto precoce com a metalurgia e as técnicas de fundição de metais. Esta experiência familiar revelou-se crucial para o desenvolvimento posterior da tecnologia de tipos móveis metálicos[4].

Formação e Primeiros Anos

Embora os registos biográficos sejam escassos, sabe-se que Gutenberg terá frequentado a Universidade de Erfurt, onde possivelmente estudou artes liberais. Entre 1434 e 1444, residiu em Estrasburgo, onde trabalhou como ourives e conduziu experiências com técnicas de impressão. Documentos judiciais revelam que nesse período estava envolvido em projectos secretos que envolviam “artes e aventuras”, possivelmente as primeiras tentativas de desenvolver um sistema de impressão[5][6].

O Contexto da Mogúncia Medieval

Mogúncia era um importante centro comercial e religioso, sede de um poderoso arcebispo-eleitor do Sacro Império. A cidade albergava numerosos copistas, iluminadores e escribas que produziam manuscritos para a Igreja e para uma burguesia cada vez mais letrada. Este ambiente propiciou a Gutenberg tanto o conhecimento das necessidades do mercado livreiro como o acesso a artífices especializados[7].

Influências e Contexto Tecnológico

Tradições Precedentes

A invenção de Gutenberg não surgiu num vácuo tecnológico. Várias tradições e técnicas anteriores influenciaram o seu trabalho:

  • Xilogravura: Desde o século XIV, na Europa circulavam impressões xilográficas — imagens e textos gravados em blocos de madeira. Embora permitissem reprodução, cada página exigia um bloco específico, tornando o processo moroso e dispendioso[8].
  • Técnicas de ourivesaria: A experiência com metais preciosos, punções e matrizes, transmitida pelas guildas de ourives, forneceu a Gutenberg o conhecimento necessário para fundir tipos metálicos precisos e duráveis[9].
  • Prensas de vinho e azeite: A adaptação de prensas agrícolas já existentes foi essencial. Gutenberg modificou estas estruturas para exercer pressão uniforme sobre o papel e os tipos, garantindo impressões nítidas[10].
  • Papel: A difusão do papel na Europa (importado da China através do mundo islâmico) substituiu progressivamente o pergaminho, material caro e escasso. O papel tornou viável a produção em larga escala[11].

A Procura por Soluções Técnicas

O desafio central era criar um sistema que permitisse a reutilização de caracteres individuais (tipos móveis) em vez de gravar páginas inteiras. Na China e na Coreia, sistemas de tipos móveis em madeira e cerâmica existiam desde o século XI, mas eram inadequados para o alfabeto latino devido à fragilidade dos materiais e à complexidade de milhares de ideogramas[12].

Gutenberg compreendeu que a solução passava por tipos metálicos fundidos em liga de baixo ponto de fusão, resistentes e reutilizáveis, que pudessem ser compostos e decompostos rapidamente[13].

Tipos moveis- inventados por Johannes Gutenberg por volta de 1440

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O Protesto de Springsteen pelas Ruas de Minneapolis

Bruce Springsteen e o grito de protesto em Streets of Minneapolis

1. Introdução ao lançamento e motivação imediata

Na passada quarta-feira, dia 28 de janeiro de 2026, Bruce Springsteen reafirmou o seu papel como a consciência moral do rock americano com o lançamento fulminante de Streets of Minneapolis. A canção não é apenas um registo musical, mas um acto de urgência visceral: escrita num sábado, gravada na terça-feira e lançada no dia seguinte. Este ritmo frenético é a resposta directa do artista ao que ele próprio classifica como o “terror de estado” que fustiga Minneapolis. Ao anunciar o tema, o músico partilhou uma mensagem de solidariedade absoluta: “Escrevi esta canção no sábado, gravei-a ontem e lancei-a hoje para vós em resposta ao terror de estado que está a ser visitado sobre a cidade de Minneapolis. É dedicada ao povo de Minneapolis, aos nossos vizinhos imigrantes inocentes e em memória de Alex Pretti e Renee Good. Mantenham-se livres.”

2. As vítimas e o conflito de narrativas

A composição ergue-se como um memorial fúnebre e político para Renee Macklin Good e Alex Pretti, ambos mortos por agentes federais este mês. Springsteen utiliza a letra para dissecar a anatomia de uma mentira oficial, expondo a fragilidade das narrativas estatais perante os factos.

  • A versão do governo: Kristi Noem, a secretária de segurança interna, não hesitou em rotular as acções de Alex Pretti — um enfermeiro de 37 anos — como “terrorismo doméstico”. A versão inicial alegava que Pretti teria empunhado uma arma e atacado as autoridades, justificativa também aplicada ao caso de Renee Macklin Good.
  • A contestação de Springsteen: O músico confronta esta retórica com a crueza da realidade documental. Ao cantar “apenas não acredites nos teus próprios olhos”, Springsteen ironiza a tentativa do governo de deslegitimar as provas visuais.
  • O colapso da narrativa oficial: O crítico sublinha que a revisão preliminar do governo já constitui um recuo humilhante em relação às declarações agressivas de Kristi Noem. Onde antes se falava de um ataque armado, o novo relatório menciona apenas que Alex Pretti terá “resistido à detenção” antes de ser baleado por dois agentes da alfândega e protecção de fronteiras (CBP), uma distinção crucial que expõe a fabricação do pretexto inicial.

3. Análise musical e lírica: a sonoridade da indignação

Musicalmente, Streets of Minneapolis é um hino de rock and roll robusto, onde a presença do coro da E Street Band transforma a canção num símbolo de resistência comunitária e solidariedade colectiva. A performance vocal de Bruce Springsteen é assombrosa; a sua voz surge crua e rouca, o som de um ícone cujo timbre parece quebrar sob o peso da tragédia nacional, mas que se recusa a silenciar.

A análise lírica revela um Springsteen que abandonou as metáforas subtis por um confronto directo:

  • Denuncia King Trump e os seus “federal thugs” (capangas federais).
  • Aponta o dedo a Stephen Miller e Kristi Noem, acusando-os explicitamente de propagar “mentiras sujas”.

O ponto fulcral da canção reside no verso que menciona “apitos e telefones”. Para Springsteen, os telemóveis representam a democratização da verdade através do jornalismo cidadão; é a lente do cidadão comum contra o aparelho de propaganda do estado. O músico canta: “A alegação deles foi legítima defesa, senhor / Apenas não acredites nos teus próprios olhos / É o nosso sangue e ossos / E estes apitos e telefones / Contra as mentiras sujas de Miller e Noem.”

4. O activismo contínuo de Springsteen e o contexto local

O lançamento desta canção é o culminar de um crescendo de activismo. No início do mês, no festival Light of Day em New Jersey, Springsteen já tinha dedicado uma interpretação sentida de The Promised Land a Renee Macklin Good. Ao alinhar-se com o presidente da câmara de Minneapolis, Jacob Frey, na exigência de que o ICE abandone a cidade, o músico posiciona-se claramente ao lado da governação local contra o abuso federal.

Este lançamento solidifica uma década de resistência artística iniciada em 2016. Streets of Minneapolis segue-se ao EP Land of Hope & Dreams, lançado na primavera passada, onde Springsteen já descrevia a actual administração como “corrupta, incompetente e traidora”. Com este novo fôlego, Bruce Springsteen prova que o rock continua a ser a ferramenta mais potente para documentar a luta americana e desafiar o autoritarismo.