Um conto, um elétrico, uma hora de ponta. E uma pequena rebelião que não pede licença.

Há textos que resistem ao tempo não porque sejam difíceis, mas porque são verdadeiros. Assobiando à Vontade, de Mário Dionísio, publicado em O Dia Cinzento e Outros Contos (1944), é um desses casos. Passaram mais de oitenta anos sobre a sua escrita e, ainda assim, qualquer pessoa que já apanhou um elétrico apinhado — ou simplesmente já sentiu a pressão silenciosa de “comportar-se” — vai reconhecer ali qualquer coisa de si própria.
Este post propõe precisamente isso: levar o conto para dentro da sala de aula, a sério, por todos os lados possíveis. O texto, o vídeo, o podcast e a apresentação estão aqui. O que fazemos com eles é o que importa.
Mário Dionísio e o peso do dia cinzento
Antes de entrar no conto, vale a pena saber quem o escreveu. Mário Dionísio (1916–1993) foi um dos grandes nomes do neorrealismo português — movimento literário que não queria retratar a realidade com pincéis cor-de-rosa, mas sim olhá-la com honestidade, especialmente quando ela era desconfortável. A sua escrita interessa-se pela gente comum, pelos que viajam de pé nos elétricos, pelos que chegam a casa com o chapéu de lado depois de uma tarde de empurrões.
Mas não se trata de literatura de protesto à maneira panfletária. Dionísio é mais subtil do que isso. Ele observa, descreve, deixa o leitor tirar as suas conclusões. E é essa subtileza que torna os seus textos tão ricos para trabalhar em contexto escolar.
O que se passa, afinal, neste elétrico?
A ação é simples até à brutalidade: uma tarde de semana, hora de ponta, Lisboa. As ruas da Baixa transbordam de gente que sai das lojas, dos escritórios, das oficinas. O elétrico vai cheio até à beira. Há encontrões, maus humores contidos, a compostura social a fazer horas extra.
E então aparece ele — um homenzinho com chapéu coçado e sobretudo castanho lustroso nas bandas, que fura a multidão, encontra um lugar vago e… começa a assobiar. Devagar, depois com entusiasmo. Trinados ridículos. Um gorjeio sem lei nem método, qualquer coisa que lhe apetecia que fosse assim.
O escândalo instala-se. Não há regulamento que proíba o assobio — proíbe-se fumar, cuspir, abrir as janelas no inverno, mas assobiar? Nada. A autoridade do condutor limita-se a cobrar o bilhete. Os senhores respeitáveis franzem a testa atrás dos jornais. A senhora opulenta do lado apertar os lábios com tal força que os dedos lhe ficam brancos.
Só a criança de azul ri e bate palmas — e a mãe segura-lhe as mãos com gentileza, mas com firmeza.
Quando o homem salta do elétrico ainda a andar, os passageiros olham uns para os outros e riem. Um minuto apenas. Depois recompõem-se, envergonham-se do riso, regressam ao jornal, às golas, à dignidade. Tudo volta, pesadamente, ao silêncio.
O que está mesmo em jogo aqui
Dito assim, parece pouco. Mas é muito.
O elétrico de Dionísio não é apenas um meio de transporte — é um microcosmo da sociedade portuguesa do Estado Novo, onde a separação de classes se mantinha não por decreto mas por rituais invisíveis: o jornal desdobrado, os anéis contados, o chapéu recolocado no lugar certo. A compostura social era, ela própria, uma forma de poder — quem a violava não infringia nenhuma lei, mas perturbava a ordem tácita que mantinha cada um no seu lugar.
O homenzinho do assobio não pede nada. Não agride, não insulta, não reivindica. Simplesmente faz o que lhe apetece. E essa liberdade sem drama é mais subversiva do que qualquer discurso.
Há outra camada, ainda mais funda: a senhora nova e bonita que segura as mãos da filha e lhe diz que uma menina bonita não faz barulho — essa senhora também se chamou Nini. Também atirou pedras para o rio, ria até se sufocar, gostava de fazer precisamente o que não devia. Cresceu. E agora é ela a reproduzir as mesmas palavras que a calaram.
Não é preciso ser professor de Literatura para perceber que isto tem muito para dizer a jovens de 14 ou 16 anos. Tem muito para dizer a qualquer pessoa.
Uma abordagem multimédia para a sala de aula
Trabalhar este conto só com o texto seria desperdiçar metade do seu potencial. Por isso, juntámos aqui três recursos complementares que permitem chegar ao mesmo texto por caminhos diferentes — e chegar mais longe.
O vídeo percorre o conto de forma visual e dinâmica, ideal para uma primeira abordagem ou para rever momentos-chave depois de uma leitura mais aprofundada. É um ponto de entrada que funciona bem para turmas que resistem ao papel.
O podcast — “O Escândalo de Assobiar no Elétrico” — trata o conto em conversa, o que permite ouvir argumentos, perspetivas e nuances que um texto escrito raramente consegue transmitir com a mesma fluidez. É excelente para a aula de Oralidade ou para trabalho autónomo.
A apresentação, construída a partir das infografias que acompanham o conto, descreconstrói a narrativa em camadas: a cidade não planeada para a multidão, o elétrico como panela de pressão, a hierarquia social perante o escândalo, a dualidade entre a máscara e a criança interior. Cada diapositivo é, por si só, um ponto de partida para debate.
O que fazer com isto em aula
Não há receita única. Mas há caminhos que funcionam.
Uma leitura silenciosa e individual do conto, seguida de uma discussão em torno de uma pergunta simples — “Porque é que as pessoas se envergonharam de ter rido?” — costuma gerar conversas que ninguém esperava. Os alunos percebem, muitas vezes antes dos professores, que o riso partilhado durou exatamente um minuto porque era perigoso durar mais.
A análise dos recursos expressivos — o contraste entre o homenzinho insignificante e a grandeza da sua indiferença, a ironia do narrador, a descrição dos gestos de reconquista da dignidade — encaixa naturalmente numa sequência de leitura literária para o 9.º ou 10.º ano.
O podcast pode ser usado como modelo para um exercício de produção oral: depois de ouvir, os alunos preparam a sua própria versão comentada do conto, em grupo. Quem é o agente do caos na escola? Já aconteceu a alguém sentir-se o homenzinho do assobio — ou a senhora que segurou as mãos da filha?
A apresentação pode ser trabalhada às avessas: mostrar os diapositivos antes da leitura, como uma espécie de mapa conceptual, e pedir aos alunos que encontrem no texto os momentos que correspondem a cada conceito. Funciona especialmente bem com turmas que precisam de estrutura para entrar numa narrativa mais densa.
Para quem queira ir mais longe, a ligação ao neorrealismo português abre a porta a um trabalho interdisciplinar com História: o Estado Novo, o corporativismo, a rígida separação social de uma Lisboa dos anos 40, o papel do silêncio como instrumento de controlo. Não é preciso fazer uma aula de história dentro da aula de português — basta que os alunos percebam que a ficção não cai do céu, que é sempre filha de um tempo.
Para terminar — e para começar
O conto acaba com uma frase que fica. Depois do riso breve, depois da ingenuidade partilhada por um segundo, as pessoas voltam ao jornal, às golas, ao vidro embaciado. Tudo voltou, pesadamente, a encher-se de silêncio e dignidade.
Pesadamente. Dionísio não se esqueceu desse advérbio. A dignidade, aqui, tem peso. É um fardo. E o leitor fica com a sensação incómoda de que talvez a liberdade fosse aquele minuto — e que o deixámos ir.
É esse desconforto que faz deste texto um bom texto para a escola. Não porque dê respostas, mas porque faz perguntas que ficam.
Fontes: Dionísio, M. (1944). O dia cinzento e outros contos. Lisboa: Seara Nova.
Bom trabalho — dentro e fora do elétrico.








