Toda a gente fala do filme de Christopher Nolan, mas a Odisseia já tinha sido pintada e reinventada centenas de vezes antes de chegar ao IMAX. Este artigo segue esse percurso visual e pergunta o que ele pode ensinar às escolas portuguesas sobre ler imagens com sentido crítico.

Um mês depois de Christopher Nolan ter levado Ulisses ao IMAX, este artigo recua três séculos de pintura sobre a Odisseia para perguntar algo mais útil a uma escola do que «gostaram do filme?»: o que muda, de artista para artista, quando se decide como pintar um ciclope, uma feiticeira ou uma mulher que espera.
Este artigo parte de um ensaio de história de arte da historiadora Catriona Miller, publicado na DailyArt Magazine a propósito da estreia do filme de Nolan, e segue de perto os exemplos que a autora reúne sobre a receção artística da Odisseia ao longo dos séculos. Cruza-os com as Aprendizagens Essenciais de Português e de Clássicos da Literatura, com o Perfil dos Alunos e com a componente de Cidadania e Desenvolvimento, para propor uma leitura desta tradição visual mais próxima do que interessa a uma aula portuguesa do que a uma crítica de cinema.
Há um mês, o Ulisses de Matt Damon chegou às salas portuguesas dentro do filme mais caro da carreira de Christopher Nolan, rodado em película IMAX de 70 milímetros e com um elenco que junta Anne Hathaway, Zendaya, Tom Holland, Charlize Theron e Lupita Nyong’o (Britannica, 2026). O realizador de Oppenheimer baseou o guião na tradução inglesa de Emily Wilson, de 2017, e filmou entre Marrocos, a Grécia, a Islândia e Malta ao longo de seis meses. Para muitos alunos, foi provavelmente o primeiro contacto sério com a história de um rei que demora dez anos a voltar a casa depois de outros dez anos de guerra. Mas vale a pena que a escola lhes diga, sem lhes estragar o entusiasmo, que Nolan não inventou nada de novo ao decidir como havia de mostrar um ciclope ou uma feiticeira: está apenas a fazer, com uma câmara IMAX, o que pintores europeus já fazem há mais de trezentos anos.
Uma história que a pintura nunca deixou em paz
A Odisseia é, desde a Antiguidade, um dos textos mais repintados da cultura europeia, e cada geração de artistas escolheu contar dela uma coisa diferente. Segundo o levantamento feito pela historiadora de arte Catriona Miller, a narrativa oferece praticamente todos os géneros ao mesmo tempo — drama, magia, romance, morte — e foi por isso que pintores de épocas tão distantes como o maneirismo italiano e o simbolismo do fim do século XIX regressaram a ela vezes sem conta (Miller, 2026). O mais interessante para uma sala de aula não é a lista de nomes, é o facto de os mesmos episódios terem sido pintados de formas radicalmente diferentes consoante o século, o país e até o sexo de quem segurava o pincel — e é exactamente essa variação que transforma um conjunto de quadros antigos numa aula de leitura crítica de imagem com aplicação imediata.
Veja-se o encontro com o ciclope Polifemo, o episódio mais visualmente violento de toda a viagem: Ulisses e os companheiros ficam presos na gruta do gigante, cegam-no com uma estaca em brasa e fogem atados à barriga das ovelhas. Segundo Miller (2026), a maior parte dos pintores optou por representar Polifemo não como um monstro disforme, mas como um homem grande e idealizado — Pellegrino Tibaldi chega a citar deliberadamente a pose do Adão de Michelangelo, o que desloca a atenção da crueldade da criatura para a brutalidade da vingança humana. Só muito mais tarde, já no simbolismo de Odilon Redon, o ciclope volta a ganhar um olho enorme e penetrante que devolve ao espectador alguma simpatia por ele. É a mesma cena, mas duas épocas diferentes decidiram, em silêncio, de que lado da violência queriam que o público ficasse.
Cada pincelada é uma escolha, não um facto
O episódio de Circe mostra ainda melhor este ponto, porque a diferença não está apenas no estilo, está no que cada geração decidiu esconder. A feiticeira transforma parte da tripulação de Ulisses em porcos antes de ser vencida pelo herói, avisado pelo deus Hermes. Pintores mais antigos, como Wilhelm Schubert van Ehrenberg, autor de uma versão de 1667 que recorreu a um especialista em animais para encher a tela com um tigre, uma avestruz e um urso, usaram o episódio sobretudo como pretexto para um exercício de imaginação exótica, com Circe e Ulisses reduzidos a figuras pequenas ao fundo de uma vila clássica (Miller, 2026). Já os pintores vitorianos deslocaram por completo o centro da imagem: fazem Circe estender a taça diretamente para fora do quadro, sem Ulisses presente, convidando quem observa a ocupar o lugar do herói e a decidir, por si, se bebe ou não. A sedução deixou de ser contada; passou a ser dirigida diretamente ao espectador. Nenhuma das duas versões é «mais fiel» ao texto de Homero — são duas decisões editoriais distintas sobre o que a imagem deveria fazer ao público, tomadas por artistas que nunca se conheceram, separados por mais de cem anos.
O mesmo acontece com as sereias. A maior parte dos pintores optou por mulheres nuas ou sereias com cauda de peixe, uma escolha mais decorativa do que ameaçadora. John William Waterhouse fez o oposto: seguindo modelos da cerâmica grega antiga, pintou-as meio ave, meio mulher, a esvoaçar de forma agressiva à volta do barco, com Ulisses visivelmente a lutar contra as cordas que o prendem ao mastro (Miller, 2026). Waterhouse não estava a inventar; estava a escolher, entre duas tradições iconográficas disponíveis, a que devolvia perigo real a uma cena que o costume já tinha tornado quase decorativa. É esse tipo de escolha — entre fontes, entre tradições, entre o que se mostra e o que se sugere — que qualquer aluno confrontado hoje com uma imagem gerada por computador ou selecionada por um algoritmo de rede social também precisa de saber identificar.
Penélope não é quem espera, é quem trama
Se há uma figura da Odisseia que a arte costuma tratar com mais justiça do que a memória escolar média, é Penélope. Angelica Kauffman pintou-a isolada, segurando o arco que só o marido conseguia esticar, com os aros pelos quais Ulisses costumava disparar uma flecha caídos no chão a seus pés — dois objetos que, para quem já conhece o final da história, funcionam como uma promessa silenciosa de que o regresso está próximo (Miller, 2026). Joseph Wright preferiu mostrá-la a enrolar lã com o característico contraste de luz e sombra do seu pincel, enquanto o filho dorme ao luar ao fundo, rodeada por uma estátua do marido ausente e pelo cão que também o espera. Em ambos os casos, o que se pinta não é uma mulher passiva à espera — é uma mulher que, ao longo de vinte anos, engana sistematicamente um grupo de pretendentes ao trono, desfazendo de noite o tecido que teceu de dia, exatamente para ganhar tempo. É uma personagem construída à volta da astúcia, não da paciência, e vale a pena que os alunos a conheçam assim antes de a resumirem, de forma preguiçosa, a «a mulher que esperou».
O que isto diz à escola portuguesa
Nenhum destes quadros foi pintado a pensar no currículo português, mas o espaço curricular para os usar já existe, e está mais bem preparado para isto do que a origem do tema poderia sugerir. A disciplina de Clássicos da Literatura, no 12.º ano, tem como propósito explícito promover o conhecimento do património literário europeu e a relação interartística, e recomenda formalmente, entre as suas estratégias de ensino, a leitura comparativa, a análise de intertextualidades e a pesquisa sobre temas de História da Arte, incluindo artes visuais (Direção-Geral da Educação, 2018) — o que descreve, quase ponto por ponto, o exercício de comparar duas pinturas de Circe separadas por um século. As Aprendizagens Essenciais de Português para o 10.º ano, atualizadas em março de 2026, vão ainda mais longe: sugerem explicitamente que a leitura de uma obra literária pode dar origem à sua recriação multimodal, a um documentário ou a uma banda desenhada, desde que o aluno se aproprie da obra em leitura integral e pense sobre ela de forma autónoma e crítica (Direção-Geral da Educação, 2026a). A epopeia, como género, está nomeada de forma explícita entre os textos literários que os alunos devem saber contextualizar e situar em função de marcos históricos e culturais (Direção-Geral da Educação, 2018).
O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória oferece um terceiro ponto de entrada, talvez o mais imediato para qualquer disciplina: entre as suas dez áreas de competência, inclui a sensibilidade estética e artística e o pensamento crítico e pensamento criativo, definidos como a capacidade de interrogar a realidade e de formular juízos fundamentados sobre aquilo que se vê (Direção-Geral da Educação, 2017). E a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, atualizada em agosto de 2025, mantém a literacia mediática entre os domínios obrigatórios da componente de Cidadania e Desenvolvimento (Portugal, 2025) — o espaço mais óbvio para ligar tudo isto a uma pergunta que já não é sobre pintura nenhuma: quando um algoritmo escolhe que imagem me mostra primeiro, ou quando uma ferramenta de imagem gerada por inteligência artificial decide como representar uma cena, que escolhas estão a ser feitas em meu nome, e por quem? É, no fundo, a mesma pergunta que Tibaldi, van Ehrenberg e Waterhouse já respondiam à sua maneira, cada um no seu século.
Uma proposta para a sala de aula
Uma forma simples de levar isto a uma turma de Português, Clássicos da Literatura ou Educação Visual não exige qualquer material que a escola não tenha já. Pode dividir-se a turma em pequenos grupos e atribuir a cada um o mesmo episódio da Odisseia — Circe, as sereias ou o regresso de Penélope funcionam particularmente bem —, pedindo-lhes que procurem, em coleções digitais de museus de acesso livre, duas ou três representações desse episódio feitas em séculos diferentes. Cada grupo regista três respostas simples para cada imagem: o que o artista decidiu mostrar, o que decidiu deixar de fora, e que valores do seu tempo essa escolha parece revelar. Segue-se uma comparação com um fotograma ou cartaz do filme de Nolan sobre o mesmo episódio, fazendo exatamente as mesmas três perguntas. A discussão final não precisa de fechar em nenhuma resposta certa — precisa apenas de deixar claro que nenhuma imagem, pintada a óleo ou gerada por um computador, é uma janela neutra para a história: é sempre uma escolha, feita por alguém, num determinado momento, e essa é a competência de leitura que interessa treinar, muito para além da Odisseia.
A segunda parte da proposta dirige-se a quem coordena Cidadania e Desenvolvimento. Vale a pena aproveitar o entusiasmo em torno do filme de Nolan para uma sessão curta sobre autoria e representação: mostrar aos alunos duas ou três imagens da mesma cena — uma pintura antiga, um fotograma do filme, uma imagem gerada por inteligência artificial a partir de um pedido simples sobre o mesmo episódio — e pedir-lhes que identifiquem, em cada uma, quem decidiu o quê. É um exercício de quinze minutos que liga um tema de há trezentos anos a uma pergunta que os alunos já enfrentam todos os dias, sem talvez lhe saberem dar nome.

Nota de transparência: este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir da leitura direta e integral do artigo «The Odyssey in Art: Myth, Magic, and Mayhem», de Catriona Miller (DailyArt Magazine, 17 de agosto de 2026). Os dados sobre a estreia, o elenco e a produção do filme «The Odyssey», de Christopher Nolan, foram verificados de forma cruzada junto de fontes independentes (Wikipedia, Britannica e Rotten Tomatoes).
Referências
Britannica. (2026, 10 de agosto). Christopher Nolan’s The Odyssey. Encyclopaedia Britannica. https://www.britannica.com/topic/The-Odyssey-film-by-Nolan
Direção-Geral da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Noticias_Imagens/perfil_do_aluno.pdf
Direção-Geral da Educação. (2018, agosto). Aprendizagens essenciais | Articulação com o Perfil dos Alunos — 12.º ano, ensino secundário, Clássicos da Literatura. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Aprendizagens_Essenciais/12_classicos_da_literatura.pdf
Direção-Geral da Educação. (2026a, março). Aprendizagens essenciais | Articulação com o Perfil dos Alunos — 10.º ano, ensino secundário, Português. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/es_10_portugues.pdf
Miller, C. (2026, 17 de agosto). The Odyssey in art: Myth, magic, and mayhem. DailyArt Magazine. https://www.dailyartmagazine.com/the-odyssey-in-art/
Portugal. (2025). Resolução do Conselho de Ministros n.º 127/2025, de 29 de agosto — Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania. Diário da República, 1.ª série. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/enec-2025.pdf
Para saber mais
«The Odyssey in Art: Myth, Magic, and Mayhem», de Catriona Miller, na DailyArt Magazine, fonte principal deste artigo.
Aprendizagens Essenciais de Clássicos da Literatura (12.º ano), na Direção-Geral da Educação, com as estratégias de leitura comparativa e de relação interartística referidas neste texto.
Página oficial da disciplina de Clássicos da Literatura, na Direção-Geral da Educação
Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória, na Direção-Geral da Educação, para enquadrar as áreas de competência referidas neste artigo.

















