Quando um assobio muda tudo — Assobiando à Vontade, de Mário Dionísio, em sala de aula

Um conto, um elétrico, uma hora de ponta. E uma pequena rebelião que não pede licença.

Há textos que resistem ao tempo não porque sejam difíceis, mas porque são verdadeiros. Assobiando à Vontade, de Mário Dionísio, publicado em O Dia Cinzento e Outros Contos (1944), é um desses casos. Passaram mais de oitenta anos sobre a sua escrita e, ainda assim, qualquer pessoa que já apanhou um elétrico apinhado — ou simplesmente já sentiu a pressão silenciosa de “comportar-se” — vai reconhecer ali qualquer coisa de si própria.

Este post propõe precisamente isso: levar o conto para dentro da sala de aula, a sério, por todos os lados possíveis. O texto, o vídeo, o podcast e a apresentação estão aqui. O que fazemos com eles é o que importa.


Mário Dionísio e o peso do dia cinzento

Antes de entrar no conto, vale a pena saber quem o escreveu. Mário Dionísio (1916–1993) foi um dos grandes nomes do neorrealismo português — movimento literário que não queria retratar a realidade com pincéis cor-de-rosa, mas sim olhá-la com honestidade, especialmente quando ela era desconfortável. A sua escrita interessa-se pela gente comum, pelos que viajam de pé nos elétricos, pelos que chegam a casa com o chapéu de lado depois de uma tarde de empurrões.

Mas não se trata de literatura de protesto à maneira panfletária. Dionísio é mais subtil do que isso. Ele observa, descreve, deixa o leitor tirar as suas conclusões. E é essa subtileza que torna os seus textos tão ricos para trabalhar em contexto escolar.


O que se passa, afinal, neste elétrico?

A ação é simples até à brutalidade: uma tarde de semana, hora de ponta, Lisboa. As ruas da Baixa transbordam de gente que sai das lojas, dos escritórios, das oficinas. O elétrico vai cheio até à beira. Há encontrões, maus humores contidos, a compostura social a fazer horas extra.

E então aparece ele — um homenzinho com chapéu coçado e sobretudo castanho lustroso nas bandas, que fura a multidão, encontra um lugar vago e… começa a assobiar. Devagar, depois com entusiasmo. Trinados ridículos. Um gorjeio sem lei nem método, qualquer coisa que lhe apetecia que fosse assim.

O escândalo instala-se. Não há regulamento que proíba o assobio — proíbe-se fumar, cuspir, abrir as janelas no inverno, mas assobiar? Nada. A autoridade do condutor limita-se a cobrar o bilhete. Os senhores respeitáveis franzem a testa atrás dos jornais. A senhora opulenta do lado apertar os lábios com tal força que os dedos lhe ficam brancos.

Só a criança de azul ri e bate palmas — e a mãe segura-lhe as mãos com gentileza, mas com firmeza.

Quando o homem salta do elétrico ainda a andar, os passageiros olham uns para os outros e riem. Um minuto apenas. Depois recompõem-se, envergonham-se do riso, regressam ao jornal, às golas, à dignidade. Tudo volta, pesadamente, ao silêncio.


O que está mesmo em jogo aqui

Dito assim, parece pouco. Mas é muito.

O elétrico de Dionísio não é apenas um meio de transporte — é um microcosmo da sociedade portuguesa do Estado Novo, onde a separação de classes se mantinha não por decreto mas por rituais invisíveis: o jornal desdobrado, os anéis contados, o chapéu recolocado no lugar certo. A compostura social era, ela própria, uma forma de poder — quem a violava não infringia nenhuma lei, mas perturbava a ordem tácita que mantinha cada um no seu lugar.

O homenzinho do assobio não pede nada. Não agride, não insulta, não reivindica. Simplesmente faz o que lhe apetece. E essa liberdade sem drama é mais subversiva do que qualquer discurso.

Há outra camada, ainda mais funda: a senhora nova e bonita que segura as mãos da filha e lhe diz que uma menina bonita não faz barulho — essa senhora também se chamou Nini. Também atirou pedras para o rio, ria até se sufocar, gostava de fazer precisamente o que não devia. Cresceu. E agora é ela a reproduzir as mesmas palavras que a calaram.

Não é preciso ser professor de Literatura para perceber que isto tem muito para dizer a jovens de 14 ou 16 anos. Tem muito para dizer a qualquer pessoa.


Uma abordagem multimédia para a sala de aula

Trabalhar este conto só com o texto seria desperdiçar metade do seu potencial. Por isso, juntámos aqui três recursos complementares que permitem chegar ao mesmo texto por caminhos diferentes — e chegar mais longe.

O vídeo percorre o conto de forma visual e dinâmica, ideal para uma primeira abordagem ou para rever momentos-chave depois de uma leitura mais aprofundada. É um ponto de entrada que funciona bem para turmas que resistem ao papel.

O podcast — “O Escândalo de Assobiar no Elétrico” — trata o conto em conversa, o que permite ouvir argumentos, perspetivas e nuances que um texto escrito raramente consegue transmitir com a mesma fluidez. É excelente para a aula de Oralidade ou para trabalho autónomo.

A apresentação, construída a partir das infografias que acompanham o conto, descreconstrói a narrativa em camadas: a cidade não planeada para a multidão, o elétrico como panela de pressão, a hierarquia social perante o escândalo, a dualidade entre a máscara e a criança interior. Cada diapositivo é, por si só, um ponto de partida para debate.

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O que fazer com isto em aula

Não há receita única. Mas há caminhos que funcionam.

Uma leitura silenciosa e individual do conto, seguida de uma discussão em torno de uma pergunta simples — “Porque é que as pessoas se envergonharam de ter rido?” — costuma gerar conversas que ninguém esperava. Os alunos percebem, muitas vezes antes dos professores, que o riso partilhado durou exatamente um minuto porque era perigoso durar mais.

A análise dos recursos expressivos — o contraste entre o homenzinho insignificante e a grandeza da sua indiferença, a ironia do narrador, a descrição dos gestos de reconquista da dignidade — encaixa naturalmente numa sequência de leitura literária para o 9.º ou 10.º ano.

O podcast pode ser usado como modelo para um exercício de produção oral: depois de ouvir, os alunos preparam a sua própria versão comentada do conto, em grupo. Quem é o agente do caos na escola? Já aconteceu a alguém sentir-se o homenzinho do assobio — ou a senhora que segurou as mãos da filha?

A apresentação pode ser trabalhada às avessas: mostrar os diapositivos antes da leitura, como uma espécie de mapa conceptual, e pedir aos alunos que encontrem no texto os momentos que correspondem a cada conceito. Funciona especialmente bem com turmas que precisam de estrutura para entrar numa narrativa mais densa.

Para quem queira ir mais longe, a ligação ao neorrealismo português abre a porta a um trabalho interdisciplinar com História: o Estado Novo, o corporativismo, a rígida separação social de uma Lisboa dos anos 40, o papel do silêncio como instrumento de controlo. Não é preciso fazer uma aula de história dentro da aula de português — basta que os alunos percebam que a ficção não cai do céu, que é sempre filha de um tempo.


Para terminar — e para começar

O conto acaba com uma frase que fica. Depois do riso breve, depois da ingenuidade partilhada por um segundo, as pessoas voltam ao jornal, às golas, ao vidro embaciado. Tudo voltou, pesadamente, a encher-se de silêncio e dignidade.

Pesadamente. Dionísio não se esqueceu desse advérbio. A dignidade, aqui, tem peso. É um fardo. E o leitor fica com a sensação incómoda de que talvez a liberdade fosse aquele minuto — e que o deixámos ir.

É esse desconforto que faz deste texto um bom texto para a escola. Não porque dê respostas, mas porque faz perguntas que ficam.


Fontes: Dionísio, M. (1944). O dia cinzento e outros contos. Lisboa: Seara Nova.


Bom trabalho — dentro e fora do elétrico.

O Senhor das Moscas: cinema, literatura e educação [liderança positiva, ambiente social, colaboração e motivação]

O filme acima (completo e dobrado em pt_br), O Senhor das Moscas (Lord of the Flies), com direção de Peter Brook (1963 – Inglaterra), roteiro adaptado do livro de mesmo nome, de autoria de William Golding, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1983.


Trata-se de uma alegoria, um clássico da literatura do pós-guerra. Depois de um acidente aéreo, um grupo de meninos encontra-se sozinho, com o piloto gravemente ferido, numa ilha deserta. Por causa da necessidade e da falta de liderança, ocorre uma divisão no grupo. Os mais velhos e fortes são os guerreiros, os caçadores e os mais jovens, considerados mais intelectuais e mais frágeis, ficando estes, pouco a pouco isolados. A luta pelo poder é clara. Mas os fortes não sabem fazer fogo, que os mais jovens e estudiosos souberam criar com os óculos de um aluno obeso, que é constantemente ridicularizado pelos outros.


Colaboração, bulliyng, aprendizagem, informação, conhecimento, etc. são temas que podem ser explorados neste filme, a pensar no seu caráter educativo.


As cenas finais comprovam o título apropriado para livro e filme.


Recomenda-se tanto o livro como o filme a todos os educadores [principalmente os de Arte, Literatura, História, Filosofia e Sociologia], sejam eles formadores de outros educadores, ou para refletir sobre o valor da liderança positiva em um ambiente social, principalmente o educacional.

Publicado originalmente no Educa Tube Brasil de  José Antonio Klaes Roig.

O que acontece aos nossos dados quando morremos? | CNIL

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Há uma pergunta que ninguém gosta de fazer, mas que a era digital torna urgente: o que acontece à nossa vida online quando deixamos de estar vivos? Os nossos perfis nas redes sociais, as nossas mensagens, as fotos que partilhámos, os blogs que escrevemos — tudo isso continua a existir, mesmo depois de nós. E essa permanência levanta questões éticas, jurídicas e humanas que ainda estamos a aprender a responder.

Foi precisamente este o tema central do evento air2025, promovido pela CNIL (a autoridade francesa de proteção de dados) em parceria com a Biblioteca Nacional de França, realizado em outubro de 2025. O resultado foi publicado em abril de 2026 e constitui uma reflexão coletiva notável sobre aquilo a que chamamos a intimidade dos desaparecidos — e sobre o que essa intimidade revela sobre nós, os vivos.


Presença digital além da morte

A nossa existência física termina. A nossa existência digital, não — pelo menos não automaticamente. Desde o surgimento da internet nos anos 90, fomos acumulando traços digitais: publicações, comentários, dados de localização, hábitos de consumo, interações. Tudo isso persiste, muitas vezes indefinidamente, mesmo depois do nosso último suspiro.

Um estudo do Oxford Internet Institute, citado na publicação da CNIL, prevê que em 2070 o número de contas de pessoas falecidas no Facebook ultrapassará o de pessoas vivas. É uma imagem perturbadora. Caminhamos para uma internet habitada maioritariamente pelos mortos.

O investigador Fabien Tarissan, do CNRS, resume bem esta tensão: “A nossa existência física duplica-se numa existência digital que não cessa de forma síncrona com a nossa vida e que a perpetua”. Dito de outro modo: não basta morrer para desaparecer.


Entre o luto e a imortalidade prometida

O digital transformou não apenas a forma como morremos, mas também a forma como nos despedimos dos que partem. A socióloga Fiorenza Gamba, investigadora na Universidade de Genebra, observa que o digital devolveu tempo e espaço ao luto. Onde antes o adeus ao defunto era comprimido no tempo e no espaço — o cemitério, o funeral, o regresso ao trabalho —, hoje as pessoas encontram formas pessoais de ritualizar a perda, online, no seu próprio ritmo.

Mas há um lado mais sombrio nesta equação. Plataformas como HereAfter.ai ou You Only Virtual oferecem já hoje a possibilidade de criar avatares digitais de pessoas falecidas, com as quais os vivos podem conversar — os chamados deadbots. A ideia parece saída de um episódio de Black Mirror. E na verdade, o episódio existe: “Be Right Back”, da segunda temporada, imagina exatamente isso.

A questão que se impõe é eticamente incómoda: estes dispositivos ajudam no processo de luto ou impedem-no? Philippe Charlier, médico legista e antropólogo, alerta que certos lutos demasiado prolongados se tornam patológicos. Para ele, os deadbots são como os “maus mortos” das tradições culturais — os que não ficam sossegados, que não deixam estabelecer a distância necessária entre os vivos e os que partiram.

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O que diz a lei — e o que ela não diz

Do ponto de vista jurídico, há uma lacuna importante que poucos conhecem: o Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) não se aplica a dados de pessoas falecidas. O Considerando 27 do RGPD é explícito: os dados pessoais de pessoas mortas ficam fora do seu âmbito. Cada Estado-membro pode legislar como entender.

Em França, a Loi pour une République numérique de 2016 deu alguns passos concretos. O artigo 85.º da Lei Informática e Liberdades permite que qualquer pessoa defina diretivas sobre o que deve acontecer aos seus dados pessoais após a morte — se devem ser conservados, apagados ou comunicados. Estas diretivas podem ser gerais (registadas junto de um notário ou terceiro de confiança) ou particulares (registadas junto de cada plataforma).

Em Portugal, o cenário é semelhante: o RGPD não cobre os mortos, e a proteção dos dados post mortem depende de legislação nacional ainda pouco desenvolvida. Para a maioria das pessoas, a herança digital é um território desconhecido — e desprotegido.


Os dados dos mortos como herança coletiva

Há ainda uma dimensão menos óbvia, mas igualmente relevante: os dados dos mortos não são apenas um assunto privado. São também património coletivo.

A Biblioteca Nacional de França arquivou, em 2023, mais de 12,6 milhões de Skyblogs — os diários pessoais online de uma geração inteira de adolescentes dos anos 2000. Uma operação que durou 50 dias e resultou em 37 terabytes de dados: páginas web, imagens, ficheiros áudio. Estes conteúdos não vão ser colocados online, mas estão acessíveis nas salas de investigação da BnF e das suas bibliotecas parceiras.

É um exemplo fascinante da tensão entre o direito ao esquecimento e o dever de memória. Alexandre Faye, conservador do serviço de Depósito Legal da BnF, explica a lógica: “O objetivo é observar e documentar a história da nossa cultura digital”. Os historiadores do futuro vão querer saber como vivíamos, o que escrevíamos, o que nos preocupava. Os nossos posts, os nossos comentários, as nossas listas de reprodução são fontes primárias — tão válidas como uma gazette do século XVIII.


A imortalidade digital é um mito?

Fanny Georges, investigadora da Sorbonne Nouvelle, tem uma resposta provocatória: “A imortalidade digital é um mito construído por cientistas, mas desprovido de realidade social. Em França, pertence à fantasmagoria do Vale do Silício”.

Ao longo de 25 anos de investigação sobre identidade digital, Georges acompanhou o surgimento das promessas de imortalidade — desde as primeiras conferências internacionais dos anos 90 até às patentes recentes de metaversos habitados por vivos e mortos. Em 2014, a Microsoft chegou a registar uma patente de chatbot baseado em dados de pessoas falecidas, com vista a criar um universo onde seria possível conversar com figuras históricas em diferentes períodos da sua vida.

Mas há um ponto que a investigadora não deixa passar: por mais ficcionais que pareçam, estes projetos são já parcialmente realizados pela soma das nossas pegadas digitais — os nossos computadores, os nossos telemóveis, as nossas pesquisas. A imortalidade digital não é uma promessa futura. Está a acontecer agora, silenciosamente, nos servidores de empresas que nem sequer pedimos para guardar a nossa memória.


E nós? O que podemos fazer?

A reflexão que o documento da CNIL nos deixa não tem respostas fáceis, mas tem perguntas que vale a pena levar a sério:

  • Deixámos alguma instrução sobre o que queremos que aconteça às nossas contas e dados quando morrermos?
  • As plataformas que utilizamos têm políticas claras para gerir perfis de pessoas falecidas?
  • Que tipo de legado digital queremos deixar — e a quem?
  • Estamos confortáveis com a ideia de que os nossos dados possam ser usados para treinar inteligências artificiais depois da nossa morte?

A historiadora Caroline Muller coloca a questão de forma muito humana: o digital facilita o acesso às fontes, alarga as investigações, mas também obriga a perguntar “de que rastro queremos fazer sentido — e porquê”. É uma pergunta que cada um de nós deveria fazer sobre a sua própria vida online.


Uma última nota

Há um testemunho que o documento transcreve e que me ficou na memória. Um jovem conta que, quando tinha seis anos, o pai morreu. Por dez anos, não tocou na consola Xbox que tinham partilhado. Quando finalmente o fez, descobriu que o recorde de volta do pai num jogo de corridas ainda estava guardado — um fantôma digital a percorrer ainda o circuito.

Jogou e jogou, até conseguir ultrapassá-lo. E depois parou — mesmo antes da linha de chegada — para não o apagar.

É uma história sobre luto, sobre memória, sobre o que escolhemos guardar e o que escolhemos deixar ir. O digital não inventou estas perguntas. Apenas as tornou mais difíceis de ignorar.


Este artigo foi elaborado a partir do documento “Intimité des disparus, mémoire des vivants — Quelle éthique pour les traces numériques?”, publicado pela CNIL e pela Biblioteca Nacional de França em abril de 2026, no âmbito do evento ético air2025.

Enfrentar a tempestade perfeita: tecnologia descontrolada, fragmentação social, reação anti-intelectual e inércia institucional | Mariano Fernández Enguita

Mariano Fernández Enguita trouxe ao Oeiras Education Forum várias reflexões e muitas provocações para repensar as transformações na Educação.

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Cinco ondas que mudaram a educação — e uma tempestade que ainda está a chegar

Há uma maldição que se atribui erradamente aos chineses: que possas viver tempos interessantes. Mariano Fernández Enguita, professor catedrático da Universidade Complutense de Madrid, usou esta ideia como ponto de partida para uma conferência que teve lugar em Oeiras, organizada pela CNN e pelo município local. A mensagem que trouxe foi clara: vivemos um momento de rutura. E a escola, tal como a conhecemos, ainda não percebeu isso.


A educação vista de longe — muito longe

Para entender o que está a acontecer hoje, Enguita propôs um exercício pouco comum: sair dos problemas do quotidiano escolar — da última discussão com a direção, do último relatório por preencher — e olhar para a história da educação numa perspetiva quase pré-histórica.

A ideia é simples mas poderosa: a educação não foi sempre assim. Foi moldada, ao longo de milénios, por grandes transformações na forma como os seres humanos comunicam e partilham informação. E cada vez que essa forma mudou, a escola teve de se reinventar. Ou deveria ter reinventado.


As cinco grandes ondas

A linguagem foi a primeira — e a mais fundamental. Não sabemos quando surgiu, porque isso é pré-história, mas sem linguagem não há educação possível. Adultos podem cuidar de crianças, e crianças podem imitar adultos, mas só com a linguagem é possível imaginar a experiência, recordar o passado, antecipar o futuro. A linguagem é, neste sentido, uma tecnologia — a mais antiga que temos e a mais transparente, precisamente porque nos parece natural.

A escrita, há cerca de cinco ou seis mil anos, criou algo novo: um ofício. Quem sabia escrever pertencia a um grupo, uma espécie de corporação de artesãos do saber. E para aprender esse ofício, surgiram as primeiras estruturas que vagamente se podem chamar escolas — não porque se chamassem assim, mas porque tinham essa função.

A imprensa foi, de todas, a que mais moldou a escola que ainda hoje existe. Não inventou nada de novo em termos de conteúdo — apenas multiplicou o escrito. Mas essa multiplicação criou algo sem precedentes: a escolarização de massas. A diferença entre escola e escolarização parece subtil, mas é fundamental. A escola era para uma elite, para um ofício. A escolarização é a universalização da escola — para todos, como instrumento de cidadania, de maturidade, de formação para o trabalho.

E é aqui que nasce o modelo que ainda hoje conhecemos: uma sala de aula (que em qualquer língua significa apenas “sala para uma classe de pessoas”), um professor, um grupo, um programa. O ensino simultâneo. O ensino graduado. A barra que uns passam e outros não. A escola que, como Enguita recorda com alguma brutalidade intelectual, nunca nasceu para ser igualitária — nasceu para selecionar.

Os audiovisuais, já no século XX, foram a primeira grande tecnologia que não encontrou lugar dentro da escola — antes entrou em conflito com ela. O cinema, a televisão, o rádio disputaram sempre a atenção dos alunos. Nunca foram absorvidos pela instituição escolar de forma orgânica.

A transformação digital é a quinta onda. E é diferente de todas as anteriores.


Desta vez é diferente — e mais rápido

A linguagem levou centenas de milhares de anos a difundir-se. A escrita precisou de seis mil anos para chegar a todo o mundo. A imprensa demorou quatro séculos a transformar-se em escolarização de massas. Os audiovisuais mediram-se em décadas. A transformação digital mede-se em lustros — em anos.

E não é só a velocidade. É também o custo: uma vez instalada a infraestrutura, alargar o acesso a mais pessoas custa quase nada. O que Enguita chama a tríade digital — um dispositivo pessoal, o software (que é o meio de todos os meios) e a conectividade — está disponível como nunca nenhuma tecnologia educativa esteve antes.

A isto soma-se agora a inteligência artificial. Ou, como Enguita prefere dizer com alguma cautela, a inteligência eventualmente aumentada. A IA generativa tem capacidades reais na comunicação, na informação e na aprendizagem — mas o que determina se é um recurso ou um risco é, fundamentalmente, a forma como é utilizada. E aí, de momento, o balanço não é animador.


O choque entre o ecossistema e o sistema

Há um conflito que está no centro desta discussão, e que Enguita descreve como um choque de comboios: de um lado, o ecossistema — tudo o que acontece na comunicação e na informação fora (e dentro) da escola; do outro, o sistema — a organização institucional da escola.

O que torna este momento historicamente inédito é que, pela primeira vez, os professores vão atrás da população em termos de comunicação. Antes, o professor era quem melhor escrevia, quem melhor falava, quem dominava os instrumentos do saber. Hoje, como conjunto, os docentes chegaram ao mundo digital mais tarde, por caminhos diferentes, e muitas vezes com menos fluência do que os seus alunos.

Isto não é uma crítica — é um diagnóstico. E tem consequências práticas: se a escola continuar a funcionar como um santuário onde se protege os alunos da tecnologia, em vez de os preparar para ela, estará a desproteger precisamente quem mais precisa de preparação.

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Uma fratura que a escola não pode ignorar

Enguita falou também de algo mais amplo: a fratura social. Não apenas as desigualdades de sempre, mas uma linha de divisão — o que em inglês se chamaria cleavage — que está a partir as sociedades ao meio. De um lado, quem tem formação superior. Do outro, todos os outros. E essa fratura projeta-se na política, na cultura, na relação com as instituições.

Um dos sintomas mais visíveis é o crescimento dos movimentos antissistema, de direita e de esquerda, por toda a parte. E Enguita faz uma observação que devia fazer pensar todos os que trabalham em educação: esses movimentos crescem especialmente nos jovens que acabam de sair da escolaridade obrigatória. O que nos obriga a perguntar — com honestidade — qual está a ser o efeito real da escola.


O que fazer, então?

A resposta de Enguita não é uma receita, mas um conjunto de apostas. Primeiro, assumir que a escola não pode ganhar esta corrida se continuar a ignorar a tecnologia — tem de ser parte dela, com sentido e com propósito. Segundo, repensar a arquitetura da própria escola: a organização temporal, espacial, sequencial. Não o discurso sobre o que a escola deve ser, mas as condições concretas em que milhões de alunos passam anos das suas vidas.

E depois, talvez a ideia mais provocadora: acabar com o modelo de um professor, uma turma, uma sala, sem que ninguém veja o que acontece dentro. A colegialidade — professores que trabalham juntos, que partilham espaços, que colaboram com outros profissionais — é apresentada como inevitável. A metáfora que usa é a de um bloco operatório: não se põem oito médicos iguais a operar juntos. Reúnem-se diferentes competências para enfrentar um trabalho complexo. A escola precisa de aprender isso.


Viver tempos interessantes, dizia aquela maldição apócrifa, é perigoso. Mas Enguita não terminou de forma pessimista. Para quem quer uma vida com sentido, com desafios, com algo pelo qual lutar — o ensino, hoje, pode ser o lugar certo. Desde que se aceite que o santuário já não é uma opção.

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Educação e economia em Portugal: o paradoxo do crescimento qualificado | Oeiras Education Forum 2026

com Ana Balcão Reis, António Nogueira Leite e Sérgio Sousa Pinto, moderados por Anselmo Crespo

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Educação e desenvolvimento económico: Portugal entre o progresso e os desafios

Há uma pergunta que devia incomodar-nos mais do que incomoda: por que razão um país que triplicou a percentagem de licenciados em duas décadas continua a crescer menos do que os seus vizinhos europeus? Foi exatamente esta tensão — entre os números que nos consolam e a realidade que nos interpela — que esteve no centro de um painel de debate recente sobre políticas educativas em Portugal. Três vozes diferentes, com percursos distintos, chegaram a um diagnóstico comum: fizemos muito, mas continuamos a enganar-nos sobre o que ainda falta fazer.

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O que disse Ana Balcão Reis: os números impressionam, a realidade complica

Ana Balcão Reis, professora catedrática de Economia na Nova School of Business and Economics, começou por colocar os dados em perspetiva. Em 2000, apenas 12% dos jovens entre os 25 e os 34 anos tinham concluído o ensino superior. Hoje, esse valor está próximo dos 44%. É um salto extraordinário, e quem não o reconhece está a ser desonesto com a história recente do país.

Mas — e este “mas” é central em toda a sua intervenção — a força de trabalho não é feita só de jovens. Quando se olha para o conjunto da população ativa, o nível de qualificações médio ainda reflete décadas anteriores, quando a escolarização era baixa e o acesso ao ensino superior era um privilégio restrito. As economias não mudam ao ritmo dos diplomas. Mudam ao ritmo das gerações, e isso leva tempo.

Além da questão temporal, Ana Balcão Reis tocou noutro ponto frequentemente ignorado nos debates sobre educação: a desigualdade interna. Mesmo num concelho como Oeiras — reconhecido pelo investimento que faz em educação —, as diferenças de qualidade entre escolas e entre zonas da população são muito significativas. A massificação do ensino criou acesso, mas não garantiu equidade. E sem equidade, os números tornam-se, em parte, uma ilusão. A sua conclusão foi direta: “não basta ter toda a gente a estar na escola, é preciso que as pessoas estejam na escola a aprender”.

O que disse António Nogueira Leite: a diáspora que não volta e os salários que ficaram parados

António Nogueira Leite trouxe ao debate uma perspetiva que combina o olhar do economista com a experiência do gestor de empresas. Confirmou o argumento de Ana sobre o tempo que a demografia leva a mudar, mas acrescentou uma camada que torna o problema ainda mais complexo: Portugal não se limita a ter qualificado tarde — também tem perdido parte do que qualificou.

A partir de 2010, a saída de profissionais altamente qualificados tornou-se uma hemorragia difícil de ignorar. Médicos, engenheiros, enfermeiros, economistas — áreas em que o ensino português é genuinamente bom, reconhecido e procurado lá fora — foram os que mais saíram. E foram por uma razão que António formulou com uma franqueza pouco comum: “a economia portuguesa não gera os empregos, nem paga os salários compatíveis com as expectativas dessas gerações”.

O que se segue foi talvez a afirmação mais desconcertante de toda a sua intervenção. Muitas das maiores empresas portuguesas pagam, em termos nominais, os mesmos salários de entrada que pagavam há 15 anos. Enquanto isso, os salários do topo da gestão evoluíram. Não é um problema de governo, sublinhou António — é um problema de ecossistema económico e de modelo de produção. E enquanto esse ecossistema não mudar, a mobilidade que hoje caracteriza os jovens qualificados portugueses — que aprenderam inglês, cresceram com o YouTube e estudaram em boas escolas — vai continuar a funcionar num único sentido: para fora.

Ainda assim, António não ficou pelo diagnóstico. Insistiu na ideia de que a diáspora recente, ao contrário das anteriores, é transversal a todos os estratos sociais — saem pessoas das classes baixas, médias e altas. E que, se Portugal conseguir criar condições para que essas pessoas regressem, o país pode beneficiar não apenas do seu conhecimento técnico, mas também das práticas e das referências que acumularam noutros contextos. “Há muito conhecimento que vai para além do conhecimento técnico, que se nós tivermos abertura para o absorver nas nossas organizações, pode ser muito positivo”, disse. Regressar, neste quadro, não é só uma questão pessoal: é uma política pública que ainda está por construir.

O que disse Sérgio Sousa Pinto: a literacia, a leitura e a democracia em risco

Sérgio começou por dizer que não é especialista em educação. Mas foi quem mais incomodou a sala.

O ponto de partida foi um estudo do PIAAC (estudo) que tinha sido divulgado poucos dias antes do debate. Os resultados eram perturbadores: os licenciados portugueses apresentam indicadores de numeracia e literacia inferiores aos jovens finlandeses que concluem apenas o ensino secundário. Cinquenta anos após a democratização do ensino em Portugal, este dado obriga a perguntar o que aconteceu realmente dentro das escolas — e fora delas.

Para Sérgio Sousa Pinto, chega de autoabsolvição. O argumento de que os liceus eram antes para filhos de elites perdeu validade há muito tempo. Passaram cinco décadas. É altura de olhar com honestidade para onde estão os problemas. E a sua resposta foi clara: estão no português e na matemática, ou seja, na literacia e na numeracia.

Sobre a literacia, o argumento foi desenvolvido com uma lógica que é difícil de contrariar. Não é possível resolver o problema da literacia sem hábitos de leitura. E os hábitos de leitura não se cultivam só na escola — cultivam-se em casa, por mimetismo, por exemplo dos pais. Mas o quadro atual é o de casas sem livros e sem jornais, onde a informação chega em fragmentos de três linhas, verdadeiros ou falsos, e se considera o assunto encerrado. Até aquele velho hábito popular de aprender a ler com os jornais desportivos perdeu expressão.

A conversa chegou então a um território mais fundo. Sérgio não estava a falar apenas de resultados escolares. Estava a falar de que tipo de cidadãos estamos a formar. “Se tivermos uma lógica puramente de especialização, vamos construir uma sociedade de idiotas altamente especializados”, disse, e acrescentou, com ironia cortante: “e como é que vota um idiota altamente especializado? Exatamente da mesma maneira que um idiota não especializado”.

A literatura, para Sérgio Sousa Pinto, não é ornamento cultural — é a matéria com que se constrói um ser humano inteiro. É nela que estão a experiência histórica, a experiência do amor, da morte, do outro. Tolstoi não escreveu para crianças de 12 anos, reconheceu — mas um Cândido de Voltaire, esse, é para todos. O problema não é a exigência dos textos. É a ausência de qualquer hábito de leitura, numa geração crescida entre ecrãs e plataformas de streaming que raramente oferecem o que Portugal, com o seu mercado pequeno e a sua posição periférica, não pode garantir a qualquer criança.

Por fim, Sérgio Sousa Pinto ligou este problema ao desenvolvimento económico que os outros dois tinham discutido antes. Portugal não ficou suficientemente próspero para gerar uma classe média consumidora de bens de cultura, capaz de valorizar o que chamou “os prazeres superiores”. Sem essa prosperidade, sem essa revolução moral que os países mais ricos atravessaram no século XIX e XX, a escola fica sozinha a tentar fazer um trabalho que a sociedade inteira devia partilhar.

O que ficou no ar

Os três intervenientes falaram a partir de lugares diferentes — a investigação académica, a gestão de empresas, o testemunho cívico —, mas o fio que ligou todas as intervenções foi o mesmo: Portugal tem feito as coisas certas, só que tarde, mal distribuídas e sem o ecossistema económico e cultural que as deveria sustentar.

A pergunta que ficou sem resposta — e que talvez seja a mais importante — é esta: quanto tempo ainda vamos precisar para perceber que quantidade sem qualidade, diplomas sem leitura, e crescimento sem salários dignos, não chegam para construir o país que todos dizemos querer?


Este artigo foi elaborado a partir de um painel de debate sobre políticas educativas e desenvolvimento económico em Portugal, com intervenções de Ana Balcão Reis (Nova SBE), António Nogueira Leite e Sérgio Sousa Pinto, moderados por Anselmo Crespo.