O Wall Street Journal pediu a cinco especialistas em gestão de talento que imaginassem o trabalho daqui a vinte anos. Nenhum escreveu a pensar numa escola, mas o que descrevem sobre generalistas, força de trabalho a encolher e IA como «colega» é material direto para quem decide o currículo.

Cinco pessoas que vivem de aconselhar empresas sobre gestão de pessoas receberam do Wall Street Journal um pedido pouco habitual: esquecer o trimestre seguinte e imaginar, sem peias, como será o trabalho daqui a vinte anos. Nenhuma delas escreveu a pensar numa sala de aula portuguesa. Mas há, no que descrevem, mais matéria para um conselho pedagógico do que a maior parte dos relatórios sobre educação publicados este ano.
Este artigo parte do texto «How the World of Work Will Change Over the Next 20 Years», de Tara Weiss, publicado no The Wall Street Journal a 20 de dezembro de 2025 no âmbito da série «USA250: The Story of the World’s Greatest Economy», e partilhado diretamente para este blogue em tradução espanhola da agência Reforma. Seleciona, de entre as cinco previsões que o artigo reúne, as que têm mais interesse direto para uma escola portuguesa — a força de trabalho a encolher, o regresso dos generalistas e o papel que a inteligência artificial deixa aos humanos — e cruza-as com o Perfil dos Alunos, a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, o regime dos cursos profissionais e os dados demográficos mais recentes sobre Portugal.
O mundo do trabalho já mudou mais nos últimos cinco anos do que em várias décadas anteriores, com a pandemia a normalizar o trabalho híbrido e temas antes tabu, como a saúde mental, a tornarem-se prioridades de gestão. Foi a partir desta constatação que a jornalista Tara Weiss reuniu cinco vozes do mundo dos recursos humanos e da consultoria de gestão — uma antiga diretora de pessoas de uma plataforma de RH, um antigo diretor de recursos humanos de uma multinacional farmacêutica, dois consultores de topo em estratégia e talento, e um investigador do futuro do trabalho — e lhes fez uma única pergunta: qual é o futuro do trabalho? As cinco respostas, publicadas em conjunto, não falam de escolas nem de currículos. Falam de força de trabalho a encolher, de gestão apoiada em dados, de trabalhadores independentes, do fim dos especialistas isolados e de uma relação nova entre pessoas e inteligência artificial. Lidas com atenção, são exatamente os pontos que uma escola precisa de considerar ao decidir o que vale a pena ensinar a quem ainda está a dez ou quinze anos de distância desse mercado de trabalho.
Uma força de trabalho a encolher, também em Portugal
A previsão mais concreta do conjunto vem de Peter Fasolo, antigo diretor executivo de recursos humanos da Johnson & Johnson e atual diretor do Instituto de Política de Recursos Humanos da Boston University Questrom School of Business: nos próximos vinte anos, haverá cada vez menos trabalhadores disponíveis na Europa, no Japão e nos Estados Unidos, e a mudança demográfica será profunda. Fasolo aponta uma consequência direta para o ensino: menos jovens vão chegar às universidades norte-americanas, mesmo entre os que consideram esse investimento compensador, o que obriga a reforçar o ensino vocacional e técnico e a substituir critérios de recrutamento baseados no currículo académico por critérios baseados em competências efetivamente demonstradas. A previsão de Fasolo aponta ainda para mais formação feita dentro da própria empresa — as empresas transformadas, nas suas palavras, em salas de aula — e para uma relação de investimento, e não meramente transacional, entre empregador e trabalhador.
Esta previsão não chega a Portugal como novidade abstrata. Um retrato divulgado este verão pela Pordata, a plataforma estatística da Fundação Francisco Manuel dos Santos, com base em dados do Instituto Nacional de Estatística, situa Portugal como o terceiro país mais envelhecido da União Europeia, com 182 idosos por cada 100 jovens — atrás apenas de Itália, e bem longe da Irlanda, o país menos envelhecido do bloco, com 85 idosos por cada 100 jovens (Gomes, 2026). Em 2025, havia no país 7.346.647 pessoas em idade ativa para 2.665.777 pessoas com 65 ou mais anos, uma proporção de apenas 2,76 pessoas em idade ativa por cada idoso; entre 2024 e 2025, a população idosa cresceu a um ritmo cerca de cinco vezes superior ao da população ativa (Gomes, 2026). As projeções de mais longo prazo do INE apontam no mesmo sentido: entre 2018 e 2080, a população em idade ativa poderá cair de 6,6 para 4,2 milhões de pessoas, e o índice de envelhecimento poderá quase duplicar, de 159 para 300 idosos por cada 100 jovens (Instituto Nacional de Estatística, s.d.). O horizonte de vinte anos que Fasolo descreve para os Estados Unidos, a Europa e o Japão é, em Portugal, praticamente o horizonte de uma geração de alunos que hoje está no 3.º ciclo.
O mais interessante para uma escola é que a resposta que Fasolo propõe — mais ensino vocacional, mais formação baseada em competências, mais aprendizagem em contexto de trabalho — já existe em Portugal, formalizada há mais de uma década. Os cursos profissionais, regulados pelo Decreto-Lei n.º 139/2012 e coordenados pela Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional, conferem o nível 4 do Quadro Nacional de Qualificações através de dupla certificação, escolar e profissional, e incluem obrigatoriamente uma componente de formação em contexto de trabalho (Portugal, 2012; Direção-Geral da Educação, s.d.a). O problema não é a inexistência do instrumento — é que, numa cultura escolar onde o ensino profissional continua, com frequência, a ser lido como segunda escolha face aos cursos científico-humanísticos, uma previsão como a de Fasolo dá a quem orienta os alunos no 9.º ano um argumento adicional, vindo de fora da escola, para tratar essa via como uma aposta estratégica e não como um plano de recurso.
O fim do especialista isolado: o valor de saber ligar pontos
A segunda previsão relevante para a escola vem de Alan Guarino, vice-presidente da Korn Ferry na área de serviços a conselhos de administração e direções executivas: a natureza do trabalho vai deslocar-se para papéis generalistas, que valorizam a capacidade de estabelecer ligações entre áreas diferentes, de trabalhar através de silos organizacionais e de resolver problemas com criatividade. Guarino descreve uma gestão que se afasta do planeamento rígido e da previsão de longo prazo — funções que tendem a reduzir-se — e se aproxima da agilidade e da capacidade de decidir depressa perante contextos que mudam. As competências que ganham terreno, na sua leitura, não são técnicas de um domínio específico, mas capacidades transversais de liderança distribuída por toda a organização, e não apenas concentrada no topo.
Esta previsão é, sem qualquer adaptação, uma descrição do que o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória já coloca no centro do currículo português desde 2017. Entre as dez áreas de competência que o documento define, constam explicitamente o raciocínio e resolução de problemas, o pensamento crítico e pensamento criativo, e o relacionamento interpessoal — precisamente as capacidades de ligar pontos, de trabalhar através de fronteiras disciplinares e de resolver problemas de forma criativa que Guarino associa ao trabalhador do futuro (Direção-Geral da Educação, 2017). A diferença é que, numa escola organizada por disciplinas estanques, estas competências transversais correm sempre o risco de ficar subordinadas ao conteúdo específico de cada matéria. É exatamente para evitar esse risco que o Decreto-Lei n.º 55/2018 criou os Domínios de Autonomia Curricular, reservando às escolas uma margem de flexibilidade de 25% da carga horária para projetos interdisciplinares desenhados à volta de problemas reais, e não de conteúdos isolados por disciplina (Portugal, 2018). Um aluno que participa, ao longo do ano, num projeto de DAC que cruza Matemática, Cidadania e Educação Visual está, na prática, a treinar o mesmo tipo de trabalho através de silos que Guarino descreve como o valor central do próximo trabalhador.
A inteligência artificial como colega: o que continua a ser insubstituível
A previsão mais especulativa, e também a que mais diretamente contraria o medo generalizado de que a inteligência artificial torne irrelevantes as competências humanas, vem de Ravin Jesuthasan, autor de referência sobre o futuro do trabalho e líder global de transformação na consultoria Mercer: dentro de 25 anos, o local de trabalho será, nas suas palavras, quase irreconhecível, com pessoas e sistemas de inteligência artificial a operar como um só. Jesuthasan admite que tarefas inteiras, e não apenas partes delas, passarão para a IA — mas argumenta que isso vai libertar as pessoas para decisões de maior exigência crítica e criativa, com tarefas que hoje ocupam equipas inteiras durante meses reduzidas a minutos. As camadas intermédias de gestão, tão centrais à estrutura das empresas de hoje, poderão tornar-se, na sua expressão, um vestígio do passado, à medida que o papel de quem lidera passa a ser supervisionar diretamente uma colaboração entre pessoas e sistemas inteligentes. E, contraintuitivamente, Jesuthasan aposta em que a colaboração presencial não se torne apenas indispensável, mas passe a ser tratada como algo verdadeiramente valioso — com a inteligência emocional a continuar a distinguir quem lidera, precisamente porque quem souber combinar empatia com fluência tecnológica será quem molda o que vem a seguir.
Para uma escola, esta previsão inverte o argumento mais comum sobre inteligência artificial e educação, que costuma resumir-se a uma pergunta sobre deteção de plágio ou sobre o que a IA já sabe fazer melhor do que um aluno. A pergunta que Jesuthasan formula é outra: se tarefas técnicas inteiras passam a ser executadas por sistemas, que competências continuam a valer, precisamente porque uma máquina não as consegue substituir? A resposta que dá — inteligência emocional, colaboração presencial, julgamento crítico sobre decisões de maior exigência — coincide, de novo, com áreas do Perfil dos Alunos que não têm equivalente direto num exame nacional: o relacionamento interpessoal e o desenvolvimento pessoal e autonomia (Direção-Geral da Educação, 2017). O quadro europeu DigCompEdu, já adotado como referência para a competência digital dos professores portugueses, situa precisamente essa combinação — usar a tecnologia sem perder o julgamento pedagógico próprio — entre as competências que os próprios docentes precisam de desenvolver antes de as poderem modelar junto dos alunos (Redecker, 2017). Uma escola que trata as competências socioemocionais como um extra, a acrescentar se sobrar tempo depois do currículo obrigatório, está a preparar os alunos exatamente ao contrário do que esta previsão sugere.
Trabalhadores independentes e o valor novo do empreendedorismo
Duas das cinco previsões merecem menção mais breve, mas não menos relevante para quem coordena a componente de Cidadania e Desenvolvimento. Gaurav Gupta, diretor de investigação e desenvolvimento na consultoria de gestão de mudança Kotter International, descreve um crescimento do trabalho independente alimentado pela democratização do acesso a ferramentas de inteligência artificial: um trabalhador em regime de prestação de serviços pode, hoje, ter acesso a um leque mais amplo de ferramentas de IA do que um funcionário de uma empresa cujo contrato de licenciamento a limita a uma única plataforma, o que reforça o valor que esse trabalhador independente consegue entregar. E Cara Brennan Allamano, antiga diretora de pessoas na plataforma de gestão de recursos humanos Lattice, antecipa uma gestão cada vez mais apoiada em dados em tempo real sobre o desempenho e o bem-estar dos trabalhadores, em substituição de inquéritos de satisfação preenchidos esporadicamente.
Estas duas previsões — a normalização do trabalho independente e a gestão apoiada em dados sobre pessoas — encontram um espaço curricular já definido na Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, atualizada em agosto de 2025: a dimensão Literacia Financeira e Empreendedorismo é uma das quatro dimensões obrigatórias em todos os anos de escolaridade, ao lado dos Direitos Humanos, da Democracia e Instituições Políticas e do Desenvolvimento Sustentável (Portugal, 2025). Discutir com uma turma o que significa trabalhar sem um único empregador fixo, ou o que significa uma empresa tomar decisões sobre um trabalhador com base em dados recolhidos automaticamente sobre o seu desempenho, cabe exatamente nesse espaço — e não precisa de esperar por uma disciplina nova para acontecer.
O que isto diz à escola portuguesa
Nenhuma destas cinco previsões foi escrita a pensar no currículo português — os seus autores escrevem para leitores de gestão e recursos humanos, não para professores —, mas o enquadramento para as aplicar já existe, e cobre de forma quase completa o que este texto tem vindo a descrever. O Perfil dos Alunos oferece o ponto de entrada mais transversal, ao colocar o pensamento crítico, a resolução de problemas e o relacionamento interpessoal entre as competências centrais de qualquer disciplina (Direção-Geral da Educação, 2017). O Decreto-Lei n.º 55/2018 oferece o espaço formal — os Domínios de Autonomia Curricular — onde essas competências deixam de ser abstratas e passam a projetos concretos, através de silos disciplinares (Portugal, 2018). Os cursos profissionais oferecem, já hoje, a resposta institucional ao problema demográfico que Fasolo descreve, ainda que continuem a precisar de ser apresentados às famílias como uma escolha de valor, e não de recurso (Portugal, 2012). E a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania garante, através da dimensão obrigatória da literacia financeira e do empreendedorismo, o espaço onde discutir as novas formas de trabalho que a IA está a tornar possíveis (Portugal, 2025).
Uma proposta para a sala de aula
Uma forma simples de levar a previsão de Guarino sobre os generalistas a uma turma do 3.º ciclo ou do secundário não exige qualquer material que a escola não tenha já. Pode propor-se aos alunos, em qualquer disciplina, um pequeno problema que só se resolve cruzando duas áreas normalmente separadas — por exemplo, calcular o impacto ambiental de um produto do quotidiano exige tanto dados numéricos como conhecimento sobre ciclos de produção — e pedir-lhes que identifiquem, no final, que disciplinas tiveram de misturar para chegar à resposta. O objetivo não é ensinar conteúdo novo, é tornar visível, para o próprio aluno, que a competência de ligar áreas diferentes é tão treinável como qualquer fórmula, e que é precisamente essa competência que as cinco previsões da Wall Street Journal, de formas distintas, colocam no centro do trabalho de daqui a vinte anos.
A segunda parte da proposta dirige-se a quem coordena a orientação vocacional ou o serviço de psicologia e orientação de uma escola. Vale a pena partilhar com os alunos do 9.º ano, no momento em que escolhem entre um curso científico-humanístico e um curso profissional, os números concretos sobre o envelhecimento da população ativa portuguesa e a procura crescente por competências técnicas certificadas — não como argumento a favor de uma via em detrimento da outra, mas como contexto real sobre um mercado de trabalho que, segundo cinco pessoas que vivem de o estudar, vai valorizar cada vez mais quem sabe fazer bem uma coisa concreta e quem sabe combinar competências diferentes, e cada vez menos quem apenas segue um percurso pré-definido sem outra justificação.

Nota de transparência: este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir do artigo «How the World of Work Will Change Over the Next 20 Years», de Tara Weiss (The Wall Street Journal, 20 de dezembro de 2025), partilhado diretamente para este blogue em tradução espanhola da agência Reforma.
Referências
Direção-Geral da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Noticias_Imagens/perfil_do_aluno.pdf
Direção-Geral da Educação. (s.d.a). Cursos profissionais. Recuperado a 21 de agosto de 2026, de https://www.dge.mec.pt/cursos-profissionais
Gomes, J. A. (2026, 11 de julho). Mais habitantes, mas com maior peso dos idosos: Portugal agrava desequilíbrio demográfico. ECO. https://eco.sapo.pt/2026/07/11/mais-habitantes-mas-com-maior-peso-dos-idosos-portugal-agrava-desequilibrio-demografico/
Instituto Nacional de Estatística. (s.d.). Projeções de população residente 2018-2080. Recuperado a 21 de agosto de 2026, de https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=406534255&DESTAQUESmodo=2&xlang=pt
Portugal. (2012). Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho. Diário da República, 1.ª série, n.º 129.
Portugal. (2018). Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho. Diário da República, 1.ª série, n.º 129.
Portugal. (2025). Resolução do Conselho de Ministros n.º 127/2025, de 29 de agosto — Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania. Diário da República, 1.ª série. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/enec-2025.pdf
Redecker, C. (2017). European framework for the digital competence of educators: DigCompEdu (Y. Punie, Ed.). Publications Office of the European Union. https://doi.org/10.2760/159770
Weiss, T. (2025, 20 de dezembro). How the world of work will change over the next 20 years. The Wall Street Journal.
Para saber mais
«How the World of Work Will Change Over the Next 20 Years», republicado em acesso aberto pelo jornal To Vima, com o texto integral do artigo original da Wall Street Journal.
Retrato demográfico de Portugal, pela Pordata, no jornal ECO, com os dados sobre o envelhecimento da população ativa referidos neste artigo.
Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória, na Direção-Geral da Educação, para enquadrar as áreas de competência referidas neste texto.
Página oficial dos cursos profissionais, na Direção-Geral da Educação, com o enquadramento legal e a rede de oferta formativa referidos neste artigo.





