Uma professora de Inglês, nos Estados Unidos, pede aos alunos que encomendem a um chatbot um soneto de Shakespeare e que depois verifiquem, com o texto à frente, se o que veio é mesmo um soneto shakespeariano. A ideia é boa e passa bem para o Português: trocámos Shakespeare por Camões, juntámos uma ficha de auditoria, um plano de aula de 90 minutos e critérios de avaliação. O que se segue serve para usar na segunda-feira, e também para desconfiar um pouco.

Há atividades que valem pela simplicidade. A de Bree Ann Joiner-Grice, publicada na Edutopia a 13 de outubro de 2026, tem uma pergunta no centro e nenhuma tecnologia complicada: se um chatbot escreve um soneto «à maneira de», será que respeita a forma de que o género depende? Os alunos decidem. Fazem-no com lápis e papel, que é onde, segundo a autora, deve acontecer o trabalho de pensar a sério.
Em Portugal o género é o mesmo e a tradição é outra. O soneto é matéria de Português ao longo de vários anos, e o poeta que toda a gente tem à mão é Camões. Pareceu-nos que valia a pena fazer a viagem completa: perceber o que a aula original faz, ver porque é que a forma é um bom terreno para desconfiar da IA, e depois desenhar uma versão portuguesa que se possa pôr em prática sem horas de preparação.
A aula original, em poucas palavras
A professora ensina uma turma de 8.º ano americano (alunos de cerca de treze anos) e usa a atividade para tornar menos distante o estudo de Júlio César. Começa com uns minutos de explicação sobre os tipos de soneto e pede aos alunos que registem só os traços do shakespeariano: três quadras e um dístico final, esquema ABAB CDCD EFEF GG, pentâmetro iâmbico e uma viragem no dístico. Depois faz um levantamento, no quadro, dos problemas do dia a dia dos alunos, e cada um escolhe um ou dois para pedir à IA um soneto sobre eles.
Há uma decisão que nos parece muito inteligente: a professora não ensina previamente a fazer o pedido. Deixa cada aluno escrever o prompt como quiser. Dá duas razões. A primeira é que assim vê quem já lida à vontade com estas ferramentas, o que lhe serve de pista para conversas sobre integridade académica. A segunda é que um pedido solto tem mais probabilidade de devolver um soneto imperfeito, e é desse material que sai a melhor discussão. Se o soneto vier perfeito, o aluno tem de explicar porquê.
Enquanto os alunos trabalham, a professora pede o seu próprio soneto a outro chatbot, que depois analisa em conjunto com a turma, como modelo. Segundo conta, o que obteve tinha alguns erros. Os alunos passam então à análise com uma ficha de trabalho (e há também uma apresentação de apoio), seja cada um com o seu soneto, seja todos com o mesmo, escolhido entre os entregues. No fim, alguns leem o poema em voz alta e justificam o veredicto. A autora diz que os alunos gostam de ler o soneto de «outro» e de o achar parecido com a sua vida.
Convém registar o que o texto não traz: não há dados de resultados, nem comparação com uma turma que tenha analisado o soneto sem IA. É o relato de uma prática, contado por quem a faz. Para um professor é o que interessa, mas fica a ressalva.
Porque é que o ouvido não chega
A atividade assenta numa suspeita razoável: o texto de uma IA «soa bem» e engana. Há investigação que dá corpo a isso. Brian Porter e Edouard Machery, num estudo publicado na Scientific Reports em 2024, pediram a leitores não especialistas que distinguissem poemas de poetas conhecidos de poemas gerados por IA. A taxa de acerto ficou em 46,6%, abaixo dos 50% que o acaso daria, e os poemas da máquina foram avaliados mais favoravelmente em qualidades como o ritmo e a beleza. Os autores sugerem que a simplicidade dos poemas artificiais os torna mais fáceis de entender, e que a complexidade dos poemas humanos acaba por ser confundida com incoerência.
Há limites a ter presentes: os participantes eram leitores comuns e não especialistas, a língua era o inglês, e o artigo completo trabalha com poemas gerados sem intervenção humana posterior. Não nos diz nada sobre alunos portugueses nem sobre os modelos de hoje. Mas serve de argumento a quem queira justificar, perante uma turma, porque é que o «parece bom» não basta como critério. Na aula de Português, a alternativa é a mais antiga das nossas competências: contar sílabas, identificar rimas, ler com o texto à frente e justificar com evidência.
Do soneto de Shakespeare ao de Camões
A primeira adaptação é de conteúdo, e passa por escolher o poema de comparação. Propomos o «Amor é fogo que arde sem se ver», que é conhecido, vem nos manuais e já foi trabalhado em materiais da Direção-Geral da Educação para o 7.º e o 8.º ano. O texto integral está acessível na ficha da DGE e na edição comentada por Rita Marnoto, que é a base de quase tudo o que se diz abaixo sobre este soneto; imprima-o a partir daí ou do manual adotado.
A diferença de forma em relação ao soneto inglês é grande e é ela que torna a atividade rica em português. A tabela resume o que o artigo da Edutopia indica para Shakespeare e o que Marnoto descreve neste soneto de Camões.
| Aspeto | Soneto shakespeariano (segundo a Edutopia) | «Amor é fogo que arde sem se ver» (segundo Marnoto) |
|---|---|---|
| Estrofes | Três quadras e um dístico (4+4+4+2) | Duas quadras e dois tercetos (4+4+3+3) |
| Rimas | ABAB CDCD EFEF GG | ABBA ABBA CDC DCD, com quatro rimas apenas |
| Verso | Pentâmetro iâmbico | Decassílabo (dez sílabas métricas, contadas até à última tónica) |
| Viragem | No dístico final | No último terceto, que começa com «Mas» e fecha em pergunta |
| Tradição | Inglesa | Petrarquista, com fonte próxima num tratado latino de Petrarca |
Há ainda três coisas que tornam este soneto especialmente bom para a tarefa. A primeira é a sua construção em paralelo: os versos 2 a 11 começam todos por «é», numa sucessão de definições de amor que se contradizem. É uma anáfora evidente, fácil de apontar com o dedo. A segunda é que a contradição está em quase todos os versos (arde sem se ver, dói e não se sente), o que dá ao aluno a oportunidade de falar de antítese e de oximoro com exemplos que não precisam de explicação. A terceira é a pergunta final, que muda de plano: depois de onze versos de contradições, o poeta pergunta como pode o amor ser bem acolhido nos corações humanos, sendo tão contrário a si próprio. O soneto termina, aliás, com a palavra com que começou.
E há um pormenor que vale ouro numa aula sobre IA. Marnoto recorda que este soneto só aparece impresso na segunda edição das Rimas, de 1598, sem testemunhos manuscritos da época (exceto o manuscrito apenso à edição de 1595), que alguns editores hesitam em incluí-lo no corpo mínimo de textos de Camões e que as edições modernas divergem em variantes de algumas palavras. Marnoto admite a autoria camoniana. Ou seja: mesmo o «original» tem uma história de edições e dúvidas, o que ajuda os alunos a perceber que ler com rigor é algo que se faz também com o poema humano, e não só com o da máquina.
O soneto de Camões em números
Para a modelagem em sala de aula, o professor pode projetar uma tabela como a que se segue. As rimas e os seus tipos vêm da análise de Marnoto: as rimas A (-er) e D (-or) são agudas, e as B (-ente) e C (-ade) são graves. Por isso, o soneto alterna ritmicamente entre finais agudos e graves. Não reproduzimos aqui os versos; os alunos têm o poema à frente e vão preenchendo a coluna das palavras.
| Verso | Palavra em rima | Rima | Tipo |
|---|---|---|---|
| 1 | ver | A | aguda |
| 2 | sente | B | grave |
| 3 | descontente | B | grave |
| 4 | doer | A | aguda |
| 5 | querer | A | aguda |
| 6 | gente | B | grave |
| 7 | contente | B | grave |
| 8 | perder | A | aguda |
| 9 | vontade | C | grave |
| 10 | vencedor | D | aguda |
| 11 | lealdade | C | grave |
| 12 | favor | D | aguda |
| 13 | amizade | C | grave |
| 14 | Amor | D | aguda |
Lida a coluna das rimas, saem as letras ABBA ABBA CDC DCD. Nota: a variante «amizade» (verso 13) é a que consta na edição comentada por Marnoto; outros editores registam palavras diferentes nesse verso. Convém que o professor confira, antes da aula, se o manual dos alunos traz o mesmo texto que o seu.
Sobre a métrica, é onde mais se erra, e não só nas máquinas. Pelas nossas contas, que o professor deve confirmar com o manual, o verso 4 é o mais limpo para começar: dez sílabas, tónica na 6.ª (ti, de «desatina») e na 10.ª (er, de «doer»), com a única particularidade de «doer» valer por duas sílabas (hiato). O verso 1 já exige duas elisões (entre «é» e «um», e entre «que» e «arde») para chegar às dez. Há versos, como o 3 e o 6, em que o grupo «é um» parece pedir leituras diferentes, e isso mostra que a escansão tem margem de decisão: não é uma operação mecânica, e é bom que os alunos o percebam antes de condenarem uma máquina por falhar uma contagem.
Proposta de aula de 90 minutos
O formato abaixo cabe num bloco de 90 minutos. Em duas aulas de 45 ou 50, a primeira fica para a leitura e a modelagem e a segunda para a auditoria. É uma proposta nossa, construída a partir da lógica da aula original, e não foi testada em turma.
Abertura (10 minutos)
Leitura em voz alta do soneto de Camões, duas vezes, por alunos diferentes. Pergunta única ao quadro: «o que é que faz disto um soneto?» Recolhem-se as respostas sem corrigir. Algumas serão sobre o tema, outras sobre a forma, e a distinção será útil mais à frente.
Instrução breve (10 minutos)
O professor fixa com a turma os traços da forma: catorze versos, quadras e tercetos, esquema de rimas, decassílabo, viragem final. Se a turma já viu Shakespeare, a tabela comparativa acima pode ir ao quadro. Os alunos copiam apenas os traços, como na aula original.
Modelagem (20 minutos)
Trabalha-se coletivamente a primeira quadra: marcam-se as palavras em rima, atribuem-se letras, conta-se o verso 4 em voz alta, sílaba a sílaba. No quadro fica escrito um parágrafo-modelo de análise (ver mais abaixo), que fica visível até ao fim da aula. A autora da aula original nota que os alunos mais fracos tendem a copiar de perto o modelo. É natural, e é para isso que ele serve.
O pedido à IA (10 minutos)
Cada aluno pede a um chatbot aprovado pela escola um soneto camoniano sobre um tema à escolha, com o máximo de dois sonetos por aluno. Tal como na aula original, o pedido é livre. O professor circula e observa quem formula bem e quem formula mal, e anota-o. Em paralelo, e antes da aula, o professor terá gerado o seu próprio soneto, que servirá de modelo da fase seguinte.
Auditoria (30 minutos)
Os alunos, sozinhos ou em pares, preenchem a ficha abaixo com o seu soneto e escrevem um parágrafo com o veredicto: cumpre ou não cumpre a forma do soneto camoniano? O trabalho deve ser feito em papel, como na aula original. Se o professor preferir uma correção mais uniforme, pode seguir a segunda via da autora e escolher um só soneto, entre os entregues, para toda a turma.
Partilha (10 minutos)
Alguns alunos leem o soneto da máquina e defendem o veredicto. A turma pode discordar, com a condição de apontar o verso. Termina-se com uma pergunta de fecho: o que é que a máquina acertou e onde é que falhou?
A ficha de auditoria
A ficha que propomos abaixo é nossa; a original, em inglês, é a da autora (ligada acima). A coluna «Evidência» é a mais importante, porque obriga o aluno a apontar um verso ou uma palavra. Uma afirmação sem evidência não conta.
| Critério | O que verificar | Evidência (verso/palavra) | Cumpre? |
|---|---|---|---|
| 1. Extensão | Tem catorze versos? | ||
| 2. Estrofes | Duas quadras e dois tercetos (4+4+3+3)? | ||
| 3. Rimas das quadras | Segue o esquema ABBA ABBA? | ||
| 4. Rimas dos tercetos | Qual é o esquema? É admissível num soneto deste tipo? (O de Camões é CDC DCD.) | ||
| 5. Qualidade da rima | As palavras rimam mesmo, a partir da vogal tónica, ou só «parecem» rimar? Há repetições da mesma palavra? | ||
| 6. Métrica | Os versos têm dez sílabas métricas, contadas até à última tónica? Onde caem os acentos (6.ª e 10.ª, ou 4.ª, 8.ª e 10.ª)? Conta pelo menos três versos. | ||
| 7. Viragem e fecho | Há uma mudança de rumo no fim? Como se marca? | ||
| 8. Recursos expressivos | Há anáfora, antítese, oximoro, comparação, metáfora? Servem o sentido ou estão lá só para enfeitar? | ||
| 9. Língua | Está em português europeu (ortografia, vocabulário, formas verbais)? Há palavras ou expressões que um poeta do século XVI não usaria? | ||
| 10. Originalidade | Algum verso lembra, ou repete, versos conhecidos de Camões? | ||
| 11. Sentido | O tema está desenvolvido ou o texto limita-se a enumerar frases sobre ele? |
O critério 9 é uma particularidade nossa e não vem da aula original. Interessa-nos porque, numa escola portuguesa, a variedade da língua e o registo são parte da leitura. Não afirmamos que as ferramentas errem nisto, e não temos dados para o dizer. Dizemos apenas que convém verificar, e que é um exercício útil de consciência linguística.
O parágrafo de análise
O professor pode propor aos alunos um esqueleto em três tempos, a que chamamos afirmação, evidência e comentário. Fica um exemplo com lacunas: «O soneto [cumpre / não cumpre] o esquema de rimas das quadras. Nos versos [n.º] e [n.º] as palavras em rima são «[…]» e «[…]», o que corresponde à letra [A/B]. Isto [confirma / contradiz] o esquema ABBA, porque […].» Depois, a mesma estrutura repete-se para a métrica e para a viragem. É o equivalente português do que a autora da aula original faz no quadro, com a diferença de que aqui o aluno se apoia nas palavras de rima, que são mais fáceis de citar do que versos inteiros.
Adaptar por ano de escolaridade
A atividade não pede o mesmo a todos os anos, e a legislação curricular ajuda a escolher o nível de exigência.
No 7.º e 8.º anos, o soneto de Camões já faz parte de materiais oficiais de apoio: o bloco n.º 52 do #EstudoEmCasa pede para reconhecer a forma como o texto está estruturado e para compreender o uso de recursos expressivos, e junta-lhe um soneto de Petrarca. Nestes anos, a ficha pode reduzir-se aos critérios 1 a 3, 7 e 8, deixando a contagem de sílabas para mais tarde.
No 9.º ano, as Aprendizagens Essenciais de Português (março de 2026) preveem, em educação literária, a consolidação de «noções de versificação» e o conhecimento da obra camoniana, e pedem que o aluno relacione os elementos do género literário com a construção do sentido e justifique as suas interpretações. A tarefa descrita aqui está muito próxima disso. A lista de poemas desse ano não inclui este soneto, pelo que se trata de uma aplicação em contexto de versificação e de leitura de Camões, e não de um texto obrigatório. Aqui já se justifica a ficha completa, incluindo a métrica.
No 10.º ano, em que a lírica camoniana é matéria nuclear, os materiais de apoio da DGE para as Rimas referem como aprendizagem «relacionar características formais do texto poético com a construção de sentido». É a altura de acrescentar o confronto com a tradição petrarquista, a discussão da autoria e das variantes textuais, e a pergunta sobre se a IA consegue reproduzir não só a forma mas também o sentido. Convém dizer que não confirmámos, nas Aprendizagens Essenciais de 2026 do 10.º ano, a lista exata de textos, pelo que quem planifica deve consultar o documento em vigor.
Em todos os anos, a tarefa dialoga com o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, nas áreas de Linguagens e textos, Informação e comunicação, e Pensamento crítico e pensamento criativo. É uma articulação nossa, que o professor deve confirmar com o seu grupo disciplinar.
Como avaliar
Avaliar trabalhos em que cada aluno analisa um poema diferente é mais trabalhoso, como a própria autora reconhece. Há duas saídas: ou se escolhe um único soneto para a turma, ou se avalia o processo e não o poema. A segunda faz mais sentido, e é coerente com a avaliação para a aprendizagem que as Aprendizagens Essenciais defendem. A grelha que se segue é uma proposta nossa, inspirada nos níveis de desempenho (proficiente e avançado) que o documento do 9.º ano adota.
| Domínio | Desempenho proficiente | Desempenho avançado |
|---|---|---|
| Identificação da forma | Identifica estrofes, rimas e número de versos. | Identifica ainda a métrica e a viragem, e relaciona-as com o sentido. |
| Evidência | Apoia a maior parte das afirmações em versos ou palavras. | Apoia todas as afirmações e escolhe a evidência mais pertinente. |
| Juízo crítico | Conclui se o soneto cumpre a forma. | Distingue o que é falha formal do que é escolha poética defensável. |
| Escrita | Escreve um parágrafo organizado. | Escreve com progressão e rigor de vocabulário. |
Cuidados a ter
Primeiro, a ferramenta. Convém usar apenas uma que a escola ou o agrupamento tenha aprovado, rever as condições de idade do serviço e não pedir aos alunos dados pessoais. O tema do soneto pode ser pessoal, e a lista de «problemas do dia a dia» da aula original pode revelar mais do que se pretende. Um tema mais neutro (a amizade, o cansaço, o regresso às aulas) protege os alunos.
Segundo, o papel do professor. A atividade não prova que «a IA não sabe escrever sonetos». Mostra que este pedido, a esta ferramenta, num dia concreto, deu este resultado. Se um modelo acertar, o aluno tem de perceber porquê, e se falhar, a falha não pode ser tomada como lei geral. Com outra ferramenta, ou noutra semana, o resultado pode ser outro.
Terceiro, uma segunda ronda que nos parece promissora e que não vem da aula original: depois da auditoria, o aluno devolve ao chatbot a sua lista de falhas e pede nova versão, ou pede ao próprio chatbot que verifique o seu soneto, e compara as duas verificações. Há dados, que comentámos há dias, a sugerir que desafiar o raciocínio do modelo é uma estratégia associada a conversas classificadas como produtivas, embora esses dados não digam nada sobre aprendizagem. É uma hipótese de trabalho e não uma garantia; fica por testar.
Quarto, e para quem queira ir mais longe, a ideia combina bem com outras que já propusemos: a de pôr os alunos a avaliar a IA em vez de serem avaliados com ela, a aplicação IA para Aprender, os cinco passos da literacia em IA para a escola e a reflexão sobre pensamento crítico e ética na era da IA generativa. Quem quiser situar a atividade num referencial internacional pode olhar para o AILit, de que falámos a propósito dos vinte e dois referenciais sobre IA na educação; a correspondência exata com os seus domínios fica por fazer.
O que fica por confirmar
Não conseguimos confirmar, a partir das fontes consultadas, o contexto de aplicação da aula original além do que a autora descreve (uma turma de 8.º ano americano, com iPad individual), nem os resultados que dela resultaram. Não testámos a proposta portuguesa em sala de aula, e não pedimos a nenhum chatbot um soneto camoniano para ver o que daria; quem o fizer será o primeiro a poder dizer-nos. A escansão dos versos 1 e 4 é nossa e deve ser conferida.
Uma pergunta para levar
Quando um aluno lê um soneto e diz «isto é mesmo bom», o que é que lhe pedimos a seguir? Se for «mostra-me onde», já temos a aula. A IA fornece apenas o poema a examinar, e ninguém, nem o professor, sabe de antemão o que vai sair. Numa aula de literatura, isso até pode ser um bom ponto de partida.

Nota editorial e de transparência. Este artigo foi elaborado com assistência de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir do artigo de Joiner-Grice (2026) e de fontes oficiais e académicas consultadas a 16 de outubro de 2026, e foi sujeito a revisão e responsabilidade editorial dos autores do blogue.
Referências
Direção-Geral da Educação. (s.d.-a). Aprendizagens Essenciais: Articulação com o Perfil dos Alunos, 9.º ano, 3.º ciclo, Português (março de 2026). Consultado a 16 de outubro de 2026, em https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/9_portugues.pdf
Direção-Geral da Educação. (s.d.-b). Aprendizagens Essenciais: Articulação com o Perfil dos Alunos, 10.º ano, ensino secundário, Português (março de 2026). Consultado a 16 de outubro de 2026, em https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/es_10_portugues.pdf
Direção-Geral da Educação. (s.d.-c). #EstudoEmCasa, Português, 7.º e 8.º anos, bloco n.º 52: «Amor é fogo que arde sem se ver», de Luís de Camões; «Se amor não é, qual é o meu sentimento», de Petrarca. Consultado a 16 de outubro de 2026, em ligação para o PDF
Direção-Geral da Educação. (s.d.-d). #EstudoEmCasa, Português, 10.º ano, bloco n.º 28: Introdução à lírica de Camões. O contexto histórico-literário. Consultado a 16 de outubro de 2026, em ligação para o PDF
Joiner-Grice, B. A. (2026, 13 de outubro). Can AI pass as Shakespeare? Let students be the judge. Edutopia. Consultado a 16 de outubro de 2026, em https://www.edutopia.org/article/can-ai-pass-shakespeare-let-students-be-judge
Marnoto, R. (s.d.). Amor é um fogo que arde sem se ver. In Comentário a Camões (Vol. 1, pp. 37–50). Universidade de Coimbra, Estudo Geral. Consultado a 16 de outubro de 2026, em https://estudogeral.uc.pt/bitstream/10316/43414/1/2.pdf
Ministério da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória (Despacho n.º 6478/2017, de 26 de julho). Direção-Geral da Educação. Consultado a 16 de outubro de 2026, em https://dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade/perfil_dos_alunos.pdf
Porter, B., & Machery, E. (2024). AI-generated poetry is indistinguishable from human-written poetry and is rated more favorably. Scientific Reports, 14, Artigo 26133. https://doi.org/10.1038/s41598-024-76900-1
Para saber mais
Fora do blogue: a ficha de análise original de Joiner-Grice (cópia editável, em inglês) e a sua apresentação sobre os tipos de soneto; o texto integral do estudo de Porter e Machery; o quadro de literacia em IA AILit.
No blogue: Metade das conversas com IA tem atrito, e isso pode ser bom; E se, no exame, fossem os alunos a avaliar a inteligência artificial?; IA para Aprender: uma ferramenta interativa para guiar estudantes no uso da inteligência artificial; Literacia em IA: cinco passos para a escola; Reaprender a perguntar: estamos a caminho da geração prompt?; Ler o mundo em múltiplos formatos: multiliteracias na era da inteligência artificial.









