IA na sala de aula: o que a evidência diz sobre o que funciona — e o que falha

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Há uma pergunta que já não se pode adiar: a inteligência artificial melhora mesmo a aprendizagem, ou estamos apenas a trocar entusiasmo tecnológico por resultados concretos? Um relatório publicado em maio de 2026 pelo EsadeEcPol — o centro de política económica da escola de negócios ESADE, com apoio da Google — tenta responder com rigor a essa questão, analisando décadas de evidência sobre as TIC e os primeiros estudos causais disponíveis sobre IA generativa no sistema educativo. Embora centrado em Espanha, as conclusões atravessam fronteiras e falam directamente à realidade das escolas portuguesas, dos professores sobrecarregados e dos alunos que chegam cada vez mais diferentes às salas de aula.

O documento não é uma celebração tecnológica. É, antes, um exercício de honestidade intelectual: o que funciona, em que condições, para quem — e o que pode correr muito mal quando a tecnologia entra na escola sem propósito pedagógico.

Acesso não é suficiente — nunca foi

A primeira lição que a investigação acumulada impõe é desconfortável para quem investiu anos a equipar escolas: ter dispositivos e ligação à internet não produz, por si só, qualquer melhoria nos resultados académicos. Uma revisão de 126 estudos conduzida pelo J-PAL em 2019 é taxativa neste ponto — as iniciativas que se limitaram a distribuir computadores ou a alargar o acesso à internet, sem alterar a prática pedagógica, não geraram melhorias sistemáticas nas classificações nem nos resultados de provas estandardizadas no ensino básico e secundário.

Isto não significa que o acesso seja irrelevante. Significa que é condição necessária mas radicalmente insuficiente. O que determina o impacto não é a presença do equipamento, mas a intenção com que é usado, o tipo de actividade que suporta, o dispositivo escolhido e o grau de acompanhamento do professor.

Os dados do PISA 2022 são ilustrativos: o uso de um computador de mesa ou portátil no contexto escolar associa-se a ganhos de até 17 pontos em matemáticas face aos alunos que nunca os utilizam. O telemóvel pessoal, pelo contrário, associa-se a uma penalização de 11 pontos. Não é a tecnologia o problema — é o dispositivo, o contexto e a ausência de mediação pedagógica.

Há ainda um padrão que os dados internacionais confirmam repetidamente: a relação entre intensidade de uso tecnológico e resultados académicos tem a forma de um U invertido. Um uso moderado e estruturado supera tanto a ausência total como a exposição excessiva. Quando a tecnologia se instala na sala de aula sem foco, sem enquadramento pedagógico e sem a supervisão do professor, os retornos tornam-se negativos. É uma advertência que vale a pena reter antes de qualquer decisão de escalar soluções digitais a nível de sistema.

O que a personalização muda

Se o acesso genérico falha, a personalização instrucional funciona. É uma das conclusões mais robustas de toda a literatura sobre tecnologia educativa, e o relatório dedica-lhe atenção considerável.

As intervenções que utilizam a tecnologia para adaptar a instrução ao nível real de cada aluno — ajustando a dificuldade, o ritmo e o tipo de exercícios de forma dinâmica — produzem efeitos que a investigação designa como substanciais. O programa Mindspark, testado na Índia com alunos do ensino básico e secundário, gerou melhorias de 0,37 desvios-padrão em matemática em apenas 4,5 meses de acesso. O software combina diagnóstico automático do nível de cada estudante com instrução adaptativa e sessões de grupo supervisionadas. O elemento crítico não é o algoritmo — é a articulação entre o que a tecnologia faz e o que o professor faz.

Outro exemplo que merece atenção, pela proximidade geográfica e institucional, é o programa DytectiveU, implementado em 264 escolas públicas da Comunidade de Madrid entre 2019 e 2023. A plataforma, orientada para o reforço da competência leitora no 1.º ciclo, adapta os conteúdos ao perfil de cada aluno sem dar as respostas — preserva o esforço cognitivo enquanto personaliza o percurso. Os resultados mostram um progresso de 2,4% de um desvio-padrão por sessão adicional, o que equivale aproximadamente a um mês de aprendizagem. Os benefícios são mais expressivos nos alunos mais novos, o que confirma o valor da personalização nas fases iniciais de aquisição da leitura.

O que estes exemplos partilham é precisamente o que os distingue das soluções que falham: a tecnologia opera como complemento do esforço cognitivo do aluno, não como substituto. Quando um chatbot de IA generativa responde directamente às questões sem guiar o raciocínio, os resultados invertem-se. Um estudo experimental publicado em 2025 nas Proceedings of the National Academy of Sciences (Bastani et al.) comparou três condições em aulas de matemática do secundário: sem IA, com acesso a um chatbot de IA generativa e com acesso a um tutor com salvaguardas pedagógicas que evitava dar a solução completa. O chatbot sem restrições melhorou as notas durante a prática em 48%, o tutor com salvaguardas em 127%. Quando a IA foi retirada, os alunos que tinham usado o chatbot irrestrito obtiveram resultados 17% inferiores aos que nunca tiveram acesso a qualquer ferramenta. A dependência substituíra a aprendizagem.

Os professores no centro — e sobrecarregados

O relatório é particularmente honesto sobre uma tensão que qualquer professor conhece: a tecnologia chega a um sistema onde o tempo docente já está saturado. Os dados do TALIS 2024 para Espanha mostram que o professorado se situa acima da média da OCDE nas cinco principais fontes de stress declaradas — sobrecarga administrativa, adaptação constante a alterações curriculares, exigências das autoridades educativas, excesso de avaliação e deterioração do clima de sala de aula. Os professores espanhóis de secundário dedicam em média 18 horas semanais a tarefas não lectivas, 1,65 horas acima da média europeia.

É neste contexto de pressão que a IA generativa pode, segundo os investigadores, oferecer um contributo genuíno — não para substituir o professor, mas para aliviar o peso das tarefas que consomem o tempo que deveria ir para os alunos. Um inquérito representativo conduzido pela Gallup e pela Walton Family Foundation em 2025, com 2232 professores do ensino público americano, apurou que os docentes que utilizam IA semanalmente estimam poupar cerca de 5,9 horas semanais, com 81% a reportar ganhos de tempo em tarefas administrativas. Em Espanha, a Oficina Nacional de Prospectiva e Estratégia do Governo estimou que a IA poderia libertar até um dia de trabalho semanal — tempo que poderia ser reinvestido na relação pedagógica com os alunos.

O problema não é a disponibilidade das ferramentas. É a ausência de formação adequada. Nos países analisados pelo TALIS, a principal barreira ao uso da IA pelos professores é a falta de conhecimentos ou competências específicas para a utilizar de forma pedagogicamente responsável — em Espanha, este valor atinge 74,6%. E a correlação entre formação e adopção é quase perfeita: com um coeficiente de correlação de 0,96, os países onde mais professores utilizam IA são exactamente aqueles onde mais professores receberam formação específica. A conclusão é simples e incómoda: não se pode esperar que os professores usem bem aquilo para que não foram formados.

Há ainda um dado que merece reflexão particular: a brecha entre necessidade formativa declarada e formação efectivamente recebida é, no domínio da IA, maior do que em qualquer outra dimensão do desenvolvimento profissional docente. Os quadros de referência existentes — como o Marco de Referência da Competência Digital Docente, aprovado antes da irrupção da IA generativa — ainda não incorporam a IA como competência específica e avaliável. É uma lacuna que nenhum investimento em dispositivos consegue suprir.

O que funciona em cada etapa — e porquê

Uma das contribuições mais práticas do relatório é a análise diferenciada por ciclo de ensino, reconhecendo que as prioridades pedagógicas não são as mesmas para uma criança de 7 anos e para um adolescente de 16.

No 1.º ciclo, a prioridade inequívoca é consolidar as competências fundamentais — leitura, escrita e matemática. Os dados internacionais são preocupantes: no TIMSS 2023, os alunos espanhóis de 4.º ano obtiveram 498 pontos em matemática, 27 pontos abaixo da média da OCDE, o equivalente a mais de meio ano de escolarização perdido. Em compreensão leitora, o PIRLS 2021 regista uma diferença de 12 pontos face à média da OCDE. É neste contexto que a tecnologia deve entrar com cautela e com propósito: em doses moderadas, associada a usos específicos e bem delimitados, com a mediação permanente do professor. A instrução assistida por computador adaptativa — quando bem implementada, com rotinas docentes estruturadas e monitorização activa do progresso — pode reforçar a aquisição das competências básicas durante a janela de maior plasticidade cognitiva. Nos últimos anos do 1.º ciclo, faz sentido começar a introduzir também a alfabetização ética em relação à IA: o que é um algoritmo, porque é que os dados importam, quem é responsável pelo que as máquinas produzem.

No 2.º e 3.º ciclos, os desafios mudam de natureza. Em Espanha, 22% dos alunos já repetiram pelo menos um ano antes dos 15 anos — o terceiro país com maior taxa de retenção da UE. O clima de sala de aula deteriorou-se de forma significativa entre 2012 e 2022, mais do que na média da OCDE, e 38% dos alunos declararam que os colegas frequentemente não ouvem o professor. É aqui que a tecnologia pode ajudar de forma diferente: não tanto na instrução directa, mas na detecção precoce de alunos em risco, no apoio personalizado e na redução das brechas que comprometem as trajectórias mais frágeis. Os modelos preditivos baseados em aprendizagem automática são hoje capazes de identificar, desde o final do 1.º ciclo, quais os alunos com maior probabilidade de abandonar o sistema no ensino secundário — e isso permite intervir antes de o problema estar instalado.

No ensino secundário pós-obrigatório, a IA pode apoiar as transições, que são os momentos de maior vulnerabilidade. Um estudo experimental conduzido nos EUA por Page e Gehlbach mostrou que um assistente virtual baseado em IA, integrado com os sistemas de informação da instituição e capaz de personalizar as mensagens consoante as tarefas pendentes de cada aluno, reduziu o abandono durante uma transição educativa em 21%. O mecanismo é transferível para outros contextos: acompanhar de forma proactiva, contextualizada e individualizada, nos momentos de alta incerteza.

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O que a comparação internacional ensina

O relatório analisa quatro casos internacionais com resultados muito distintos, e a lição é a mesma em todos eles: o que determina o sucesso não é a ambição da política nem a dimensão do investimento. É a qualidade da implementação.

A Coreia do Sul lançou em 2023 um programa de 850 milhões de dólares para introduzir manuais digitais com IA adaptativa no ensino básico e secundário. Foi cancelado quatro meses depois, reclassificado como “material complementar”. Os motivos: erros de conteúdo, falhas técnicas recorrentes, protestas de famílias preocupadas com a exposição excessiva a ecrãs, e ausência total de pilotagem gradual. Os professores não tinham sido envolvidos no desenho do programa.

Singapura, pelo contrário, construiu durante 23 anos uma infra-estrutura institucional sólida antes de escalar qualquer tecnologia. A sua plataforma nacional de aprendizagem integra hoje assistentes de ensino, ferramentas de feedback adaptativo e sistemas de aprendizagem personalizada — com salvaguardas pedagógicas explícitas e o professorado no centro do processo. A Estónia fez o mesmo ao longo de três décadas, com a competência digital obrigatória no currículo desde 2014 e a formação docente sempre a preceder o lançamento de qualquer nova ferramenta.

A diferença entre o sucesso e o fracasso não é tecnológica. É humana e institucional.

As condições que têm de estar reunidas

O relatório organiza as condições necessárias para uma integração efectiva em três fases sequenciais, e a sequência importa.

A primeira fase é a das condições habilitantes: infra-estrutura digital com equidade real (porque as desigualdades de acesso se traduzem em desigualdades de oportunidade pedagógica), professores com tempo, apoio e formação específica em IA, e um quadro normativo que habilite sem paralisar. Em Portugal, como em Espanha, a fase do acesso básico pode considerar-se largamente superada. As brechas persistentes são de uso e de qualidade pedagógica — e essas não se resolvem com mais equipamento.

A segunda fase é a da integração na aprendizagem, diferenciada por etapa e sempre orientada por um princípio transversal: a tecnologia complementa o esforço cognitivo do aluno, nunca o substitui. Nas idades mais jovens, onde as funções executivas estão em pleno desenvolvimento, este princípio é ainda mais crítico. A escola precisa primeiro de ensinar as crianças a fazer coisas difíceis — a ler com profundidade, a manter a concentração, a autorregular-se — antes de lhes pôr uma ferramenta de IA nas mãos.

A terceira fase é a da implementação responsável: pilotar antes de escalar, avaliar com independência e rigor, escalar apenas o que demonstrou impacto positivo e equitativo. Qualquer tecnologia que se proponha para uso generalizado nas escolas deveria primeiro ser testada num número limitado de contextos, com formação docente prévia, duração mínima de um ano lectivo e avaliação externa independente do fornecedor. Não escalar o que não foi avaliado não é timidez — é prudência que os ciclos tecnológicos anteriores tornaram obrigatória.

O que isto significa para as nossas escolas

O relatório não é sobre Espanha. É sobre o que a evidência diz, e a evidência não tem passaporte. As escolas portuguesas partilham os mesmos dilemas: como integrar a IA sem criar dependência, como formar professores para ferramentas que ainda estão a mudar, como garantir que a tecnologia reduz as brechas em vez de as ampliar.

Há uma frase do ex-ministro da educação de Malta, Evarist Bartolo, que o relatório usa como epígrafe e que merece ser guardada: “Não devemos discutir para onde nos leva a tecnologia, mas para onde a levamos nós.” A agência é nossa — dos professores, das escolas, das famílias, dos sistemas educativos. A IA não tem projecto pedagógico. Somos nós que temos de o ter.

O que a evidência diz, com uma consistência que atravessa décadas e continentes, é que a tecnologia educativa funciona quando serve uma intenção pedagógica clara, quando está nas mãos de professores preparados e apoiados, e quando o aluno chega a ela com as competências básicas que lhe permitem usá-la como alavanca em vez de muleta. Fora dessas condições, o impacto é nulo ou negativo.

É pouco glamoroso como conclusão. Mas é a verdade que os dados sustentam — e é dessa verdade que as políticas educativas têm de partir.


Fonte principal: Contreras, J., Gortazar, L., & Galindo, J. (2026). Integración basada en la evidencia y uso eficaz de las TIC y la IA generativa en la educación escolar en España. EsadeEcPol — Center for Economic Policy, con el apoyo de Google. Mayo de 2026.

Nota editorial: O relatório analisa o sistema educativo espanhol com base em dados do PISA 2022, TIMSS 2023, PIRLS 2021 e TALIS 2024, entre outras fontes. As conclusões sobre eficácia pedagógica têm validade internacional, sustentada em investigação publicada em revistas com revisão por pares. As referências numéricas reportam-se ao contexto espanhol; os paralelos com Portugal são editorialmente inferidos com base na proximidade dos sistemas e dos dados comparativos disponíveis. Nível de confiança: alto para as conclusões pedagógicas gerais; médio para a transposição directa ao contexto português sem dados específicos.

A escola e a segurança digital: preparar, prevenir e agir | Toolkit Austrália

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Há uma pergunta que qualquer diretor ou professor honesto acaba por se fazer, mais cedo ou mais tarde: a nossa escola está mesmo preparada para o mundo digital em que os alunos vivem? Não apenas para o usar na sala de aula, mas para o compreender, regular e, quando necessário, intervir nele com responsabilidade e clareza.

A resposta, na maioria dos casos, é incompleta. Não por falta de vontade — os professores conhecem bem os riscos —, mas porque a segurança digital ainda é tratada em muitas escolas como um assunto residual, resolvido com um documento em gaveta ou uma palestra anual no auditório. O Toolkit for Schools, desenvolvido pela eSafety Commissioner australiana e atualizado em novembro de 2025, oferece um conjunto de ferramentas práticas que desafiam exatamente esse modelo. Vale a pena conhecê-las, mesmo fora do contexto australiano, porque as questões que levantam são universais.

O ponto de partida: saber onde se está

Antes de qualquer política ou programa, importa fazer um diagnóstico honesto. A ferramenta de autoavaliação proposta no Toolkit é simples na forma, mas exigente no conteúdo: questiona se a liderança da escola está efetivamente comprometida com a segurança digital, se existem adultos com responsabilidades claramente definidas nesta área, e se as políticas existentes contemplam não apenas a prevenção de incidentes, mas também a resposta a situações concretas — ciberbullying, contacto inapropriado, exposição a conteúdos prejudiciais, abuso de imagem.

O que ressalta desta autoavaliação é algo que os profissionais de educação já intuem: a segurança digital não pode ser da responsabilidade exclusiva do professor de TIC ou do coordenador de bem-estar. Exige uma cultura de escola, com mensagens consistentes, canais de apoio acessíveis e um clima em que os alunos se sintam seguros para pedir ajuda sem receio de julgamento ou represália.

Criar essa cultura começa por coisas concretas: falar de segurança digital nas assembleias de escola, incluí-la nos informativos para as famílias, garantir que os alunos sabem — verdadeiramente sabem — o que fazer quando algo corre mal online.

Políticas que existem para ser lidas (e aplicadas)

Um dos erros mais comuns é confundir a existência de um regulamento com a sua eficácia. A checklist proposta no Toolkit para o desenvolvimento de políticas de segurança online é esclarecedora: uma boa política não é apenas um documento que cumpre um requisito legal. É um texto vivo, construído com a participação de professores, alunos e famílias, que define expectativas claras para cada membro da comunidade escolar, antecipa situações de risco e estabelece procedimentos de resposta que todos conhecem.

Isto implica, por exemplo, que as políticas de uso aceitável de dispositivos digitais incluam tecnologias novas à medida que surgem — e não apenas as que existiam quando o documento foi redigido. Implica também que os procedimentos de resposta a incidentes estejam acessíveis não apenas à direção, mas a professores substitutos, a assistentes operacionais, a qualquer adulto que possa ser o primeiro a saber que algo aconteceu.

Um detalhe que o Toolkit assinala e que merece atenção especial: as políticas devem ser publicamente acessíveis. Publicadas no site da escola, afixadas na biblioteca, na receção, nos espaços de maior circulação. A visibilidade é em si uma mensagem — de que o tema é sério e de que a escola não o esconde.

Antes de adotar uma plataforma, avalie os riscos

Cada vez que uma escola adopta uma nova plataforma digital — uma aplicação de colaboração, um serviço de videoconferência, uma ferramenta de gestão de aprendizagem —, está a tomar uma decisão com implicações para a privacidade e segurança dos seus alunos. A questão não é se a plataforma é popular ou gratuita. A questão é se é segura, se respeita os dados dos utilizadores, se tem mecanismos de reporte eficazes e se a sua utilização é adequada à faixa etária dos alunos.

A ferramenta de avaliação de risco proposta no Toolkit orienta as escolas a colocar perguntas que raramente fazemos antes de clicar em “aceitar os termos e condições”: quem tem acesso aos dados? Os perfis dos alunos podem revelar a sua localização? Utilizadores externos conseguem contactar os alunos diretamente? Existem requisitos de idade mínima que não estão a ser cumpridos?

Estas perguntas são incómodas precisamente porque, muitas vezes, a resposta não é tranquilizadora. E é por isso que a avaliação de risco deve preceder a adoção — não seguir-se a ela quando já há problemas. O Toolkit recomenda que esta avaliação envolva o responsável de TIC da escola e que os resultados sejam partilhados com a liderança antes de qualquer decisão. É um processo simples, mas que exige disciplina institucional.

Redes sociais da escola: uma presença que precisa de regras

A maioria das escolas portuguesas mantém pelo menos uma presença nas redes sociais — um perfil no Facebook, uma página no Instagram, eventualmente um canal no YouTube. São espaços úteis para comunicar com as famílias, partilhar conquistas dos alunos, dar visibilidade à vida da escola. Mas são também espaços que exigem gestão cuidadosa.

O Toolkit identifica algumas boas práticas que vale a pena adaptar ao contexto nacional. A conta da escola deve ser gerida por pelo menos dois membros da equipa, incluindo um elemento da direção, e deve ser monitorizada regularmente — incluindo fora do horário de expediente, se necessário. Os comentários devem ser moderados. A partilha de imagens de alunos exige consentimento expresso das famílias, e este consentimento deve ser renovado e específico — não pode ser um documento assinado na matrícula que cobre tudo para sempre.

Há ainda uma questão que muitas escolas ignoram: o que fazem com as imagens que publicam? Onde ficam armazenadas? Quem lhes tem acesso? Durante quanto tempo? Estas são perguntas de proteção de dados, mas também de proteção de crianças — e as respostas devem constar de procedimentos escritos, claros e conhecidos por todos.

Um ponto especialmente relevante: as redes sociais escolares não são um canal de reclamações. Definir isso com clareza — e garantir que existem canais alternativos para as famílias expressarem as suas preocupações — evita situações que podem tornar-se públicas e difíceis de gerir.

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O que acontece depois das aulas também é responsabilidade da escola

Esta é, porventura, a questão mais delicada que o Toolkit coloca: o que deve a escola fazer quando um incidente de ciberbullying ou outra forma de abuso digital ocorre fora do horário letivo?

A resposta instintiva de muitos professores e diretores é que, se aconteceu no fim de semana, não é problema da escola. Mas a investigação contradiz essa intuição: os alunos que são vítimas de bullying online são, com frequência, também vítimas de bullying presencial. O mundo digital e o mundo físico não são compartimentos estanques. O que acontece na troca de mensagens às 22h de sábado chega à sala de aula na segunda-feira de manhã — nas caras, nas relações, no rendimento escolar.

O Toolkit não diz que a escola deve substituir as famílias ou as autoridades. Diz que a escola deve agir no interesse do aluno, independentemente de quando ou onde o incidente ocorreu, e que deve conhecer bem os seus deveres legais e éticos neste domínio. Significa ter procedimentos de resposta que contemplem estas situações, saber quando e como envolver as famílias, e conhecer os serviços de apoio para os quais se pode encaminhar um aluno em dificuldade.

Em Portugal, o enquadramento legal e as responsabilidades específicas das escolas neste domínio estão definidos no Estatuto do Aluno e em legislação complementar. O princípio orientador, porém, é o mesmo que o Toolkit propõe: o bem-estar do aluno vem primeiro, sempre.

Clubes de gaming: oportunidade pedagógica com riscos a gerir

Talvez o capítulo mais inesperado — e mais interessante — do Toolkit seja o dedicado aos clubes de gaming. A ideia de que jogar videojogos pode ser uma atividade escolar organizada ainda provoca reações ambivalentes em muitos professores. Mas a realidade é que o gaming faz parte do quotidiano da maioria dos jovens, e ignorá-lo não o torna mais seguro.

Um clube de gaming bem estruturado pode ser um espaço de desenvolvimento de competências cognitivas e socioemocionais relevantes: resolução de problemas, trabalho em equipa, autorregulação, coordenação motora fina. Pode também ser uma oportunidade de criar um sentimento de pertença entre alunos que, fora desse contexto, teriam dificuldade em encontrar o seu lugar na escola.

O Toolkit é, no entanto, explícito quanto aos riscos que precisam de ser geridos: exposição a conteúdos inapropriados, contacto com desconhecidos em plataformas de comunicação, comportamentos agressivos associados à natureza competitiva de alguns jogos, e o risco de uso problemático por parte de alunos mais vulneráveis. Para cada um destes riscos, propõe medidas concretas — desde a escolha das plataformas e a supervisão ativa durante as sessões até ao envolvimento das famílias e a articulação com as equipas de bem-estar.

Dois princípios organizam tudo o resto: os jogos escolhidos devem ser adequados à idade dos alunos e aprovados pela direção, e as contas utilizadas devem ser geridas pela escola, nunca contas pessoais dos alunos ou dos professores. A supervisão adulta não é opcional — é condição de funcionamento.

Para as escolas que queiram avançar neste sentido, o Toolkit recomenda uma fase inicial de consulta aos alunos (para perceber que jogos preferem e com que dispositivos), uma avaliação de riscos criteriosa e uma comunicação clara com as famílias sobre os objetivos, os jogos utilizados e os mecanismos de segurança implementados.

O que fica para pensar

Lendo estes documentos na íntegra, fica a sensação de que a segurança digital nas escolas não é, afinal, um problema técnico. É um problema de cultura organizacional, de liderança, de formação e de prioridades. As ferramentas existem — aqui como na Austrália. O que faz a diferença é se a escola decide que este assunto merece tempo, atenção e recursos, ou se o continua a tratar como um apêndice do regulamento interno.

Num momento em que os alunos portugueses chegam à escola com smartphones desde o 1.º ciclo, em que as redes sociais moldam identidades e relações muito antes da adolescência, e em que os incidentes de ciberbullying chegam regularmente às notícias, a resposta não pode continuar a ser reativa. Tem de ser estrutural.

A escola que sabe onde está — que fez o seu diagnóstico honesto, que tem políticas claras, que treinou os seus professores e que envolve as famílias — não vai conseguir eliminar todos os riscos. Mas vai conseguir algo igualmente importante: que os alunos saibam que, quando algo corre mal, há adultos em quem podem confiar e um caminho que podem seguir.

Isso, por si só, já é muito.


Referências

eSafety Commissioner. (2025). Toolkit for Schools – Prepare 1: Online safety self-assessment tool. Australian Government. https://www.esafety.gov.au/

eSafety Commissioner. (2025). Toolkit for Schools – Prepare 2: Checklist for developing effective online safety policies and procedures. Australian Government. https://www.esafety.gov.au/

eSafety Commissioner. (2025). Toolkit for Schools – Prepare 3: New technologies risk-assessment tool. Australian Government. https://www.esafety.gov.au/

eSafety Commissioner. (2025). Toolkit for Schools – Prepare 4: Guidelines for social media use, video sharing and online collaboration. Australian Government. https://www.esafety.gov.au/

eSafety Commissioner. (2025). Toolkit for Schools – Prepare 5: Tips for responding to incidents that happen outside school hours. Australian Government. https://www.esafety.gov.au/

eSafety Commissioner. (2025). Toolkit for Schools – Prepare 6: Guidelines for setting up a gaming club. Australian Government. https://www.esafety.gov.au/

A inteligência artificial nas administrações públicas europeias — e o que isso significa para as escolas | Comissão Europeia

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Há momentos em que um relatório técnico — daqueles que circulam silenciosamente entre funcionários e decisores — merece ser trazido à superfície. O documento publicado em 2026 pelo Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia (JRC, na sigla inglesa) é um desses casos. Chama-se Advancing AI Adoption in EU Public Administrations e, embora o seu título soe a linguagem de gabinete, o que está em jogo toca directamente o quotidiano das escolas, dos professores e, por extensão, dos alunos que ali aprendem a viver num mundo cada vez mais mediado por algoritmos.

O que mudou em outubro de 2025

Em outubro de 2025, a Comissão Europeia adoptou a chamada Apply AI Strategy (COM(2025) 723), um documento de política pública que define como a inteligência artificial deve ser adoptada nos sectores estratégicos da União Europeia. O sector público — onde a escola pública se inclui — figura explicitamente entre essas prioridades. A ideia central não é nova, mas a formulação é mais clara do que nunca: a IA deixou de ser vista como uma ferramenta isolada para passar a ser entendida como um activo estratégico que deve estar integrado nas instituições e nos serviços.

Esta distinção não é apenas semântica. Uma ferramenta usa-se pontualmente e pode ser abandonada sem grandes consequências. Um activo estratégico exige planeamento, governação, formação e monitorização contínua. É uma mudança de paradigma que as escolas portuguesas fariam bem em acompanhar — não para correr atrás de modas tecnológicas, mas para perceber o quadro regulatório e conceptual que vai, inevitavelmente, chegar às suas portas.

O que o relatório do JRC diz que mais importa às escolas

O relatório do JRC propõe um quadro de adopção da IA estruturado em três eixos: ancorar (nos valores e na regulação europeia), adaptar (as capacidades organizacionais) e aplicar (onde a IA cria valor público). Este trio — ancorar, adaptar, aplicar — não foi pensado especificamente para escolas, mas encaixa surpreendentemente bem na realidade de qualquer estabelecimento de ensino.

O eixo da ancoragem remete para algo que os professores conhecem bem: a questão dos princípios. Antes de adoptar qualquer solução tecnológica, é preciso saber ao serviço de quê ela está. O regulamento europeu sobre inteligência artificial, o AI Act (Regulamento (UE) 2024/1689), já está em vigor e classifica como de alto risco os sistemas de IA que afectem o acesso a serviços públicos essenciais — incluindo a educação. Isto quer dizer que qualquer ferramenta de IA usada para avaliação, selecção ou orientação de alunos está sujeita a obrigações legais reforçadas de transparência e supervisão humana. Os professores não são apenas utilizadores destas ferramentas; são, também, os primeiros responsáveis por garantir que o seu uso respeita os direitos fundamentais dos estudantes.

O eixo da adaptação é talvez o mais urgente para o contexto escolar. O relatório é explícito quanto ao facto de a literacia em IA ser uma condição necessária — e não suficiente — para uma adopção responsável da tecnologia. A Recomendação 2 do documento pede especificamente que os Estados-membros tomem medidas para garantir um nível adequado de literacia em IA nos seus funcionários públicos, invocando o artigo 4.º do AI Act e mencionando, de forma directa, o AI Literacy Framework for Primary and Secondary Schools como um referencial relevante para desenhar essas iniciativas. Ou seja, a Europa já tem um quadro específico para a literacia em IA nos níveis básico e secundário — e as escolas que ainda não o conhecem deveriam começar por aí.

O eixo da aplicação é onde o relatório oferece os exemplos mais concretos. Um deles é particularmente relevante: o que os autores chamam de AI for learning, isto é, o uso da inteligência artificial para apoiar a aprendizagem contínua dos próprios funcionários das administrações públicas. Na escola, este conceito traduz-se na ideia de que a IA pode ajudar os professores a actualizar-se, a aceder a documentação interna de forma mais eficiente e a receber apoio personalizado no exercício das suas funções. Não se trata de substituir a formação, mas de a tornar mais acessível e mais adaptada ao ritmo de cada profissional.

Literacia em IA: quem é responsável por quê

Um dos aspectos mais honestos do relatório é o reconhecimento de que a literacia em IA não existe por decreto. O documento identifica como um dos maiores desafios à adopção responsável da tecnologia precisamente a user readiness — a prontidão dos utilizadores finais para interagir com sistemas de IA. Nas administrações públicas europeias consultadas durante a elaboração do relatório, 31% dos participantes apontou este factor como particularmente difícil de resolver.

Nas escolas, esta dificuldade é conhecida sob outros nomes: resistência à mudança, falta de tempo para formação, desconfiança em relação às novas ferramentas. O que o relatório acrescenta é um argumento que pode ajudar a enquadrar estas conversas de forma diferente. A literacia em IA não é um luxo reservado aos entusiastas da tecnologia. É uma condição de cidadania profissional numa época em que os sistemas algorítmicos já tomam ou influenciam decisões que afectam directamente as pessoas — incluindo os alunos.

Isto não significa que todos os professores precisam de saber programar. O que o AI Literacy Framework for Primary and Secondary Schools — referenciado no relatório do JRC — propõe é um entendimento funcional e crítico da IA: perceber como os sistemas funcionam em traços gerais, identificar os seus limites e vieses, saber quando questionar uma recomendação gerada automaticamente e quando confiar nela. É o mesmo tipo de literacia que durante décadas se pediu em relação à leitura de gráficos, à avaliação de fontes ou à compreensão de contratos.

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O que a escola pode aprender com o quadro proposto pelo JRC

Há uma ideia no relatório que vale a pena reter com atenção. Os autores alertam para o risco de as administrações públicas adotarem IA apressadamente, não porque identificaram uma necessidade real, mas porque existe pressão externa — financiamento disponível, expectativas políticas, tendências do mercado. A mesma pressão existe nas escolas: há sempre a tentação de adoptar a ferramenta do momento para parecer moderno, sem antes perguntar se ela resolve algum problema concreto.

O quadro proposto pelo JRC sugere o caminho contrário: começar pela identificação de uma necessidade real, avaliar se a organização tem as condições para adoptar a tecnologia de forma responsável, e só depois escolher a solução. Este princípio — simples de enunciar, exigente de praticar — deveria orientar qualquer decisão escolar sobre IA, seja na escolha de uma plataforma de apoio ao estudo, seja na discussão sobre o uso de assistentes generativos pelos alunos.

A questão não é se a IA vai entrar na escola. Já entrou. A questão é se as escolas vão ser sujeitos activos nessa entrada ou se vão aguardar que outros — empresas, plataformas, ministérios — decidam por elas. O relatório do JRC é, entre outras coisas, um argumento a favor da agência institucional: as administrações públicas, incluindo as escolas, têm o dever de perceber o que está a ser adoptado em seu nome e de garantir que serve o interesse público.

Uma última nota sobre soberania digital

O relatório insiste num conceito que pode parecer distante da realidade escolar: a soberania digital europeia. A ideia de que a Europa deve reduzir a sua dependência de soluções tecnológicas desenvolvidas fora das suas fronteiras aplica-se também à educação. Quantas das ferramentas digitais usadas diariamente nas escolas portuguesas são europeias? Quantas das plataformas que recolhem dados de alunos e professores estão sujeitas à regulação da União Europeia? Estas não são perguntas retóricas. São perguntas que as direcções de agrupamento, os coordenadores TIC e os próprios professores deveriam colocar — e para as quais o quadro regulatório europeu começa a oferecer respostas concretas.

A Apply AI Strategy e o relatório do JRC que a operacionaliza não resolvem estes problemas, mas tornam mais difícil ignorá-los. E isso, por si só, já é um passo.


Fonte principal: Tangi, L., Rodriguez Müller, P., Schade, S., André, A., Combetto, M., & Daoud, M. (2026). Advancing AI adoption in EU public administrations: Future directions and opportunities under the Apply AI Strategy. Publications Office of the European Union. https://data.europa.eu/doi/10.2760/3112501

Regulamentação referenciada: Regulamento (UE) 2024/1689 do Parlamento Europeu e do Conselho (AI Act); COM(2025) 723 — Apply AI Strategy.

Seis anos, 35 textos e uma pergunta que não para de crescer | TIC, Educação e WEB

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Escrever sobre desinformação, deepfakes e inteligência artificial ao longo de seis anos não foi um projeto — foi uma tentativa de acompanhar uma realidade que se movia mais depressa do que qualquer currículo consegue absorver.*

Há um momento estranho que acontece quando se olha para trás, para um arquivo de escrita construído ao longo do tempo. Não é nostalgia. É reconhecimento — a sensação de perceber que havia um fio, mesmo quando cada texto parecia apenas uma resposta isolada a um estudo novo, a um regulamento publicado, a uma pergunta feita numa formação. Este relatório nasceu precisamente desse reconhecimento.

Com base na análise de mais de 35 posts publicados neste blog entre 2020 e maio de 2026 — sobre educação para os media, literacia digital, inteligência artificial na educação, deepfakes e redes sociais — o relatório TIC, Educação e Web: Análise Temática 2020–2026 sistematiza seis anos de reflexão e identifica aquilo que, afinal, nunca mudou: as perguntas de fundo. O relatório tem 18 páginas, integra mais de 50 estudos referenciados e está disponível para download.


O que seis anos de escrita revelam

Há uma tendência natural para tratar cada novo relatório da OCDE, cada atualização de política pública, cada estudo sobre IA como um acontecimento independente. Lemos, comentamos, partilhamos — e passamos ao seguinte. O que este trabalho de sistematização mostra é que os mesmos problemas estruturais reaparecem, em versões ligeiramente mais complexas, a cada ciclo.

A desinformação, por exemplo, começou por ser discutida neste blog como um problema de verificação de factos — uma competência que os alunos precisavam de adquirir. Em 2026, o enquadramento mudou radicalmente. O relatório IBERIFIER daquele ano indica que 97% dos portugueses detectaram desinformação no último mês. Não estamos perante uma questão de literacia individual. Estamos perante um problema sistémico — e a resposta pedagógica que a evidência científica aponta já não é o fact-checking depois do dano, mas o prebunking: vacinar contra a manipulação antes de ela acontecer. Uma meta-análise de 2026, com 33 estudos e mais de 37 000 participantes, confirma que o prebunking supera consistentemente o debunking. O método SIFT — Stop, Investigate the source, Find better coverage, Trace claims — não é uma novidade; é agora uma prioridade fundamentada.

Os deepfakes percorreram um caminho semelhante. O crescimento foi de 550% desde 2019. Em 2024, este blog publicou um guia prático para a sala de aula; em 2026, há casos documentados em escolas, um Código de Conduta Europeu em vigor e a confirmação de que o PISA 2029 incluirá a detecção de deepfakes como competência avaliada. Aquilo que era uma curiosidade tecnológica tornou-se matéria curricular urgente — e os professores que discutiram o tema com os alunos há dois anos estão, hoje, nitidamente mais bem equipados.


O paradoxo que ninguém quer ouvir

A inteligência artificial melhora o produto imediato e pode prejudicar a aprendizagem duradoura. Esta frase não é uma opinião de alguém desconfiante da tecnologia. É o que a revisão sistemática de Stanford SCALE, publicada em 2026, conclui depois de analisar mais de 800 estudos sobre IA na educação. Vinte estudos com evidência causal sólida. Num campo que muda a cada mês.

O paradoxo tem nome: paradoxo do desempenho. Lodge e Loble, da Universidade de Tecnologia de Sydney, descrevem-no com precisão: quando a IA faz o trabalho cognitivo pelo estudante, o desempenho imediato sobe — e a memória, a consolidação e a capacidade de transferência ficam comprometidas. Acemoglu e colegas do MIT vão mais longe: o risco não é apenas individual, mas colectivo. A dependência sistemática de ferramentas de IA em contextos de aprendizagem pode conduzir ao que designam como colapso do conhecimento colectivo. O International AI Safety Report acrescenta dados empíricos: o uso intenso de IA está associado à deterioração do pensamento crítico.

Isto não é argumento contra o uso da IA na educação. É argumento contra o uso acrítico e não intencional — e é exactamente aqui que a distinção entre ensinar com IA e ensinar sobre IA se torna central. O guia MEC Brasil/UNESCO e o próprio relatório Stanford convergem neste ponto: confundir as duas coisas é o erro mais frequente e o mais caro pedagogicamente.


Sete implicações que a evidência sustenta

O relatório não se fica pela descrição dos problemas. A sua secção mais substancial identifica sete implicações pedagógicas com base em evidência — não como lista de recomendações abstractas, mas como orientações ancoradas em investigação recente.

Algumas têm implicações imediatas para quem está em sala de aula. Proteger o esforço cognitivo como infraestrutura de aprendizagem — e não como obstáculo a superar com tecnologia — é uma das mais contraintuitivas e, ao mesmo tempo, das mais suportadas empiricamente. Colocar os professores como co-criadores, e não como utilizadores passivos de ferramentas desenvolvidas sem eles, é apontada pelo estudo da Comissão Europeia de 2025 como o factor de sucesso mais transversal entre os contextos estudados.

Outra implicação merece destaque particular: a saúde mental como componente da literacia digital. Haidt e Rausch, da NYU Stern, apresentaram em 2026 sete linhas de evidência independentes de dano associado às redes sociais. Passar mais de cinco horas por dia nas redes sociais duplica o risco de depressão em adolescentes. A Austrália elevou a idade mínima para 16 anos. Portugal não tomou ainda decisões equivalentes — mas a discussão chegou às escolas, e os professores precisam de ferramentas para a conduzir. A literacia digital que não inclui esta dimensão está incompleta.

Por fim — e aqui o relatório é claro — não existe literacia digital genuína sem equidade digital. A OCDE estima em 2026 que crianças de países de baixos rendimentos têm 14 vezes menos acesso à internet do que as dos países mais ricos. A IA generativa beneficia os alunos que já têm bases sólidas e agrava as diferenças para quem chega sem elas. É o chamado Efeito Matthew: quem tem, recebe mais. Ignorar isto ao planear qualquer política de integração tecnológica é construir sobre areia.


O arquivo como instrumento

Há uma frase que circula nos estudos sobre literacia mediática — “a memória é a condição do espanto” — e que parece especialmente adequada para este momento. Sem memória do percurso, cada problema parece novo, cada solução parece original, cada crise parece inesperada.

Este relatório é, antes de mais, um instrumento de memória. Não para celebrar o que foi escrito, mas para tornar visível o que a escrita foi acumulando: padrões, tensões, paradoxos que não se resolvem por decreto e que continuam a exigir resposta pedagógica.

Quem trabalha em formação de professores, em política educativa ou directamente em sala de aula encontrará nele uma síntese utilizável — não um documento para arquivar, mas um ponto de partida para pensar o que fazer a seguir.

O relatório tem 18 páginas. Pode ser lido numa hora. As perguntas que levanta duram muito mais.


Referências

Acemoglu, D., et al. (2026). The risks of AI-assisted knowledge work: Cognitive offloading and collective knowledge collapse. MIT.

Haidt, J., & Rausch, Z. (2026). Social media and adolescent mental health: Seven lines of evidence. NYU Stern Center for Business and Human Rights.

IBERIFIER (2026). Relatório anual sobre desinformação em Portugal e Espanha. Consórcio IBERIFIER.

Lodge, J. M., & Loble, L. (2025). The performance paradox: AI assistance and learning outcomes. University of Technology Sydney.

Stanford SCALE (2026). Artificial intelligence in K–12 and higher education: A systematic review of causal evidence. Stanford University.

van der Linden, S., et al. (2026). Prebunking misinformation: A meta-analysis of inoculation interventions (33 studies, N = 37 000+). Nature Human Behaviour.


Relatório disponível para download: TIC, Educação e Web — Análise Temática (PDF)

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O preço de não parar para pensar | Literacia mediática na era da desinformação algorítmica

Há uma pergunta que quase ninguém se faz quando abre o telemóvel de manhã: quem decidiu que esta informação merece a minha atenção? Não fomos nós. Foi um algoritmo. E esse algoritmo não foi desenhado para nos informar — foi desenhado para nos prender.

No último episódio da segunda temporada do podcast Disrupting Peace, da World Peace Foundation (The Fletcher School, Tufts University), Bridget Conley conversou com especialistas do News Literacy Project sobre o que acontece quando uma geração inteira cresce num ecossistema informativo onde o envolvimento emocional vale mais do que a verdade. A conversa é desconfortável. E é exatamente por isso que importa.

Uma geração que desconfia de tudo — e de todos

Os dados são claros: um estudo recente do News Literacy Project revelou que 84% dos adolescentes norte-americanos têm uma perceção negativa da imprensa, descrevendo frequentemente o jornalismo como enganador ou impreciso. Charles Salter, presidente e CEO da organização, resumiu o problema de forma direta na National News Literacy Week de 2026: as gerações Z e Alpha precisam de aprender a navegar num mar de conteúdo-lixo gerado por IA e rumores virais.

Mas atenção: o problema não é só a desinformação. É algo mais subtil e mais perigoso — o cinismo. Os jovens não caem tanto em notícias falsas por ingenuidade; caem porque desistiram de tentar distinguir o verdadeiro do falso. Quando tudo parece duvidoso, a resposta mais fácil é não acreditar em nada. E uma sociedade onde ninguém acredita em nada é tão vulnerável como uma sociedade onde toda a gente acredita em tudo.

É precisamente este ponto que os convidados do Disrupting Peace sublinham: a diferença entre ceticismo saudável e cinismo destrutivo. O primeiro é uma ferramenta; o segundo é uma armadilha.

Algoritmos, IA e a erosão silenciosa da confiança

Os números ajudam a perceber a escala do problema. Estimativas do Serviço de Estudos do Parlamento Europeu indicam que os vídeos deepfake partilhados online poderão ter passado de cerca de 500 mil em 2023 para 8 milhões em 2025 — um crescimento de 16 vezes em dois anos. E as ferramentas para os criar estão cada vez mais acessíveis: qualquer pessoa com acesso à internet pode gerar imagens, vídeos e textos convincentes em segundos, sem qualquer competência técnica especial.

Mas os deepfakes são apenas a parte mais visível. O problema de fundo são os algoritmos que organizam o que vemos, lemos e ouvimos. Não filtram por verdade ou relevância — filtram por reação emocional. Quanto mais forte a emoção (indignação, medo, revolta), mais provável é que o conteúdo circule. É uma máquina de amplificação que trata a manipulação emocional e o jornalismo sério como se fossem a mesma coisa.

No podcast, esta dinâmica é descrita sem rodeios: vivemos num ambiente em que a informação enganadora tem uma vantagem estrutural sobre a informação fiável. Não porque seja melhor, mas porque é mais rentável em termos de atenção.

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Abrandar para ver melhor

Uma das ideias mais práticas discutidas no episódio — e que a investigação confirma — é surpreendentemente simples: abrandar. Parar antes de reagir. Resistir ao impulso de partilhar, comentar ou indignar-se imediatamente.

A lógica é quase fisiológica. Quando uma notícia nos provoca uma reação emocional intensa, é o momento em que devemos ter mais cuidado, não menos. O conteúdo que nos faz sentir alguma coisa com muita força — raiva, indignação, medo — é frequentemente desenhado para isso mesmo. É engenharia emocional, e a melhor defesa contra ela é reconhecê-la quando acontece.

Isto liga-se a uma segunda estratégia igualmente concreta: verificar a fonte original. Não o post que partilhou. Não o comentário que interpretou. A fonte. Quem publicou? Com que propósito? Com que evidência? É um hábito que se treina, como qualquer outro.

Pre-bunking: vacinar antes de infetar

O pre-bunking — a ideia de preparar as pessoas para reconhecerem técnicas de manipulação antes de serem expostas a elas — é uma das abordagens mais discutidas no episódio, e a investigação recente dá-lhe razão.

Uma meta-análise publicada em 2026 na revista Current Opinion in Psychology, que reuniu 33 experiências com mais de 37 mil participantes, concluiu que tanto intervenções gamificadas como vídeos curtos de inoculação melhoram consistentemente a capacidade de distinguir informação fiável de informação manipulada — sem provocar desconfiança generalizada. Ou seja, as pessoas ficam mais atentas sem ficarem mais cínicas.

Um estudo de campo publicado no Harvard Kennedy School Misinformation Review, também em 2026, mostrou que um vídeo de pre-bunking de apenas 19 segundos, distribuído como anúncio no Instagram a quase 376 mil utilizadores no Reino Unido, aumentou em 21 pontos percentuais a capacidade de identificar manipulação emocional num título noticioso — e o efeito manteve-se durante cinco meses.

A investigação é convergente: não se trata de ensinar as pessoas o que pensar, mas de as equipar com ferramentas para pensarem como a informação é construída.

Educação: a peça que continua a faltar

Apesar de tudo o que se sabe, a integração da literacia mediática nos sistemas educativos continua aquém do necessário. A UNESCO reporta que, embora 88% dos Estados-membros reconheçam a importância da literacia mediática e informacional, apenas 17% adotaram uma política específica e autónoma nesta área. E um terço dos países que a integram nos currículos escolares limitam-na a competências digitais básicas, sem abordar o pensamento crítico em sentido lato.

Nos Estados Unidos, o News Literacy Project trabalha para garantir que todos os alunos recebam formação em literacia mediática antes de terminarem o ensino secundário. A organização, fundada em 2008 pelo jornalista Alan C. Miller e atualmente liderada por Charles Salter, disponibiliza gratuitamente recursos como a plataforma Checkology e a newsletter The Sift, e apoia distritos escolares na implementação de programas estruturados.

Mas a escala do desafio excede em muito o que uma organização pode fazer sozinha. Como os convidados do podcast argumentam, a literacia mediática não é uma disciplina opcional — é uma competência de sobrevivência democrática. Tão fundamental como saber ler e escrever.

E nós, em Portugal?

A pergunta impõe-se a quem trabalha em educação no contexto português e europeu. O Regulamento Europeu da IA (EU AI Act) e o Regulamento dos Serviços Digitais (Digital Services Act) criaram enquadramento legal, mas a tradução dessas políticas em práticas pedagógicas concretas continua a ser um caminho em construção.

Nas bibliotecas escolares, o desafio é duplo. Por um lado, são frequentemente os espaços onde alunos e professores se cruzam com informação de múltiplas fontes e formatos. Por outro, os profissionais que nelas trabalham precisam, eles próprios, de atualização contínua para acompanharem a velocidade com que o ecossistema informativo muda.

Integrar a literacia mediática e informacional no trabalho quotidiano das bibliotecas escolares — nos clubes de leitura, nas atividades de pesquisa, nos projetos interdisciplinares — não exige uma revolução. Exige intenção, sistematicidade e formação.

Consumir menos, pensar mais

O episódio do Disrupting Peace termina com uma ideia que merece ficar: não precisamos de consumir mais informação. Precisamos de consumir melhor. E “melhor” não significa encontrar as fontes perfeitas — significa desenvolver o hábito de nos perguntarmos, sempre que algo nos chega ao ecrã: isto é verdade? quem beneficia se eu acreditar nisto? que evidência sustenta esta afirmação?

Não é uma solução mágica. Mas é um ponto de partida. E num mundo em que a desinformação tem uma vantagem estrutural sobre a verdade, talvez o gesto mais radical que possamos ter seja, simplesmente, parar para pensar.


Para ouvir: How to Get Smarter About the Information We Consume — episódio final da temporada 2 do podcast Disrupting Peace, World Peace Foundation / The Fletcher School, Tufts University. Disponível em Spotify, Apple Podcasts e YouTube.

Para explorar: News Literacy Project — newslit.org


Referências

Conley, B. (Apresentadora). (2026, 21 de abril). How to get smarter about the information we consume [Episódio de podcast]. In Disrupting Peace. World Peace Foundation / The Fletcher School, Tufts University. https://youtu.be/4PbX72hZPc8

News Literacy Project & E.W. Scripps Company. (2026, 29 de janeiro). National News Literacy Week 2026 focuses on rebuilding trust in the age of AI [Comunicado de imprensa]. https://scripps.com/press-releases/national-news-literacy-week-2026-focuses-on-rebuilding-trust-in-the-age-of-ai/

Simchon, A., Zipori, T., Teitelbaum, L., Lewandowsky, S., & van der Linden, S. (2026). A signal detection theory meta-analysis of psychological inoculation against misinformation. Current Opinion in Psychology, 67, 102194. https://doi.org/10.1016/j.copsyc.2025.102194

Noble, N. S. et al. (2026). Prebunking misinformation techniques in social media feeds: Results from an Instagram field study. Harvard Kennedy School Misinformation Review. https://misinforeview.hks.harvard.edu/article/prebunking-misinformation-techniques-in-social-media-feeds-results-from-an-instagram-field-study/

UNESCO. (2025). Media and information literacy for all: Closing the gaps. Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.

Stimson Center. (2026, 27 de fevereiro). AI in the age of fake (imagined) content. https://www.stimson.org/2026/ai-in-the-age-of-fake-imagined-content/