Um Natal prometido, quase dois anos de caminho e uma floresta que acende as luzes. Um percurso de leitura para o 7.º ano.

Há livros que ensinam a ler porque nos levam a algum lado. O Cavaleiro da Dinamarca, de Sophia de Mello Breyner Andresen, leva-nos de uma floresta coberta de neve, no Norte da Europa, à gruta de Belém, a Veneza, a Florença e à Flandres — e traz-nos de volta na noite de Natal. Para quem está a começar o 3.º ciclo, é uma oportunidade rara: uma narrativa com ação clara, espaços muito diferentes, histórias dentro da história e uma pergunta de fundo que qualquer turma percebe — o que somos capazes de fazer para cumprir aquilo que prometemos?
Este post propõe um percurso de estudo, pensado para facilitar o trabalho do professor e a vida do aluno: o que se passa, por onde anda o Cavaleiro, que histórias se escondem dentro da viagem, que recursos expressivos procurar e o que fazer com tudo isto em aula. Depois de Mário Dionísio e o seu elétrico, é a vez de Sophia e da sua floresta nevada.
Sophia e o livro
Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto, a 6 de novembro de 1919, e morreu em Lisboa, a 2 de julho de 2004. É sobretudo conhecida como poeta, mas escreveu também contos, teatro, ensaios e traduções. Foi a primeira portuguesa a receber o Prémio Camões (1999) e os seus restos mortais repousam no Panteão Nacional desde 2014. Os contos para crianças nasceram da vida em família: Sophia teve cinco filhos e foi para eles que começou a escrevê-los.
O Cavaleiro da Dinamarca foi publicado em 1964 — passaram mais de sessenta anos — e continua a ser uma das obras mais trabalhadas no 7.º ano de Português. Uma curiosidade para lançar a conversa, sem a tomar como explicação do livro: o bisavô de Sophia, Jan Andresen, era originário da ilha de Föhr, no mar do Norte, e daí vem o apelido Andresen.
O que se passa, afinal, nesta viagem?
O livro abre com um retrato de inverno e de festa. Numa floresta do extremo Norte da Dinamarca, numa casa rodeada de bétulas, vive um Cavaleiro com a mulher, os filhos e os criados. A maior alegria do ano é a noite de Natal: a ceia, as coroas de azevinho nas portas, as histórias contadas à volta da lareira.
Até que, numa dessas noites, o Cavaleiro anuncia que vai partir. Quer passar o Natal seguinte na gruta de Belém, onde nasceu Jesus, e promete estar de volta, em casa, no Natal depois desse. A mulher fica inquieta — naquele tempo, quem partia raramente mandava notícias — mas não o tenta impedir: ninguém deve impedir um peregrino de partir.
Cumprida a primeira parte da promessa, o Cavaleiro reza em Belém na noite de Natal, ouve na sua imaginação a oração dos Anjos e sente uma grande paz. Mas o difícil começa no regresso: uma tempestade no mar, Ravena, Veneza, Florença, uma febre que o prende num convento, a falta de navios em Génova, o frio da Flandres e, por fim, a travessia a cavalo de uma floresta cheia de neve, na própria noite de 24 de dezembro.
No fim, perdido na escuridão, o Cavaleiro reza. Aparece uma claridade que ele julga ser uma fogueira. Afinal, é o grande abeto da sua clareira, enfeitado de pequenas estrelas pelos anjos para o guiar até casa. O narrador remata: foi assim que nasceu o costume de iluminar os pinheiros no Natal.
Mapa da viagem: oito etapas para ler (e para desenhar)
Uma boa forma de a turma se orientar é construir, ao longo da leitura, o mapa do percurso. Esta tabela pode servir de guia ou de correção.
| Etapa | Lugar | O que acontece | Ideia a retirar |
|---|---|---|---|
| 1 | Floresta da Dinamarca | Festa de Natal; o Cavaleiro anuncia a peregrinação e faz a promessa de regressar. | A promessa é o motor da história. |
| 2 | Belém | Reza na gruta na noite de Natal; pede a Deus que o faça um homem de boa vontade. | Paz e boa vontade como valores centrais. |
| 3 | Mar e Ravena | Tempestade de cinco dias; o navio fica desmantelado e a viagem muda de rumo. | Primeiro obstáculo; o espanto perante a beleza (os mosaicos). |
| 4 | Veneza | Acolhido por um Mercador, conhece a cidade sobre as águas e ouve a história de Vanina. Recusa fixar-se ali. | Primeira “tentação”: a riqueza e a festa. |
| 5 | Florença | Em casa do banqueiro Averardo, ouve falar de Giotto e de Dante. Recusa fixar-se ali. | Segunda “tentação”: o saber. |
| 6 | Convento perto de Génova | A febre quase o vence; os frades tratam-no e a paz do claustro devolve-lhe as forças. | Obstáculo e descanso; harmonia entre homens, animais e natureza. |
| 7 | Antuérpia (Flandres) | Um negociante flamengo e um capitão contam viagens às costas de África, incluindo a história de Pêro Dias. Recusa fixar-se ali. | Terceira “tentação”: a aventura e o lucro. |
| 8 | Floresta da Dinamarca | Noite de 24 de dezembro, neve, lobos e um urso; a oração, a luz e o abeto iluminado. | A promessa cumprida; o desfecho que explica um costume. |
Repare-se num padrão: por três vezes alguém oferece ao Cavaleiro uma vida nova, próspera e interessante, e por três vezes ele diz que não. Porquê? Esta pergunta, sozinha, sustenta uma boa aula.
Histórias dentro da história
Ao longo do caminho, o Cavaleiro ouve contar quatro histórias que não fazem avançar a viagem, mas enriquecem-na. Em linguagem de aula: são narrativas encaixadas na ação principal.
| História | Quem conta e onde | Em poucas palavras | Para pensar |
|---|---|---|---|
| Vanina e Guidobaldo | O Mercador, em Veneza | Uma jovem prisioneira do tutor foge com um capitão de navio e nunca mais é encontrada. | Liberdade, amor e autoridade. |
| Cimabué e Giotto | Filippo, em Florença | Um pintor descobre um pastor que desenha sozinho e leva-o para ser seu discípulo. | O talento e quem o reconhece. |
| Dante e Beatriz | Filippo, em Florença | O poeta atravessa o Inferno, o Purgatório e o Paraíso e escreve a Divina Comédia; é depois exilado da sua cidade. | A justiça dos homens e a arte como resposta. |
| Pêro Dias | O capitão, em Antuérpia | Na costa de África, um marinheiro português e um guerreiro tentam entender-se, não conseguem e morrem os dois. | O que acontece quando não há língua comum? |
A pergunta que liga as quatro histórias ao livro: o que é que cada uma acrescenta à viagem do Cavaleiro? Veneza dá-lhe beleza e liberdade, Florença dá-lhe saber, a Flandres dá-lhe o mundo por descobrir. E o Cavaleiro continua a preferir a palavra dada.
O Cavaleiro: quem é, a partir do que faz
O Cavaleiro não tem nome. É sempre “o Cavaleiro”, “o peregrino”, “o dinamarquês”. Vale a pena perguntar à turma porque é que a autora o terá deixado assim: talvez para que ele possa ser qualquer pessoa que cumpre aquilo que promete.
Em vez de lhe atribuir adjetivos de memória, peça-se aos alunos que sustentem cada traço com uma ação do livro. Por exemplo:
- Fiel à palavra: recusa três convites para ficar e insiste em regressar para o Natal.
- Persistente: não desiste depois da tempestade, da febre ou da falta de navios; muda de caminho e segue por terra.
- Curioso e aberto ao mundo: espanta-se com Ravena, Veneza e Florença e quer aprender, mesmo sem ficar.
- Crente e solidário: reza pela paz e pelo fim das guerras, e pede para ser um homem de boa vontade.
- Corajoso, mas não imprudente? Esta é para debate: ignorar o aviso dos lenhadores foi coragem ou teimosia?
Tempo, espaço e narrador num relance
- Narrador: conta tudo de fora, sem participar nos acontecimentos (narrador heterodiegético), mas conhece os pensamentos e as emoções do Cavaleiro.
- Tempo: a história vai de um Natal a outro, com a Primavera da partida e o inverno do regresso a marcarem o percurso. A estrutura é circular: começa e acaba na floresta, numa noite de Natal.
- Espaço: muda constantemente (mar, cidades, convento, estradas), e esse contraste dá ritmo à leitura. Há ainda o espaço social: a casa acolhedora do início, os palácios, as casas de comerciantes, a cela do convento.
Recursos expressivos: o que procurar e onde
Sophia descreve com os sentidos todos. Em vez de dar à turma uma lista pronta, proponha-se uma caça ao recurso: os alunos localizam o exemplo no episódio indicado, copiam o excerto para o caderno e explicam o efeito.
| Recurso | Onde procurar | Efeito a discutir |
|---|---|---|
| Comparação | A chegada a Veneza | A cidade parece irreal e encantada. |
| Personificação | A Primavera na floresta, no início do livro | A natureza ganha vida. |
| Antítese | O contraste entre o exterior e a casa do Cavaleiro, na festa de Natal | O frio de fora destaca o calor humano de dentro. |
| Enumeração | As lojas da ponte de Florença; os mercados de Veneza | Dá a ver a abundância e a variedade. |
| Repetição | A frase que o Cavaleiro diz ao lobo e ao urso, na floresta | Funciona como uma fórmula de proteção. |
| Metáfora / imagem | O delírio da febre no convento | Mostra o medo de não chegar a casa. |
Um bom desafio de descrição: comparar a forma como é apresentada Florença (vista das colinas, depois pormenorizada na ponte e nas ruas) com a descrição inicial da floresta de inverno. Que planos usa a autora? Que sensações predominam — a vista, o ouvido, o tato?
Valores e temas para conversar
Cumprir a palavra dada. A promessa não é apenas um enfeite do enredo: é ela que organiza a viagem e justifica cada decisão.
Paz e boa vontade. A oração dos Anjos, em Belém, volta mais tarde, quando o Cavaleiro, perdido, a repete na floresta. É aqui que se fecha o círculo do livro.
Saber, beleza e abertura ao outro. As cidades italianas mostram que viajar alarga o olhar, mas o livro defende que alargar o olhar não obriga a esquecer de onde se vem.
Diálogo. O episódio de Pêro Dias é curto e duro. Quando a língua falha, os gestos não bastam e a desconfiança vence. A frase com que um marinheiro repara que o sangue dos dois homens é da mesma cor merece uma conversa séria na aula.
Nota para o professor: o livro foi escrito nos anos 60 e usa expressões da época para se referir a pessoas africanas. Vale a pena fazer uma pausa com os alunos e distinguir a linguagem de um tempo da mensagem do episódio, que sublinha o que une os dois homens e lamenta que não se tenham podido entender.
O que fazer com isto em aula
Não há receita única. A proposta abaixo, flexível, ocupa entre quatro e seis blocos de 90 minutos, conforme o ritmo da turma, e cobre Leitura, Educação Literária, Oralidade, Escrita e Gramática.
1. Antes da leitura — “O que é uma promessa?” Os alunos escrevem, em dois minutos, uma promessa que já fizeram e que lhes custou cumprir. Depois olham para a capa e o título e preveem: quem é este Cavaleiro? Para onde vai? Num mapa da Europa, localizam a Dinamarca, a Terra Santa, Veneza, Florença, Génova e Antuérpia (a Flandres corresponde hoje, em grande parte, à Bélgica).
2. Durante a leitura — o diário de bordo. Em cada etapa, os alunos preenchem três linhas: onde estou, que obstáculo ou convite encontrei, que decidi e porquê. No fim, o diário vira o mapa da viagem acima.
3. As três “tentações”. Em pares, comparam os convites do Mercador, de Averardo e do negociante flamengo: o que cada um oferece, o que o Cavaleiro responde e que razão repete. Escrita: um parágrafo de dez linhas a defender se ele fez bem em recusar.
4. Histórias encaixadas — oralidade em grupo. Quatro grupos, quatro histórias (Vanina, Giotto, Dante, Pêro Dias). Cada grupo prepara um reconto de dois minutos e responde a duas perguntas: porque é que esta história é contada aqui? O que diz sobre o tema do livro?
5. Descrição — ler e escrever. Escolher uma descrição (Veneza, Florença ou a floresta de inverno), identificar planos, sensações e recursos expressivos. Depois, escrever a descrição de um lugar que os espante, com pelo menos três recursos assinalados.
6. Debate — o que podia ter feito Pêro Dias de outra maneira? Que estratégias existem hoje para nos entendermos com quem não fala a nossa língua? Tradutores, imagens, gestos, a atenção ao outro. A discussão liga o livro à vida real.
7. Conhecimento explícito da língua. Os excertos do livro são excelentes frases-modelo para trabalhar funções sintáticas, como mostram os materiais da DGE referidos nas fontes. Cada aluno escolhe cinco frases do livro e identifica sujeito, predicado e complementos.
8. Projeto final — “Se o Cavaleiro tivesse telemóvel”. Os alunos criam as mensagens que ele enviaria à família em cada etapa e a resposta que receberia. Pode ser um guião para um podcast, um mapa digital com marcadores (por exemplo, no uMap ou no My Maps) ou uma banda desenhada. O critério é simples: cada mensagem tem de ser coerente com o que se passa na etapa.
9. Um final para investigar — lenda ou facto? O livro termina com uma explicação para o costume de iluminar os pinheiros no Natal. Os alunos pesquisam, em fontes fiáveis, a origem das árvores de Natal e comparam: o que é tradição documentada e o que é história inventada? É um exercício de literacia da informação a partir de um texto literário.
Autoavaliação rápida
Seis perguntas para a turma testar a leitura. Clicar na pergunta para ver a resposta.1. Porque parte o Cavaleiro?2. Que promessa faz à família?3. Quem lhe oferece um cavalo e cartas de apresentação para o caminho?4. Quantas vezes lhe pedem que fique a viver numa cidade? Quais?5. O que acontece a Pêro Dias?6. Como explica o livro o costume de iluminar os pinheiros no Natal?
Para terminar — e para começar
O Cavaleiro chega a casa a tempo. Mas o que fica depois da última página não é o suspense: é a ideia de que cumprir uma promessa pode custar quase dois anos de caminho, e de que há ajuda inesperada para quem não desiste.
É por isso que este livro serve tão bem a escola. Não porque dê todas as respostas, mas porque pede aos alunos que digam, com as suas palavras, o que valem as palavras dadas.

Mais neste blogue
- Quando um assobio muda tudo — Assobiando à Vontade, de Mário Dionísio, em sala de aula: outro texto literário levado para a aula, com sugestões de leitura, oralidade e debate.
- Ler o mundo em múltiplos formatos: multiliteracias na era da inteligência artificial (IX Encontro Leitur@s, Seia): sobre como ensinar a ler consoante a finalidade da leitura.
- PISA 2025: Portugal está na média da OCDE, mas isso não nos deixa ficar descansados: os dados nacionais, incluindo a leitura.
- Uma linha num plano, um manifesto em Bruxelas: a Europa assume o seu problema com a leitura: a Coligação Europeia para a Literacia e o Memorando de Varsóvia.
- Conversa com Gonçalo M. Tavares | FALA – Alcanena: uma conversa com outro escritor português.
Fontes (acedidas em 7 de outubro de 2026):
- Andresen, S. de M. B. (2004). O cavaleiro da Dinamarca (A. Alves, Il.). Figueirinhas.
- Direção-Geral da Educação. (s.d.). Português, 7.º e 8.º anos — Bloco n.º 16: O Cavaleiro da Dinamarca. As funções sintáticas (6) [#EstudoEmCasa]. estudoautonomo.dge.mec.pt
- Direção-Geral da Educação. (s.d.). Português, 7.º e 8.º anos — Bloco n.º 17: O Cavaleiro da Dinamarca. A descrição. Recursos expressivos [#EstudoEmCasa]. estudoemcasaapoia.dge.mec.pt
- Direção-Geral da Educação. (s.d.). Estudo Autónomo — 7.º ano: videoaulas de Português. estudoautonomo.dge.mec.pt
- Lusa. (2019, 6 de maio). Primeira biografia de Sophia de Mello Breyner nas livrarias na terça-feira. Diário de Notícias. dn.pt
- Observador. (2019, 3 de maio). Eurico Carrapatoso compõe música para leitura encenada de “A Noite de Natal” nas comemorações do centenário de Sophia de Mello Breyner. observador.pt
- Porto Editora. (s.d.). Histórias da Terra e do Mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen [nota biográfica da autora]. continente.pt
- Autoria não identificada. (s.d.). Sophia: notas para uma reconstrução. Revistas USC. revistas.usc.gal
Boa viagem — dentro e fora da floresta.
















