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As Palavras Que Usamos Importam: Como Falar (e Quando) da Deficiência
Quantas vezes lemos títulos como “Uma bailarina com uma perna só” ou “Uma prova de superação em concerto” sem questionar o que está errado nessas formulações? A linguagem que usamos sobre a deficiência não é neutra — ela reflecte, e ao mesmo tempo reforça, as mentalidades que temos.
Dois Modelos, Duas Visões do Mundo
Durante décadas, a sociedade foi moldada pelo modelo médico da deficiência: a pessoa com deficiência é vista como um “caso”, alguém a curar ou a reabilitar, que precisa de serviços “especiais” porque o problema está nela. Este paradigma alimentou gerações de narrativas paternalistas, cheias de pena ou de admiração exagerada.
Na década de 1960, pessoas com deficiência no Reino Unido propuseram uma alternativa: o modelo social da deficiência. A ideia central é simples e poderosa — o problema não é a pessoa, é uma sociedade construída sem ter em conta a diversidade humana. São as barreiras arquitectónicas, os serviços inadequados e a linguagem exclusivista que incapacitam, não a condição em si.
O Capacitismo: Um Nome para um Problema Antigo
O capacitismo é a discriminação, opressão e abuso contra pessoas com deficiência, assente na crença de que existe um padrão corporal e intelectual “ideal” e de que quem não se enquadra nesse padrão é, de alguma forma, inferior. Está presente em práticas sociais, em instituições — e, de forma muito concreta, na linguagem.
Como escreveu a activista australiana Stella Young: “Não sou a vossa inspiração, muito obrigada.” A admiração excessiva por alguém que simplesmente vive a sua vida é, ela própria, uma forma de capacitismo — porque parte do pressuposto de que essa vida seria impossível.
Quando Falar da Deficiência (e Quando Não)
Nem sempre é relevante mencionar a deficiência de uma pessoa. A guia produzida pela Acesso Cultura propõe um critério claro:
- Se o tema é o trabalho de um artista, o foco deve estar na obra — referir a deficiência pode resultar em puro sensacionalismo
- Se o trabalho é autobiográfico ou a pessoa assume um papel de activismo, a menção pode fazer sentido, sempre com o acordo e orientação da própria pessoa
- Se a peça dá a conhecer a história de alguém com deficiência, deve fazê-lo com respeito e sem recorrer a narrativas de “heroísmo” ou “superação”
- Uma pessoa com deficiência não é apenas a sua deficiência — tem outras facetas que merecem igualmente ser exploradas
Terminologia: Escolher Bem as Palavras
A linguagem evolui. Aquilo que era aceitável há vinte anos pode ser ofensivo hoje. Algumas orientações práticas:
| ✅ Usar | ❌ Evitar |
|---|---|
| Pessoa com deficiência | Deficiente / Portadora de deficiência |
| Pessoa que usa cadeira de rodas | Presa/confinada a uma cadeira de rodas |
| Pessoa com deficiência visual / cega | Invisual (em contextos depreciativos) |
| Pessoa Surda (falante de LGP) | Surdo-mudo |
| Pessoa com deficiência intelectual | Deficiente mental / Atrasado mental |
| Pessoa com síndrome de Down / Trissomia 21 | Mongólóide |
| Casa de banho acessível | Casa de banho dos deficientes |
Se tiver dúvidas sobre que termo usar, a melhor abordagem é simples: pergunte à própria pessoa.
Seis Mitos que Persistem
O guia da Acesso Cultura identifica alguns dos equívocos mais comuns sobre a deficiência:
- “Pessoas com deficiência são inactivas” — A inactividade não é a regra; em ambientes inclusivos, a autonomia é plena
- “Precisam sempre de assistência” — Quanto mais acessível o ambiente, mais autónomas as pessoas se tornam
- “Acessibilidade = rampas” — A acessibilidade é física, sensorial, intelectual, social e comunicacional
- “Acessibilidade só serve pessoas com deficiência” — Serve quem empurra um carrinho, quem tem uma lesão temporária, idosos e, no fundo, toda a gente
- “Têm sempre poucos recursos financeiros” — Muitas têm vidas profissionais activas; quando existem dificuldades, são resultado de barreiras sociais, não da condição em si
- “Falar de deficiência é deprimente” — Só o é quando se reduz a casos extremos e se ignora a responsabilidade colectiva da sociedade
A Responsabilidade de Todos
A construção de uma sociedade inclusiva não é tarefa exclusiva de jornalistas ou comunicadores — é de cada um de nós. As palavras que escolhemos, as perguntas que fazemos (ou não fazemos), a forma como olhamos para os outros: tudo isso contribui para normalizar ou perpetuar o capacitismo.
Como diz a Declaração Universal dos Direitos Humanos, citada no guia: todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Falar bem da deficiência começa por acreditar, de facto, nisso.
Este artigo foi inspirado no guia “Como (e quando) falar da deficiência”, publicado pela Acesso Cultura em 2023, da autoria de Dora Alexandre e Maria Vlachou.










