Um ensaio do filósofo Carlos Javier González Serrano sobre mercados comportamentais e bolhas de filtro cruza-se com María Zambrano para pensar a atenção como algo que se educa — e que a escola tem todas as razões para ensinar.

Um artigo de opinião publicado no jornal espanhol ABC, assinado pelo filósofo Carlos Javier González Serrano, cruza um diagnóstico sobre mercados comportamentais e bolhas de filtro com o pensamento de María Zambrano sobre a atenção. O resultado é um texto breve mas denso, que interessa a qualquer professor, bibliotecário ou diretor de escola que já tenha sentido a dificuldade crescente dos alunos — e a sua própria — em sustentar um olhar sobre o mundo sem o desviar de imediato para o ecrã seguinte.
Um diagnóstico que começa por desmontar as desculpas fáceis
Carlos Javier González Serrano, professor de Filosofia e Psicologia, abre o seu artigo recusando aquilo a que chama um diagnóstico «tão nocivo quanto insuficiente»: a ideia, hoje repetida até à exaustão, de que o cenário hiperestimulado em que vivemos nos despojou, sem mais, da atenção. O ruído constante, a cultura da imagem rápida, a exigência de disponibilidade ininterrupta e o império das tecnologias digitais — as histórias, os reels, os vídeos curtos — atrofiaram, sim, a nossa capacidade de reconquistar a atenção. Mas o autor não se fica pelo retrato; interessa-lhe, sobretudo, desmontar as desculpas com que este estado de coisas costuma justificar-se.
Há quem diga, com uma resignação quase orgulhosa e um travo de autoajuda meloso, que «é preciso adaptarmo-nos». Há quem argumente que o problema não está nos ecrãs, mas no uso que deles se faz — como se esse uso fosse neutro, como se os próprios dispositivos não implicassem já uma determinada forma de viver, de sentir, de estar (ou não estar) no mundo. E há ainda quem celebre a velocidade como sinónimo de mais possibilidades, sem perguntar se esse leque inesgotável de opções não será, também ele, uma estratégia — talvez a mais eficaz de todas — para gerir o nosso tempo e a nossa angústia, mantendo-nos ocupados o suficiente para nunca termos de enfrentar o simples medo de parar.
É esta última ideia, mais do que qualquer queixa genérica sobre «tempo de ecrã», que torna este texto uma leitura pertinente para quem trabalha em educação: a hipótese de que a aceleração não é um efeito colateral acidental da tecnologia, mas uma forma deliberada — comercial, mesmo — de nos manter permanentemente distraídos de nós próprios.
Mercados comportamentais e bolhas de filtro: um vocabulário que a escola já devia dominar
González Serrano nomeia o mecanismo com precisão: a comercialização e a posta à venda do nosso desejo, ao serviço de uma personalização subjugadora da nossa experiência do mundo, provocou um crescimento descomunal dos chamados «mercados comportamentais» e das «bolhas de filtro». A formulação merece ser desdobrada em sala de aula, porque resume em duas expressões aquilo que muitas aulas de cidadania digital ainda explicam de forma vaga. Um mercado comportamental é o conjunto de sistemas que compram, vendem e negoceiam previsões sobre aquilo que uma pessoa vai fazer a seguir — que vídeo vai ver, que produto vai comprar, que opinião vai partilhar — a partir dos dados que essa pessoa entrega, quase sempre sem dar por isso, a cada gesto num ecrã. Uma bolha de filtro é o resultado visível desse mercado: um ambiente informativo desenhado à medida de cada utilizador, que tende a confirmar o que já se pensa e a afastar aquilo que o poderia contrariar.
O ponto mais incómodo do artigo — e o mais útil para uma aula — não é a descrição destes mecanismos, já relativamente conhecida, mas a inversão que González Serrano lhes associa: não é que o sujeito contemporâneo veja onde quer, mas que o querer de outrem lhe é imposto como se fosse seu. Vemos, sentimos e agimos filtrados pelos dados que entregamos de bom grado a empresas multinacionais — e essa mediação, precisamente por nos facilitar a vida, por a tornar mais fluida e menos incómoda, passa despercebida como mediação. É esta confusão entre conforto e liberdade, mais do que a desinformação em sentido estrito, que o artigo convida a questionar — e que qualquer disciplina de Cidadania e Desenvolvimento pode transformar num exercício muito concreto: pedir aos alunos que reconstruam, a partir do histórico de uma aplicação que usam todos os dias, que tipo de «eu» o algoritmo já construiu para eles.
Zambrano: a coragem de não desviar o olhar
É aqui que o artigo dá o seu salto mais interessante, ao recorrer à obra de María Zambrano — filósofa espanhola nascida em Vélez-Málaga em 1904, discípula de Ortega y Gasset e, em 1988, a primeira mulher distinguida com o Prémio Cervantes — para pensar o que significa, de facto, olhar.
Ainda muito jovem, em 1929, quando começou a escrever aquela que seria a sua primeira obra, Horizonte del liberalismo, Zambrano já defendia que a tonalidade de cada época não se define pelas respostas que dá às suas próprias perguntas, mas por aquilo a que decide prestar atenção — pelo elemento do mundo com quem escolhe conversar. Para isso, escreve, é indispensável a coragem de não retirar o olhar da realidade: «esforçarmo-nos por olhar» e «parar para o fazer com uma limpidez serena». González Serrano sublinha que essa detenção pausada perante o que acontece não é um luxo contemplativo, mas condição prévia de qualquer ação que valha a pena: não há por que lutar se, antes, não se fez o esforço de atender ao mundo com observação.
Décadas mais tarde, em Claros del bosque (1977), Zambrano recupera essa ideia de outra forma, ao insistir na necessidade de um tempo de contemplação — um tempo largo, indefinido, sem os nexos e os estímulos apressados a que hoje chamamos, sem darmos por isso, produtividade. Os escolásticos tinham um nome para esse tempo: nunc stans, o presente que não passa. Zambrano prefere uma fórmula mais simples e mais bela: somos, diz, tempo em trânsito.
E em Persona y democracia (1958), a filósofa distingue duas formas de habitar o mundo: a servidão de quem se limita a ser designado por um destino que apenas resta aceitar com resignação, e a possibilidade de viver o mundo como algo por fazer — um artefacto, um elemento natural onde existimos e onde nos cabe agir com responsabilidade. Nada degrada e humilha mais um ser humano, sustenta Zambrano nessa obra, do que ser movido sem saber porquê nem por quem — ser movido de fora de si mesmo. É difícil não pensar, lendo esta ideia quase setenta anos depois, num adolescente a deslizar o polegar por um ecrã sem saber muito bem porque continua a fazê-lo.
Do hábito ao carácter: o que significa «ethos» numa aula de cidadania
Para González Serrano, esta é a questão insolúvel do nosso tempo — e também, para Zambrano, o único consolo possível: sabermos que fica sempre ao nosso alcance um fazer que reconfigure os nossos próprios hábitos. É nisto que consiste a ética, lembra o autor, recuperando a etimologia grega da palavra: ethos designa precisamente os hábitos que vamos adquirindo, aquilo que escolhemos fazer repetidamente — e que acaba por configurar o nosso próprio carácter. Somos, resume o artigo, aquilo que fazemos… ou aquilo que deixamos fazerem de nós.
A distinção interessa particularmente a quem trabalha a área de autonomia e desenvolvimento pessoal prevista no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória. Se o carácter se constrói por repetição de hábitos, a pergunta pedagógica relevante não é apenas que conteúdos sobre atenção e algoritmos se devem ensinar, mas que hábitos de atenção se estão, dia após dia, a deixar instalar nos alunos — e em quem os ensina. Uma aula que discute bolhas de filtro sem tocar nesta dimensão de hábito corre o risco de ficar pelo diagnóstico técnico, sem chegar à pergunta mais incómoda: o que se decide fazer, todos os dias, com a própria atenção.
Uma proposta para a sala de aula
Uma forma de levar este artigo para dentro de uma aula de Cidadania e Desenvolvimento, ou de Filosofia no ensino secundário, passa por cruzar as duas metades do texto de González Serrano. Numa primeira fase, os alunos podem mapear, de forma simples, a sua própria bolha de filtro: que temas, vozes e opiniões o seu feed lhes mostra com mais frequência, e que temas, vozes e opiniões praticamente nunca aparecem. Não se trata de um exercício de culpabilização — ninguém escolhe sozinho o que um algoritmo lhe mostra —, mas de tornar visível um mecanismo que, por definição, foi desenhado para passar despercebido.
Numa segunda fase, a turma pode discutir a distinção zambraniana entre ser movido de fora e agir com responsabilidade: perante um hábito digital identificado no mapeamento anterior — abrir uma aplicação sem motivo aparente, responder de imediato a uma notificação, formar uma opinião antes de a ter pensado —, pede-se a cada aluno que escreva, em poucas linhas, o que mudaria se decidisse configurar esse hábito de outra forma, deliberadamente. O exercício não promete resultados imediatos, e não devia prometê-los: o que está em causa não é deixar de usar uma aplicação, mas experimentar, ainda que por um dia, a diferença entre reagir e decidir — entre ser tempo em trânsito ou ser apenas arrastado por ele.
O que este artigo de González Serrano deixa, no fundo, não é uma crítica às tecnologias digitais, mas um convite a recuperar uma palavra que a escola raramente associa a este tema: coragem. A coragem, dizia Zambrano quase um século antes de as redes sociais existirem, de não desviar o olhar daquilo que custa ver — incluindo o próprio mecanismo que nos vende, todos os dias, a ilusão confortável de estarmos apenas a escolher.
Este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir da leitura direta de uma reprodução impressa do artigo «Reaprender a mirar», de Carlos Javier González Serrano, publicado no jornal espanhol ABC (suplemento La Tercera) a 18 de setembro de 2024.
Referências
González Serrano, C. J. (2024, 18 de setembro). Reaprender a mirar. ABC, La Tercera. (Edição impressa; consultar em https://www.abc.es/opinion/carlos-javier-gonzalez-serrano-reaprender-mirar-20240918191546-nt.html, acesso sujeito a subscrição.)
Zambrano, M. (1930). Horizonte del liberalismo. Nueva Generación. (Obra escrita em 1929.)
Zambrano, M. (1958). Persona y democracia. Departamento de Instrucción Pública.
Zambrano, M. (1977). Claros del bosque. Seix Barral.
Direção-Geral da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Noticias_Imagens/perfil_do_aluno.pdf
Para saber mais
- Página oficial da Fundación María Zambrano, em Vélez-Málaga, com biografia, obra e atividades em torno do legado da filósofa.
- Biografia de María Zambrano no Instituto Cervantes, com cronologia detalhada das suas obras.
- Página de Aprendizagens Essenciais e Perfil dos Alunos, na Direção-Geral da Educação, para quem quiser cruzar esta reflexão com a área de autonomia e desenvolvimento pessoal.














