Da sintaxe à cidadania ativa

Da análise sintática à entrevista jornalística, descobrimos como as tarefas “aborrecidas” da aula de Português são, afinal, o alicerce de uma cidadania consciente e interventiva.

Quantas vezes já ouvimos um aluno perguntar, com aquele ar resignado, “mas para que é que isto serve?” ao receber mais um trabalho sobre análise sintática ou uma entrevista de final de período ? A resposta, longe de ser simples formalidade escolar, revela uma das ligações mais interessantes entre a sala de aula e a vida cívica: estas tarefas aparentemente básicas constroem, passo a passo, as competências de comunicação que sustentam uma cidadania ativa e informada.

Uma missão que vai além do teste

O ensino da Língua Portuguesa não é uma coleção de regras soltas para decorar antes de um exame. De acordo com o próprio Ministério da Educação, no documento “Aprendizagens Essenciais”, o objetivo é “preparar os alunos para o exercício de uma cidadania consciente e interventiva”. A lógica é simples de seguir: a comunicação eficaz alimenta o pensamento crítico, e o pensamento crítico é o que torna possível uma cidadania verdadeiramente interventiva.

Esta ideia assenta naquilo que se pode chamar o “princípio do trampolim”. Ensina-se uma competência central — como estruturar uma entrevista, por exemplo — e essa mesma competência ramifica-se depois em dezenas de aplicações práticas: debates, apresentações, podcasts, escrita de notícias e argumentação. Não se trata de ensinar tópicos isolados, mas de fornecer aos alunos modelos mentais reutilizáveis em contextos muito diferentes.

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A sintaxe como desporto de equipa

Talvez a metáfora mais eficaz para desmistificar a gramática seja também a mais inesperada: encarar a frase como uma equipa de futebol, onde cada palavra ocupa uma posição estratégica. O sujeito e o predicado são as estrelas da equipa, a espinha dorsal do jogo. Os complementos — direto, indireto e oblíquo — funcionam como a equipa de apoio, fornecendo ao verbo a informação essencial para a jogada fazer sentido. Já os modificadores ficam no banco, prontos a entrar para dar cor e contexto, mesmo que não sejam estritamente obrigatórios.

Para desmontar qualquer frase, existe um plano de jogo em quatro passos, sempre a começar pelo motor da ação:

  • Encontrar o verbo, o centro de tudo
  • Identificar o sujeito, que concorda com o verbo
  • Procurar os complementos, a ajuda de que o verbo precisa
  • Isolar os modificadores, a informação extra que sobra

Compreendido este sistema, a gramática deixa de ser um conjunto arbitrário de regras e passa a ter uma lógica intuitiva, quase desportiva.

O texto expositivo como mapa do conhecimento

Juntando frases bem estruturadas, chega-se ao domínio do texto expositivo, descrito na análise como “um mapa para o conhecimento”. A missão deste tipo de texto é informar com rigor, e para isso assenta em três pilares: objetividade, que exclui opiniões pessoais e privilegia dados verificáveis; estrutura, com introdução, desenvolvimento e conclusão bem definidos; e clareza, através de linguagem precisa e sem ambiguidades.

Na prática, este mapa constrói-se a partir de perguntas orientadoras simples — o que é, como funciona, para que serve e quais são os exemplos — que transformam qualquer tema complexo num processo lógico e gerível para o aluno. Esta disciplina de objetividade, sublinha o podcast, é precisamente o que treina os alunos a serem transmissores de informação rigorosos, uma competência cada vez mais valiosa num mundo saturado de opiniões disfarçadas de factos.

A entrevista: uma masterclass em escuta

Se o texto expositivo é comunicação de uma via, a entrevista introduz a dimensão interativa. A diferença entre uma pergunta fechada, como “começou aos 13 anos?”, e uma pergunta aberta, como “porque decidiu não dar muitas entrevistas?”, ilustra bem esta distinção: a primeira confirma um dado, a segunda convida a uma história. Esta escolha entre confirmar e explorar é apontada como talvez a competência mais essencial de todas.

O processo de preparar uma entrevista segue quatro fases metódicas — pesquisa, planeamento, execução e edição — que ensinam rigor e pensamento estratégico. Durante a execução, a escuta ativa surge como a verdadeira arma secreta: ouvir com atenção é, muitas vezes, mais importante do que falar. Esta competência central, tal como a sintaxe, ramifica-se depois para apresentações profissionais, debates construtivos e outras formas de diálogo do quotidiano.

Da narrativa à cidadania global

As histórias simples que os alunos leem desde cedo — como as aventuras de uma personagem em busca de um gato desaparecido — não servem apenas para construir vocabulário. Ensinam também a colocarmo-nos na pele de outra pessoa, desenvolvendo empatia, que combinada com vocabulário rico desagua no pensamento crítico.

Este percurso culmina no conceito de “ter mundo“, que a análise associa diretamente à curiosidade — da palavra latina curiositas, o desejo intrínseco de conhecimento. Ter mundo não exige viajar constantemente; começa com a vontade de perguntar porquê perante tudo o que nos rodeia. Como resume de forma marcante o material analisado, “ter mundo é a diferença entre saber que a água ferve a 100°C e compreender como o acesso à água potável muda a vida de uma comunidade”.

Pensamento crítico como armadura

Num ambiente digital inundado de informação e desinformação, esta curiosidade precisa de vir acompanhada de defesas sólidas. O podcast identifica três passos inegociáveis para exercer pensamento crítico perante qualquer conteúdo:

  • Verificar a fonte, perguntando quem escreveu a informação
  • Questionar o motivo, percebendo o que se ganha com determinada mensagem
  • Evitar ser um mero eco de ideias alheias, formando opinião própria

Este combate ao chamado “eco de ideias alheias” e às fake news é apresentado como uma das maiores responsabilidades contemporâneas de quem deseja alargar horizontes.

O perfil do cidadão em construção

No fim desta arquitetura pedagógica, emerge um perfil de aluno bem definido. Formam-se comunicadores claros, capazes de estruturar informação de forma objetiva; pensadores críticos, que questionam fontes em vez de as repetir; ouvintes empáticos, conscientes de que “cada pessoa é uma biblioteca de histórias”; e cidadãos informados, com voz própria para participar ativamente no mundo.

Talvez a imagem mais bonita para resumir todo este percurso seja a ideia de que a leitura é “a máquina do tempo mais barata que existe” — através de um simples texto, é possível vestir a pele de outras pessoas, viver noutros séculos e visitar lugares que nunca se chegará a pisar fisicamente. Desde a microestrutura de uma frase até à macroestrutura de um argumento, cada ferramenta ensinada na aula de Português é uma peça essencial na construção de cidadãos com mais mundo.

O futuro do artigo científico na era da IA

O artigo científico é, há mais de três séculos, a unidade que valida o conhecimento. Com a IA generativa a inundar a publicação científica de manuscritos automatizados, cresce um grupo de investigadores a perguntar se essa unidade precisa de mudar outra vez — e o que isso implica para quem ensina hoje a pesquisar, citar e avaliar fontes.

Há um exercício que praticamente todos os alunos do secundário fazem em algum momento: procurar um artigo científico, ler o resumo, tentar perceber a metodologia, verificar quem o publicou e quando. Ensinamo-los que um artigo revisto por pares é, por convenção, uma unidade fiável de conhecimentoo tijolo com que a ciência se constrói. O que raramente lhes dizemos é que essa unidade tem uma história relativamente curta e que, neste preciso momento, está sob uma pressão que pode vir a redesenhá-la por completo. A inteligência artificial não é a única causa dessa pressão, mas está a acelerá-la de forma que já não se pode ignorar.

Esta reflexão parte de um ensaio recente do jornalista científico Tim Requarth, publicado na revista The Transmitter, dedicado precisamente a esta pergunta: e se o artigo científico, tal como o conhecemos, estiver a chegar ao fim da sua utilidade?

Do tratado ao artigo: uma unidade que já mudou antes

Antes de existir o artigo científico, existia o tratado. Johannes Kepler precisou de um livro inteiro — a Astronomia Nova — para reunir uma década de observações astronómicas, hesitações incluídas. Isaac Newton fez o mesmo com os Principia. Só a partir de 1665, com a fundação das Philosophical Transactions of the Royal Society, os cientistas passaram a poder partilhar resultados parciais de forma mais rápida e compacta. Charles Darwin, aliás, queixava-se de que a sua teoria dificilmente caberia num artigo de revista sem sacrificar os factos que a sustentavam.

Ainda assim, o artigo curto acabou por se impor. Albert Einstein publicou quatro artigos que mudaram a física em 1905. James Watson e Francis Crick anunciaram a estrutura do ADN em menos de mil palavras, em 1953. O artigo científico não é, portanto, uma lei da natureza: é uma tecnologia de comunicação, criada para permitir que a ciência avançasse mais depressa. E tal como substituiu o tratado, pode agora estar a ser empurrado para uma nova forma.

Uma crise alimentada pela inteligência artificial

O sistema de publicação científica já vinha sob tensão antes de qualquer modelo de linguagem entrar em cena — mas a IA está a agravá-la de forma mensurável. Um estudo de grande escala publicado na revista Science em dezembro de 2025, conduzido por Keigo Kusumegi e colegas das universidades Cornell e Berkeley, analisou mais de dois milhões de artigos publicados em plataformas de pré-publicação entre 2018 e 2024. A conclusão central: os investigadores que passaram a usar modelos de linguagem como o ChatGPT aumentaram significativamente a sua produção de artigos, com subidas que variam consoante a área — mais acentuadas nas ciências sociais e nas humanidades, e particularmente elevadas entre autores ligados a instituições asiáticas, para quem a barreira do inglês representava até aqui uma desvantagem.

O reverso da medalha é conhecido de quem trabalha em revisão por pares: editores que recebem artigos praticamente idênticos, reformulados apenas o suficiente para escapar aos detetores de plágio, todos a explorar o mesmo conjunto de dados públicos. E os próprios revisores estão, cada vez mais, a recorrer à IA para produzir os seus pareceres — segundo uma análise da empresa Pangram, cerca de 21% das revisões submetidas a uma das maiores conferências de aprendizagem automática, em 2026, foram integralmente geradas por IA.

Do lado da produção, o exemplo mais espetacular é o PaperOrchestra, um sistema desenvolvido pela equipa de investigação da Google Cloud, apresentado em abril de 2026. A partir de notas de laboratório em bruto, uma sequência de cinco agentes de IA especializados — esquematização, revisão de literatura, redação, geração de figuras e refinamento — produz um manuscrito completo, em formato LaTeX, com citações verificadas, em cerca de quarenta minutos.

Perante este volume de produção automatizada, a resposta mais comum tem sido tentar reforçar o sistema existente: mais verificação, mais deteção de fraude, mais exigência na revisão. Mas há um grupo crescente de investigadores a colocar uma pergunta diferente — não como consertar a publicação científica, mas se a própria unidade de comunicação científica, o artigo, precisa de evoluir outra vez.

Quando a resposta não é remendar, mas repensar

Em 2023, Michael Eisen, biólogo computacional e antigo editor-chefe da revista eLife, avançou publicamente com uma ideia: em vez de um artigo estático, igual para todos os leitores, o futuro poderia trazer um formato interativo, de «artigo por medida», em que cada pessoa interroga diretamente os dados, os métodos e os resultados subjacentes a um estudo.

Essa ideia começa agora a ganhar forma concreta. Num estudo divulgado em fevereiro de 2026, os investigadores A. Sina Booeshaghi (Universidade da Califórnia em Berkeley), Laura Luebbert (Instituto Broad) e Lior Pachter (Instituto de Tecnologia da Califórnia) apresentaram o OpenEval, um sistema que decompõe artigos científicos nos seus elementos constituintes: afirmações individuais, provas que as sustentam e avaliações sobre se essas provas se sustentam. Aplicado a cerca de 16 mil artigos da revista eLife — que publica os seus manuscritos em formato legível por máquina —, o OpenEval extraiu quase dois milhões de afirmações distintas. Os avaliadores humanos e a IA concordaram em 81% dos casos, mas o dado mais relevante é outro: a IA avaliou cerca de 93% de todas as afirmações de um artigo, contra 68% cobertos, em média, pelos revisores humanos. Não é uma questão de qualidade, mas de tempo: dois ou três investigadores, com prazos apertados, dificilmente conseguem escrutinar sistematicamente uma centena de afirmações num único artigo.

A equipa do OpenEval defende que a publicação científica deveria separar duas funções que os artigos, hoje, misturam: divulgar resultados e comunicar ideias. Os resultados, sustentam, deveriam existir num formato explícito e legível por máquina; a narrativa continuaria a existir, mas como camada interpretativa sobre uma base de dados estruturada e consultável.

Outros vão mais longe. A física italiana Francesca Colaiori propôs, num texto de divulgação ainda pouco formalizado academicamente, o conceito de «Rede Adaptativa de Conhecimento», em que a unidade básica de contributo científico deixaria de ser o artigo e passaria a ser um «objeto de conhecimento» — uma afirmação, um conjunto de dados, um método —, ligado a outros por referências cruzadas, num modelo mais próximo da edição colaborativa de uma enciclopédia digital do que da submissão de um manuscrito fechado.

Num ponto intermédio, a revista NEJM AI já experimenta, desde finais de 2025, um processo de revisão híbrida por convite: um editor humano avalia o manuscrito de forma independente, dois modelos de linguagem produzem pareceres estruturados separados e um estatístico colabora com IA numa revisão estatística completa. Segundo o relato publicado por Arjun Manrai e colegas, o resultado foi uma decisão provisória em sete dias — e a publicação integral dos pareceres de IA, para escrutínio público.

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Um mapa em vez de fragmentos dispersos

Para uma disciplina tão vasta como a neurociência — que atravessa a biologia molecular, a imagiologia funcional e a psicologia comportamental —, este tipo de sistema pode ter um valor particular. Ninguém consegue, sozinho, acompanhar tudo o que se publica em todas as subáreas, e ligações relevantes ficam invisíveis simplesmente porque nenhum investigador leu os dois artigos ao mesmo tempo. O próprio OpenEval já encontrou um exemplo concreto: dois artigos da eLife, sobre mecanismos de depressão sináptica dependente do momento temporal (tLTD) em circuitos cerebrais diferentes, chegavam a conclusões aparentemente contraditórias sobre o papel dos recetores NMDA — sem nunca se citarem mutuamente, porque estudavam circuitos distintos. Lidos em conjunto, sugerem antes que esse papel depende do circuito em causa. Um registo estruturado e pesquisável teria tornado essa ligação visível desde o início, em vez de a deixar enterrada na fragmentação da literatura.

O precedente que já existe: quando a matemática se deixou verificar por máquina

Há um exemplo anterior a este debate, que mostra que esta separação entre narrativa e verificação já está a acontecer, ainda que de forma discreta. Quando os matemáticos Timothy Gowers, Ben Green, Frederick Manners e Terence Tao provaram, em 2023, um caso central da conjetura de Polynomial Freiman-Ruzsa, publicaram-no da forma tradicional — um artigo. Mas, em poucas semanas, uma equipa de colaboradores traduziu a demonstração para Lean, um assistente de prova cuja biblioteca comunitária, o mathlib, contém já mais de 250 mil teoremas verificados por máquina. Esse processo de verificação apanhou um pequeno erro que os revisores humanos tinham deixado passar.

O resultado passou a existir em duas formas: o artigo, que explica por que razão a prova é importante e onde estiveram as dificuldades, e a versão verificada por máquina, que garante que cada passo lógico é válido. Nenhuma substitui a outra. É certo que a ciência empírica não se deixa verificar da mesma forma exata que uma prova matemática — mas o princípio de fundo mantém-se: a narrativa continua a ser essencial para comunicar ideias entre humanos, e a legibilidade por máquina pode tornar os resultados reutilizáveis e verificáveis de formas que a prosa, sozinha, não consegue.

O risco escondido: escrever também é pensar

Há, no entanto, um contraponto que estas propostas ainda não resolveram de forma satisfatória. Escrever um artigo científico não é apenas comunicar uma descoberta já feita — é, muitas vezes, o próprio processo através do qual o investigador descobre onde o seu raciocínio tem falhas. É a tentar explicar um resultado que se percebe que ele não decorre tão bem do anterior como se pensava, ou que o problema estava mal formulado desde o início. Um sistema como o PaperOrchestra, ao eliminar exatamente essas semanas de luta com a exposição, pode estar a retirar da ciência um trabalho cognitivo que não aparece em nenhuma métrica de produtividade, mas que talvez seja onde parte da descoberta realmente acontece.

Esta tensão não é nova. A passagem do tratado para o artigo também implicou perdas genuínas — Darwin sabia que precisava de centenas de páginas para o seu argumento se desenrolar por completo, e o historiador da ciência Alex Csiszar já mostrou, no seu livro sobre a história do artigo científico no século XIX, que a fragmentação do conhecimento em «pedaços quebrados de facto» teve custos epistémicos reais. Ainda assim, foi essa unidade mais pequena que permitiu um ritmo de acumulação de conhecimento que o tratado não conseguia sustentar — a revolução da mecânica quântica, entre 1925 e 1927, terá sido possível precisamente por se apoiar numa cascata rápida de artigos curtos, trocados entre Göttingen, Copenhaga, Cambridge e Zurique.

O que isto significa para a escola

Este debate pode parecer distante do quotidiano de uma sala de aula, mas não é. Sempre que pedimos a um aluno que faça uma pesquisa, cite uma fonte ou distinga uma afirmação fundamentada de uma opinião, estamos a ensinar-lhe, ainda que de forma implícita, como o conhecimento científico se valida — através de revisão, de verificação e de um sistema (imperfeito, mas existente) de responsabilização. Se essa unidade básica está a mudar, a forma como ensinamos os alunos a procurar e a avaliar informação científica também terá de acompanhar essa mudança.

Há aqui, pelo menos, três pontos de contacto direto com o trabalho na escola. O primeiro é a literacia científica propriamente dita: perceber que um artigo não é um facto absoluto, mas uma afirmação sujeita a um processo de escrutínio — e que esse processo está, neste momento, a ser parcialmente automatizado — ajuda os alunos a lerem notícias sobre ciência com mais espírito crítico, em vez de aceitarem qualquer «estudo mostra que» como verdade encerrada. O segundo é a transferência direta para os trabalhos de investigação que os próprios alunos produzem, sobretudo no ensino secundário: se a IA generativa já é usada, de forma real, para produzir manuscritos científicos completos, os alunos vão encontrar exatamente a mesma tentação e as mesmas questões éticas quando usarem estas ferramentas nos seus próprios trabalhos de pesquisa — e a discussão sobre onde termina o apoio legítimo e começa a substituição do pensamento é a mesma, em qualquer escala. O terceiro é mais estrutural: este episódio é um excelente estudo de caso para trabalhar competências de cidadania digital e de avaliação de fontes, ao mostrar aos alunos que até a própria comunidade científica está a debater, em tempo real e sem resposta fechada, como equilibrar velocidade, verificação e credibilidade — exatamente o mesmo equilíbrio que lhes pedimos a eles quando usam IA num trabalho escolar.

Vale ainda sublinhar que esta discussão se cruza diretamente com o que já temos vindo a explorar neste espaço sobre pensamento crítico na era da IA: também aqui a pergunta central não é «a ciência deve ou não usar IA», mas sim «o que fica preservado do trabalho de pensar quando parte da escrita é delegada a uma máquina». É uma pergunta que vale a pena colocar aos alunos mais velhos, sobretudo aqueles que estão a preparar trabalhos de investigação ou provas de aptidão profissional: se a redação de um relatório é, também, o momento em que se descobre o que ainda não se percebeu bem, o que se perde quando essa redação é acelerada ou delegada?

Uma pergunta em aberto

Não há, para já, uma resposta consensual sobre que forma a comunicação científica vai tomar a seguir. O que parece certo é que o artigo, tal como o conhecemos, já não está a conter sozinho toda a ciência que se produz — entre suplementos que ultrapassam o manuscrito principal, dados depositados em repositórios que raramente são reutilizados e código publicado sem documentação, a fragmentação já começou, apenas de forma desorganizada. A questão que Requarth deixa em aberto, e que vale a pena levar para a sala de aula, é se a próxima geração de investigadores — e de alunos que hoje aprendem o que é um artigo científico — vai herdar um mapa mais claro desse conhecimento, ou continuará a orientar-se, um pouco às cegas, por um território cada vez mais disperso.


Este artigo foi preparado com apoio de IA, sob supervisão editorial, a partir do ensaio de Tim Requarth publicado em The Transmitter (maio de 2026). Todas as afirmações factuais e os dados citados foram verificados diretamente nas fontes primárias indicadas nas referências. As ligações entre este debate e o trabalho na sala de aula, na secção final, constituem um contributo editorial próprio deste blogue.

Referências

Booeshaghi, A. S., Luebbert, L., & Pachter, L. (2026). Science should be machine-readable. bioRxiv. https://doi.org/10.64898/2026.01.30.702911

Conroy, G. (2023, 10 de outubro). How ChatGPT and other AI tools could disrupt scientific publishing. Nature. https://doi.org/10.1038/d41586-023-03144-w

Csiszar, A. (2018). The scientific journal: Authorship and the politics of knowledge in the nineteenth century. University of Chicago Press.

Kusumegi, K., Yang, X., Ginsparg, P., de Vaan, M., Stuart, T., & Yin, Y. (2025). Scientific production in the era of large language models. Science, 390(6779), 1240–1243. https://doi.org/10.1126/science.adw3000

Manrai, A. K., Ouyang, D., Hogan, J. W., & Kohane, I. S. (2025). Accelerating science with human+AI review. NEJM AI, 2(12). https://doi.org/10.1056/AIe2501175

Pangram Labs. (2026). Pangram predicts 21% of ICLR reviews are AI-generated [Entrada de blogue]. https://www.pangram.com/blog/pangram-predicts-21-of-iclr-reviews-are-ai-generated

Requarth, T. (2026, 11 de maio). The next unit of science: Is the scientific paper due to be replaced? The Transmitter. https://www.thetransmitter.org/from-bench-to-bot/the-next-unit-of-science-is-the-scientific-paper-due-to-be-replaced/

Song, Y., Song, Y., Pfister, T., & Yoon, J. (2026). PaperOrchestra: A multi-agent framework for automated AI research paper writing. Google Cloud AI Research. https://github.com/google-research/paper-orchestra

A Manifesto Library na Livraria Lello: o que uma estrela pop tem para ensinar às escolas sobre livros e liberdade

Há notícias que, à primeira vista, parecem pertencer ao mundo do entretenimento e não ao da escola. A abertura de uma biblioteca por uma estrela pop é, tipicamente, uma dessas notícias. E, no entanto, quando se olha com atenção para o que aconteceu a 27 de junho, no Porto, dentro da Livraria Lello, encontramos um conjunto de temas que qualquer professor de Português, de Cidadania e Desenvolvimento ou responsável por uma biblioteca escolar reconhecerá de imediato: censura, liberdade de expressão, o valor do livro como objeto de resistência e a pergunta, sempre incómoda, de quem decide o que os jovens podem ou não ler.

O que abriu, onde e porquê

A cantora britânica Dua Lipa, através do seu clube de leitura Service95 Book Club, associou-se à histórica Livraria Lello para inaugurar a Manifesto Library, uma coleção permanente de cem livros instalada no novo auditório cultural da livraria portuense. A abertura ocorreu na noite de 27 de junho de 2026, como um dos momentos centrais do BABELL – Cidade-Livro, o primeiro festival literário internacional promovido pela Fundação Livraria Lello, que decorreu entre 24 e 29 de junho e reuniu autores como Salman Rushdie, Margaret Atwood, Olga Tokarczuk, Byung-Chul Han e Javier Cercas, entre muitos outros, em sessões dispersas por praças, ruas e espaços culturais de todo o Porto.

O momento não foi escolhido ao acaso. Em 2026, a Livraria Lello celebra 120 anos de existência — está aberta desde 1906 — e o ano marca também outra transformação relevante: a inauguração de uma ampliação do edifício assinada pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira, distinguido com o Pritzker, que acrescenta à livraria cerca de mil metros quadrados adicionais, incluindo o auditório onde agora vive a Manifesto Library. É, aliás, esse mesmo espaço que acolheu, no mesmo festival, a instalação A4, uma obra encomendada ao artista e ativista chinês Ai Weiwei, e a chamada Livraria 1984, um espaço de apenas um metro quadrado dedicado inteiramente ao romance de George Orwell — descrita pelos seus criadores como a mais pequena livraria do mundo dedicada a um único título.

Cem livros, quatro perguntas

A Manifesto Library não pretende ser um arquivo estático de obras censuradas, mas antes um espaço vivo de leitura e debate. Os cem títulos que a compõem organizam-se em torno de quatro eixos temáticos — poder, controlo, voz e memória — que funcionam como quatro perguntas diferentes sobre a relação entre livros e liberdade.

No eixo do poder encontramos obras que interrogam quem manda, quem contesta e quem tem autoridade para definir as narrativas que herdamos, como O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, 1984, de George Orwell, ou Felon, de Reginald Dwayne Betts. O eixo do controlo reúne livros sobre vigilância, propaganda e os instrumentos, muitas vezes silenciosos, da pressão institucional, com títulos como O Conto da Aia, de Margaret Atwood, ou O Processo, de Franz Kafka. Já o eixo da voz dá espaço a perspetivas historicamente silenciadas ou marginalizadas, incluindo A Cor Púrpura, de Alice Walker, e Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie. Por fim, o eixo da memória reúne testemunhos pessoais e coletivos construídos contra o esquecimento deliberado, em contextos de guerra, ditadura e exílio, como A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, e Os Livros de Jacob, de Olga Tokarczuk.

Segundo a nota editorial divulgada pela própria Service95, muitos destes títulos foram, em diferentes países e momentos históricos, proibidos, retirados de currículos escolares ou removidos de sistemas de bibliotecas — frequentemente por abordarem temas como raça, sexualidade ou identidade de género. Outros nunca foram formalmente censurados, mas continuam a suscitar debate público intenso em torno destas mesmas questões. É precisamente essa tensão — entre o que foi silenciado e o que continua a incomodar — que a coleção procura tornar visível.

As palavras de quem a criou

Dua Lipa descreveu o projeto como «uma parceria de sonho», nascida da vontade, antiga, de transformar o clube de leitura que fundou num verdadeiro lugar de encontro entre escritores e leitores. Nas suas palavras, divulgadas pela Fundação Livraria Lello, esta é uma biblioteca concebida como «um santuário para livros que desapareceram e para autores cuja coragem desmascara estruturas de poder», dirigida a leitores que se recusam a que outros decidam por eles o que podem ler.

Do lado da livraria, Francisca Pedro Pinto, responsável de marca da Livraria Lello, sublinhou a continuidade entre a história centenária da instituição e este novo capítulo: «há 120 anos que a Livraria Lello se ergue sobre uma convicção simples — a de que o livro é uma tecnologia de liberdade». Uma frase que, note-se, dialoga diretamente com a metáfora que Jorge Luís Borges — sem parentesco conhecido com o autor destas linhas — usou décadas antes e que o Presidente da República Portuguesa recuperou no discurso de abertura do festival, ao descrever o livro como «uma extensão da memória e da imaginação».

Um festival que troca livros por cultura

Vale a pena deter-nos um pouco no BABELL, porque o seu modelo é, em si mesmo, um exercício interessante de promoção da leitura. O acesso às sessões do festival não se faz por bilhete convencional, mas através da compra de um livro numa rede de mais de cinquenta livrarias participantes na cidade do Porto — uma forma original de transformar a leitura em condição de acesso à cultura, e não apenas em consequência dela.

Do programa do festival destacam-se dois momentos com relevância direta para quem trabalha em contexto escolar. Por um lado, um conjunto de colóquios dedicados especificamente a educação e leitura, agendados para o último dia do festival na Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Por outro, uma programação infantil, com curadoria de Adélia Carvalho, realizada nas manhãs de 27 e 28 de junho nos Jardins do Palácio de Cristal — prova de que a organização do festival não pensou este projeto apenas para um público adulto e literário, mas quis desde o início incluir crianças e famílias na experiência.

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Porque é que isto interessa às nossas escolas

É fácil olhar para este acontecimento como uma simples curiosidade cultural, mais um projeto de uma celebridade internacional com visibilidade em Portugal. Achamos, no entanto, que há aqui pelo menos três fios que merecem ser trazidos para dentro da sala de aula.

O primeiro é o da liberdade de expressão e da censura, um tema que se cruza diretamente com os referenciais de Cidadania e Desenvolvimento e com as Aprendizagens Essenciais de Português, sobretudo nos ciclos em que se trabalha a leitura crítica e a argumentação. A Manifesto Library oferece um ponto de partida concreto e internacional para uma discussão que, entre nós, tende a ficar abstrata: porque é que um livro é retirado de uma biblioteca ou de um currículo escolar? Quem decide? E que diferença existe entre uma decisão editorial legítima — adequar uma obra a uma faixa etária, por exemplo — e um ato de silenciamento? Comparar casos concretos de obras contestadas em diferentes países, com os alunos, é um exercício de pensamento crítico mais produtivo do que qualquer exposição teórica sobre o conceito de censura.

O segundo fio é o da própria leitura como prática social e não apenas escolar. O modelo do BABELL — trocar um livro por acesso a um festival — e a proposta da Manifesto Library — transformar uma livraria centenária num espaço de debate público — são, ambos, tentativas de devolver a leitura ao centro da vida coletiva, numa altura em que o tempo de atenção dos mais jovens está cada vez mais fragmentado entre ecrãs. Para um blogue como este, dedicado à relação entre tecnologia e educação, este contraponto entre o livro físico e o mundo digital não é irrelevante: mostra que a promoção da leitura e a literacia digital não são terrenos opostos, mas complementares, e que vale a pena continuar a criar, também nas nossas escolas, momentos e espaços que devolvam ao livro em papel o seu lugar de destaque.

O terceiro fio, mais subtil, é o da própria literacia mediática aplicada a este caso. Uma estrela pop a promover a leitura é, simultaneamente, uma boa notícia para a causa dos livros e um excelente pretexto para discutir com os alunos como funciona a construção de uma imagem pública através da cultura — que interesses comerciais e de reputação convivem, sem se anularem, com um propósito cultural genuíno. Nada disto desvaloriza o projeto; pelo contrário, ensinar os alunos a olhar para uma iniciativa como esta com esse duplo olhar — reconhecendo o seu valor cultural sem deixar de identificar a sua dimensão de marketing — é, também, literacia mediática em ação.

Para levar para a aula

Sem transformar isto num receituário, deixamos três pistas de trabalho que nos parecem particularmente diretas. Pode propor-se aos alunos que escolham um dos quatro eixos da Manifesto Library — poder, controlo, voz ou memória — e investiguem, em pequenos grupos, a história de contestação de uma das obras associadas a esse eixo, apresentando depois à turma os argumentos usados por quem pediu a sua retirada e por quem defendeu a sua permanência nas bibliotecas. Pode também usar-se o próprio conceito do festival — trocar um livro por um bilhete de acesso à cultura — como mote para um pequeno projeto de promoção da leitura na escola, associado à biblioteca escolar. E pode, por fim, explorar-se com os alunos mais velhos a tensão entre celebridade e causa cultural, pedindo-lhes que analisem criticamente comunicados de imprensa e publicações nas redes sociais sobre este projeto, distinguindo factos verificáveis de linguagem promocional.

A Manifesto Library não vai resolver, por si só, nenhum dos desafios de leitura que as nossas escolas enfrentam. Mas é um bom recordatório de que a discussão sobre livros, liberdade e censura continua bem viva — e de que, por vezes, os pontos de partida mais úteis para essa discussão em sala de aula chegam de lugares tão inesperados como uma livraria centenária no Porto.


Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial para pesquisa e redação, a partir de fontes primárias — o comunicado oficial da Service95, os conteúdos publicados pela Fundação Livraria Lello no âmbito do festival BABELL, a intervenção do Presidente da República na sessão de abertura do festival e cobertura da imprensa especializada em cultura e arquitetura .

Referências

Espaço de Arquitetura. (2026). Livraria Lello inaugura expansão de Álvaro Siza e lança BABELL. https://espacodearquitetura.com/noticias/livraria-lello-inaugura-expansao-de-alvaro-siza-e-lanca-babell/

Fundação Livraria Lello / BABELL. (2026a). About BABELL. https://babell.fundacaolivrarialello.pt/en/about-babell

Fundação Livraria Lello / BABELL. (2026b). BABELL unveils full programme. https://babell.fundacaolivrarialello.pt/en/conteudos/noticias/babell-unveils-full-programme

Music-News.com. (2026, junho). Dua Lipa and Livraria Lello open the Manifesto Library in Porto. https://www.music-news.com/news/UK/189761/Dua-Lipa-and-Livraria-Lello-open-the-Manifesto-Library-in-Porto

Presidência da República Portuguesa. (2026, junho 24). Intervenção na sessão inaugural do festival literário e cultural “BABELL – Cidade-Livro” e visita à Livraria Lello. https://www.presidencia.pt/en-en/news-agenda/all-news/2026/06/intervencao-na-sessao-inaugural-do-festival-literario-e-cultural-babell-cidade-livro-e-visita-a-livraria-lello/

Service95. (2026, julho 2). Inside the Manifesto Library: Service95 Book Club’s permanent collection at Livraria Lello, Porto. https://www.service95.com/manifesto-library-launch

A nova face da carreira académica e o desafio digital

“O modelo tradicional de docente do Ensino Superior— que unia ensino, investigação e estabilidade laboral — está a desaparecer. Em seu lugar, surgem novos papéis híbridos, mais precariedade contratual e desafios ligados à digitalização do ensino. Um relatório recente da UNESCO revela o que está a mudar na profissão académica e por que isso interessa também às escolas.”

Um modelo que já não é o único

Durante décadas, ser professor universitário significava ensinar, investigar e usufruir de um vínculo estável, muitas vezes protegido por “tenure“. Esse retrato deixou de corresponder à realidade da maioria: hoje há docentes especializados apenas em ensino, outros só em investigação, e uma diversidade de percursos que dificulta definir com clareza o que constitui, afinal, “trabalho académico”. Esta fragmentação tem consequências diretas na forma como as instituições avaliam desempenho, distribuem tarefas e reconhecem competências.

A ascensão dos “espaços intermédios”

Um dos fenómenos mais interessantes é o crescimento das chamadas funções de “terceiro espaço”, papéis que combinam formação académica com competências de gestão, situando-se entre o corpo docente tradicional e o pessoal administrativo. Estas funções multiplicaram-se sobretudo em áreas como o design de aprendizagem digital, a gestão de projetos de investigação e as parcerias com a indústria, precisamente porque o ensino se tornou cada vez mais mediado pela tecnologia. Para as escolas e universidades, isto significa uma necessidade crescente de perfis híbridos, capazes de dominar plataformas digitais, analisar dados de aprendizagem e apoiar pedagogicamente os docentes mais tradicionais.

Esta mudança é particularmente relevante para quem trabalha em contextos educativos que apostam em ensino híbrido ou plataformas de gestão da aprendizagem, já que a digitalização “criou novos requisitos para os cargos de ensino tradicionais” e impulsionou o aparecimento de especialistas como os designers de aprendizagem.

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Precariedade: o lado menos visível

Outro dado que o documento sublinha é a expansão generalizada de contratos precários, temporários ou “por hora zero”, especialmente entre docentes que fazem grande parte do trabalho letivo mas sem estabilidade nem remuneração equivalente à de colegas com vínculos permanentes. Esta “projetificação” do trabalho académico fragmenta carreiras que antes se construíam ao longo de décadas, e há preocupações crescentes de sindicatos e decisores políticos sobre o impacto desta precariedade tanto no bem-estar dos docentes como na qualidade do ensino prestado aos estudantes.

Barreiras estruturais e desigualdade

Persistem também barreiras estruturais que dificultam a progressão de determinados grupos, sobretudo docentes com responsabilidades de cuidado familiar, frequentemente penalizados por exigências pouco flexíveis, como a obrigatoriedade de presença física no campus. As mulheres continuam a ser sistematicamente mais afetadas por estas dinâmicas, sendo muitas vezes vistas como “menos merecedoras” de promoção precisamente por assumirem mais tarefas de cuidado.

Falta de padrões profissionais claros

Ao contrário de outras profissões, o ensino superior raramente exige licenciamento profissional formal, o que significa que, em muitos países, não há requisitos mínimos definidos para começar a ensinar — reforçando a ideia (perigosa) de que “qualquer pessoa pode ensinar”. Isto está a mudar: vários países europeus já exigem qualificações pedagógicas específicas para docentes universitários, sobretudo para garantir competências em ensino centrado no estudante e em modelos híbridos, uma tendência acelerada pela pandemia.

Por que isto interessa às escolas

Embora o documento se foque no ensino superior, os paralelos com o ensino básico e secundário são evidentes: a digitalização, a precariedade laboral e a falta de padrões profissionais claros são desafios que também atravessam as escolas.

  • Professores enfrentam cada vez mais tarefas “invisíveis” — mentoria, comissões, produção de materiais digitais — sem reconhecimento formal no horário de trabalho.
  • A gestão inadequada da carga de trabalho ligada a novas tecnologias educativas pode desmotivar e “desqualificar” o corpo docente ao longo do tempo.
  • O desenvolvimento profissional contínuo, sobretudo em áreas como inteligência artificial e ferramentas digitais, tornou-se essencial e deve ser pensado como parte central da carreira docente.

O caminho em aberto

O relatório da UNESCO conclui que ainda há espaço para tornar a carreira académica mais atrativa, valorizando melhor os docentes e reforçando políticas de equidade de género, mas isso exige repensar modelos de emprego que já não refletem a realidade do trabalho educativo do século XXI. Para professores e escolas, a mensagem de fundo é clara: a profissão docente está a diversificar-se a um ritmo acelerado, e reconhecer essa diversidade — em vez de a ignorar — é o primeiro passo para valorizar quem ensina.

O Mundial que fugiu à televisão

Um canal de YouTube com seis meses de vida bateu recordes de audiência que nenhuma televisão portuguesa tinha batido — grátis, com Cristiano Ronaldo como acionista e uma disputa aberta com a ERC. A LiveModeTV é o pretexto para perguntar o que está mesmo a mudar na forma como vemos, e fazemos, televisão.

Nos primeiros dias do Mundial 2026, mais de 300 mil pessoas em Portugal assistiram ao jogo entre o Brasil e Marrocos ao mesmo tempo, no mesmo ecrã — não na Sport TV, não na SIC, mas num canal de YouTube gratuito que ainda não tinha completado sete meses de existência. Foi, à data, o maior número de espectadores em simultâneo alguma vez registado numa transmissão em direto no YouTube em Portugal. Duas semanas depois, o mesmo canal bateu outro recorde, este de visualizações totais, com o jogo Brasil-Japão. Este artigo não é sobre futebol — é sobre o que este episódio revela sobre quem está a mudar as regras da televisão, porquê, e com que consequências para todos nós.

Como nasceu: da Esporte Interativo à chegada a Portugal

A história da LiveModeTV não começa em Portugal, nem começa com o Mundial. Começa em 2007, no Brasil, quando Edgar Diniz e Sérgio Lopes fundam a Esporte Interativo, um canal que cresce a apostar numa comunicação mais próxima do público e a explorar as plataformas digitais antes da concorrência tradicional. Anos mais tarde, os dois fundam a LiveMode, uma empresa dedicada a direitos desportivos, distribuição de conteúdo e negócio digital.

A oportunidade decisiva surge durante a pandemia: a Globo renegoceia o contrato com a FIFA e perde a exclusividade digital dos direitos do Mundial no Brasil. Em 2021, a LiveMode é contratada pela FIFA para gerir esses direitos — um pacote que, por si só, vale pouco sem uma forma de o transformar em audiência. É aqui que entra o segundo ingrediente: Casimiro Miguel, streamer carioca conhecido como “Cazé”, que já tinha construído um público fiel na Twitch e no YouTube. Em novembro de 2022, a parceria entre os dois lados dá origem à CazéTV, criada para transmitir os jogos do Mundial do Qatar. No jogo de estreia do Brasil, contra a Sérvia, a transmissão bate o recorde mundial de espectadores em simultâneo numa live do YouTube — recorde que, até então, pertencia a uma cantora sertaneja.

Depois do Qatar, a CazéTV não parou: Liga Europa, Jogos Olímpicos, Mundial de Clubes. Em novembro de 2025, a LiveMode consolidou o controlo total do canal, passando a deter 100% (antes repartia a propriedade com a produtora de Casimiro). Um mês depois, deu o salto internacional: lançou a LiveModeTV em Portugal, o seu primeiro projeto fora do Brasil, com os direitos de 34 jogos do Mundial 2026, incluindo todos os jogos da Seleção Nacional. Em maio de 2026, Cristiano Ronaldo juntou-se ao projeto como acionista — não apenas como imagem, mas como investidor, alargando a rede de contactos e a credibilidade da marca junto do público mais jovem.

Há um conceito que ajuda a explicar porque é que este modelo é diferente de tudo o que veio antes: a verticalização. Até há pouco tempo, num grande evento desportivo, cada “pedaço” da operação era negociado com uma entidade diferente — uma emissora comprava os direitos de transmissão, outra produzia o sinal, outra vendia a publicidade. Com a LiveMode, isso muda: a mesma empresa negoceia os direitos como agente da FIFA e, ao mesmo tempo, é proprietária do canal que os explora. É uma lógica que já se vê noutros setores — a norte-americana Live Nation faz algo parecido com concertos —, mas que na televisão desportiva ainda é uma novidade, e que levanta questões de governação a que voltaremos mais abaixo.

Porquê: o modelo por detrás da gratuitidade

Se o acesso é gratuito, alguém tem de pagar a conta — e, no caso da LiveModeTV, essa conta é paga por publicidade e patrocínios integrados na transmissão, não por subscrições. A empresa descreve o seu modelo como assente na relação de proximidade com o público e na atenção que se constrói ao longo do tempo, em que a publicidade não interrompe a experiência, antes faz parte dela. É uma lógica bem diferente da da Sport TV ou da DAZN, ambas dependentes de subscrição.

Há uma vantagem competitiva pouco discutida nesta equação: a regulação publicitária. O Código da Publicidade português proíbe anúncios a bebidas alcoólicas na televisão e na rádio entre as 7h e as 22h30; no YouTube, essa restrição não existe. A própria gestão da LiveModeTV reconhece que, por se identificar como “produto nativo digital” e não como um operador de televisão, não está sujeita a essas limitações horárias — embora diga procurar seguir um mínimo de bom senso.

Quanto ao público, os números que a empresa divulgou durante o Mundial são reveladores: cerca de 71% da audiência tem entre 18 e 44 anos, uma faixa etária que os operadores tradicionais têm sentido mais dificuldade em manter à frente do ecrã da televisão. A retórica oficial da LiveModeTV constrói-se cuidadosamente em torno da ideia de “complemento”, não de “substituição”: segundo os seus responsáveis, o canal não vem tirar espectadores à televisão, vem alcançar quem já a tinha deixado de ver — sobretudo os mais jovens, que, argumentam, tinham “abandonado” o futebol em formato televisivo tradicional.

Consequências: quem ganha, quem se ajusta, quem contesta

A chegada da LiveModeTV não aconteceu num mercado vazio — chegou a um setor onde a Sport TV já detinha os direitos totais do Mundial, a RTP, a SIC e a TVI dividiam entre si apenas alguns jogos em sinal aberto, e a Betano transmitia através da sua plataforma de apostas. A tabela seguinte resume esse panorama.

A reação dos operadores tradicionais não se fez esperar. Nicolau Santos, presidente da RTP, descreveu o panorama concorrencial do setor como um verdadeiro “faroeste” durante o 35.º Congresso da APDC — uma imagem partilhada também pela Media Capital (TVI) e pela Impresa (SIC), que veem regras diferentes a aplicar-se a operadores que competem pela mesma audiência. E não são, de facto, as mesmas regras: um canal do YouTube não tem as obrigações regulatórias, fiscais ou publicitárias de uma televisão licenciada.

Foi precisamente aí que entrou a ERC. Depois de classificar a LiveModeTV como “serviço de televisão web”, o regulador notificou a plataforma para se registar como serviço de streaming — uma classificação que a empresa contesta, alegando que a sua atividade não se enquadra nessa categoria. A ERC recusou o pedido de audiência prévia da LiveModeTV e deu-lhe 72 horas para se registar; a plataforma fê-lo sob protesto, prometendo apresentar mais documentação para tentar reverter a decisão. À data desta análise, o desfecho não é conhecido — e é provavelmente o primeiro de muitos casos semelhantes que a ERC, e reguladores equivalentes noutros países, vão ter de decidir.

Há outras camadas de consequência menos visíveis: para o mercado publicitário, que ganha ferramentas de conversão em tempo real difíceis de replicar na televisão tradicional; para os detentores de direitos, como a FIFA e os clubes, que veem alterar-se a forma como o seu produto é vendido; e para os próprios criadores de conteúdo, que deixam de ser apenas “caras” de um canal e passam a ser, eles próprios, ativos de uma empresa de media — com tudo o que isso implica de oportunidade, mas também de dependência de um único evento ou direito.

Estamos mesmo a mudar a forma como vemos televisão?

É tentador concluir, a partir destes números, que os mais jovens abandonaram a televisão. Mas os dados disponíveis contam uma história mais matizada. Segundo especialistas em audiências, como Rui Almeida, da IPG Mediabrands, não está a acontecer uma diminuição do consumo televisivo entre os mais jovens — está a acontecer uma acumulação, uma transferência entre plataformas. Os jovens continuam a “ver televisão”, mas cada vez menos de forma linear, seguindo uma grelha fixa, e cada vez mais através de plataformas como o YouTube, onde escolhem o quê, quando e como.

Também não se confirma, pelo menos para já, a ideia de que o streaming vai substituir por completo a televisão tradicional. Vários estudos do setor apontam antes para um modelo híbrido: a televisão linear mantém-se particularmente resiliente nos grandes acontecimentos ao vivo — desporto, Eurovisão, eleições —, precisamente porque estes dependem de uma experiência partilhada, em tempo real, que ainda ninguém replicou por completo noutro formato. A diferença é que essa experiência partilhada já não pertence em exclusivo à televisão: pode viver-se também num chat em direto no YouTube, entre reações de milhares de outras pessoas, com um criador de conteúdo a comentar num tom que nenhuma televisão generalista adotaria.

E a própria televisão, como está a responder?

Se o consumo está a fragmentar-se entre linear e não linear, a própria definição de “televisão” começa a ficar em causa — e é aqui que a disputa entre a LiveModeTV e a ERC ganha um significado maior do que o de um simples litígio administrativo. Onde termina uma emissão de televisão e onde começa um vídeo em direto numa plataforma de partilha de vídeos? A resposta importa, porque determina que regras se aplicam: publicidade, quotas de conteúdo nacional, deveres de serviço público.

Os operadores tradicionais estão a responder de formas diferentes — e nem sempre na direção que se esperaria. Por um lado, há investimento continuado em plataformas próprias, como a RTP Play, que existe desde 2011 e é frequentemente apontada como exemplo a nível internacional. Por outro lado, há também o movimento inverso: em abril de 2026, a Dreamia (joint-venture da NOS com a AMC Networks) encerrou o Biggs, canal juvenil, substituindo-o pela VinTV — um canal assumidamente dirigido a espectadores com mais de 45 anos, numa aposta na nostalgia e na fidelidade à televisão tradicional. É um sintoma claro: quando não conseguem competir pela atenção dos mais jovens, alguns operadores preferem reforçar a base que ainda os vê de forma linear.

Há também uma crise silenciosa de medição. Uma semana após o início do Mundial, a LiveModeTV já tinha mais de 500 mil subscritores no YouTube; nos primeiros dias da competição, o canal alcançou 1.267.331 dispositivos únicos. Mas estes números vêm de comunicados da própria empresa e de rankings de terceiros como o Playboard — não do sistema oficial de audimetria, gerido pela CAEM com dados da GfK através de um painel de 1.100 lares equipados com audímetros. São sistemas de medição diferentes, com metodologias diferentes, e a indústria ainda não tem uma forma robusta de os comparar lado a lado.

Vale ainda olhar para o Brasil, onde tudo começou, para perceber até onde este modelo pode chegar. Lá, a CazéTV garantiu a transmissão da totalidade dos 104 jogos do Mundial 2026 — pela primeira vez em mais de 20 anos, os direitos totais de um Mundial no Brasil não estão nas mãos da televisão aberta tradicional. A Globo, que antes tinha a exclusividade, ficou com cerca de metade dos jogos (57). Em Portugal, a situação é bem diferente: a Sport TV mantém a totalidade dos direitos, e a LiveModeTV é, para já, mais um concorrente entre vários — não, ainda, o operador dominante. Se o percurso brasileiro servir de indicação, a pergunta não é “se” este equilíbrio pode mudar, mas “quando” e “até que ponto”.

Outros ângulos que não podemos esquecer

Por trás da aparência artesanal e informal das transmissões, há uma estrutura financeira sofisticada: fundos como a norte-americana General Atlantic e a XP Asset (do grupo brasileiro XP) compraram participações minoritárias relevantes na LiveMode, e Cristiano Ronaldo entrou como acionista, não apenas como rosto do projeto. Isto significa que decisões futuras — que competições transmitir, a que mercados expandir — serão também decisões de retorno sobre investimento, não só de paixão pelo desporto.

Vale esclarecer um ponto que gera confusão: isto não é pirataria. A LiveMode compra os direitos que transmite, negociados diretamente com a FIFA ou outras entidades; o modelo levanta antes questões de governação — a mesma empresa negoceia e explora os direitos — do que de legalidade da transmissão em si.

E há uma dimensão que interessa particularmente a quem trabalha em educação: a literacia mediática. Um comentador com um tom de proximidade no chat, numa linguagem que a própria LiveModeTV descreve como “de casa, do bar, dos amigos”, está a fazer um trabalho diferente do de um jornalista desportivo tradicional, mesmo quando ambos comentam o mesmo jogo. Para os públicos mais jovens, que crescem a consumir este tipo de conteúdo como algo natural, talvez a pergunta mais importante não seja “isto é televisão?”, mas sim “sei distinguir comentário informal de análise jornalística, e sei quando a publicidade deixa de ser publicidade e passa a fazer parte da conversa?”

Por fim, duas perguntas em aberto: o modelo é sustentável além de eventos-âncora como um Mundial? E é replicável para outros países ou outros géneros de conteúdo, além do desporto? Nenhuma das duas tem, hoje, resposta definitiva.

O Mundial 2026 vai terminar, os recordes vão ser substituídos por outros, e a disputa com a ERC vai ter um desfecho que hoje ainda não conhecemos. Mas o fenómeno que a LiveModeTV tornou visível em Portugal não desaparece com o apito final. Para quem trabalha em escolas e bibliotecas, talvez o convite mais útil seja este: olhar para estes canais não como uma curiosidade tecnológica, mas como o ambiente mediático em que os nossos alunos já vivem — e perguntar que ferramentas de leitura crítica lhes estamos a dar para o navegar.

Este artigo foi escrito com o Mundial 2026 ainda a decorrer. O desfecho da disputa entre a LiveModeTV e a ERC, o percurso da Seleção Nacional e o que acontece à audiência do canal depois do apito final são, por agora, desconhecidos. Os números de audiência citados vêm de comunicados da própria empresa e de rankings de terceiros, não do sistema oficial de audimetria — por isso não devem ser lidos como diretamente equivalentes às audiências de televisão tradicionais.

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