Para que serve a filosofia?

Simone de Beauvoir, uma mulher atual

Uma das pensadoras mais importantes do século XX, Simone de Beauvoir (1908-1986) é retratada num documentário francês para TV lançado em 2008.

O segundo sexo 25 anos depois”, entrevista histórica (1976) com Simone de Beauvoir

Resumo

Este artigo analisa a transcrição do documentário Simone de Beauvoir, une femme actuelle (2008), produção francesa que reúne excertos de entrevistas com a própria Beauvoir, intervenções de biógrafos, amigos e investigadores, bem como leituras de correspondência e excertos das suas memórias. A análise organiza-se em torno de cinco eixos temáticos — identidade literária e vocação, a relação com Sartre e o modelo de vida existencialista, os amores «contingentes», o pensamento feminista e o engajamento político — culminando numa reflexão sobre o legado filosófico e afectivo da autora. O documentário revela uma Beauvoir múltipla, contraditória e irredutivelmente singular, cuja actualidade continua a interpelar o século XXI.


1. Contexto e Estrutura do Documentário

O documentário Simone de Beauvoir, une femme actuelle foi realizado em 2008, num contexto de renovado interesse biográfico pela autora de O Segundo Sexo (1949) e das suas Memórias (1958–1972). À data da produção, tinham já sido publicadas correspondências inéditas — nomeadamente as cartas a Nelson Algren e a Jacques-Laurent Bost — que obrigavam a uma reinterpretação da figura pública de Beauvoir, frequentemente reduzida ao papel de companheira intelectual de Sartre.

A transcrição disponível combina três regimes discursivos distintos:

  1. A voz da própria Beauvoir — excertos de entrevistas e leituras das suas obras (Mémoires d’une jeune fille rangée, La Force des choses, La Vieillesse, Tout compte fait);
  2. Testemunhos de interlocutores — académicos, amigos próximos (como Claude Lanzmann, que a tutoia e lhe dedicou décadas de proximidade), e especialistas estrangeiros que contextualizam a recepção internacional;
  3. Documentos de época — boletins radiofónicos (a declaração de guerra de 3 de Setembro de 1939), fotografias raríssimas dos cadernos de juventude de Beauvoir na Bibliothèque nationale, entrevistas televisivas arquivadas.

Esta pluralidade de vozes e suportes confere ao documentário uma arquitectura ensaística que recusa a hagiografia e privilegia a complexidade.


2. Identidade Literária e Vocação

2.1 «Toute l’existence est commandée par l’écriture»

A transcrição abre com uma declaração programática de Beauvoir sobre a sua identidade:

«Je suis un écrivain, une femme écrivain, ce n’est pas une femme d’intérieur qui écrit, mais quelqu’un dont toute l’existence est commandée par l’écriture.»

Esta afirmação é simultaneamente uma recusa da feminização diminutiva da escrita («femme d’intérieur qui écrit») e uma declaração ontológica: a escrita não é uma actividade entre outras, mas a condição que organiza toda a existência. Beauvoir situa-se, assim, numa tradição de autoras que reivindicaram a escrita como modo de ser no mundo — de George Sand a Virginia Woolf — mas confere a essa reivindicação uma dimensão existencialista específica: escrever é o projecto que define o pour-soi.

2.2 A Vocação como Certeza Juvenil

O documentário recupera os cadernos de juventude de Beauvoir (1929–1930), consultados na Bibliothèque nationale, onde se lê:

«Inexprimablement heureuse. J’espérais bien sans oser croire, étrange certitude que cette richesse sera reçue, que des mots seront dits et entendus, que cette vie sera source où beaucoup d’autres puiseront, certitude d’une vocation.»

A expressão «étrange certitude» é reveladora: Beauvoir descreve a sua vocação não como ambição, mas como reconhecimento de uma destinalidade — uma voz interior que antecede a obra e a torna necessária. Este trecho, datado de 1929, demonstra que a consciência da vocação literária precede em décadas os primeiros romances publicados.

2.3 As Memórias como «Dever» para com o Passado

Um dos momentos mais emocionalmente densos da transcrição é a explicação de Beauvoir sobre a decisão de escrever as suas memórias:

«Il y a une telle différence entre une vie d’adulte et une vie d’enfant, d’adolescence, qu’on a l’impression d’avoir enterré dans la femme qu’on est devenue la petite fille et la jeune fille qu’on a été. C’était comme une espèce de devoir envers elle que je ressentais de les ressusciter.»

O projecto autobiográfico é apresentado como uma obrigação ética — «devoir» — para com o ser que se foi e que a morte da melhor amiga, Zaza (Elisabeth Lacoin), tornara ainda mais urgente de preservar. A escrita das memórias é, neste sentido, um acto de ressurreição e de justiça retroactiva.

A personagem de Zaza atravessa toda a narrativa da infância de Beauvoir: foi ela que a fez abandonar o «personnage d’enfant sage» e lhe ensinou a independência. A morte prematura de Zaza, em circunstâncias trágicas ligadas à repressão familiar e social, ficou como uma ferida que Beauvoir só parcialmente conseguiu elaborar. O documentário cita o sentimento de culpa que a perseguiu: «j’ai pensé longtemps que j’avais payé ma liberté de sa mort».


3. Sartre, o Pacto Existencialista e o Modelo de Vida

3.1 O Encontro e a Eleição

O documentário contextualiza o encontro com Sartre em 1929, por ocasião da agrégation de filosofia: Sartre ficou em primeiro lugar, Beauvoir em segundo — a mais jovem algarvesa a obter essa distinção. Beauvoir descreve a sua eleição de Sartre com precisão:

«Ce n’est pas au hasard si c’est Sartre que j’ai choisi. Sartre répondait exactement aux vœux de mes 15 ans. Il était le double en qui je retrouvais portées à l’incandescence toutes mes manies. Avec lui, je pourrais toujours tout partager. Un seul projet nous animait: tout embrasser et témoigner de tout.»

A metáfora do «double» é filosófica antes de ser sentimental: Sartre não é o complemento que preenche uma falta, mas o espelho que amplifica e valida. A relação é fundada na partilha de um projecto comum — intelectual, literário, existencial — e não na fusão romântica tradicional.

3.2 O Modelo Existencialista de Vida em Casal

Um testemunho no documentário descreve o impacto social do casal:

«On se rend mal compte aujourd’hui, avec le recul, de l’importance que ça a eu. […] Les gens les imitaient dans les mœurs, dans leur rapport avec les hommes, les femmes, dans la politique.»

O modelo Sartre-Beauvoir — dois intelectuais que não coabitam, não partilham a gestão doméstica e mantêm «amours contingentes» para além da relação «necessária» — funcionou como uma vanguarda social que excedeu em muito o círculo de Saint-Germain-des-Prés. O documentário reconhece, porém, a tensão entre a narrativa pública e a realidade vivida: «dans les mémoires les choses sont très arrangées, ça se passe beaucoup mieux que dans la réalité».

3.3 Beauvoir como Filósofa Independente

Um dos aspectos mais relevantes da transcrição é o reconhecimento do papel filosófico autónomo de Beauvoir — contra a tendência biográfica de a reduzir a «musa» ou «secretária» de Sartre:

«Je pense que c’est une très bonne philosophe, je pense qu’elle connaît admirablement l’histoire de la philosophie. […] C’est elle qui a découvert Hegel. Hegel est à peu près inconnu en France, c’est elle qui le découvre à la Bibliothèque nationale pendant que Sartre est pris par la guerre.»

Este dado é historicamente significativo: a recepção de Hegel em França — que influenciaria toda uma geração de pensadores, de Hyppolite a Merleau-Ponty — passou, em parte, pelas notas de leitura de Beauvoir e pelas suas cartas a Sartre onde lhe recomenda a leitura do filósofo alemão. O testemunho sublinha ainda a função crítica de Beauvoir no processo de elaboração filosófica de Sartre:

«Toutes ces idées, il les essaye avec elle. […] Elles ne deviennent solides qu’à partir du moment où elles ont résisté à sa critique à elle.»

Esta função de «interlocutriz privilegiada» não é acessória — é constitutiva do pensamento sartreano.


4. Os Amores «Contingentes»: Nelson Algren e Jacques-Laurent Bost

4.1 Nelson Algren: O Amor Impossível

A história com o escritor americano Nelson Algren (1947–1951) ocupa um lugar de destaque na transcrição, através de excertos das cartas trocadas entre ambos. A carta de Beauvoir de 30 de Outubro de 1947 é de uma intensidade rara:

«Je me sens une femme dans les bras d’un homme, réellement et totalement, et ça veut dire beaucoup, beaucoup pour moi. Rien de meilleur n’aurait pu m’arriver.»

Esta passagem é frequentemente citada para demonstrar que Beauvoir, apesar das suas teorias sobre a liberdade no amor, experimentou também a vulnerabilidade e a entrega totais. A relação com Algren teve a particularidade de ser geograficamente impossível — Algren estava ligado a Chicago, Beauvoir a Paris e a Sartre — e terminou de forma dolorosa quando Algren lhe comunicou que já não a amava.

O documentário assinala também a reacção de Algren à leitura das memórias de Beauvoir, onde a relação estava descrita com detalhe: «Nelson began to read and he was furious». A tensão entre a necessidade beauvoiriana de «tudo dizer» e o direito à privacidade dos outros é um dos nós éticos mais delicados da sua obra autobiográfica.

4.2 Jacques-Laurent Bost: O Amor Subestimado

O documentário recupera a figura de Bost, frequentemente obliterada pelas narrativas dominantes:

«On a toujours cru, à travers les mandarins et les mémoires, que c’avait été une espèce de passade charmante. On n’a jamais pris ça pour quelque chose de très sérieux. En fait, c’était très sérieux.»

Bost — a quem Beauvoir dedicou O Segundo Sexo — foi seu companheiro durante décadas, terminando a sua vida no estúdio da escritora após a morte desta. Esta informação, proveniente das correspondências inéditas, obriga a uma releitura do que Beauvoir entendia por «amour contingent»: não uma ligação superficial, mas uma relação profunda e duradoura que, por escolha filosófica e não por falta de intensidade, não assumia o estatuto de relação «necessária».


5. O Segundo Sexo: Génese, Recepção e Actualidade

5.1 A Descoberta do Feminino como Problema

Beauvoir descreve a génese de O Segundo Sexo (1949) como uma descoberta tardia:

«Je m’étais mise à regarder les femmes d’un œil neuf et j’allais de surprise en surprise. Cet étrange et stimulant de découvrir soudain à 40 ans un aspect du monde qui crève les yeux et qu’on ne voyait pas.»

A «estranheza» é o motor do pensamento beauvoiriano: o que parece natural e evidente — a diferença entre homens e mulheres — revela-se, sob o olhar filosófico, como construção cultural. Esta é a tese central do livro, expressa na fórmula mais citada da filosofia do século XX: «On ne naît pas femme, on le devient».

5.2 Recepção Hostil e Deturpações

O documentário regista a recepção violenta do livro, tanto à direita como à esquerda:

«Il y a eu des articles extrêmement désagréables disant que j’étais humiliée d’être une femme et que, alors, je voulais ridiculiser les hommes. […] Ils ont écrit dans les Lettres françaises que les ouvrières de Billancourt s’en foutaient bien de tous ces problèmes.»

A rejeição comunista — paradigmática da subordinação histórica do feminismo às lutas de classe — é aqui explicitamente contestada por Beauvoir: a condição das mulheres trabalhadoras é tão urgente quanto a exploração económica, e as duas lutas são inseparáveis.

5.3 O Quadro Existencialista da Liberdade

Uma especialista anglófona presente no documentário sublinha a originalidade filosófica do O Segundo Sexo:

«Her framework is existential freedom. She’s interested in the concept of freedom and also in the concept of non-freedom. She writes about women’s complicity in their own lack of freedom.»

Esta dimensão — a cumplicidade das mulheres na sua própria opressão — é um dos contributos mais perturbadores e mais discutidos do livro. Beauvoir não se limita a denunciar os mecanismos externos de dominação; interroga também os modos pelos quais as próprias mulheres interiorizam e reproduzem a sua subordinação. «It’s very difficult to assume your freedom; it’s very hard; it brings anguish; it brings responsibility.»

5.4 Autocrítica e Revisão

Numa entrevista tardia, Beauvoir admite que, se reescrevesse o livro, lhe daria «bases matérialistes et non idéalistes»: fundaria a opressão da mulher não na fenomenologia das consciências (a alteridade, a categoria do Outro) mas na rareté económica e nas relações de produção. Esta autocrítica é philosophicamente honesta e demonstra a evolução do pensamento de Beauvoir em diálogo com o marxismo e o feminismo materialista dos anos 1970.


6. Engajamento Político: Argélia e Vietname

6.1 A Guerra da Argélia (1954–1962)

O documentário dedica atenção significativa ao engajamento de Beauvoir e Sartre na causa da independência argelina. Beauvoir assinou o Manifesto dos 121 (1960), que defendia o direito à insubmissão dos soldados franceses, e viveu as consequências: ameaças, explosivos no imóvel de Sartre na rue Bonaparte, deslocação forçada.

«Elle vit ça comme une espèce d’accablement quand elle se sent complètement rejetée par le peuple français. “Le peuple est contre moi, je ne me sens plus française, j’ai honte de mon pays.”»

Este sentimento de exílio interior — a vergonha patriótica — é uma das marcas existenciais mais profundas desse período. O testemunho de Lanzmann sublinha que Beauvoir não tinha medo, mas que viveu quatro anos «très très difficiles de 58 à 62».

6.2 O Tribunal Russell e o Vietname

Em 1966, Beauvoir e Sartre participaram no Tribunal Russell sobre os crimes de guerra americanos no Vietname. A transcrição cita o parecer do tribunal sobre o agente laranja: «nous avons unanimement déclaré que les Américains commettaient le crime de génocide». O documentário sublinha o impacto internacional desta iniciativa, nomeadamente na mobilização do movimento estudantil americano contra a guerra.

6.3 O Feminismo como Política

A transcrição regista a participação de Beauvoir nas manifestações feministas de 1971 em Paris — «la première grande manifestation féministe qui se tient à Paris depuis 1936» — e a sua reflexão sobre a articulação entre emancipação das mulheres e emancipação social:

«L’émancipation de la femme a été liée à l’émancipation sociale. […] Si la femme est dépolitisée, elle dépolitise l’homme. […] La vraie politique, c’est la participation à des syndicats, à des groupes de pression, c’est par le travail seulement, par la vie économique qu’un individu peut s’intégrer à la vie sociale.»

Esta análise permanece de uma actualidade impressionante: a articulação entre vida económica, participação cívica e emancipação de género continua a ser um dos eixos centrais do debate feminista contemporâneo.


7. A Velhice, Sylvie Le Bon e a Morte de Sartre

7.1 La Vieillesse como Acto de Coragem Intelectual

O documentário sublinha a singularidade de A Velhice (1970) no percurso de Beauvoir:

«Elle avait toujours dit que si elle écrivait c’était pour démystifier, pour dire la vérité, et qu’il n’y a pas de limite possible à cette vocation.»

A decisão de escrever sobre a velhice — um território tabu, especialmente para as mulheres — é descrita como uma extensão da mesma «intrépidité» que caracterizara O Segundo Sexo: o pensamento que não recua perante as verdades mais cruéis.

7.2 Sylvie Le Bon: A Filha Adoptiva

A relação com Sylvie Le Bon — adoptada por Beauvoir em 1980, tornando-se sua herdeira intelectual e guardiã dos arquivos — é apresentada no documentário como uma das fontes de renovação da velhice de Beauvoir:

«Mieux je connaissais Sylvie, plus je me sentais d’affinité avec elle. Comme moi, c’était une intellectuelle et elle aussi tenait passionnément à la vie. […] Il y a entre nous une telle réciprocité que je perds la notion de mon âge.»

Esta relação — de diferença geracional de 33 anos — é descrita em termos que evocam o ideal beauvoiriano de amizade amorosa: «elle m’entraîne dans son avenir et, par instants, le présent retrouve une dimension qu’il avait perdue».

7.3 A Morte de Sartre e a Sobrevivência

O momento mais dilacerante da transcrição é a antecipação, pela própria Beauvoir, da morte de Sartre:

«La seule chose à la fois neuve et importante qui puisse m’arriver, c’est le malheur où je verrai Sartre mort ou je mourrai avant lui. C’est affreux de ne pas être là pour consoler quelqu’un de la peine qu’on lui fait en le quittant. C’est affreux qu’il vous abandonne et se taise.»

Sartre morreu em Abril de 1980. Beauvoir sobreviveu-lhe seis anos — morrendo em Abril de 1986 e sendo sepultada ao seu lado no cemitério de Montparnasse. O documentário regista que a sua recuperação física e psicológica após a morte de Sartre foi lenta e incerta, mas que a sua «soif de connaître le monde» acabou por prevalecer.


8. O Balanço Final: Uma Vida Bem Sucedida e o Paradoxo da Realização

A transcrição fecha com uma das meditações mais densas e filosoficamente mais ricas de Beauvoir sobre o sentido de uma vida:

«J’ai réussi ma vie puisque j’ai réussi à peu près tous mes rêves. Simplement, il y a un moment où, quand on se retourne réflexivement sur sa vie, on s’aperçoit qu’une vie, même réussie, c’est sur un certain plan un échec, parce que ça n’est pas quelque chose — une vie — qu’on puisse prendre dans ses mains, posséder, contempler. Qu’on n’a pas une vie, finalement.»

Esta formulação é de uma precisão filosófica exemplar: o fracasso não é o oposto do sucesso, mas a condição de toda a existência humana. A vida não é um objecto que se possui — é um processo que se vive, e que escapa sempre à apreensão reflexiva total. «Les promesses ont été tenues, mais une promesse tenue n’est pas ce que l’on se promettait, parce qu’on vise toujours l’être, l’absolu, et qu’on n’a jamais qu’une existence relative.»

Este paradoxo — a vida conseguida que se revela, retrospectivamente, como fracasso relativo — não é um convite ao niilismo, mas à humildade ontológica: somos seres de transcendência que vivem na imanência.


9. Síntese: A «Femme Actuelle» e a Sua Actualidade

O título do documentário — une femme actuelle, uma mulher actual, contemporânea — anuncia uma tese: Beauvoir não pertence apenas ao século XX, mas interpela o presente. A transcrição confirma esta tese em múltiplos registos:

No plano filosófico: a distinção entre natureza e cultura na constituição do sujeito feminino continua a ser o quadro conceptual dominante dos estudos de género e dos feminismos contemporâneos.

No plano biográfico: a multiplicidade de vozes e afectos que o documentário revela — a filósofa, a amante, a militante, a escritora, a amiga — recusa qualquer reducionismo e antecipa as críticas pós-estruturalistas à identidade unitária.

No plano político: a articulação entre emancipação económica, participação cívica e libertação das mulheres permanece uma agenda inacabada — tanto em Portugal como no contexto global.

No plano ético: a exigência de dizer a verdade, mesmo quando ela é desconfortável («démystifier», «ne pas se laisser écraser»), é um modelo de integridade intelectual que o presente solicita com urgência crescente.


Notas sobre as Fontes da Transcrição

As obras de Beauvoir referenciadas ou citadas na transcrição incluem:

  • Mémoires d’une jeune fille rangée (1958) — memórias da infância e adolescência;
  • La Force de l’âge (1960) — memórias da juventude e da relação com Sartre;
  • La Force des choses (1963) — memórias dos anos 1944–1962;
  • Tout compte fait (1972) — balanço da vida adulta;
  • La Vieillesse (1970) — ensaio sobre o envelhecimento;
  • Le Deuxième Sexe (1949) — obra filosófica fundadora.

As correspondências citadas incluem as cartas a Nelson Algren (publicadas em A Transatlantic Love Affair, 1998) e as cartas a Sartre (publicadas postumamente por Sylvie Le Bon de Beauvoir).


Referências Bibliográficas

Bair, D. (1990). Simone de Beauvoir: A biography. Simon & Schuster.

Beauvoir, S. de (1949). Le deuxième sexe (2 vols.). Gallimard.

Beauvoir, S. de (1958). Mémoires d’une jeune fille rangée. Gallimard.

Beauvoir, S. de (1960). La force de l’âge. Gallimard.

Beauvoir, S. de (1963). La force des choses. Gallimard.

Beauvoir, S. de (1970). La vieillesse. Gallimard.

Beauvoir, S. de (1972). Tout compte fait. Gallimard.

Beauvoir, S. de (1998). A transatlantic love affair: Letters to Nelson Algren. New Press.

Bergoffen, D. B. (1997). The philosophy of Simone de Beauvoir: Gendered phenomenologies, erotic generosities. SUNY Press.

Chaperon, S. (2000). Les années Beauvoir, 1945–1970. Fayard.

Fullbrook, K., & Fullbrook, E. (1994). Simone de Beauvoir and Jean-Paul Sartre: The remaking of a twentieth-century legend. Basic Books.

Moi, T. (1994). Simone de Beauvoir: The making of an intellectual woman. Blackwell.

Rowley, H. (2005). Tête-à-tête: Simone de Beauvoir and Jean-Paul Sartre. HarperCollins.

Simone de Beauvoir, une femme actuelle [Documentário]. (2008). [Produção francesa; realizador não identificado na transcrição disponível].

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