A escola do futuro: o que a Finlândia nos ensina sobre a educação para a vida

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Em fevereiro de 2026, o Ministério da Educação e Cultura da Finlândia publicou um documento que merece a atenção de todos os que trabalham ou pensam a educação: Basic Education 2045: For Life — uma visão para a escola básica finlandesa até 2045. Com 129 páginas, este relatório de discussão não é um currículo nem um plano estratégico detalhado. É, antes, uma bússola — um horizonte de sentido para orientar o desenvolvimento do sistema educativo num mundo em rápida transformação.


O que está em causa

A Finlândia parte de uma posição de força: um sistema público de ensino equitativo, professores altamente qualificados e uma confiança sólida nas instituições educativas. Mas o relatório é claro: estes ativos não podem ser dados como garantidos.

Os fatores de mudança identificados são comuns a muitas sociedades, incluindo a portuguesa:

  • Avanços tecnológicos acelerados e transformação do mercado de trabalho
  • Crise ecológica e económica
  • Crise da democracia e da participação cívica
  • Desafios de saúde mental e bem-estar
  • Polarização social e erosão da coesão
  • Fragmentação dos valores e do sentido de vida

A estes acresce, no caso finlandês, um dado preocupante: o declínio dos resultados de aprendizagem. Cerca de um em cada quatro alunos finlandeses apresenta desempenho muito baixo em matemática nos testes PISA, e o fosso entre alunos da população maioritária e alunos de origem imigrante é dos maiores da OCDE.

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A visão: a escola é para a vida

A resposta proposta organiza-se em torno de uma ideia central: a escola não existe apenas para preparar os jovens para o futuro — existe para os equipar com a capacidade de transformar esse futuro.

A visão articula-se em três dimensões complementares:

  1. Vida com significado — desenvolver o potencial humano, a identidade, a esperança e a capacidade de dar sentido ao mundo
  2. Vida em conjunto — construir comunidade, democracia, pertença e responsabilidade partilhada
  3. Vida no planeta — promover a sustentabilidade ecológica como fundamento ético da educação


Sivistys: o coração do conceito

O documento recorre com frequência a um conceito finlandês difícil de traduzir diretamente: sivistys (equivalente ao alemão Bildung). Trata-se de uma forma de desenvolvimento humano profundo que combina conhecimento, valores, cultura e a motivação para usar as competências em prol do bem comum.

Não se trata de aprender para o emprego, nem de acumular saberes para os aplicar mecanicamente. Sivistys é a educação como força de mudança — a formação de pessoas que pensam, que se importam, que agem.


Tecnologia e inteligência artificial: a posição finlandesa

Uma das secções mais relevantes do relatório é a que aborda a relação entre aprendizagem humana e tecnologia. A posição finlandesa é clara e contraria algumas tendências dominantes: o que os humanos precisam de saber não deve ser definido pelo que as máquinas já fazem.

Aprender uma língua estrangeira, por exemplo, não é apenas adquirir uma ferramenta de comunicação substituível por um tradutor automático. É um processo que transforma o cérebro, aprofunda a empatia e alarga a compreensão do mundo. A escola do futuro coloca o crescimento humano no centro — e a tecnologia ao seu serviço, não ao contrário.

A inteligência artificial é reconhecida como um fator de transformação com impacto quase imprevisível nos próximos 20 anos. Por isso, as competências de pensamento crítico, raciocínio ético e literacia digital são consideradas tão fundamentais quanto a leitura e a escrita.


A escola como comunidade

Outro eixo central da visão é o da escola enquanto comunidade. Não uma coleção de indivíduos que aprendem em paralelo, mas um espaço de pertença, de encontro genuíno, de responsabilidade partilhada.

O relatório defende que muitas das competências mais importantes para o futuro — incluindo a agência coletiva, a democracia e a resiliência — só se desenvolvem juntos. A sala de aula não é apenas um espaço de instrução; é um laboratório de vida em comum.

A escola do futuro é também descrita como um ecossistema de aprendizagem: um hub que articula famílias, serviços públicos, organizações comunitárias e o próprio espaço físico do edifício escolar como lugar de encontro e atividade.


O papel dos professores

Nenhuma visão para a escola faz sentido sem os professores. O relatório finlandês é explícito: os professores e os adultos da escola são o coração da comunidade escolar. A sua autonomia pedagógica, a qualidade da formação inicial e contínua, e a valorização do seu papel são elementos a preservar e a reforçar.

A liderança escolar é igualmente valorizada como um exercício coletivo e pedagógico, orientado para o bem-estar dos alunos e para o desenvolvimento profissional das equipas.


O que isto tem a dizer à realidade portuguesa

Este relatório fala da Finlândia, mas os seus diagnósticos e propostas ressoam bem além das suas fronteiras. Em Portugal, enfrentamos desafios similares: desigualdades de aprendizagem, pressão da tecnologia sobre a escola, questões de saúde mental dos jovens, necessidade de repensar o papel da biblioteca escolar e dos serviços educativos.

A visão finlandesa não oferece receitas. Oferece algo mais valioso: um quadro de referência ético e pedagógico para pensar a escola que queremos construir — uma escola que não forma apenas para testes, mas para a vida. Para uma vida com sentido, partilhada, e sustentável.

“Não tenhas medo do futuro. Aqui, aprendes para ele.” — jovem participante no processo de cocriação da visão finlandesa


Referência: Ministério da Educação e Cultura da Finlândia (2026). Basic Education 2045: For Life. A Vision for Finnish Comprehensive Schools. Publications of the Ministry of Education and Culture, Finland 2026:9. ISBN: 978-952-415-061-3. Disponível em: https://urn.fi/URN:ISBN:978-952-415-061-3


Como medir a disruptividade científica? uma nova abordagem baseada em Inteligência Artificial

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A ciência avança por saltos. Algumas descobertas mudam completamente a direção de uma área do conhecimento — como aconteceu com a teoria da evolução, a mecânica quântica ou o CRISPR. Mas como identificar, de forma rigorosa e objetiva, quais são realmente esses trabalhos revolucionários? É precisamente a este desafio que responde um novo estudo publicado na revista Science Advances, da autoria de Munjung Kim, Sadamori Kojaku e Yong-Yeol Ahn, da Indiana University.

O Problema de Medir a Disruptividade

Nos últimos anos, tornou-se popular o uso do chamado índice de disrupção (CD index) para classificar artigos científicos como “disruptivos” ou “consolidadores”. Um artigo disruptivo seria aquele que redireciona o campo — as investigações futuras passam a citar o novo trabalho em vez dos anteriores. Um artigo consolidador, pelo contrário, aprofunda e confirma o que já existe.

O problema é que este índice tem limitações sérias:

  • Baseia-se apenas na estrutura local da rede de citações (relações diretas entre artigos)
  • Produz muitos valores iguais a zero, tornando difícil distinguir entre trabalhos
  • É extremamente sensível a ligações individuais entre artigos — um único link de citação pode fazer com que um artigo passe de “máximo disruptivo” para “mínimo disruptivo”
  • Falha em identificar descobertas simultâneas, ou seja, artigos que chegaram às mesmas conclusões de forma independente

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A Nova Métrica: EDM (Embedding Disruptiveness Measure)

Para superar estas limitações, os investigadores propõem o EDM, uma métrica baseada em embeddings de grafos — uma técnica de inteligência artificial que representa cada artigo científico como um vetor num espaço de alta dimensão.

A ideia central é elegante: para cada artigo, o modelo aprende dois vetores distintos:

  • vetor passado (p) — que representa o contexto intelectual do artigo, ou seja, as obras em que ele se baseia (as suas referências e os seus “antecessores”)
  • vetor futuro (f) — que representa o impacto do artigo, ou seja, as obras que virão a citar e a usar esse trabalho (“descendentes”)

Se um artigo é verdadeiramente disruptivo, o seu impacto nos trabalhos futuros diverge radicalmente das fundações em que se baseia — a investigação posterior já não depende das obras que o precediam. Esta divergência é medida pela distância cosseno entre os dois vetores. Quanto maior a distância, maior a disruptividade.

Resultados: Um Salto Qualitativo na Identificação de Marcos Científicos

O EDM foi testado em mais de 55 milhões de artigos científicos da Web of Science e da American Physical Society, bem como em mais de 7 milhões de patentes. Os resultados são impressionantes:

  • O EDM identificou corretamente como altamente disruptivos 302 artigos galardoados com o Prémio Nobel e 278 artigos de marcos históricos da física, com muito maior fiabilidade do que o índice CD tradicional
  • Numa regressão logística multivariada, um aumento de 10 percentis no EDM corresponde a 1,34 vezes mais probabilidade de o artigo ser vencedor do Nobel — enquanto o índice CD tradicional não apresentou significância estatística nesta previsão
  • O EDM produz uma distribuição contínua e de alta resolução, permitindo distinguir subtilezas que o índice CD não consegue captar

O Caso das Descobertas Simultâneas

Um dos achados mais fascinantes do estudo é a capacidade do EDM de identificar descobertas simultâneas — situações em que dois grupos independentes chegam à mesma conclusão ao mesmo tempo.

O índice CD falha nestes casos de forma dramática. Quando dois artigos se citam mutuamente (por terem sido publicados ao mesmo tempo sobre o mesmo tema), o índice CD pode cair do máximo para o mínimo absoluto. O estudo ilustra isto com casos históricos célebres:

  • O méson J/ψ (1974): As equipas de B. Richter e S. Ting anunciaram simultaneamente a descoberta desta partícula subatómica. Por se citarem mutuamente, o índice CD dos seus artigos caiu para o percentil 0 (fundo da tabela). O EDM, pelo contrário, atribui-lhes percentil 95 e 97.
  • O mecanismo de Higgs (1964): O artigo de Peter Higgs cita o de Englert e Brout, publicado quase em simultâneo. Isso faz descer o D do artigo de Higgs para o percentil 0,1. O EDM coloca ambos os artigos no percentil 4 — reconhecendo corretamente a sua importância histórica.

Outros casos identificados incluem a descoberta da transcriptase reversa, a liberdade assintótica na cromodinâmica quântica e a difusão inelástica de eletrões e neutrões.

Como o EDM Deteta Descobertas Simultâneas Automaticamente

Além de corrigir erros do índice CD, o EDM permite ir mais longe: identificar sistematicamente descobertas simultâneas sem recorrer a listas de autores ou citações cruzadas.

A lógica é simples: se dois artigos relatam a mesma descoberta, a investigação futura cita-os em contextos semelhantes. Por isso, os seus vetores futuros devem ser próximos no espaço de embedding.

Os investigadores testaram esta hipótese com sucesso: dos 80 artigos com mais de 300 citações identificados como potenciais descobertas simultâneas, 64 (80%) foram confirmados como tal — com 34 sendo descobertas independentes verificadas nos próprios textos dos artigos, onde os autores mencionavam explicitamente o trabalho paralelo de outros grupos.

Implicações para a Ciência e para a Educação

Este estudo tem implicações que vão além da bibliometria:

Para a comunidade científica, o EDM oferece uma ferramenta mais justa para atribuir reconhecimento a contribuições transformadoras — incluindo aquelas que ficaram na sombra de trabalhos mais citados ou que foram fragmentadas em múltiplas publicações.

Para a história e filosofia da ciência, os resultados confirmam empiricamente a teoria de Merton sobre as descobertas múltiplas: os avanços simultâneos e independentes são a norma, não a exceção — tal como aconteceu com Newton e Leibniz no cálculo, ou com Darwin e Wallace na teoria da evolução.

Para a literacia de informação e o pensamento crítico, este estudo é um excelente exemplo de como as métricas que usamos para avaliar o conhecimento têm limitações e enviesamentos que precisam de ser compreendidos. Avaliar a qualidade e o impacto de um trabalho científico é sempre um processo complexo, contextual e multidimensional — algo que qualquer estudante e cidadão deve aprender a questionar.

Limitações Reconhecidas pelos Próprios Autores

Com rigor científico, os investigadores listam também as limitações do EDM:

  • Medir a evolução temporal da disruptividade exige retreinar o modelo, o que é computacionalmente exigente
  • Artigos com poucas citações ou sem referências não são bem capturados
  • A interpretabilidade é menos direta do que indicadores tradicionais baseados em redes
  • Não funciona bem quando as comunidades científicas não comunicam entre si (como no caso do teorema de Cook-Levin, ignorado durante anos por barreiras entre os EUA e a URSS)

Este estudo é um bom exemplo de como a inteligência artificial pode ser usada para compreender melhor a própria ciência — não apenas para produzir conhecimento novo, mas para reconhecer, com mais justiça, quem já o fez.

Referência: Kim, M., Kojaku, S., & Ahn, Y.-Y. (2026). Uncovering simultaneous breakthroughs with a robust measure of disruptiveness. Science Advances, 12(14), eadx3420. https://doi.org/10.1126/sciadv.adx3420

Governar com inteligência artificial: o que os governos precisam aprender (e depressa)

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A inteligência artificial já não é uma promessa do futuro — é uma realidade que está a transformar a forma como os governos funcionam, decidem e prestam serviços aos cidadãos. O relatório Gobernar con la Inteligencia Artificial, publicado pela OCDE em 2025, faz um diagnóstico exigente e ao mesmo tempo esperançoso sobre este processo de transformação.

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O que está em jogo

Os governos encontram-se perante uma janela de oportunidade única. Segundo a OCDE, a IA pode aumentar significativamente a produtividade do setor público, tornar os serviços mais eficazes e melhorar a capacidade de supervisão e prestação de contas. Mas este potencial está longe de ser aproveitado de forma sistemática. A maioria das iniciativas é fragmentada, experimental e concentrada em ganhos imediatos de eficiência — automatizar o que já existe — em vez de reimaginar o estado ao serviço dos cidadãos.

Como a IA já está a ser usada nos governos

Os casos de uso analisados pela OCDE distribuem-se por quatro grandes categorias:

  • Automatização e adaptação de processos — desde a redução do tempo de elaboração de sentenças judiciais na Argentina (de 60 para 10 minutos, com o sistema Prometea) à criação de chatbots para contribuintes em Singapura
  • Melhoria da tomada de decisão e previsão — como a previsão de incêndios florestais no Canadá, a gestão financeira em tempo real na Coreia (sistema dBrain) ou simulações de planeamento urbano em Helsínquia
  • Reforço da prestação de contas e deteção de anomalias — o Tribunal de Contas de Portugal utiliza IA para identificar casos prioritários em contratação pública; a Lituânia desenvolveu ferramentas para avaliar riscos de corrupção em textos jurídicos
  • Empoderamento de partes interessadas externas — plataformas como a Decide Madrid (Espanha) e a MAPLE (Estados Unidos) permitem que os cidadãos compreendam melhor as leis e participem ativamente na sua elaboração

Os riscos que não se podem ignorar

O relatório identifica cinco tipos de risco que qualquer governo deve considerar ao adotar a IA:

  1. Riscos para os direitos fundamentais e valores democráticos
  2. Riscos para a segurança e a integridade dos sistemas
  3. Riscos operacionais e de governação
  4. Riscos para a confiança pública
  5. O risco da inação — frequentemente esquecido, mas igualmente grave

Este último merece atenção especial. Não agir também tem custos: a lentidão na adoção de tecnologias já testadas traduz-se em ineficiências desnecessárias, serviços de pior qualidade e uma crescente distância entre as capacidades do setor público e as do setor privado. O medo de errar com a IA pode paralisar até iniciativas de baixo risco e elevado benefício.

Por outro lado, quando os sistemas falham — e falham, como mostram os dados do Monitor de Incidentes de IA da OCDE, com mais de 3 800 incidentes relacionados com governo registados até abril de 2025 — a confiança pública sofre danos que se generalizam a toda a administração.

O que faz a diferença: governação inteligente

A adoção responsável da IA exige muito mais do que tecnologia. O relatório identifica sete habilitadores essenciais: governação, dados abertos, infraestrutura digital, competências e talento, investimento, contratação pública e parcerias com atores não governamentais.

Destacam-se três condições críticas:

Liderança com visão. O Reino Unido, por exemplo, tem apostado na criação de uma cultura de adoção da IA a partir do topo do governo, com planos que exigem que todas as organizações do setor público tenham um líder digital no seu comité executivo até 2026.

Funções e responsabilidades claras. Vários países europeus — como a Espanha, com a sua Secretaria de Estado de Digitalização e IA, ou a Noruega, com o Ministério de Digitalização e Governação Pública — têm alargado os mandatos das suas estruturas para garantir uma implementação coerente.

Participação cidadã. A IA não pode ser imposta às pessoas, tem de ser construída com elas. Em 2024, a Presidência Belga do Conselho da União Europeia convocou 60 cidadãos para debater a governação da IA. A Coalição Global para uma IA Inclusiva, em parceria com o Laboratório de Democracia Deliberativa de Stanford, prevê envolver mais de 10 000 cidadãos em mais de 100 países em 2025 e 2026.

O que isto significa para a escola e para a educação

Este relatório não fala diretamente de educação, mas as suas lições são aplicáveis a qualquer instituição pública — incluindo as escolas. A questão não é se devemos usar IA, mas como a usamos de forma responsável, transparente e centrada nas pessoas.

Ensinar os alunos a compreender como a IA funciona nos serviços públicos — como uma decisão pode ser tomada por um algoritmo, o que é transparência algorítmica, o que significa contestar uma decisão automática — é hoje parte integrante da literacia digital e da formação para a cidadania ativa.

Como sintetiza o Instituto Ada Lovelace, citado pela OCDE: “a IA não é uma oportunidade para automatizar o setor público, mas para o reimaginar”. Talvez valha a pena dizer o mesmo da escola.


Fonte principal: OCDE (2025). Gobernar con la Inteligencia Artificial. OECD Publishing, Paris.

Curadoria digital em educação

Curadoria digital em educação: para uma aprendizagem significativa

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O currículo local: ponto de partida para novas aprendizagens? por Camões Gouveia | conferência

Um manifesto pedagógico sobre memória, cidade e aprendizagem significativa

Imagem gerada com Claude Sonnet 4.6 Thinking

Temos um problema com a forma como ensinamos o património. Tratamo-lo como se fosse uma coleção de pedras mortas — belas, intocáveis e perfeitamente irrelevantes para a vida dos nossos alunos. Este artigo é um convite a pensar de outra maneira.


O património não são os objetos

Assumimos frequentemente que o património é algo que existe por si só: um castelo, um documento, uma paisagem. Mas esta é uma ideia profundamente errada. O património é, acima de tudo, uma construção social e geográfica. Um edifício não tem valor patrimonial intrínseco — até que uma comunidade decida projetar nele a sua identidade e afetividade.​

Como sintetizou de forma lapidar Camões Gouveia: “O património não são os objetos. O património são as pessoas.”

Esta distinção não é apenas filosófica. Tem implicações práticas enormes para o modo como gerimos o território, como educamos os nossos alunos e como pensamos a cidade.


Dois paradigmas em confronto

A gestão do património tem oscilado entre duas visões radicalmente diferentes:​

A Visão TradicionalA Visão Dinâmica
Foco no edifício físico (conservação estática)Foco na utilidade social e cívica (ação)
Público-alvo: o turista e o consumidorPúblico-alvo: o cidadão e o aluno
Natureza fria, intocável, museológicaNatureza quente, afetiva, vivida
Objetivo: manter o objeto inalteradoObjetivo: dar boa vida aos cidadãos

O paradigma dinâmico não significa destruir o que existe. Significa reconhecer que a primeira regra da gestão patrimonial é garantir o bem-estar e a utilidade presentes. Uma fábrica suíça de 2.500 toneladas foi movida de sítio para dar lugar a uma linha férrea — e o património não foi destruído; adaptou-se para continuar a sustentar a vitalidade da cidade. Um edifício histórico da Universidade de Brown foi relocalizado em vez de ser congelado ou abandonado.​

O património move-se. Porque a vida se move.


O cidadão no centro, o turista na consequência

Existe uma tentação crescente de construir cidades para turistas. O resultado, como já vimos em tantos centros comerciais convertidos em hospitais por falta de suporte económico local, são monstros vazios.​

As cidades verdadeiramente magnéticas — Porto, Rio de Janeiro, Hanói — atraem o mundo precisamente porque têm um substrato real de vivência cidadã. O turismo só é sustentável quando consome a energia de uma cidade saudável, e não quando tenta substituí-la.​

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História e memória: uma distinção crítica

Há uma diferença fundamental que raramente ensinamos na escola: a diferença entre História e Memória.​

História é o estudo rigoroso dos factos. Exemplo: a queda de um homem pela janela no Terreiro do Paço em 1640. Uma análise fria, factual, distante.

Memória é a apropriação afetiva desse facto. O sangue nas pedras, a revolta popular, o silêncio guardado. É esta memória quente que transforma um evento histórico em património vivido.​

Sem a variável do afeto humano, restam apenas ruínas ou arquivos poeirentos.

Evento con.raízes. 2.ª edição. Dias 10 e 11 de maio de 2019, no Crato, Agrupamento de Escolas.


A equação da patrimonialização

O que transforma um objeto em património? Podemos descrever o processo através de três elementos:​

  1. O Objeto Físico — documentos, edifícios, paisagens, ou receitas (a base inerte)
  2. A Espessura Afetiva — a carga emocional e identitária projetada pelas pessoas (o motor da vida)
  3. O Tempo e a Ação — a validação contínua através do uso e da memória coletiva

= Património Vivo


Estudo de caso: a doçaria conventual de Arouca

Um exemplo notável de património imaterial é a doçaria conventual de Arouca. A sua verdadeira riqueza não reside na receita exata de ovos e açúcar. Reside na vivência imaterial que a criou.​

Sem relógios precisos, o tempo de bater os ovos era medido pelo número de orações — bater a massa durante seis Pai-Nossos. O nível de acidez dos ingredientes e a memória confinada ao convento criaram um ecossistema único, irrepetível fora daquele contexto.​

O património não é o doce final. É a interseção entre a técnica, a restrição e o espírito humano da época.


O Património que não se toca

O patrimónió não tem de ser tangível. Dois exemplos fascinantes ilustram a dimensão imaterial do património:​

  • O Colar de São Jorge — uma dança nascida em Cabo Verde e Guiné, outrora executada em cima de camiões, que sobrevive hoje na Cova da Moura, em Lisboa. Uma especialização identitária que se tornou património imaterial vivo.
  • A Falcoaria — uma prática partilhada por apenas 50 pessoas em Portugal, mas que representa uma arte e uma história transnacional profundamente enraizada na relação humana com a natureza.

Do local ao universal

O património ganha força quando a sua especificidade local se traduz numa linguagem universal. Dois exemplos portugueses são paradigmáticos:​

  • Fado nasceu nos bairros contraditórios e nas lides de Lisboa — e atingiu um impacto global como Património da UNESCO.
  • Vinho do Porto é inseparável da vinha do Douro — mas é consumido e celebrado da Califórnia ao Japão.

A raiz local não limita. Amplifica.


A cidade como currículo

Aqui chegamos ao coração pedagógico desta reflexão. A escola não pode continuar a funcionar como uma ilha isolada da cidade. O patrimónió local é uma ferramenta poderosa de simulação e emoção — e essas duas palavras deveriam estar no centro de qualquer projeto educativo.​

Estudar o património não é memorizar datas. É:

  • Desenvolver empatia histórica e conexão emocional com o passado
  • Simular cenários passados e futuros a partir de fontes reais
  • Exercitar o pensamento crítico e a análise de narrativas
  • Formar cidadãos ativos, não meros consumidores de cultura

Desconstruir o castelo inventado

A aprendizagem crítica exige que os alunos questionem o que lhes é apresentado como histórico. Um exemplo revelador: em Guimarães, elementos cruciais de certos monumentos — como janelas manuelinas em castelos famosos — foram adicionados em pleno século XX (1955) para criar uma estética romântica e artificial.​

Estudar o património é ensinar o aluno a ler nas entrelinhas da arquitetura e da propaganda política.


O som e o silêncio como artefactos

O património também se ouve. A fábrica tem o seu som orgânico de máquinas e trabalho humano — um som histórico irrepetível. A biblioteca tem o seu silêncio ensurdecedor e os passos nos corredores. A paisagem tem o vento, a chuva e a dimensão física de uma tempestade sobre o território.​

Ignorar estas dimensões sensoriais é empobrecer irremediavelmente a experiência patrimonial.


O fim do objeto, o princípio do sujeito

O modelo que resulta de tudo isto é simples de enunciar, mas exigente de praticar:​

Matéria sem Emoção é Ruína. Preservar edifícios sem considerar a vivência atual gera shopping malls vazios.
Emoção sem Espaço é Esquecimento. A memória precisa de âncoras locais para ganhar escala global.
Espaço e Emoção sem Prática é Estagnação. O sistema educativo deve unir o patrimónió à emoção do aluno, criando cidadãos críticos.

O ensino da história local e do currículo focado no patrimónió só faz sentido se for desenhado com um único foco: a transformação de quem o estuda.​

Não ensinamos os objetos. Ensinamos as pessoas através dos objetos.


Artigo elaborado a partir da apresentação “Living Heritage — A Desconstrução do Património”, no âmbito de TIC, Educação e WEB, com apoio do NotebookLM.

A Inteligência Artificial e as arte de contar histórias: o instrumento e o humano

Por James McSill (a partir da gravação áudio da comunicação apresentada no XII Encontro Para Além das Princesas e Dragões – Albergaria-A-Velha

Há 51 anos, no dia 11 de fevereiro, James McSill começou a trabalhar com histórias pela primeira vez. Desde então, percorreu dezenas de países, em todos os continentes, sempre a mergulhar naquilo que mais o apaixona: a arte de contar e de ouvir histórias. E pode dizer-se que, nos últimos dois anos e meio, algo mudou radicalmente. Surgiu um instrumento novo — a inteligência artificial — e ele tem transformado tudo aquilo que se faz nesta área. Mas McSill prefere chamar-lhe o que é: uma ferramenta. Uma faca que fala.

A faca de fazer Sushi

McSill explica com uma metáfora que usa muitas vezes. Na sua cozinha, tem um painel cheio de instrumentos que foi recolhendo pelo mundo inteiro. Facas de todos os tipos, incluindo uma faca japonesa muito afiada, aprendida no Japão, para fazer sushi. Essa faca não corta o peixe por si. É ele que faz o sushi. Precisa do instrumento, mas o instrumento não o substitui.

A inteligência artificial é, no fundo, isso mesmo: uma faca que fala. Muito avançada, sem dúvida. Mas quem degusta o sushi somos sempre nós. Numa conferência há pouco tempo, alguém tentou convencê-lo de que os robôs irão, um dia, sentir o gosto das coisas. Talvez. Mas será o gosto de um robô. O gosto humano — esse — continuará a ser nosso.

As Histórias são um fenómeno humano

McSill tem a convicção profunda de que as histórias são e sempre serão um fenómeno humano. No futuro, vão coexistir três tipos: as histórias humanas, as histórias híbridas e as histórias produzidas por inteligência artificial. E cada uma terá o seu lugar — desde que sejamos honestos sobre o que estamos a oferecer.

Se ligar a sua IA para contar uma história à neta antes de ela adormecer, não há problema nenhum. Mas tem que estar claro: foi uma máquina que criou. Se se sentar ao lado dela e for a IA a estruturar enquanto ele a anima com a sua presença, têm uma história híbrida. E se simplesmente lhe contar a experiência de vida da família, com todas as imperfeições da memória e do afeto — isso é uma história humana. Nenhuma é inferior à outra. São diferentes. E é preciso aprender a classificá-las.

A imperfeição que nos une

McSill esteve recentemente num espetáculo em Shenzhen, na China, em que os músicos eram todos robôs. Nos primeiros dez minutos, havia um efeito de espanto genuíno. Mas a partir daí, a audiência começou a ficar desconfortável. Porquê? O nosso cérebro não foi feito para guardar dados. Foi feito para guardar histórias. E as histórias são sempre imperfeitas.

O que nos liga ao outro ser humano é precisamente saber que ele falha. McSill reconhece que carrega 70 anos de traumas acumulados. Quando conversa com alguém que também carrega os seus, há uma ligação real. Com a perfeição da máquina, essa ligação desaparece. A audiência em Shenzhen não conseguia perdoar, porque não havia nada a perdoar. E sem perdão, não há humanidade.

Histórias básicas e histórias coletivas

Nas sociedades ocidentais — e McSill fala a partir da experiência de quem trabalha igualmente na China, no Japão, na Coreia —, há uma falta grave de histórias coletivas. Vivemos cada vez mais as narrativas individuais, sem uma base que as sustente.

A avó de McSill nasceu no interior de Portugal em 1896 e emigrou para o sul do Brasil em 1902. Viveu quase 100 anos. Ele voltou aos 16 anos para viver quatro anos e meio com ela, porque queria aprender a sua língua, o seu português. Ela tinha o dom de criar uma história básica — uma narrativa de família que o ancorava. Quando aterrava em Lisboa, sentia-se em casa precisamente por causa dessa história. Quando chegava à Escócia, pelo lado da mãe — de quem nunca soube a origem real —, aquela sensação de pertença não existia.

A inteligência artificial pode ajudar a estruturar essas histórias de família. É possível pedir ao ChatGPT que organize os fragmentos fornecidos. Mas se lhe pedir que crie uma história de família do nada, ela vai criar. Só que será falsa. E como bem sabemos, já na época georgiana na Escócia, os ricos contratavam pintores para pintar antepassados fictícios que lhes dessem uma linhagem. A tecnologia muda; a tentação humana de inventar uma identidade é velha.

O blog, o banho e a transparência

Perguntam muitas vezes a McSill como usa a IA no seu próprio blog. A resposta é completamente honesta: ele adora banhos de banheira longos. É nesses momentos que grava as suas reflexões — responde a perguntas que lhe foram feitas, conta histórias, divaga. Quando sai do banho, pega nessa gravação, coloca-a na IA e pede que a edite como artigo. Depois, lê tudo. Corrige o que está errado, porque a IA alucina e inventa coisas que nunca foram ditas. E só então publica — deixando sempre claro que foi um processo híbrido.

McSill prefere sempre assim. Porque aquilo que não é ele não o representa. Prefere conversar com todas as suas falhas do que apresentar uma perfeição que não é sua.

A Educação como antídoto às fake news

Uma última palavra sobre as fake news, que se propagam dezenas de vezes mais depressa do que a verdade. O nosso cérebro foi literalmente construído para acreditar em histórias bem contadas — como Humberto Eco nos lembrou, somos feitos de histórias. Se a narrativa for convincente, acreditamos nela, disse alguém do público.

A solução está na educação. A Finlândia é um exemplo que McSill cita sempre: os professores ensinam as crianças a diferenciar uma história verdadeira de uma falsa. É matéria curricular. Não é complexo — é simplesmente necessário. As pessoas que caem em fake news não foram educadas para as identificar. Enquanto isso não mudar, continuaremos a ser vulneráveis.

A inteligência artificial vai continuar a evoluir. As mentes virtuais desenvolvidas no seu estúdio passaram de 1 milhão para 69 milhões de palavras em dois anos. Mas por mais avançada que seja a ferramenta, quem conta as histórias que importam — as que tocam, as que identificam, as que ligam uns aos outros — somos nós.

E isso não vai mudar tão cedo.

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[O kintsugi é descrito nas fontes como uma prática tradicional do Japão que consiste em emendar os fragmentos de um objeto quebrado, como um vaso, utilizando ouro.

De acordo com o orador, um aspeto fundamental desta técnica é que o objeto passa a valer mais depois de ser recuperado e emendado do que valia antes de se ter partido originalmente. Na discussão, este conceito é utilizado como uma metáfora para ilustrar a importância de uma base coletiva na sociedade; essa base permite que, mesmo quando as histórias ou experiências se fragmentam, os pedaços possam ser recolhidos e unidos novamente, ao contrário do que acontece em sociedades puramente individualistas onde os fragmentos tendem a perder-se.

Note que, embora a descrição detalhada do processo (unir cacos com ouro no Japão) esteja presente na fonte, o nome específico “kintsugi” não é explicitamente mencionado no texto, sendo este o termo técnico exterior às fontes para a prática descrita] in NotebookLM


James McSill é especialista em storytelling, trabalhou em todos os continentes e fundou um estúdio de mentes virtuais dedicado à intersecção entre narrativa humana e inteligência artificial.