George Steiner e António Lobo Antunes, à conversa

A conversa entre o escritor português e George Steiner, promovida pela revista LER e o CLEPUL, disponível no canal do Youtube do CLEPUL. Dia histórico, esse de 9 de Outubro de 2011, em Cambridge.

Quando a Conversa é a Obra: Steiner e Lobo Antunes, face a face

Era o dia 9 de outubro de 2011. Numa sala que a revista LER e o CLEPUL — Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias — tinham preparado para o efeito, dois homens sentaram-se frente a frente. Um era George Steiner, nascido em Paris em 1929, filho de judeus vienenses que fugiram a tempo do nazismo, polígrafo de formação e crítico literário por vocação, professor em Cambridge, Oxford, Harvard e Genebra, leitor de todo o Ocidente e de muito mais. O outro era António Lobo Antunes, nascido em Lisboa em 1942, médico psiquiatra que serviu como oficial médico em Angola entre 1971 e 1973, e que carregou para sempre essa experiência nos livros que escreveu — mais de quarenta romances que fizeram dele, para muita gente, o maior escritor português vivo.

Hoje, ambos partiram. Steiner morreu em fevereiro de 2020, em Cambridge, aos noventa anos. Lobo Antunes morreu a 5 de março de 2026, em Lisboa, aos oitenta e três. O que ficou do encontro desses dois homens — esse documento que pode ser visto no YouTube, partilhado pelo canal TIC, Educação e WEB — tem agora uma dimensão diferente, quase testamentária. Não é apenas o registo de uma conversa. É o que sobra de um mundo que já não existe.


O desejo de um encontro

Steiner era um admirador declarado de Lobo Antunes. Considerava-o um dos maiores escritores vivos — e não se abstinha de o dizer, mesmo quando isso implicava uma comparação desfavorável com José Saramago, o único português laureado com o Nobel da Literatura. Para Steiner, o Nobel era um prémio político tanto quanto literário, e a grandeza de Lobo Antunes dispensava diplomas.

Foi Steiner quem pediu o encontro. Há algo de profundamente steineiriano nesse gesto: o crítico literário que, depois de décadas a escrever sobre os outros, vai ao encontro físico de alguém cuja obra o move. Porque para Steiner a literatura nunca foi um texto inerte numa página. Era um apelo que exigia resposta — e a resposta mais completa era a presença.

Essa convicção percorre toda a sua obra, mas está formulada com particular clareza em As Lições dos Mestres, o livro que resultou das conferências que proferiu em Harvard e que é, talvez, o seu contributo mais directo para quem pensa o ensino. Steiner argumenta que a verdadeira transmissão de conhecimento — seja entre mestre e discípulo, seja entre escritor e leitor — só acontece quando há um encontro real, carregado de risco, de confiança e de algo parecido com amor. A distância protege, mas não ensina. A proximidade assusta, mas transforma.


Uma conversa que é já uma forma de habitar o mundo

O que torna esta conversa extraordinária não são as respostas que os dois homens dão. É o modo como se ouvem. Steiner era um poliglota — cresceu a falar alemão, francês e inglês em casa, aprendeu depois o português de Camões e de Pessoa —, e para ele cada língua era, literalmente, uma outra maneira de estar no mundo. Defendia que “cada língua que se aprende é uma liberdade que se conquista”, e dizia-o com a seriedade de quem sobreviveu a um século que usou a linguagem para justificar o extermínio.

Lobo Antunes, por seu lado, era um escritor que fez da perturbação da sintaxe a sua assinatura: as suas frases atravessam o tempo sem pedir licença, o presente irrompe no passado, o sonho contamina o real. A sua prosa não descreve — habita. Não explica — ressoa. Para um leitor comum, pode ser desconcertante. Para Steiner, era pura música.

Quando dois homens assim se sentam para conversar, o que acontece não é uma entrevista. É algo mais próximo do que os filósofos chamam um diálogo socrático: dois pensamentos que se confrontam, se interrogam e se modificam mutuamente. A conversa não é o veículo da ideia — é a ideia ela própria, a acontecer em tempo real.


O que nos ensina uma conversa que não se apressa

Vivemos num tempo de velocidade. As plataformas digitais recompensam o breve, o imediato, o que se pode consumir antes que o polegar passe para o próximo conteúdo. A conversa entre Steiner e Lobo Antunes é o oposto disso: é lenta, exigente, cheia de silêncios que não são ausência mas peso. Quem a vê sente que está a assistir a algo que precisa de tempo para se fazer — e que não pode ser comprimido sem se perder.

Isso diz-nos alguma coisa importante sobre o que é conversar de verdade. Não é falar em alternância. É estar inteiramente disponível para o que o outro diz, deixar que isso nos afecte, e responder a partir desse lugar de afectação. É o que os dois fazem, e é raro de ver.

Para quem trabalha com jovens, esta conversa é um espelho incómodo. Quantas vezes, na sala de aula ou em casa, a pergunta que fazemos não está à espera de resposta — está à espera de que o outro diga o que já decidimos que é certo? Quantas vezes o que chamamos “diálogo” é na verdade um monólogo com pausas? Steiner tinha uma palavra para o que acontece quando a linguagem perde a sua carga ética: chamava-lhe servilidade. “A linguagem é infinitamente servil”, escreveu, “e este é que é o mistério — não tem limites éticos.” A linguagem pode servir o extermínio tanto quanto a beleza. A diferença está em quem a usa e com que intenção.


Dois homens que viveram na fronteira

Há um fio que liga Steiner a Lobo Antunes e que vai além da admiração literária: ambos habitaram fronteiras. Steiner era “um europeu sem pátria fixa”, como se descrevia a si próprio — judeu sem ser crente, francês de nascimento, americano de formação, britânico por adopção, mas sempre à margem de qualquer pertença singular. Lobo Antunes foi médico antes de ser escritor, foi soldado antes de ser romancista, foi angolano durante três anos antes de voltar a ser português. Essas fracturas fizeram-nos escritores e pensadores da mesma espécie: pessoas para quem a identidade nunca é simples e a linguagem é sempre mais do que comunicação.

Steiner dizia que a pátria dos judeus não é um território mas um livro — e que por isso sobreviveram ao que outros não sobreviveriam. Lobo Antunes dizia que escrever era, acima de tudo, uma forma de não esquecer. O que os une, portanto, é a convicção de que as palavras têm memória, e que essa memória é um acto moral tanto quanto estético.


O que fica, depois de os ouvir

Ver esta conversa hoje — já do outro lado da morte de ambos — é uma experiência estranha. Há nela uma leveza que só os velhos têm, essa liberdade de quem já não precisa de provar nada. Mas há também uma urgência silenciosa, a sensação de que o que estão a dizer importa e que importaria dizer mais depressa se houvesse tempo.

Para professores e educadores, o valor deste documento não está nos nomes nem na erudição. Está no modelo de conversa que propõe. Uma conversa em que os dois interlocutores se respeitam sem se bajular. Em que a discordância é possível sem se tornar agressão. Em que o silêncio é tolerado, até bem-vindo. Em que ninguém está a tentar ganhar.

Se há uma lição que este encontro transmite — sem o ter querido transmitir, que é sempre a melhor forma de ensinar — é esta: a conversa genuína é um acto de generosidade. Exige que ponhamos de lado a necessidade de ter razão e nos deixemos surpreender pelo que o outro pensa. Exige presença, no sentido mais físico e mais espiritual da palavra. E exige, acima de tudo, que acreditemos que o que o outro tem para dizer vale a pena ouvir.

É uma lição antiga. Sócrates sabia-a. Steiner escreveu sobre ela. Lobo Antunes viveu-a na prosa. E continua, estranhamente, a ser a mais difícil de aprender.


Ver o vídeo: George Steiner e António Lobo Antunes, à conversa — promovido pela revista LER e o CLEPUL, disponível no canal TIC, Educação e WEB.


Referências

Comunidade Cultura e Arte. (2021, novembro 4). A literatura e George Steiner. https://comunidadeculturaearte.com/a-literatura-e-george-steiner/

De Rerum Mundi. (2024, abril). “As lições dos mestres”: uma reedição com grande oportunidade. https://dererummundi.blogspot.com/2024/04/as-licoes-dos-mestres-uma-reedicao.html

Observador. (2020, fevereiro 3). Morreu o crítico e ensaísta George Steiner, um dos maiores pensadores contemporâneos. https://observador.pt/2020/02/03/morreu-o-critico-e-ensaista-george-steiner/

Observador. (2026, março 5). Morreu o escritor António Lobo Antunes: tinha 83 anos [Liveblog]. https://observador.pt/liveblogs/morreu-o-escritor-antonio-lobo-antunes-tinha-83-anos/

Público. (2026, março 5). Morreu António Lobo Antunes, revolucionário da literatura portuguesa. https://www.publico.pt/2026/03/05/culturaipsilon/noticia/morreu-antonio-lobo-antunes-medico-escritor-83-anos-2166904

RTP Notícias. (2020, fevereiro 4). Crítico, escritor e académico: morreu George Steiner. https://www.rtp.pt/noticias/cultura/critico-escritor-e-academico-morreu-george-steiner_n1202750

Sábado. (2020, fevereiro 3). O encontro entre George Steiner e António Lobo Antunes. https://www.sabado.pt/vida/detalhe/o-encontro-entre-george-steiner-e-antonio-lobo-antunes

Steiner, G. (2003). As lições dos mestres (M. do C. Vieira, pref.). Gradiva.

Steiner, G. (1967/2004). Linguagem e silêncio: ensaios sobre a crise da palavra. Companhia das Letras.

TSF. (2026, março 5). Entrevista TSF com Lobo Antunes em 2012: o desejo de “morrer em Portugal”. https://www.tsf.pt/cultura/artigo/entrevista-tsf-com-lobo-antunes-em-2012-o-desejo-de-morrer-em-portugal-e-de-ser-digno-de-um-povo-de-principes/18058764

Literatura e ensino do português: o caminho para uma nova cultura literária

Título: Literatura e Ensino do Português Autores: José Augusto Cardoso Bernardes e Rui Afonso Mateus Revisão de texto: João Pedro George Design: Inês Sena Paginação: Guidesign Impressão e acabamentos: Guide – Artes Gráficas, Lda. ISBN: 978-989-8662-26-2 Depósito Legal 366 588/13
Título: Literatura e Ensino do Português
Autores: José Augusto Cardoso Bernardes
e Rui Afonso Mateus
Revisão de texto: João Pedro George
Design: Inês Sena
Paginação: Guidesign
Impressão e acabamentos: Guide – Artes Gráficas, Lda.
ISBN: 978-989-8662-26-2
Depósito Legal 366 588/13

A discussão em torno do valor pedagógico da literatura não é um fenómeno novo. Nos últimos tempos, porém, a polémica tem vindo a subir de tom, lançando a dúvida sobre o lugar que as Humanidades, em geral, e a Literatura, em particular, devem ocupar na Escola.
Mais do que inventariar causas, este estudo procura sugerir vias para a resolução de um problema que se sente em boa parte dos países europeus. Contrariando as orientações exageradamente especializadas que vêm prevalecendo no domínio do Ensino da língua materna, esta proposta assenta, sobretudo, numa extensão da cultura literária do professor de Português, enquanto transmissor de conhecimentos e de entusiasmos. Finalmente, o livro que agora se publica assenta na certeza de que o contacto com a Literatura, para além dos benefícios que cada aluno dele pode colher em termos de sensibilidade e de maturação pessoal, favorece o cumprimento de um importante desígnio da Escola de hoje: a aprendizagem da cidadania, através da interpretação lúcida e informada dos livros e do mundo.
COORDENAÇÃO E AUTORIA
José Cardoso Bernardes e Rui Afonso Mateus

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1. O diagnóstico de uma crise silenciosa

Vivemos actualmente o que ensaístas como William Marx, Dominique Maingueneau e Tzvetan Todorov classificam como um “sentimento sombrio”: a percepção de que a literatura se encontra numa situação de grave perda no espaço escolar. Existe um paradoxo gritante entre o reconhecimento da literatura como um “bem inestimável”, capaz de condensar a experiência humana e moldar a identidade nacional, e a sua progressiva secundarização perante textos meramente utilitários. Nas salas de aula, o texto literário tem sido frequentemente preterido em favor de discursos funcionais, perdendo o seu papel formativo central.

Esta crise não é um fenómeno natural, mas sim o resultado de tendências sociais e escolhas pedagógicas identificáveis:

• O utilitarismo das sociedades pós-modernas: A obsessão pela rendibilidade imediata desvaloriza saberes que não se traduzem em lucro directo, rotulando as humanidades como “inúteis”.

• A obsessão pela terminologia técnica: A substituição do prazer da leitura por uma análise mecânica focada em nomenclaturas linguísticas (como a polêmica TLEBS). Este processo gerou uma grave “fractura de continuidade” entre gerações, tornando impossível que os pais acompanhem os estudos dos filhos devido à opacidade terminológica.

• A instabilidade dos programas escolares: A falta de continuidade curricular e a transposição precipitada de correntes de faculdades para o Ensino Secundário, sem verdadeira justificação teórica, transformando a disciplina num receptáculo de inovações pseudo-científicas.

2. O divórcio entre língua e literatura

O ensino do Português tem sofrido com um “equívoco pedagógico” assente numa clivagem artificial. Por um lado, a linguística descritiva e as teorias textualistas passaram a ver o texto literário como apenas mais um “tipo de discurso”, despindo-o da sua especificidade estética. Por outro, o foco exclusivo na comunicação funcional afastou a literatura do seu papel de modelo de norma e expressividade. No entanto, a relação é biunívoca: a literatura explora os limites da língua, e a língua atinge a sua plenitude através da arte literária.

“Não é possível atingir competências linguísticas de nível superior — que envolvam a subtileza, a ironia ou a complexidade do pensamento — sem o envolvimento continuado e profundo com textos literários de referência.”

3. Os cinco pilares para uma nova cultura literária

3.1. A língua como matéria-prima O texto literário é o melhor instrumento para trabalhar o léxico e a sintaxe. Através dele, o aluno contacta com a língua em toda a sua extensão, desde o vocabulário náutico e bélico n’Os Lusíadas até às variedades regionais. A leitura em voz alta funciona como uma estratégia de inteleção que revela a plasticidade sonora do idioma, essencial para dominar os diferentes matizes da língua materna.

3.2. A retórica e a gramática do estilo A retórica deve ser recuperada como uma ferramenta de interpretação, e não como um fim em si mesma. Identificar se estamos perante uma “moralidade” em Gil Vicente ou um “drama romântico” em Garrett é essencial para regular a leitura. Compreender o uso da oitava rima ou das figuras de estilo permite desvendar a intenção persuasiva do autor, transformando a análise técnica num caminho para o sentido.

3.3. Os contextos e a alteridade histórica Ler um texto “a seco”, ignorando o seu tempo, é um erro hermenêutico. O conhecimento do contexto funciona como um regulador da interpretação para evitar “leituras especulativas e impertinentes”. No caso de Cesário Verde, a “alteridade histórica” — as tensões entre o mundo urbano e rural do século XIX — é o que permite descodificar a estranheza da sua poesia, garantindo uma recepção informada e sensível.

3.4. As ideias e o pensamento sensível A literatura é um veículo de valores éticos e filosóficos. Como defende Alain Viala, enquanto a filosofia visa conceitos racionais, a literatura proporciona um “conhecimento sensível”. O estudo do neoplatonismo em Camões não é endoutrinamento, mas sim uma porta para o debate cívico. Ao expor o aluno a ideias complexas sob uma roupagem ficcional, a escola promove a empatia e o espírito crítico.

3.5. A estética e o diálogo entre as artes O diálogo com a pintura, a música e o cinema enriquece a leitura. A apreciação dos trípticos de Hieronymus Bosch, como O Carro de Feno ou O Jardim das Delícias, é fundamental para compreender o imaginário do Inferno e a intenção didática em Gil Vicente, transformando conceitos abstractos em experiências visuais concretas.

Abordagem tradicionalAbordagem interartística
Leitura “a seco” (texto isolado)Leitura contextualizada e interartística
Foco exclusivo na terminologia técnicaDiálogo entre texto, imagem e som
Contextualização factual e mecânicaCompreensão da mentalidade da época
Recepção passiva de glossáriosConstrução activa de sentidos

4. Exemplos práticos: de Gil Vicente a José Saramago

1. Gil Vicente: Explorar a moralidade medieval através do confronto com a pintura de Bosch e o estudo do léxico arcaico (ex: “biscoutar”) para entender a realidade material das Descobertas.

2. Luís de Camões: Utilizar paratextos originais, como o alvará de privilégio real, para situar a obra na sua moldura histórica e ideológica, revelando o poema como um diálogo directo com o seu tempo.

3. Eça de Queirós: Analisar os “episódios da vida romântica” n’Os Maias como uma “sintomatologia da decadência”, integrando a sátira social com a estética do Realismo e a representação de uma atmosfera mental específica.

4. José Saramago: Implementar a leitura em voz alta como uma “estratégia de inteleção” necessária para superar a aparente opacidade da sua sintaxe e pontuação, revelando a ordem linguística sob a superfície do texto.

5. Conclusão: a literatura como exercício de cidadania

A escola é a mediadora indispensável da cultura nacional. Conforme a tese de Martha Nussbaum, a literatura é fundamental para a “educação para a democracia”, permitindo-nos preservar a experiência do outro e combater o utilitarismo cego. O professor de Português não pode ser um mero tecnocrata da língua, mas sim o guia que induz nos alunos o hábito vital e ético de conviver com os livros.

A missão do professor moderno é resgatar a literatura como o lugar onde a língua e o pensamento humano se manifestam em toda a sua plenitude.

Reveja o discurso de Patrick Modiano

The 2014 Nobel Prize in Literature lecture will take place at Svenska Akademien in Stockholm, Sweden at 17:30, Sunday 7 December.

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Percurso literário. Lisboa, cidade da literatura: deambulações entre o Castelo e rio

Publicado a 13/12/2012

Percurso literário

Lisboa, cidade da literatura: deambulações entre o Castelo e rio.

24 Novembro 2012

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